Hipátia de Alexandria: filósofa e mártir

Se Hipátia foi retratada em sua época, nenhum retrato dela se preservou. Esta imagem, executada segundo os cânones da magnífica escola de pintura de Fayum, já foi considerada uma representação da filósofa. Mas, na verdade, é o retrato mortuário de uma dama da aristocracia egípcia que viveu dois séculos antes.

A literatura, primeiro, e o cinema, depois, associaram a ideia de martírio à imagem de cristãos transformados em tochas humanas ou sendo devorados por feras no Coliseu romano. Os fatos nem sempre se deram dessa maneira, porém. Em Alexandria, no crepúsculo da Antiguidade, em vez de mártires, os cristãos desempenharam o papel de martirizadores. O episódio aconteceu no ano 415 d.C., ainda durante o período romano, muitos séculos antes que a Inquisição transformasse a prisão, a tortura e a matança em práticas regulares. A vítima foi Hipátia, uma das poucas mulheres do mundo antigo que conseguiram vencer as enormes barreiras impostas pela sociedade patriarcal à ascensão feminina, e florescer como astrônoma, matemática e filósofa.

Possuidora de todo o conhecimento científico disponível em seu meio, ela fez da filosofia um caminho de autoaperfeiçoamento, e transcendeu o status de professora de ciências para alcançar a condição de mestra espiritual. Cultora da sabedoria e praticante do diálogo, foi morta pelas mãos da ignorância e do fanatismo, e o martírio acrescentou a suas muitas virtudes o selo da santidade. Seu gesto e sua voz se ocultam por trás da névoa do tempo, mas, atravessando a blindagem dos séculos, sua história ainda nos comove.

No centro do saber

Nascida provavelmente em 370 d.C., Hipátia era filha do matemático Theon, e substituiu seu pai na direção do Mouseion de Alexandria. Muito mais do que um simples museu, o Mouseion era, então, a glória do Egito helenizado e a principal instituição cultural do mundo. Sua criação, no século III a.C., antecedeu em um milênio e meio o surgimento das universidades, que viria a ocorrer na Europa durante a Idade Média. Mais de mil estudiosos chegaram a morar nele em determinada época, recebendo salários e desfrutando de hospedagem, alimentação e serviços gratuitos, custeados pelo governo. Suas vastas dependências incluíam um observatório astronômico, um jardim botânico e um jardim zoológico, além de jardins, alamedas, templos, teatros, auditórios, salas de estudo, refeitórios, dormitórios, oficinas e depósitos.

Acima de todas essas instalações, destacava-se a famosa Biblioteca, que, em seu período de apogeu, no século I a.C., chegou a abrigar 700 mil volumes, entre originais gregos e traduções de obras egípcias, mesopotâmicas, judaicas, persas, indianas e outras. No tempo de Hipatia, parte desse impressionante acervo já havia sido queimada pelos romanos. Muitos outros livros se transformaram em cinzas nas medonhas fogueiras acesas pelos cristãos, antes e após o assassinato da filósofa. E outros teriam, mais tarde, destino semelhante, durante o domínio muçulmano.

Pagã, e altamente devotada à sabedoria e à espiritualidade, Hipátia foi uma das grandes representantes daquela luminosa linhagem filosófica que hoje chamamos de neoplatônica. Além de matemática e astronomia, lecionou, no Mouseion, as filosofias de Pitágoras, Platão e Aristóteles. E, segundo os relatos de autores antigos, escreveu três tratados, que, infelizmente, foram destruídos. Consistiam eles em um comentário sobre a Aritmética, de Diofanto; um comentário sobre as Secções Cônicas, de Apolônio de Perga; e uma obra intitulada O Cânon Astronômico, possivelmente baseada no comentário de seu pai sobre o Almagesto, de Ptolomeu [1]. Parece ter inventado, também, alguns instrumentos científicos, destinados a medições físicas ou astronômicas.

Um episódio desconcertante

Estudantes de todo o Império Romano acorriam a Alexandria para assistir suas aulas. O mais famoso deles foi Sinésio, que, mais tarde, se converteu ao cristianismo, tornando-se bispo de Ptolemais. Depois do martírio da mestra, Sinésio escreveu uma emocionada memória a seu respeito.

