Isaac Newton: a filosofia hermética e a física moderna

Newton, no auge de sua capacidade criativa, retratado por Godfrey Kneller em 1689

Em segredo, ele praticou a alquimia e construiu uma teologia herética. Aos olhos do mundo, foi o supremo filósofo da natureza e o fundador da ciência moderna. Longe de expressarem o funcionamento desconexo de uma mente cindida, esses dois aspectos aparentemente contraditórios de sua incansável atividade intelectual possuíam para Newton uma unidade profunda, alimentando-se mutuamente. Para preservar-se dos preconceitos científicos de seu tempo, o maior de todos os cientistas foi obrigado a ocultar sua filiação a uma tradição por si mesma oculta. Mas as pesquisas históricas mais recentes nos permitem afirmar com segurança que sem a alquimia não haveria uma física newtoniana tal qual a conhecemos, atrasando calamitosamente o desenvolvimento da ciência. Em tudo que fazia, Newton era um homem obcecado. Somos imensamente devedores de suas geniais obsessões.

Gênio atormentado

Os anos 1665-1666 foram calamitosos para os ingleses. Uma epidemia de peste alastrou-se pelo país e, apenas em Londres, matou 75 mil pessoas, mais de 16% da população da cidade. Nem bem a escalada da doença arrefeceu, um incêndio propagou-se pela capital, consumindo, em quatro dias, cerca de 13 mil casas. No entanto, nos livros de história da ciência, o biênio 1665-1666 ficou registrado sob a honrosa denominação latina de anni mirabiles (anos admiráveis). E isso graças às realizações de um só homem, o inglês Isaac Newton (1642-1727).

Com apenas 23 anos de idade, recém-bacharelado pela Universidade de Cambridge, ele foi obrigado, devido ao perigo de contágio, a refugiar-se na fazenda de sua mãe, em Woolsthorpe, onde nascera. E, no isolamento do campo, viveu a mais extraordinária aventura intelectual já protagonizada por um único cientista. No intervalo de alguns meses, inventou o cálculo diferencial e integral, de aplicação quase ilimitada nos mais diferentes ramos da ciência, lançou os fundamentos da óptica moderna, com uma série de experimentos sobre a luz e as cores, e, principalmente, esboçou a teoria da gravitação universal, sua maior contribuição ao conhecimento humano.

Como nas aberturas das óperas, que expõem os diversos temas musicais a serem posteriormente desenvolvidos, toda a ciência newtoniana foi esboçada naquele período de reclusão. Muitos anos mais tarde, ele afirmaria: “Nessa época, eu estava no auge de minha fase de invenção e me interessava mais pela matemática e pela filosofia do que em qualquer ocasião posterior”.

A flor no lodo

Neurótico, solitário, rancoroso, vingativo, Newton foi um homem atormentado. Mas também o maior de todos os cientistas. Suas realizações foram fruto de intuições geniais. Mas também resultado de uma capacidade de concentração e de um esforço quase sobre-humanos. Quando lhe perguntaram como havia chegado à lei da gravitação universal, ele respondeu: “Pensando nela continuamente”. Melhor do que qualquer outra, esta frase curta sintetiza seu estilo pessoal. Ele não se dedicava a um assunto sem fazê-lo de maneira integral, exclusiva, compulsiva, fanática.

Sempre introspectivo, sua distração frente aos assuntos do mundo exterior tornou-se proverbial em Cambridge. Mergulhado nos próprios pensamentos, era capaz de entrar no refeitório da universidade na hora do jantar, sentar-se à mesa e esquecer-se de comer. Um aluno anotou que, nas raras ocasiões em que recebia amigos em seus aposentos, “se lhe acontecia entrar no gabinete de estudos para buscar uma garrafa de vinho e lhe surgia uma ideia na cabeça, ele se sentava diante do papel e esquecia dos amigos”.

Como uma exuberante flor enraizada no lodo, seu maravilhoso intelecto vicejou sobre um pântano sombrio de emoções primitivas. É difícil resistir à tentação de interpretar seu extraordinário desenvolvimento intelectual como um simples mecanismo de compensação de profundas feridas emocionais. Ele nasceu prematuro, doentio e órfão de pai, no dia de Natal, 25 de dezembro de 1642. Antes de completar três anos, sua mãe casou-se em segundas núpcias com um pastor protestante, que exigiu que o menino fosse deixado com a avó. Newton odiou tanto esse padrasto cruel, que certa vez tentou queimá-lo vivo. Mais tarde, projetou esse ódio atávico em todos os oponentes intelectuais que ousaram desafiá-lo.

O despertar intelectual

Uma briga na escola fez despertar o seu prodigioso intelecto. Tendo recebido o pontapé de um colega, ele o desafiou para lutar depois das aulas. Embora fosse mais fraco, partiu com fúria impressionante para cima do oponente. Quando este se cansou de apanhar e declarou-se vencido, Newton ainda o puxou pelas orelhas e o atirou de cara contra a parede. Estava mais do que vitorioso e poderia ter-se contentado com isso. Mas sua raiva não conhecia limites. Até então, havia sido um aluno medíocre. Decidido a suplantar o antagonista não apenas no plano corporal, mas também no intelectual, tornou-se o primeiro aluno do liceu.

Aos 19 anos, ingressou na Universidade de Cambridge. Depois do nascimento traumático, do abandono na primeira infância e da briga escolar, o contato com o ambiente universitário deflagrou a quarta grande crise de sua vida. Pois, embora dispusesse de recursos, sua mãe recusou-se a pagar-lhe os estudos. Na aristocrática e discriminatória sociedade inglesa da época, ele teve que enfrentar a condição de bolsista, o que implicava em usar um uniforme diferente e prestar serviços domésticos aos professores e alunos pagantes, executando, inclusive, tarefas repulsivas, como esvaziar seus urinóis. Para quem tratava seus próprios criados como um tirano, esse foi, sem dúvida, uma teste difícil de suportar. Tais fatos ajudam a explicar a solidão e o retraimento que marcaram a primeira parte de sua longa vida.

