Schenberg / Bohm: encontro de gênios

Mario Schenberg, em sua expressão mais característica

Entre 1953 e 1955, dois físicos judeus de primeira grandeza interagiram em São Paulo. A influência do brasileiro sobre o norte-americano desencadeou o processo intelectual que produziria, décadas depois, um dos enfoques mais instigantes da ciência contemporânea

“Pensai, pensai sobre o Echad” (O Zohar) [1]

Como a conjunção de dois planetas, o encontro de duas inteligências é um momento privilegiado de luz e beleza. Ainda mais quando os protagonistas são astros de primeira grandeza no céu da ciência. Ambos na vanguarda da física, ambos de esquerda, ambos judeus, o brasileiro Mário Schenberg e o norte-americano David Bohm interagiram de 1953, quando Schenberg retornou ao Brasil após cinco anos de exílio na Europa, até o início de 1955, quando Bohm deixou nosso país para viver em Israel. Inicialmente conflituoso, esse contato revelou-se extremamente fecundo. E produziu um ponto de inflexão na trajetória de Bohm, fazendo-o abandonar o objetivismo e o rígido determinismo que caracterizava sua visão da natureza e preparando o terreno para a revolução paradigmática que ele lideraria tempos depois. Foi a influência de Schenberg que fez germinar em Bohm o pensador original que, décadas mais tarde, escreveria obras do calibre de Wholeness and the Implicate Order [2].

Schenberg (1914 – 1990) estava com 39 anos em 1953. Não se iniciara ainda na crítica de arte, o que ocorreria apenas em 1958, mas já havia deixado sua assinatura na história da ciência, trabalhando com celebridades como Enrico Fermi (Prêmio Nobel de Física de 1938), Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física de 1945) e Frédéric Joliot-Curie (Prêmio Nobel de Química de 1935) e publicando seus dois mais influentes trabalhos científicos: o primeiro, redigido em parceria com o ucraniano George Gamow, um dos pais da teoria do Big Bang, sobre o processo de reações nucleares que dá origem às estrelas supernovas; o segundo, redigido em parceria com o indiano Subrahmanyan Chandrasekhar (Prêmio Nobel de Física de 1983), sobre o limite crítico a partir do qual o ciclo da evolução estelar, antes calmo, adquire um caráter violento. Elegera-se deputado estadual pelo Partido Comunista em 1946. Porém, apenas dois meses depois de iniciar a atuação parlamentar, teve o mandato cassado. Preso por subversão no início de 1948, exilou-se na Europa, lecionando por cinco anos na Universidade Livre de Bruxelas. Encontrou-se com Bohm ao regressar a São Paulo, onde assumiria a direção do então Departamento de Física da Universidade de São Paulo.

Três anos e meio mais jovem, Bohm (1917 – 1992) doutorara-se em Berkeley sob a orientação de Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica norte-americana, e colaborara com Albert Einstein em Princeton. Todos os que o conheciam prognosticavam-lhe um futuro brilhante. Porém, devido a suas convicções políticas, foi incluído na lista negra da tristemente famosa Comissão de Atividades Antiamericanas, liderada pelo senador Joseph McCarthy.

Os Estados Unidos viviam, então, sobressaltados pela cruzada macartista. E a situação de Bohm era especialmente delicada. Em 1943, durante seu doutoramento, ele fizera cálculos sobre colisões de prótons e dêuterons [3] que foram utilizados no Projeto Manhattan de fabricação da bomba atômica norte-americana. Com sua pesquisa considerada segredo militar, o físico vivenciou, então, uma situação bizarra, sendo proibido de acessar os dados que ele mesmo havia produzido e de redigir a tese de conclusão [4]. Mais tarde, seus estudos teóricos sobre o plasma possibilitaram a resolução de problemas práticos relacionados com o processo de enriquecimento do urânio. Em sua escalada sensacionalista, a Comissão de Atividades Antiamericanas criou a ficção de uma “fórmula secreta”, transmitida por um cientista a Steve Nelson, secretário-geral do Partido Comunista, que, por sua vez, a repassou aos russos. Quem seria o misterioso cientista que revelou o segredo? Bohm tornou-se um dos suspeitos.