Damáscio (nascido por volta de 458 d.C. e morto depois de 538 d.C.), conhecido como “o último dos neoplatônicos”, afirma que ela superou o pai em genialidade. E que, vestida com o manto dos filósofos, caminhava livremente pelas ruas de Alexandria, interpretando Platão, Aristóteles e outros a quem quisesse ouvir. Era tão bela e atraente que um de seus alunos ficou transtornado pela paixão, e, sem consultá-la, declarou publicamente seus sentimentos. Damáscio relata que a mestra apresentou ao desajeitado pretendente os panos manchados de sangue por sua menstruação. E lhe disse: “É isso que tu amas, jovem. E isso não é belo”. O filósofo conclui, dizendo que o apaixonado discípulo “ficou tão afetado pela vergonha e pelo espanto diante da feia visão que experimentou uma mudança em seu coração e se retirou como um homem melhor”.

Esse episódio famoso dá bem uma ideia de quão platônica era Hipátia em sua avaliação desfavorável e extremada acerca do próprio corpo. De fato, a filósofa dedicava toda a atenção ao Intelecto (Nous) e ao Uno (Hén). E, a despeito da intensa admiração que suscitava, permaneceu solteira e virgem até o final da vida, seguindo o exemplo de outros neoplatônicos ilustres, como Plotino e Proclo.

O ódio dos fanáticos

Venerada pelos pagãos de Alexandria e sempre consultada nos assuntos de interesse cívico, Hipátia era amiga e talvez mentora do prefeito Orestes. Pagão de origem e convertido ao cristianismo por conveniência política [2], Orestes estava, porém, em conflito com o bispo cristão Cirilo, atiçador do fanatismo religioso. Segundo relatos da época, o prefeito opôs-se ao bispo quando este tentou expulsar a antiga, numerosa e influente comunidade judaica da cidade.

Percebendo por trás de Orestes a presença de Hipátia, Cirilo passou a açular seus seguidores contra ela. A filósofa tinha, realmente, todos os atributos necessários para despertar o ódio do bispo fanático: era pagã, culta, amada, influente e mulher. No malfadado ano de 415, após um sermão inflamado de Cirilo, seus monges e a multidão bestializada atacaram Hipátia, que, apesar das ameaças, transitava pelas ruas de Alexandria. Arrancada de sua carruagem e arrastada até uma igreja, ela foi completamente despida e morta no local, a golpes de cacos de telhas e conchas de ostras. Após retalhar seu corpo, a turba levou os despojos a um determinado lugar, onde os queimou. O frenesi prosseguiu, com a invasão do Mouseion, a destruição de livros e a perseguição de discípulos.

O nobre comentário de um cristão

Cirilo seria considerado “santo” e incluído no rol dos “Doutores da Igreja”. Hipátia foi, durante muito tempo, tratada como “prostituta” e “feiticeira” pela propaganda católica. Seus instrumentos científicos foram apontados como provas de bruxaria.

Mas houve exceções nesse julgamento. E uma delas deve ser mencionada. Em sua História Eclesiástica, o historiador cristão Sócrates Escolástico (nascido em Constantinopla em 380 d.C.) escreveu:

“Houve, em Alexandria, uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Theon, que superou em muito as realizações de todos os filósofos de seu tempo. Tendo se iniciado na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia aos seus ouvintes, muitos dos quais vinham de longe para receber suas instruções. Por conta do autodomínio e das boas maneiras, que adquiriu cultivando o intelecto, ela aparecia frequentemente em público, na presença dos magistrados. E não se sentia envergonhada em participar de uma assembleia de homens. Pois todos os homens a admiravam, devido à sua extraordinária dignidade e virtude.

No entanto, ela se tornou vítima da inveja política que naquele tempo prevalecia. Pois, devido ao fato de manter frequentes conversas com Orestes, disseminou-se, entre o populacho cristão, a calúnia de que era ela que impedia que o prefeito se reconciliasse com o bispo. Alguns, cujo líder era um catequizador chamado Pedro, premidos por um zelo feroz e intolerante, assaltaram-na quando ela voltava para casa, e, arrancando-a de sua carruagem, a levaram a uma igreja chamada Caesareum, onde a despiram completamente, e a mataram com cacos de telhas e conchas de ostras. Após dilacerarem seu corpo, levaram os membros mutilados a um lugar chamado Cinaron, onde os queimaram.

Esse acontecimento cobriu de vergonha, não apenas Cirilo, mas toda a igreja de Alexandria. E seguramente nada pode estar mais longe do espírito da cristandade do que a promoção de massacres, lutas e transações dessa natureza (…)”.