Estudos solitários

O impacto sofrido no contato inicial com o mundo acadêmico não impediu que ele permanecesse em Cambridge durante 35 anos, primeiro como aluno, depois como professor. Essa antiga e antiquada universidade, cujo currículo pouco havia mudado desde sua fundação, no século XIII, quase nada lhe acrescentou em termos culturais. Mas proporcionou a segurança material e emocional que lhe permitiu empreender sua extraordinária aventura interior. Exceto pelos anni mirabiles de Woolsthorpe, toda a ciência newtoniana foi produzida entre as velhas paredes de Cambridge.

A Inglaterra vivia então o período da Restauração: após o esmagamento da revolução republicana liderada por Oliver Cromwell, a monarquia fora restabelecida e subira ao poder a reacionária dinastia Stuart. Era a revanche da aristocracia católica contra a pequena burguesia puritana. Os protagonistas da nova ordem procuravam apagar todos os vestígios que lembrassem o período revolucionário: os cabelos curtos e os austeros trajes negros dos puritanos foram substituídos por perucas e roupas extravagantes. A frivolidade e a afetação estavam em alta entre as classes ricas.

Herdeiro de uma sólida propriedade rural e de um patrimônio nada desprezível, Newton estava longe de ser pobre. Porém, a mão fechada da mãe impusera-lhe uma condição humilhante. E seu próprio temperamento introspectivo o afastou ainda mais da pompa das cerimônias acadêmicas e da vulgaridade das brincadeiras dos colegas. Virando as costas para esse meio fútil, ele se refugiou em seu mundo interno. Logo que chegou a Cambridge, uma de suas primeiras providências foi comprar um caderno, onde passou a anotar, de maneira sistemática, todos os projetos e leituras, observações e reflexões que mobilizavam incessantemente sua inteligência. Ele continuou a colecionar esses cadernos ao longo da vida e sua leitura nos fornece um dos mais assombrosos retratos dos luminosos salões e obscuros labirintos da mente humana.

Leituras heterodoxas

Richard Westfall (1924 – 1996), autor de uma monumental biografia de Newton, investigou esses manuscritos durante décadas. Ele nos informa que, em seus anos de graduação, Newton não concluiu a leitura de nenhum dos livros recomendados pelos professores. Em compensação, leu, esmiuçou e criticou as obras dos maiores filósofos e cientistas da época. Seus autores de cabeceira eram gigantes como Galileu Galilei, Johannes Kepler, René Descartes, Pierre Gassendi, Robert Boyle e Henry More, entre outros, cujos tratados estavam longe de constar de um currículo conservador como o da Universidade de Cambridge.

Em seu caderno, Newton não apenas parafraseou essas obras, mas também registrou com ousadia suas eventuais inconsistências. Westfall insiste na linha de continuidade existente entre os estudos solitários de Cambridge e os anni mirabiles de Woolsthorpe. Ainda na condição de estudante, o gênio atormentado havia assimilado e superado toda a ciência de seu tempo. Na estufa de Cambridge, o botão de flor recebeu sua quota de calor, umidade e nutrientes. O espaço aberto de Woolsthorpe estimulou-o a desabrochar.

A queda da maçã

A história da ciência também é feita de estórias. Algumas delas relatando “fatos” que de modo algum aconteceram, como a famosa “Experiência de Pisa”, supostamente protagonizada por Galileu Galilei. Outro tipo de estória é o da queda da maçã, que teria sugerido a Newton sua teoria da gravitação universal. Gerações de biógrafos trataram de enfeitar esse acontecimento, tornando-o tão singular e espetacular quanto possível. Mas, na base de tudo, houve um fato real: a maçã caiu. E, para a mente atulhada de ideias do então jovem cientista inglês, essa queda foi suficiente para desencadear um fluxo torrencial de associações. O episódio ocorreu em 1666, no auge da efervescência intelectual dos anni mirabiles. John Conduitt – marido da sobrinha de Newton e seu primeiro biógrafo – o colheu, anos depois, da boca do próprio cientista. Escreveu Conduitt: “(…) quando meditava em um jardim, ocorreu-lhe que o poder da gravidade (que derrubara uma maçã da árvore no chão) não estava limitado a uma certa distância da Terra, mas deveria estender-se muito além do que se costumava pensar. Por que não até a Lua?, disse ele a si mesmo, e, se assim fosse, isso deveria influenciar seu movimento e talvez mantê-la em sua órbita; ao que ele se pôs a calcular qual seria o efeito dessa suposição (…)”.

Richard Westfall critica com dureza esse relato: “Ele banaliza a gravitação universal, tratando-a como uma ideia brilhante. Uma ideia brilhante não consegue moldar uma tradição científica”. É compreensível a irritação do historiador. Mas talvez seja preciso matizar seu comentário. De fato, a queda da maçã só deflagrou o processo associativo por que a longa e intensa acumulação de forças (em leituras e reflexões), ocorrida quando Newton ainda era aluno da Universidade de Cambridge, levara sua mente a um ponto crítico (como Westfall insiste mais de uma vez). Naquelas condições, qualquer pequeno estímulo desempenharia o papel da primeira chuva da primavera, que faz brotar as sementes ocultas no solo. Era preciso haver sementes. E as sementes estavam lá. Não obstante, a chuva foi necessária.

A visita do cometa

De qualquer modo – e aqui é preciso dar outra vez razão a Westfall – há uma grande distância entre o insight inicial e a teoria final. Newton não emergiu dos anni mirabiles com a gravitação pronta e acabada. Ele arquivou suas reflexões juvenis por quase 20 anos. E, quando finalmente se ocupou delas, precisou travar uma formidável batalha conceitual para colocar a teoria em pé. O processo foi desencadeado por acontecimento inesperado.

