A invenção do Oriente Médio

Faiçal I, premiado pelos colonialistas britânicos com a criação de um país artificial, o Iraque

As turbulências no Oriente Médio continuam e, do outro lado do oceano, suscitam em nós reações contraditórias: esperanças de soluções democráticas conduzidas, independentemente, pelos povos da região; preocupações com a manipulação das revoltas pelas grandes potências, ávidas por petróleo, e engajadas em uma partilha neoimperialista da região. Por trás dos acontecimentos atuais, continuam ativas as mesmas forças que, ao longo do último século, engendraram as contradições levadas agora ao ponto de fervura.

Nossa história, que termina com estatísticas dramáticas, começa de forma pitoresca, em “um domingo, depois do almoço, em Jerusalém”. Pois foi com tais palavras, de um esnobismo ímpar, que Sir Winston Churchill relatou sua façanha de inventar dois países em uma única tarde. A década de 1920 estava no início; o Império Otomano (turco) acabara de afundar nas águas revoltas da Primeira Guerra Mundial; e, armados de régua e compasso, os ingleses redesenhavam, de acordo com seus interesses, o mapa do Oriente Médio. Churchill, que seria mais tarde primeiro-ministro, ocupava, então, o cargo de secretário das Colônias do Império Britânico. Envolto por uma névoa de vapores de conhaque e fumaça de charuto, tirou da cartola, como em um passe de mágica, a Jordânia e o Iraque.

O declínio do Império Otomano e os ingleses

No século XVI, em seu apogeu, o Império Otomano chegou a englobar uma enorme fatia da Europa, do Norte da África e da Ásia. Porém, após um período de expansão avassaladora, a derrota dos exércitos turcos nos muros de Viena, em 12 de setembro de 1683, assinalou o início de uma longa e dolorosa decadência. A dificuldade de unificar uma complexa colcha de retalhos de etnias e confissões religiosas e, mais ainda, a estagnação econômica fizeram com que a Turquia ficasse para trás na corrida das grandes potências. Enquanto as nações européias emergentes trilhavam o caminho da acumulação capitalista e da industrialização, a Turquia se agarrava à renda da terra e permanecia essencialmente agrária.

No século XIX, como um grande animal doente, devorado ainda em vida por predadores, o Império Otomano foi sendo despojado de suas províncias pelos ingleses, franceses e russos. E a aliança com a Alemanha e a Áustria-Hungria durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) precipitou o seu fim. Terminado o conflito, tendo os russos se retirado da guerra após o triunfo da revolução socialista de 1917, Inglaterra e França, as grandes vitoriosas, trataram de repartir o butim.

Desde o final do século XIX, a presença britânica no Oriente Médio não cessara de crescer. O Egito, formalmente uma província do Império Otomano, tornou-se especialmente atraente para a Inglaterra depois da abertura do Canal de Suez, em 1869. A Pérsia (atual Irã), que jamais fez parte do Império Otomano, passou a interessá-la após a descoberta de petróleo em seu subsolo. Os ingleses transformaram o território egípcio em protetorado e arrancaram dos persas uma concessão para a exploração petrolífera que resultou na criação da Anglo Persian Oil Company, em 1909. No arco compreendido entre o Egito e a Pérsia, Londres assenhoreou-se do Aden, do Kuwait, de Bahrein, de Oman e dos pequenos emirados da Península Arábica.

Tal era o status da influência britânica no Oriente Médio às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A entrada da Turquia no conflito forneceu aos ingleses a oportunidade para um novo ciclo expansionista. Reagindo prontamente, Londres enviou tropas à região do Chat-el-Arab, no Golfo Pérsico, com o intuito de proteger seus interesses petrolíferos em Abadã, na Pérsia. E, em 1916, no bojo da conflagração, mas já antevendo a derrota turca, entabulou negociações secretas com Paris, visando a futura partilha do que restava do Império Otomano na região.

Os Acordos Sykes-Picot e outros conluios

Os arreglos a que chegaram ficaram conhecidos como Acordos Sykes-Picot, devido aos sobrenomes dos dois principais negociadores, o inglês Mark Sykes e o francês Georges Picot. Eles repartiram as províncias otomanas em duas áreas de influência. A porção britânica englobava a Palestina (nela incluídos os territórios da atual Jordânia e de Israel), a Mesopotâmia (que correspondia aproximadamente ao Iraque de hoje) e a Península Arábica. O naco francês compreendia a Síria (que na época abrangia o Líbano) e a Cilícia (parte da atual Turquia).