Um rosto que ressurge

Para sobreviver, muitos alunos de Hipátia tiveram que emigrar para Atenas, onde a filosofia pagã continuou a ser praticada até 529 d.C., quando a Academia, fundada por Platão quase mil anos antes, foi fechada por ordem do imperador Justiniano I. O decreto de Justiniano baniu o neoplatonismo em sua forma original, pagã. Mas esse pensamento, que traduz, na linguagem filosófica grega, muitos ensinamentos da chamada Sabedoria Perene, continuou vivo. Pois, pelas letras de um Agostinho ou de um Pseudo-Dionísio Areopagita, penetrou e inseminou o cristianismo. E tal encontro foi suficientemente fecundo para gerar toda a filosofia da Alta Idade Média, em suas três vertentes: islâmica, cristã e judaica.

Hipátia, no entanto, foi relegada a um relativo esquecimento, embora, séculos mais tarde, o pintor Raffaello a tenha incluído entre as muitas figuras de seu famoso afresco “A Escola de Atenas”.

Em nosso tempo, de afirmação feminina e revolução espiritual, o interesse por Hipátia retornou com força. Teses acadêmicas, biografias e romances foram escritos sobre ela. Instituições receberam o seu nome. E até um filme comercial foi feito a seu respeito. Esse filme, Ágora, dirigido por Alejandro Amenábar [3] e estrelado por Rachel Weisz [4], faz Hipátia antecipar, em mais de mil anos, os argumentos utilizados por Galileu para legitimar o movimento da Terra e a descoberta por Kepler das órbitas elípticas dos planetas. A escassez de informações acerca da vida e da obra da filósofa deu ao roteirista ampla liberdade de criação. E ele utilizou com ousadia os poucos dados disponíveis.

Mas não é preciso transformá-la em uma super-heroína científica. Como mestra espiritual, Hipátia escalou alturas que poucos alcançaram.

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Notas

[1] Estudadas no século III a.C. por Apolônio de Perga, as chamadas secções cônicas são as linhas curvas formadas pela intersecção de uma superfície cônica por um plano. Conforme a posição relativa do plano, as linhas possíveis são a circunferência, a elipse, a parábola e a hipérbole.

[2] O cristianismo já havia triunfado no mundo romano e, amparado pelas legiões imperiais, impunha sua supremacia com mão pesada. O processo teve seu marco inicial no Édito de Milão, assinado em 313 d.C. pelo imperador Constantino I, que estabeleceu a “tolerância religiosa” no Império – vale dizer, o fim das perseguições aos cristãos. A partir de então, ascensão cristã avançou rapidamente. Em 325, o Concílio de Niceia, promovido e oficialmente inaugurado pelo próprio Constantino, lançou as bases doutrinárias da ortodoxia católica, condenando a chamada heresia ariana. Durante o governo de Teodósio I, o cristianismo passou de religião tolerada a religião oficial (380 d.C.) e, finalmente, a religião exclusiva do Império (391 d.C.). E, em 392, sob o patrocínio de Teodósio, o paganismo foi oficialmente declarado “religião ilícita” e proscrito. Templos, santuários, imagens e objetos pagãos foram destruídos; adeptos do paganismo foram perseguidos; e até mesmo os Jogos Olímpicos foram proibidos, em 393. Evidentemente, essa uniformidade religiosa era mais fácil de ser proclamada do que de ser efetivada. A despeito da proibição oficial, o paganismo, o judaísmo e formas não ortodoxas de cristianismo continuaram a ser praticados, principalmente nas províncias distantes dos centros do poder imperial. A rigor, o processo de desmantelamento dessas tradições não se completou, porque o Império se desagregou antes.

[3] O mesmo diretor do premiado Mar adentro.

[4] Sua atuação mais famosa, até o momento, ocorreu em The constant gardener (O jardineiro fiel), dirigido por Fernando Meirelles.

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4 Comentários

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  3. Tereza Batista

     /  15 de fevereiro de 2013

    Tornei-me fã, fiquei tão orgulhosa de saber da existência de uma mulher tão brilhante, forte. inteligente e tão feminina. Quando vi o filme, fiquei apaixonada, passei a investigar tudo sobre a sua vida. Porém fiquei muito triste pela intolerância, e ignorância, humana que justifica os fins pelos meios. Assassinatos, estupros, humilhações e guerras em nome de Deus.

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  1. Origens da matemática 2 | José Tadeu Arantes (Ganapati)

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