Corria o mês de agosto de 1684, quando uma visita inusual quebrou sua rotina. Professor de matemática em Cambridge, o gênio tinha então 42 anos incompletos. Solteiro, praticamente sem amigos, sempre absorto em seus pensamentos, ele se comportava como um caramujo, quase um porco-espinho, em matéria de relacionamento social. Evitava festas e comemorações, raramente recebia alguém e sentia-se aborrecido até em responder às poucas cartas que lhe chegavam. Sua principal realização até o momento, a invenção do telescópio por reflexão, abrira-lhe as portas do mais prestigioso e exclusivo clube científico da época, a Royal Society inglesa. A súbita celebridade, porém, parecia-lhe uma insuportável fonte de distrações.

Foi contra o hábito, portanto, que Newton recebeu em seus aposentos o jovem e brilhante astrônomo Edmond Halley (mais tarde homenageado com a atribuição de seu nome ao cometa cuja órbita calculou). Halley viajara de Londres a Cambridge com o único objetivo de interrogá-lo acerca de um difícil problema científico. Seis meses antes, em uma reunião da Royal Society, ele o havia discutido com dois outros expoentes da inteligência inglesa, o físico Robert Hooke, presidente da instituição, e o arquiteto Christopher Wren, construtor da catedral de São Paulo, em Londres. O problema em pauta era o assunto do momento, a grande pergunta sem resposta nas rodas da ciência: como explicar o movimento dos planetas, observado pelos astrônomos, a partir das leis da física?

Hooke, Wren e Halley concordavam que, para esses corpos celestes permanecerem em órbita, precisava atuar sobre eles uma força atrativa, dirigida para o Sol, inversamente proporcional ao quadrado da distância entre cada planeta e a estrela. A descoberta dessa relação, realizada independentemente pelos três, não chegava a ser um feito excepcional. Era resultado de um desenvolvimento matemático relativamente simples da terceira lei do movimento planetário, publicada em 1619 pelo grande astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630). Vários cientistas europeus haviam chegado a ela. O grande desafio era demonstrar, a partir de cálculos rigorosos, que uma força desse tipo levava os planetas a descreverem órbitas elípticas, como afirmava a primeira lei de Kepler.

Conhecedor da fama de Newton, Halley fora a Cambridge com o único objetivo de arrancar dele alguma sugestão para a solução do enigma. Na mente popular, as aparições dos cometas sempre foram interpretadas como prenúncios de acontecimentos extraordinários. Na vida de Newton, a repentina aparição do homem que emprestaria seu nome a um cometa também anunciou uma reviravolta excepcional. Fazia 15 anos que ele não se ocupava dos temas científicos convencionais. A visita reavivou seu antigo interesse e desencadeou o processo que mudaria os rumos da ciência.

O desafio da elipse

A elipse sempre fora um osso duro de roer. Junto com a circunferência, a parábola e a hipérbole, essa elegante curva fechada compõe as chamadas “secções cônicas”, obtidas pela interseção do cone com o plano. Estudadas desde a Antiguidade, as cônicas foram objeto de um célebre tratado de Apolônio de Perga (cerca de 262-190 a.C), matemático e astrônomo greco-helenístico que nasceu na Panfília, na atual Turquia, e trabalhou durante anos no Mouseion de Alexandria.

Considera-se hoje a circunferência como um caso particular da elipse, que ocorre quando o plano secante se torna ortogonal ao eixo do cone – ou, o que dá no mesmo, quando a excentricidade da curva se iguala a zero. Para a mente antiga, porém, havia um abismo ontológico separando as duas figuras. Contrastando com a simetria perfeita da circunferência, a elipse era vista como uma desagradável aberração, que jamais poderia estar associada à nobreza dos movimentos celestes.

Para impor às trajetórias planetárias um formato rigorosamente circular, em flagrante contradição com as observações astronômicas já disponíveis na época, os astrônomos alexandrinos Hiparco (século II a.C.) e Ptolomeu (século II d.C.) conceberam uma construção engenhosa e artificial, baseada na composição de diferentes circunferências (ciclos e epiciclos). Catorze séculos depois, quando refutou o sistema ptolomaico, colocando o Sol e não a Terra no centro do Universo, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico manteve ainda o dogma da circularidade das órbitas planetárias e, consequentemente, a estrutura de ciclos e epiciclos.

Kepler livrou-se dessa monstruosa maquinaria celeste. “Limpei as estrebarias de Augias!”, exclamou em uma carta ao astrônomo Longomontanus, comparando sua façanha a um dos 12 trabalhos de Hércules. Mas, antes de fazê-lo, relutou durante anos em admitir a forma elíptica da trajetória dos planetas. Em sua linguagem pitoresca e exuberante, chegou a comparar a elipse a uma carroça carregada de estrume. Porém, o respeito às observações astronômicas falou mais alto do que suas convicções estéticas, filosóficas e até religiosas (pois havia um motivo teológico para associar a perfeição da circunferência à divina arquitetura do cosmo). Fiel aos dados (que Ptolomeu e Copérnico não tiveram escrúpulos em adulterar), o grande alemão acabou cedendo. E incorporou a elipse à estrutura do sistema solar, devolvendo o realismo à astronomia.

“Eu a calculei!”

A primeira lei de Kepler, que proclama a feição elíptica das órbitas planetárias, fora publicada em 1609. Três quartos de século mais tarde, quando Halley visitou Newton, ela já havia se tornado quase um lugar comum. A chamada “revolução científica do séculoXVII” (ainda em curso) varrera para baixo do tapete as considerações de caráter teológico. E despojara os números e figuras geométricas de suas conotações simbólicas. No novo mercado da ciência, uma boa elipse podia valer tanto quanto qualquer circunferência. Mas submetê-la à disciplina do cálculo era outra conversa. A demonstração de que a força gravitacional produzia órbitas elípticas implicava em dificuldades matemáticas que ninguém conseguia superar.