Ocorre que, enquanto negociavam com os franceses, os ingleses firmaram dois outros compromissos contraditórios. Por meio do oficial britânico Thomas Edward Lawrence, o famoso Lawrence da Arábia, Londres forneceu orientação militar e armamentos ao Príncipe Hussein, emir de Meca, e seus filhos, que lideravam a revolta árabe contra o domínio turco. Em correspondência secreta enviada a Hussein, Sir Arthur Henry McMahon, alto comissário britânico no Egito, prometeu-lhe, em troca da rebelião, a criação de um grande reino árabe independente, que se estenderia pela Península Arábica, a Síria e a Mesopotâmia.

Ao mesmo tempo, Lord Arthur of Balfour, ministro do Exterior britânico, enviava carta aberta ao poderoso banqueiro Rothschild, vice-presidente do Comitê de Deputados Judeus, tornando público o apoio do “Governo de Sua Majestade” ao “estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu”. Além de granjear para a Inglaterra a simpatia da comunidade judaica internacional, a criação do que viria a ser o Estado de Israel oferecia aos ingleses uma vantagem adicional: privava os franceses do controle do Porto de Haifa, afastando-os, portanto, do Canal de Suez.

Esse tríplice conluio, com franceses, árabes e judeus, por meio do qual os imperialistas ingleses pretendiam tomar para si a maior parte do bolo do Oriente Médio, não poderia resultar em outra coisa que não fosse uma inesgotável fonte de antagonismos. O conflito israelense-palestino, que até hoje infelicita a região, é, em certa medida, um produto dessa política gananciosa. Dela resultou também a criação artificial do Iraque e da Jordânia.

Países criados sob medida

A invenção do Iraque e da Transjordânia (atual Jordânia) foi o prêmio de consolação dado pelos ingleses à família hachemita, do Príncipe Hussein, de Meca, depois de ela ter sido enxotada da Síria pelos franceses. O nome de família Hachimi, do qual deriva o adjetivo hachemita, vem de Hachim, bisavô do profeta Muhammad (571-632). E foi transmitido à posteridade por meio de Hassan, neto do profeta. Os hachemitas são, portanto, descendentes diretos de Muhammad. O Príncipe Hussein, emir de Meca, líder da revolta árabe contra o domínio otomano, pertencia à 38a geração da família, a partir de Hachim. Seu filho, Faiçal, conquistou Damasco em 1918 e, confiando na palavra dos ingleses, proclamou-se rei da Síria. Mal sabia que seus protetores o haviam atraiçoado pelas costas.

A expulsão de Faiçal pelos franceses, em julho de 1920, provocou a ira de seu irmão, Abdullah. Respirando desejos de vingança, este convocou as tribos beduínas a atacar Damasco. Os ingleses, que se atendo aos Acordos Sykes-Picot não haviam movido uma palha para defender Faiçal, perceberam que era hora de agir. Para demover Abdullah de seus planos bélicos, Churchill criou e ofereceu aos dois irmãos o Emirado da Transjordânia e o Reino do Iraque.

A Abdullah coube a Transjordânia, cuja independência ele proclamou em 1923. Mas o país só se emancipou da tutela britânica em 1946, após a Segunda Guerra Mundial. Autocrático frente a seus compatriotas e subserviente diante dos ingleses, Abdullah governou o Reino Hachemita da Transjordânia, depois renomeado Reino Hachemita da Jordânia, até 20 de julho de 1951. Nessa data fatídica, foi assassinado por um adversário político, enquanto rezava no interior da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém. O atual rei da Jordânia, também chamado Abdullah, é seu bisneto.

Quanto a Faiçal, Churchill promoveu um grande espetáculo para inflar o seu ego. Em uma conferência convocada no Cairo em março de 1921, ele o fez ser unanimemente aclamado rei do Iraque. O monarca foi coroado como Faiçal I em 23 de agosto do mesmo ano. Nessa data, nascia o moderno Estado iraquiano. Totalmente artificial, seu mapa foi desenhado sob medida para atender à política de alianças, aos interesses petrolíferos e ao sonho imperial britânicos. Pois, do ponto de vista geográfico, demográfico e econômico, o Norte e o Sul da Mesopotâmia jamais foram unificados. Historicamente, o nome árabe Iraque designava apenas a porção sul, composta de planícies, desertos e áreas irrigadas, e ocupada por populações semíticas. A porção norte, que os árabes denominavam Jazirah, é uma região montanhosa, habitada desde longo tempo por curdos, armênios e turcos.

