Dois poemas de Rumi

O Museu Mevlevi, em Konia, na Turquia, onde se encontra a tumba de Rumi.

Tu e eu

*

Feliz o momento em que nos sentarmos no palácio.

Dois corpos, dois sopros, um só espírito: tu e eu.

*

Com as cores de mil pétalas e os cantos de mil pássaros,

Comporemos, no jardim, o elixir da vida eterna.

*

Curiosas, descerão do céu as estrelas para ver-nos.

E nós lhes mostraremos o resplendor da lua cheia.

*

Tu e eu, nem tu, nem eu, seremos, no êxtase, um somente.

Completo. Contente. Além do alcance da fala ociosa.

*

Até mesmo os papagaios, sempre alegres,

Invejarão, nessa hora, nosso riso ruidoso.

*

O estranho é que tu e eu, unidos aqui neste momento,

Estejamos um no Levante e o outro no Poente.

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O homem de Deus

*

O homem de Deus está ébrio sem vinho,

O homem de Deus, saciado sem pão.

O homem de Deus está apaixonado, arrebatado,

O homem de Deus não come nem dorme.

O homem de Deus é um rei sob andrajos,

O homem de Deus, um tesouro entre ruínas.

O homem de Deus não é da terra ou do ar,

O homem de Deus não é do fogo ou da água.

O homem de Deus é um oceano sem praias,

O homem de Deus chove pérolas, sem nuvens.

O homem de Deus traz cem luas e cem céus,

O homem de Deus possui a luz de cem sóis.

O homem de Deus tornou-se sábio pela Verdade,

O homem de Deus não se fez erudito nos livros.

O homem de Deus está além da fé e da incredulidade,

Para o homem de Deus, que pecado ou virtude existem?

O homem de Deus cavalgou para fora do não-ser,

O homem de Deus acercou-se com porte sublime.

O homem de Deus está oculto, ó Shams-ud-Dîn!

Procura e encontra o homem de Deus.

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Nota Explicativa

Estes dois poemas fazem parte do Divã de Shams de Tabriz, uma das obras fundamentais de Rumi. O “Tu” do primeiro poema e o “Homem de Deus” do segundo é o misterioso Shams, cuja grandeza só Rumi foi capaz de perceber e compreender. Informações sobre a trajetória de Rumi e detalhes de seu encontro e relacionamento com Shams estão disponíveis, neste Blog, na seção Espiritualidade / Mestres: https://josetadeuarantes.wordpress.com/2012/03/02/rumi-e-o-encontro-dos-dois-oceanos/

Recriei os dois poemas em português a partir da célebre tradução francesa de Eva de Vitray-Meyerovitch e Mohammad Mokri (Odes Mystiques, de Djalâl ad-Dîn Rûmî, Paris, Editions Klincksieck, 1973).

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