Por isso, Halley ficou encantado com o que ouviu da boca de Newton. Interrogando-o sobre a forma da curva que seria descrita pelos planetas caso a força de atração do Sol fosse inversamente proporcional ao quadrado da distância, recebeu dele resposta imediata: “uma elipse”. O astrônomo recuperou o fôlego e perguntou-lhe como sabia disso. “Ora”, disse o outro, com a maior naturalidade do mundo, “eu a calculei”. Halley mal conseguiu esconder seu assombro. Mais assombrado ainda teria ficado se soubesse que Newton chegara à relação do inverso do quadrado quase duas décadas antes, em 1666, durante seus juvenis anni mirabiles.

O astrônomo queria ver logo as contas. Porém, nessa altura, Newton achou melhor não arriscar. Embora não tivesse o menor escrúpulo em comparecer às solenidades de Cambridge com os cabelos desgrenhados e as meias caindo sobre os calcanhares, ele era excessivamente zeloso quanto à sua reputação intelectual. Havia muito tempo que não lidava com o assunto. E se tivesse cometido algum erro? Antes de liberar sua descoberta para o mundo, julgou prudente refazer os cálculos.

Pequena revolução

Halley concordou em esperar. Após três meses de exasperantes adiamentos, recebeu de Newton bem mais do que havia pedido. Em um sucinto artigo de nove páginas, o solitário gênio de Cambridge solucionou o grande problema da época “pelos dois lados”: partindo da hipótese de que os planetas descreviam órbitas elípticas, demonstrou que a força de atração do Sol era inversamente proporcional ao quadrado da distância; admitindo a existência de uma força desse tipo, deduziu que os planetas deveriam percorrer trajetórias elípticas.

A façanha era espetacular. Mas Newton não parou por aí. Como de hábito, superou as expectativas. Pois, com base na força de atração, demonstrou também a segunda e a terceira leis de Kepler. E, de quebra, calculou ainda qual seria a trajetória de um projétil em um meio que oferecesse resistência ao movimento.

O pequeno artigo provocou uma convulsão no mundo da ciência. Os membros da Royal Society faziam fila para lê-lo e alguns tiveram que esperar até um mês por sua oportunidade. A intelectualidade inglesa estava em alvoroço e os ecos de sua excitação alcançaram o Continente. Mas o próprio Newton não se deu por satisfeito. Depois de 15 anos de abstinência científica, ele retomara o gosto pela coisa. E se sentia com a corda toda. Durante os dois anos seguintes, atracou-se em um corpo a corpo com os conceitos da física. Dessa luta titânica resultou a obra máxima da literatura científica, os Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, Princípios Matemáticos da Filosofia Natural.

Principia Mathematica

O alicerce dos Principia – e de toda a física moderna – são as três “leis” do movimento dos corpos. Em linguagem atual elas afirmam:

  • A menos que atue uma força externa, qualquer corpo tende a se manter indefinidamente em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme (princípio da inércia);
  • Caso uma força externa atue, a aceleração que o corpo recebe dela é diretamente proporcional à sua intensidade (princípio fundamental da dinâmica);
  • Toda vez que um corpo recebe uma força de outro, ele também exerce sobre este uma força, de mesma intensidade, mesma direção e sentido contrário (princípio da ação e reação).

A aparente simplicidade dessas “leis” esconde o enorme esforço despendido por Newton em sua elaboração. O conceito de inércia é um caso típico. O inglês o tomou emprestado do filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650). E lutou arduamente com ele, antes de lhe dar uma expressão depurada, concisa e operacional. Em um primeiro momento, Newton embaralhou a ideia cartesiana de inércia (que é uma qualidade intrínseca ao corpo) com a ideia medieval de impetus (que é uma qualidade comunicada ao corpo pelo meio exterior).

Por isso, em certas passagens dos Principia, ele fala em vis inertiae (força de inércia): uma contradição com o princípio fundamental da dinâmica, segundo o qual toda força produz aceleração, isto é, mudança de movimento. Mas, páginas adiante, ele resolve o conflito, ao explicar que a causa de um corpo permanecer em repouso é a mesma que o faz se deslocar em movimento retilíneo e uniforme. Daí usar o termo inércia, antes atribuído apenas às coisas paradas, também para caracterizar os entes materiais dotados desse tipo específico de movimento.

O espetacular sucesso alcançado pelos Principia mudou o curso da vida de Newton. Em pouco tempo, o caramujo se abriu para o mundo. É uma bagatela supor que o reconhecimento público tenha curado suas feridas emocionais. Porém, há mais coisas na mente humana do que sonha nossa vã psicologia. A própria conquista desse reconhecimento só se tornou possível porque foi precedida por 15 anos de pesado isolamento e autoimersão. Durante esse período, o gênio trabalhou seus demônios, em uma pratica secreta que só recentemente começou a ser desvendada.

O baú de Lord Keynes

Durante mais de dois séculos, legiões de biógrafos fizeram de Newton o protótipo do “cientista moderno”: sóbrio, cético, racionalista, avesso a toda forma de misticismo. Popularizada pelas obras de divulgação científica, cristalizada nos livros didáticos, tal imagem transformou-se no retrato oficial do gênio inglês. A pesquisa histórica contemporânea desmentiu, porém, essa lenda. Personagem máximo da ciência, Newton foi também o último dos grandes alquimistas e dedicou muito mais tempo de sua longa vida aos experimentos herméticos e a uma trabalhosa interpretação das profecias bíblicas do que à investigação científica convencional.

Seus manuscritos alquímicos permaneceram ocultos até 1936, quando, em um leilão da Galeria Sotheby’s, de Londres, o célebre economista John Maynard Keynes comprou um baú com anotações inéditas do cientista. Espantado com o que descobriu, Lord Keynes empenhou sua energia e fortuna na ampliação do acervo. E, em 1942, durante as comemorações do tricentésimo aniversário do nascimento de Newton, dedicou-lhe um perfil que destoava de todas as biografias tradicionais: ao lado das grandes realizações nos campos da matemática e da física, ressaltou sua enorme produção nos domínios da alquimia e da teologia.