Apesar da entronização de Faiçal, o mandato britânico sobre toda a região se manteve até outubro de 1932, quando o Iraque foi aceito como membro da Liga das Nações (antecessora da ONU, Organização das Nações Unidas), adquirindo status de país independente. O destino dos hachemitas no Iraque, porém, foi incomparavelmente mais conturbado do que o de seus parentes da Jordânia. Consequência de sua criação arbitrária, o país era um ninho de contradições. À maioria étnica árabe, somavam-se expressivas minorias curdas, armênias, turcas, assírias etc. E, aos muçulmanos sunitas, contrapunham-se as numerosas comunidades dos muçulmanos xiitas e dos cristãos. Ademais, a imensa riqueza petrolífera suscitava acirradas rivalidades entre os partidários dos interesses ingleses e os nacionalistas.

Hábil, em sua política de dar uma martelada no cravo e outra na ferradura, Faiçal I conseguiu durante seu reinado conciliar as várias facções em conflito. E promoveu um relativo desenvolvimento do país. Mas seu filho e sucessor, Ghazi I, que assumiu o poder em 1933, sofreu nada menos do que sete golpes de Estado e assistiu a violentas revoltas tribais e sangrentos confrontos étnicos e religiosos. Simpático às ambições dos nacionalistas, morreu em um acidente automobilístico que alguns monarquistas iraquianos até hoje insinuam, sem provar, ter sido forjado pelos britânicos. O fato ocorreu em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Sucedeu-lhe seu filho, Faiçal II. Mas tendo este apenas quatro anos, seu tio materno, Abdul Illah, um partidário dos ingleses, foi nomeado regente. Um golpe de Estado pró-germânico forçou-o a fugir do país em 1941. Porém a rebelião foi debelada pela Inglaterra, que desembarcou tropas e ocupou militarmente o Iraque até o final da guerra, em 1945.

Em 1953, Faiçal II atingiu a maioridade e foi coroado. Os fabulosos lucros auferidos com o petróleo tornavam seu reinado promissor. Porém, ele foi interrompido abruptamente cinco anos mais tarde. No dia 14 de julho de 1958, oficiais do exército liderados pelo general Abdul Karim Qasim tomaram o poder. Faiçal II e a quase totalidade da família real foram assassinados no palácio Al Rihab, em Bagdá. O próprio Qasim também não durou muito tempo no poder. Marcado por aguda disputa com o Egito pela liderança do mundo árabe e pela aproximação com a União Soviética e a China, seu governo afrontou poderosos interesses norte-americanos e britânicos ao restringir os lucros da multinacional Iraq Petroleum Company e ao tentar anexar o Kuwait. Em 1963, Qasim foi deposto e assassinado por um golpe de Estado orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), que contou com a entusiástica participação de um jovem e ambicioso político iraquiano, que atendia pelo nome de Saddam Hussein.

A ascensão de Saddam Hussein

A exemplo de outros ditadores sanguinários da segunda metade do século XX, Saddam Hussein foi um típico produto da política externa norte-americana. Nascido em 1937 na aldeia de Al-Awja, próxima a Tikrit, ao norte de Bagdá, iniciou sua tenebrosa carreira política em 1959, com uma primeira e fracassada tentativa de assassinar Qasim. O malogro do atentado obrigou-o a se exilar no Egito, mas em 1963 ele voltou ao país, quando seu partido, o Ba’ath, se apossou do poder. O golpe, comemorado em Washington, teve a inconfundível marca da CIA. Quem o declarou, sem meias palavras, foi o diplomata James Akins, que servia à época na embaixada norte-americana em Bagdá. Em entrevista à BBC, Akins afirmou: “Eu conhecia todos os líderes do Partido Ba’ath e gostava deles. A CIA esteve definitivamente envolvida nesse golpe. Nós víamos a ascensão dos ba’athistas como um modo de substituir o governo pró-soviético por um outro, pró-americano, e uma oportunidade dessas não aparece com frequência. É verdade que algumas pessoas foram enforcadas ou fuziladas, mas elas eram em sua maioria comunistas e isso, portanto, não nos incomodava”.