A coleção de manuscritos, doada à Universidade de Cambridge, provocou uma pequena revolução na história da ciência. Os textos, povoados de metáforas luxuriantes e fórmulas exóticas, continuam a ser decifrados. Mas o que já foi feito autorizou a historiadora da ciência Betty Jo Teeter Dobbs (1930 – 1994), a maior estudiosa da obra alquímica de Newton, a afirmar com segurança: “ele vasculhou toda a vasta literatura da antiga alquimia, de um modo como ninguém jamais vasculhou, nem antes nem depois”. Richard Westfall fez as contas: os manuscritos newtonianos contêm “bem mais de um milhão de palavras dedicadas à alquimia”.

No afã de salvar o retrato oficial, popularizadores da ciência acabaram produzindo a caricatura de um Newton esquizofrênico. A exemplo do personagem do romance O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, o gênio seria dotado de uma espécie de dupla personalidade: cientista à luz do dia, ocultista na calada da noite. Seu gosto pela alquimia foi encarado como um hobby extravagante, sem qualquer repercussão sobre o trabalho científico. Essa ideia confortável e precipitada não resistiu, porém, ao curso das investigações. Newton praticou, sim, a alquimia enquanto os outros dormiam. Porém, ao avançarem na decifração dos manuscritos, os estudiosos se deram conta da influência decisiva desse trabalho secreto na criação da física newtoniana.

A Pedra Filosofal

A imersão de Newton na alquimia ocorreu pouco tempo depois dos anni mirabiles, provavelmente em 1669. Já professor no Trinity College da Universidade de Cambridge, ele contava então 27 anos. Continuou se ocupando dessa disciplina oculta ao longo das três décadas seguintes. Durante esse período, reuniu a maior coleção de tratados alquímicos do planeta. E seu interesse pelo assunto não se restringiu aos livros. Humphrey Newton – seu secretário particular, que, a despeito do sobrenome, não tinha nenhum parentesco com ele – registrou que, especialmente na primavera e no outono, o atanor ou forno alquímico do patrão permanecia aceso semanas a fio.

Humphrey e o próprio cientista passavam noites alternadas em claro, revezando-se no controle das misteriosas experiências. Como em sua atividade científica convencional, Newton era, nas palavras do secretário, “sumamente cuidadoso, rigoroso e preciso” no controle desse trabalho. Mas a alquimia parecia proporcionar-lhe um tipo de prazer que ele já não encontrava na matemática e na física. A ciência oficial cobrava dele um esforço extenuante. À beira de seu forno, porém, diz Humphrey, ele se mantinha ocupado “com grande satisfação e deleite”.

Por que essa disciplina esotérica exercia tamanho fascínio sobre o maior dos cientistas? A alquimia já foi encarada como uma química primitiva, contaminada por fantasias bizarras e práticas supersticiosas, que o método científico haveria de expurgar. Estudos recentes contestam, porém, esse enfoque, herdado do século XIX. E veem, na alquimia, tanto uma sofisticada filosofia da natureza quanto um caminho de autorrealização psíquica e espiritual. Seu enquadramento pelo paradigma científico moderno teria enfatizado unilateralmente o primeiro aspecto, em detrimento do segundo.

Os primeiros registros de práticas alquímicas remontam às antigas civilizações da Índia, China, Mesopotâmia e Egito. Por meio dos árabes, foi introduzida na Europa medieval, alcançando o apogeu durante os séculos XVI e XVII. O objetivo máximo de seus adeptos era obter a chamada Pedra Filosofal, capaz de transmutar os metais vis em ouro. Mas esses praticantes pareciam estar bem conscientes de que os procedimentos químicos que utilizavam constituíam manifestações exteriores de um processo interior. O “ouro” que buscavam era de natureza espiritual e, mais do que a transmutação dos metais, visavam a transmutação de si mesmos.

Em busca da grande síntese

É difícil avaliar o quanto Newton avançou nesse exigente caminho de autorrealização. Mas, qualquer que tenha sido o seu progresso pessoal, é certo que ele reconheceu, na filosofia da natureza alquímica, um contraponto ao pensamento mecanicista, de cuja esterilidade bem cedo se deu conta. Inseminado pela alquimia, o mecanicismo podia tornar-se um ventre fértil. E, dessa síntese de paradigmas, nasceu a ciência newtoniana.

Os cadernos de Newton revelam que sua crítica ao mecanicismo remonta aos tempos de estudante. E, um triênio depois dos anni mirabiles, a ciência oficial parecia não ter mais nada a lhe dizer. A filosofia mecanicista, hegemônica desde Descartes, baseava-se na radical separação entre o espírito (“substância pensante”) e a matéria (“substância extensa”). O grande filósofo francês concebera o universo inteiro como uma máquina gigantesca e inerte, funcionando para todo o sempre com base no movimento mecânico de suas partes. Newton descobriu que desses pressupostos metafísicos não resultava uma boa física.

Um exemplo era a explicação dada por Descartes para a translação dos planetas. O francês acreditava que eles descreviam suas órbitas em redor do sol como consequência de turbilhões do éter – um sutilíssimo meio material que preencheria todo o espaço. Como em um ralo gigantesco, o vórtice de éter supostamente existente em torno de nossa estrela, o Sol, arrastaria os planetas, impondo-lhes um deslocamento orbital. Descartes limitou-se a imaginar essa engenhosa explicação. Newton fez os cálculos. E verificou que a hipótese cartesiana contradizia as leis matemáticas do movimento planetário descobertas por Kepler.

Insatisfeito com essa ciência canhestra, ele buscou na alquimia uma filosofia da natureza capaz de reconciliar o espírito e a matéria e de enxergar, por trás das partículas em movimento, os princípios ativos que as animavam. Newton jamais descartou o mecanicismo, mas, consciente de suas limitações, procurou sintetizá-lo com o saber alquímico.

Dialética da natureza

Por volta de 1675, pouco mais de meia década depois de iniciar o estudo da alquimia, ele parece ter completado a fusão das visões de mundo alquímica e mecanicista. Da síntese resultou uma espécie de dialética da natureza, que Newton resumiu em um importante texto, intitulado Hipótese da Luz. Nele, o cientista-alquimista escreveu: “a natureza é um perpétuo trabalhador circular, gerando líquidos a partir dos sólidos e sólidos a partir dos líquidos, coisas fixas das voláteis e voláteis das fixas, tênues das espessas e espessas das tênues, algumas coisas para ascender e compor os sumos terrestres superiores, os rios e a atmosfera e, por conseguinte, outras para descer para uma compensação das primeiras”.

Não há qualquer referência explícita à alquimia na Hipótese da Luz. Mas é evidente a filiação alquímica dessa concepção de natureza palpitante de vida, em total contradição com a fria máquina cartesiana. Dessa matriz, Newton extraiu a ideia de que os corpos materiais podiam atuar entre si à distância – algo impensável do ponto de vista da física mecanicista, que só admitia a comunicação de forças de um objeto a outro por meio do contato.

Por mais que Newton tenha procurado esconder esse fato, e ele tinha boas razões para fazê-lo, não resta a menor dúvida de que a ideia de ação à distância, que se tornaria a viga-mestra da teoria da gravitação newtoniana, deriva das especulações alquímicas acerca das “atrações” e “repulsões”, “simpatias” e “antipatias” entre os entes da natureza. A pesquisa histórica contemporânea é conclusiva a respeito.

E os filósofos mecanicistas de sua época também o perceberam. A teoria da gravitação newtoniana suscitou feroz oposição – principalmente na França, berço do cartesianismo. Acusado de trazer de volta para o palco da ciência as “influências ocultas” que o mecanicismo se esforçara por banir, Newton teve que travar uma luta titânica para impor seu ponto de vista. Socorreu-se da arma que manejava como ninguém: a matemática.

O vôo de Júpiter

Sexta-feira, 23 de maio de 1684. Três meses antes de receber a famosa visita de Halley, que o levou a retomar seus estudos sobre gravitação e redigir os Principia, Newton anotou em um caderno: “Fiz Júpiter voar em sua águia”. A frase, escrita em linguagem cifrada, deliberadamente inacessível aos não iniciados, possui um sentido preciso para os “adeptos da arte” (forma pela qual os alquimistas se referem a si mesmos). O voo de Júpiter é uma das alegorias associadas à Pedra Filosofal, o objeto supostamente capaz de transformar os metais vis em ouro, meta (ou metáfora) suprema de toda a alquimia. O gênio inglês perseguira esse alvo durante 15 longos anos. A sentença traduzia sua eufórica convicção de havê-lo alcançado.

Quando consentiu em receber Halley, ele continuava imerso na alquimia até o último fio de cabelo. Além da costumeira misantropia, isso explica sua impaciência frente a visitas e cartas. Qualquer interrupção do trabalho parecia-lhe um penoso aborrecimento. Estimulado pelo outro, porém, retomou um assunto do qual há muito se distanciara. E – uma coisa puxa a outra – acabou embarcando na maior aventura intelectual de sua vida. É surpreendente saber que a obra suprema da literatura científica nasceu em um contexto alquímico, saturado de especulações místicas e fórmulas esotéricas.

Mas já enfatizamos o quanto a ciência de Newton é devedora dessa arte oculta. O historiador Richard Westfall assinala que, a partir do final da década de1670, aideia da ação à distância (que ele derivara tanto de suas reflexões acerca da causa dos movimentos celestes quanto de seus experimentos alquímicos) passou a ser um ingrediente fundamental no esquema newtoniano. Daí em diante, sua atenção se deslocaria das partículas em movimento para as forças atuantes entre as partículas. Estas e não aquelas seriam concebidas como os agentes máximos da natureza. O conceito de força tornou-se depois trivial (embora, de fato, não o seja). Porém essa entidade misteriosa, capaz de se transmitir sem mediação de um corpo a outro, não se encaixava de forma alguma no paradigma mecanicista. Era uma noção alquímica, que Newton contrabandeou para o respeitável território da ciência.

A multiplicação da matéria

Se a filiação parcialmente alquímica da física newtoniana está hoje perfeitamente demonstrada, a pretensão de seu autor, de haver alcançado a Pedra Filosofal, não deixa de causar espanto. Afinal, quem disse isso não foi o jovem Newton, genial, porém ainda titubeante, nem o velho Newton, consagrado, mas já vivendo das glórias do passado. Foi o maior de todos os cientistas, no apogeu de sua atividade criadora. Está claro que, para ele, a Pedra Filosofal era muito mais do que uma simples ideia. Pois escreveu que, de posse de tal objeto, havia obtido a multiplicação da matéria. O registro é pouco posterior à conclusão dos Principia. Glorificado pela publicação de sua obra máxima, ele retomou os experimentos secretos e, nos primeiros anos da década de 1690, redigiu Praxis, seu mais importante ensaio alquímico. O texto culmina com uma frase bombástica: “E assim podeis multiplicar até o infinito”.

Que provas ele possuía – se é que possuía alguma – para sustentar tal afirmação? Richard Westfall sugere que a sentença é fruto de uma fase de agudo estresse. De fato, em 1693, o cientista viveu o que foi chamado de seu “ano negro”. Um severo colapso nervoso perturbou-lhe o sono, o apetite e o raciocínio. Desculpando-se ao filósofo John Locke por uma rude carta redigida nessa época, ele afirmou: “quando lhe escrevi, fazia uma quinzena inteira que eu não dormia ao menos uma hora por noite e, em cinco noites consecutivas, nem um minuto sequer”.