Os aliados de Qasim retomaram o controle da situação meses depois e Saddam foi preso. Mas conseguiu fugir e ascendeu na hierarquia do Ba’ath, até voltar ao poder em 1968, a reboque de um novo golpe de Estado, liderado por um parente seu, o general Ahmad Hasan al-Bakr. Determinado, implacável, sem escrúpulos em recorrer aos métodos pouco ortodoxos que o tornariam famoso, Saddam tornou-se em pouco tempo o homem forte do governo de Bakr. É verdade que, sob sua batuta, a administração iraquiana promoveu então algumas reformas positivas, nacionalizando a Iraq Petroleum Company e investindo parte dos lucros do petróleo em projetos de industrialização, educação e saúde, que tornaram o nível de vida da população um dos mais altos do mundo árabe. Mas ele também elevou às nuvens sua riqueza pessoal, colocou parentes e amigos em postos-chaves do Estado e estruturou uma terrificante polícia política. Em 1978, fazer oposição ao regime tornou-se ato passível de pena de morte. No ano seguinte, Saddam forçou Bakr a renunciar e assumiu plenamente o poder.

Apesar de seus arroubos nacionalistas da década de 1970, ele voltou a desfrutar das boas graças das potências ocidentais depois que invadiu o Irã dos aiatolás em setembro de 1980. Apavorados com a perspectiva de a revolução iraniana se propagar pelo Oriente Médio, os Estados Unidos apostaram todas as suas fichas no ditador iraquiano, passando a tratá-lo como “o nosso homem” na região do Golfo Pérsico. O então presidente Ronald Reagan enviou um emissário de alto nível para negociar com ele: ninguém menos do que o futuro secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Com as melhores recomendações de Rumsfeld, o Iraque foi abastecido com abundantes informações militares providas pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos e entupido de armamentos norte-americanos. Os governos britânico e francês e até a ditadura militar brasileira (entusiasmada com os contratos milionários assinados por grandes empreiteiras de nosso país com o regime de Bagdá) também participaram do esquema, provendo o Iraque com equipamentos e serviços de toda natureza. Enquanto milhares de seus compatriotas morriam na guerra insana e interminável contra o Irã, Saddam vivia um surto megalomaníaco, comparando-se aos maiores imperadores da Babilônia e erguendo monumentos de nauseante mau gosto em sua própria homenagem.

Armas de destruição em massa

Dando mais uma prova de como suas definições variavam de acordo com os interesses do momento, o governo norte-americano removeu, em 1982, o Iraque da lista das nações acusadas de patrocinar o terrorismo internacional. A Casa Branca sabia – como todos os jornalistas bem informados sabiam – que Saddam estava usando armas químicas contra os iranianos. Mas se fez de desentendida. Em 1988, ele empregou as mesmas armas contra dissidentes curdos, matando 5 mil pessoas. Porém, quando o líder curdo Mahmud Osman apelou a seus conhecidos do Departamento de Estado norte-americano, eles lhe responderam que não podiam fazer nada, para não abalar as relações com os iraquianos. Nas etapas avançadas da guerra, Washington envolveu-se diretamente nas operações militares, bombardeando plataformas de petróleo do Irã e derrubando – “acidentalmente”, segundo declarou – um airbus iraniano com 290 civis a bordo. Os combates arrastaram-se até 1988, matando 300 mil iraquianos, 400 mil iranianos, devastando os dois países e terminando sem vencedor.

Nos dois anos seguintes, com o beneplácito das grandes potências, Estados Unidos e União Soviética à frente, Saddam continuou se abastecendo com armamentos estrangeiros; reprimindo sem meio termo seus inimigos internos (incluídos nessa categoria dois enormes grupos sociais: a comunidade étnica curda e a comunidade religiosa xiita); consolidando um regime ultracentralizado, no qual nem mesmo os mais íntimos participantes do poder se sentiam seguros para expressar opiniões que não fossem o apoio irrestrito; edificando para si mesmo palácios de duvidosa qualidade estética, mas de um luxo digno das Mil e Uma Noites; e sonhando em reeditar, em moldes tecnologicamente modernos, as glórias do Império Babilônico.