Porém, é pouco provável que Newton tenha produzido Praxis no bojo dessa crise. Durante o período, ele mal conseguia juntar palavra com palavra em uma carta coerente, quanto menos elaborar um ensaio exaustivo. Ademais, a ideia da multiplicação da matéria não é produto de uma mente isolada, mas um patrimônio comum da alquimia. Sóbrios ou alucinados, todos os alquimistas perseguiram essa meta. Em seu benefício, vale lembrar que a transmutação dos elementos e a multiplicação da matéria não estão fora dos horizontes teóricos e práticos da física contemporânea. Elementos se transmutam por meio da radioatividade e da fissão e fusão nucleares. Material subatômico é gerado e aniquilado experimentalmente nos grandes aceleradores de partículas. Que os alquimistas possam ter obtido resultados semelhantes com os recursos de que dispunham é outra conversa, que deixamos em suspenso.

O “ano negro”

A crise de 1693 não foi a primeira da vida de Newton. Ele já havia vivido, em outra ocasião, episódio semelhante. Uma de suas características era manter a corda esticada até o limite. E nem sempre sua mente prodigiosa foi capaz de impedir que a corda arrebentasse. Sob tal perspectiva, a redação de Praxis parece ter sido menos um produto desse colapso do que uma das causas que o desencadeou. Cinco fatores teriam contribuído para o grave transtorno:

  • o esgotamento decorrente do enorme esforço mental despendido na composição dos Principia (embora o tratado tenha sido impresso em julho de 1687, esse intervalo de seis anos não foi para ele um período de repouso; ao contrário, estimulado pelo sucesso de sua obra-prima, engajou-se em uma atividade intelectual obsessiva, retomando os principais temas sobre os quais se debruçara ao longo da vida, com a intenção de reunir as pontas soltas em uma trama coerente);
  • um envenenamento crônico por mercúrio, após quase três décadas de manipulações alquímicas;
  • o fato de que ele passara a pleitear um cargo público em Londres, o que implicava em adular os poderosos e envolver-se em um intrincado jogo social (para um homem que permanecera até então recolhido e protegido em seu mundo interior, isso devia constituir enorme e extenuante desafio);
  • o início de sua disputa com o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) acerca da autoria do cálculo diferencial e integral (de fato, criado independentemente por ambos);
  • o fim de seu relacionamento com o jovem e brilhante Nicolas Fatio de Duillier (1664-1753), matemático, físico e astrônomo suíço, que teria sido o único amor de sua vida (um amor platônico, altamente reprimido e sublimado, mas nem por isso menos perturbador).

Fatio de Duillier

O interesse por Londres e por Fatio surgiram simultaneamente, durante a estadia de Newton na capital inglesa em 1689. Ele fora eleito deputado da Universidade de Cambridge no Parlamento, convocado para ratificar a Revolução Gloriosa de 1688, que derrubara a arbitrária dinastia católica dos Stuart e restaurara o poder constitucional, levando ao trono o protestante Guilherme de Orange. Sua atuação parlamentar foi bastante apagada. Mas a estadia londrina proporcionou-lhe contatos importantes: ele foi recebido, em jantar privativo, pelo rei em pessoa; e, entre outras relações, iniciou uma longa e fecunda amizade com o filósofo John Locke. Em uma reunião da Royal Society, conheceu Fatio, que chegara do Continente dois anos antes e se tornara o “queridinho” da intelectualidade inglesa. Newton tinha então 46 anos. Fatio, apenas 25. Estabeleceu-se entre ambos uma atração instantânea.

O relacionamento estendeu-se por quatro anos. Aparentemente, jamais chegou ao plano corporal (tudo indica que o gênio tenha morrido virgem). Mas provocou uma pequena revolução na vida de Newton. Contrariando seus hábitos, o cientista afastou-se mais de uma vez do trabalho para estar com Fatio; compartilhou com o amigo não apenas suas pesquisas em física e matemática, mas também as mais secretas convicções acerca de alquimia e teologia; e, a despeito de sua prudência em relação ao dinheiro e do fato de a universidade há muito estar com seu salário atrasado, não hesitou em oferecer-lhe ajuda quando este necessitou. Porém, quando o jovem lhe pediu por carta que fosse mais explícito acerca de suas intenções, Newton não foi capaz de atendê-lo. A dificuldade de expressar seus sentimentos – ainda mais sentimentos que sua própria moral condenava – o fez desconversar. E talvez isso tenha arruinado a relação. Atraído por outros interesses, Fatio o deixou.

A separação foi desastrosa para o suíço. Uma das maiores promessas da intelectualidade europeia do período, ele simplesmente desapareceu do cenário científico, sem deixar, ao que consta, nenhuma obra relevante. Quanto a Newton, o espetacular sucesso alcançado pelos Principia e uma noção mais realista acerca de seu próprio valor o ajudaram a superar a crise. Três anos depois, em 1696, os fortes contatos estabelecidos em Londres lhe asseguraram a nomeação para o cobiçado cargo de superintendente da Casa da Moeda. Abandonando Cambridge, onde residira durante 35 anos, ele se transferiu definitivamente para a capital.

Nos braços do poder

A saída da universidade representou para Newton o fim de sua atividade criadora como cientista e alquimista. Tratados posteriores, como Opticks (Óptica), publicado em 1704, não foram mais do que sistematizações de pesquisas e reflexões há muito realizadas. Mas, se Londres o afastou da prática científica, deu-lhe, por outro lado, um extraordinário poder nos círculos da ciência. Após a morte de Hooke, em 1703, ele foi eleito presidente da Royal Society. Dois anos depois, recebeu o título de cavaleiro. Adulado por um séquito de jovens admiradores, Sir Isaac Newton dirigiu a instituição como um ditador, até sua própria morte, no dia 20 de março de 1727. Nessa posição vantajosa, procurou ajustar contas com todos os seus antigos rivais, entre os quais o grande Leibniz.

O poder tem o dom de permitir que os homens exercitem suas piores características. Newton não foi exceção. Para reivindicar a primazia na criação do cálculo diferencial e integral, o gênio não hesitou em lançar mão de expedientes sórdidos, como o de pedir que seus partidários assinassem textos em sua defesa que ele mesmo havia escrito. Como presidente da Royal Society, nomeou um comitê “imparcial” para investigar o caso, enquanto secretamente redigia o relatório oficial encerrando a questão. Nem mesmo a morte de Leibniz, em 1716, pôs fim à polêmica: qualquer artigo, sobre qualquer assunto, continuava a ser uma boa oportunidade para espicaçar o filósofo alemão. É difícil imaginar maior desperdício de talento.

Fanática obsessão

Das grandes disciplinas pelas quais se espraiou sua inteligência, apenas uma continuou merecendo seu interesse: a teologia. Mais do que a matemática, a física e a alquimia, ela foi o tema maior de sua vida. Newton enveredou pelo assunto na década de 1670 e continuou a estudá-lo exaustivamente até a morte, em 1727, cerca de 30 anos depois de ter abandonado a experimentação científica e alquímica. Segundo o pesquisador Robert Hatch, os escritos teológicos do inglês perfazem cerca de 1,3 milhão de palavras – o suficiente para encher 20 livros de tamanho padrão.

Todo esse esforço foi alimentado por uma ideia fixa, que se transformou pouco a pouco em fanática obsessão. Criado, como boa parte de seus compatriotas, no credo anglicano (que preserva muitos dos dogmas e sacramentos católicos), Newton resvalou muito cedo para o terreno da heresia. Já em suas primeiras anotações teológicas, expressou divergências em relação à doutrina da Santíssima Trindade, que desdobra a Divindade em três “pessoas”: Pai, Filho e Espírito Santo. Ele via nela uma forma disfarçada de politeísmo. E essa suspeita o levou a estudar minuciosamente a Bíblia e a ler, registrar e comentar toda a literatura patrística, a imensa obra dos primeiros teólogos cristãos. Se não tivesse sido o maior de todos os cientistas, essa façanha intelectual seria suficiente para atestar sua genialidade.

Uma genialidade que trilhava caminhos tortuosos. Pois logo Newton começou a tratar a grande polêmica travada no século IV entre partidários e opositores da doutrina da Santíssima Trindade como se fosse um assunto pessoal. Sua oposição ao trinitarismo foi assumindo um tom cada vez mais passional. “Idólatras”, “blasfemadores”, “fornicadores espirituais”: dizia ele dos trinitaristas em seus cadernos teológicos. Felizmente, teve o bom senso de mantê-los secretos. Pois, se na Inglaterra da segunda metade do século XVII a heresia já não levava ninguém para a fogueira, ela certamente teria arruinado sua carreira de professor em uma instituição da Universidade de Cambridge que, por cúmulo da ironia, se chamava Trinity College (Colégio da Trindade).

O credo ariano

Seu credo convergia cada vez mais com o dos arianos, partidários do bispo Ario, derrotados no Concílio de Niceia, em 325 d.C. Estes sustentavam que Jesus havia sido a mais nobre das criaturas e o mediador entre o homem e Deus, mas recusavam-se a atribuir-lhe um status divino. A posição vencedora, defendida por Atanásio e seus seguidores, afirmava, ao contrário, que o Filho compartilhava a mesma “substância” (e, portanto, a mesma divindade) do Pai. Para Newton, a vitória do trinitarismo foi fruto de uma imensa fraude, com adulterações não apenas dos textos da Igreja primitiva, mas também da própria Bíblia. A esse triunfo, ele atribuiu a causa de toda corrupção existente na Terra.

Aos seus olhos, a divinização de Cristo era idolatria, o pior de todos os pecados. Tal pecado se consolidara no Concílio de Constantinopla, de 381 d.C., convocado para ratificar as decisões de Niceia. A esse respeito ele escreveu: “O ano de 381 é, portanto, sem nenhuma controvérsia, aquele em que essa estranha religião do Ocidente, que tem imperado desde então, espalhou-se pela primeira vez no mundo, de tal sorte que a Terra e os que nela vivem começaram a adorar a Besta”. A preocupação com a data não é fortuita. Pois, à luz do arianismo, Newton se engajou em uma trabalhosa revisão da cronologia histórica e das profecias bíblicas. O fim do mundo estaria próximo. Baseado em sua interpretação do livro bíblico do Apocalipse, ele o previu para o ano de 1867.

Por mais absurdas que soem hoje tais especulações, elas não desqualificam os estudos teológicos de Newton. Ele se empenhou nessa pesquisa com uma dedicação, uma erudição e um rigor científico de que nenhum outro homem de seu tempo teria sido capaz. Por suas mãos, outros luminares da inteligência inglesa, como Locke, foram conduzidos ao arianismo. Apesar de esconder suas convicções, Newton viveu e morreu de acordo com elas. No leito de morte, recusou-se a receber o último sacramento da igreja anglicana. Seu credo dissidente foi, por certo, mais um motivo de sofrimento do que de satisfação. E não é difícil encontrar explicações psicológicas para ele. Mas também é possível descobrir traços dessa doutrina na física newtoniana. Os conceitos de espaço e tempo absolutos derivam de sua concepção peculiar de Deus.

Epílogo

Críticos contemporâneos do mecanicismo vulgarizaram a expressão “paradigma newtoniano-cartesiano” como um modo de se referir à visão de mundo dominante na ciência moderna. Tal fórmula simplista esconde, porém, o abismo filosófico que separa Newton de Descartes. O mecanicismo não nasceu com Newton. Newton é que nasceu em um ambiente já dominado pelo mecanicismo. E só foi aceito pelo saber acadêmico à custa de uma cuidadosa ocultação de suas raízes herméticas. Esta é, aliás, uma das ironias da história da ciência. Pois, apesar das contribuições fundamentais de Descartes ao desenvolvimento da matemática, da mecânica e da óptica, o mecanicismo é um desastre científico. Foi apenas por ter assimilado a física newtoniana que ele pode sobreviver durante quase 300 anos.

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Nota

Uma versão anterior deste texto foi publicada como capítulo de meu livro Bacon e Newton: em busca da alma do mundo.

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