No dia 2 de agosto de 1990, ele invadiu o Kuwait. Integrantes da mais alta cúpula iraquiana, que fugiram depois para outros países, informaram que o ditador consultou apenas três pessoas para tomar essa decisão mirabolante: seu primo e os dois genros. Acostumado a contar com a conivência de Washington, como ele podia saber que, desta vez, estava atravessando o sinal vermelho? Tanto não sabia que, quatro dias depois da invasão, recebeu o embaixador norte-americano Joe Wilson e lhe disse algo nos seguintes termos: nós manteremos o Kuwait, embora ainda não tenhamos ideia sobre o que fazer com ele; se vocês, americanos, não armarem nenhuma tempestade em copo d’água, poderemos chegar a um acordo mutuamente benéfico em relação a suprimentos de petróleo baratos; e, ainda por cima, nós, iraquianos, nos comprometemos a não ameaçar a Arábia Saudita. A declaração, de uma candura exemplar, foi relatada pelo próprio Wilson ao jornalista Allan Little, da BBC.

Ocorre que, desta vez, Saddam havia ido longe de mais, subvertendo, da noite para o dia, todo o equilíbrio geopolítico de uma das regiões mais tensas do globo. George Bush, pai, governava os Estados Unidos. E, como ocorreria mais tarde no governo do filho, sua administração estava comprometida até o último fio de cabelo com os interesses das grandes companhias petrolíferas. Isso incluía uma sólida aliança com a riquíssima família Al-Sabah, que governava a região do Kuwait desde o século XVIII e que, em 1934, concedeu a exploração do petróleo do país à Kuwait Oil Company, uma fusão da British Petroleum (britânica) e da Gulf Oil (norte-americana). Uma tentativa iraquiana de anexar a área, em 1961, já havia motivado o desembarque de tropas britânicas. A nova e tresloucada iniciativa de Saddam provocou a intervenção de uma coalizão internacional, com os Estados Unidos à frente.

O mundo acompanhou pela televisão, em tempo real, o desenrolar da Primeira Guerra do Golfo. Abastecida pela mídia norte-americana, a opinião pública internacional só se comoveu quando grosseiros mísseis Scud, de fabricação soviética, disparados a partir do Iraque, atingiram, com erros de pontaria da ordem de quilômetros, inocentes alvos civis em território israelense. Foram, de fato, crimes abomináveis. Porém a televisão não mostrou os crimes ainda piores que as forças norte-americanas estavam cometendo, ao mesmo tempo, em território iraquiano. O que se ofereceu aos telespectadores foi uma guerra de videogame, na qual armamentos de última geração pareciam realizar uma operação milimétrica, com a precisão de uma cirurgia a laser, pulverizando alvos militares sem que um só pedregulho fosse lançado sobre os civis ao lado. Revelou-se, mais tarde, que essa guerra supostamente asséptica provocou a morte de pelo menos 107 mil civis – cerca de 30 vezes o número de vítimas do atentado ao World Trade Center. E alguns analistas sustentam que o total de mortos chegou ao dobro dessa cifra. Mas, quando esses números vieram à baila, a opinião pública internacional já havia se esquecido da Primeira Guerra do Golfo.

A Segunda Guerra do Golfo

O que também não foi explicado à época é por que Bush Pai não aproveitou sua vitória esmagadora para depor Saddam Hussein e permitir que o povo iraquiano estabelecesse um governo democrático em seu país. A desculpa oficial, de que lhe faltava um mandato para isso e que uma ação de tal natureza romperia a delicada coalizão internacional, decididamente não convenceu. Ele dispunha de uma legitimidade incomparavelmente maior do que aquela que Bush Filho improvisou para invadir o Iraque mais tarde. Frente à visão apocalíptica de poços de petróleo queimando ininterruptamente no Kuwait (a última ação praticada pelas tropas iraquianas em retirada), o mundo aplaudiria aliviado a deposição do ditador. No entanto, Bush Pai poupou Saddam.

O que o presidente americano não disse ao mundo é que preferia deixar o Iraque sob a mão de ferro de Saddam Hussein do que favorecer um processo autonomista que poderia desestabilizar todo o Oriente Médio. Uma república xiita no Sul do país, fazendo eco às posições do Irã, e uma república curda no Norte, estimulando as históricas reivindicações territoriais dos curdos da Turquia, da Síria, da Armênia e do Irã, poriam em risco o próprio mapa da região, artificialmente desenhado pelos colonialistas ingleses e franceses após a derrocada do Império Otomano. Havia muito petróleo em jogo para que Bush arriscasse uma cartada tão perigosa.

Os Estados Unidos pouparam Saddam. Mas, para cortar suas asas, impuseram ao Iraque um embargo econômico de consequências sociais desastrosas. Para atenuar os efeitos do bloqueio, a ONU concedeu em 1995 ao Iraque o direito de exportar uma quantidade limitada de petróleo para adquirir alimentos e remédios. Foi o programa humanitário conhecido como “Petróleo por Comida”. Apesar dele, a Cruz Vermelha afirmou, em 2000, que a mortalidade infantil havia triplicado no país desde o início das sanções. Nesse mesmo ano, Hans von Sponeck, coordenador do programa renunciou ao seu posto em sinal de protesto, dizendo que o embargo havia criado uma “verdadeira tragédia humana”.

Esses dados parecem não ter perturbado o sono dos magnatas do petróleo e de seus representantes na Casa Branca. De fato, eles seriam dramaticamente ultrapassados pelas perdas humanas ocorridas durante a chamada Segunda Guerra do Golfo, desencadeada com a invasão do Iraque pela coalizão liderada por Bush Filho em 2003. Ao longo desse conflito, que se arrastou até o final de 2011, mais de 100 mil civis iraquianos foram mortos e as atrocidades cometidas contra prisioneiros de guerra estarreceram o mundo.

A questão curda

O redesenho do mapa do Oriente Médio pelas potências vitoriosas na Primeira Guerra Mundial, concluído na Conferência de Lausanne, em 1923, deixou desatendida a histórica reivindicação de uma pátria nacional para o povo curdo. Hoje, seu número é estimado em 30 milhões de pessoas, mais de duas vezes a população da Síria e sete vezes a população da Jordânia. Estendendo-se por uma superfície do tamanho da França, o Curdistão encontra-se atualmente repartido entre a Turquia, a Armênia, o Irã, o Iraque e a Síria. Além de sua óbvia importância geopolítica, essa área é também uma das mais preciosas do Oriente Médio em recursos minerais. Antes do embargo ordenado pelos Estados Unidos, cerca de 70% do petróleo produzido pelo Iraque era extraído em Kirkuk, no Curdistão iraquiano. E, no Curdistão turco, localizam-se as nascentes dos rios Eufrates e Tigre, essenciais à sobrevivência do Iraque, da Síria e da Turquia Oriental.

A oposição dos curdos aos árabes iraquianos e seus protetores britânicos remonta à própria criação do Iraque. E sua luta pela independência não arrefeceu após a queda da monarquia, em 1958. No governo de Saddam Hussein, suas reivindicações foram respondidas com impiedosas punições e terríveis carnificinas. Durante a guerra entre o Iraque e o Irã, entre 1980 e 1988, em represália à aliança entre os curdos e os iranianos, milhares de aldeias do Norte foram destruídas, áreas enormes queimaram sob o napalm e, segundo fontes simpáticas à causa curda, 182 mil pessoas desapareceram na região de Germiyan, a maioria executada em segredo. Conforme as mesmas fontes, o ataque com armas químicas contra a cidade de Halabja, que matou 5 mil civis e horrorizou o mundo, não foi um fato isolado. Ações semelhantes teriam sido praticadas contra muitas cidades e aldeias curdas do Iraque.

Após a Primeira Guerra do Golfo, quando a revolta curda recebeu sinal verde de George Bush, pai, e foi depois abandonada à própria sorte pelo então presidente norte-americano, Saddam se superou na repressão. Com total controle do espaço aéreo iraquiano, os Estados Unidos poderiam ao menos ter impedido que o ditador utilizasse seus helicópteros para aniquilar a população civil. Mas deixou-o agir à vontade. Hospitais, escolas, mesquitas, santuários históricos e colunas de refugiados foram impiedosamente bombardeados. Civis foram executados em massa. Sob inverno rigoroso, cerca de 1,8 milhão de curdos cruzaram as montanhas do Norte para buscar refúgio no Irã e na Turquia. Estima-se que de 30 mil a 60 mil pessoas tenham sido mortas pela repressão.

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2 Comentários

  1. Tadeu. onde termina este artigo?

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  2. Só vai terminar — ou melhor, entrar em uma nova fase — quando o pessoal de lá, com o apoio do pessoal daqui (isto é, nós), reinventar a região.

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