Para a comunidade científica, o boato da “fórmula secreta” era simplesmente ridículo. A teoria da fissão nuclear, necessária à produção da bomba, não constituía segredo para ninguém. Físicos de todo mundo estavam cientes dela. Por outro lado, a confecção prática do artefato dependia da execução de um programa complexo, com fartos recursos materiais, equipes de alto nível e a solução de problemas técnicos consideráveis. Nada que pudesse ser resumido em uma simples fórmula. Ocorre que a Comissão não falava para cientistas bem informados, mas para o americano médio, aterrorizado pela idéia do “perigo vermelho”. A “fórmula secreta” virou tema da imprensa marrom, dos filmes B e até de histórias em quadrinhos.

A estratégia macartista consistia em forçar a delação, desmoralizando seus adversários e gerando uma avalanche de denúncias com o intuito de alimentar a paranóia coletiva. Chamado a depor e inquirido sobre se era comunista e conhecia Steve Nelson, Bohm invocou a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que lhe assegurava o direito de manter silêncio diante de uma pergunta que poderia incrimina-lo ou degrada-lo. A posição, sustentada em seus dois interrogatórios, em maio e junho de 1949, foi acolhida pela Justiça. Porém, a conjuntura mudou dramaticamente quando, no dia 29 de agosto de 1949, a União Soviética testou sua primeira bomba atômica. A campanha anticomunista foi levada ao paroxismo. Acusados de passar informações nucleares para os russos, os comunistas judeus Julius e Ethel Rosenberg seriam presos em 1951 e executados na cadeira elétrica em 1953. E 6 milhões de pessoas, entre elas a nata da intelectualidade norte-americana, sofreriam perseguições de vários tipos.

No entardecer de 4 de dezembro de 1949, David Bohm foi detido. Ao regressar a Princeton, depois de pagar a fiança, descobriu que a direção da universidade o havia suspendido das atividades didáticas e de todas as demais obrigações acadêmicas. Sua permanência nos Estados Unidos tornava-se, cada vez mais, insustentável. A seu pedido, Einstein fez gestões junto ao físico brasileiro Abrahão de Moraes (1917 – 1970), na época chefe do Departamento de Física da USP, para conseguir-lhe um lugar na instituição. Com o mesmo intuito, escreveu ao governador de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez, e ao presidente do Brasil, Getúlio Vargas. Schenberg, na Europa, e Jaime Tiomno e José Leite Lopes, nos Estados Unidos, participaram da articulação. Sob ameaça de prisão iminente, Bohm chegou ao nosso país no dia 10 de outubro de 1951.

Psiquicamente instável e tendente à depressão, o físico sofreu bastante com a mudança. Tudo na nova terra o desagradava: a comida, o cheiro das ruas, a desorganização da universidade e até o comportamento sexual dos brasileiros. Isso não impediu que aprendesse português e interagisse positivamente com a juventude universitária. Lecionou Física Teórica em 1953 e Mecânica Quântica em 1954. Do primeiro curso, fizeram parte Ernst Hamburger, Amélia Império (mais tarde, Amélia Império Hamburger), Newton Bernardes, Moyses Nussenzveig, Gerhard Bund e Ewa Cybulska [5]. O regresso de Schenberg ao país proporcionou-lhe um interlocutor à altura de suas expectativas intelectuais.

Sua primeira impressão sobre o grande cientista brasileiro não foi, porém, favorável. Rígido em seu figurino comunista de corte stalinista, Bohm teve dificuldades em compreender a personalidade fluida e imprevisível de Schenberg. E escreveu que ele era “o mais estranho tipo de comunista que eu já imaginei” e que se assemelhava mais a um “negociante judeu”. Não contente, acrescentou ao seu comentário uma série de adjetivos nada lisonjeiros: “caráter coloidal”, “apenas parcialmente são”, “maquiavélico”, “muito complexo, tortuoso e inconsistente” [6]. Apesar disso, o impacto de Schenberg sobre o pensamento de Bohm resultou ser revolucionário – para dizer o mínimo.

Para entender todo o alcance dessa influência, recorremos à periodização da trajetória científica de Bohm proposta pelo físico e historiador da ciência Olival Freire Jr, atualmente professor na Universidade Federal da Bahia. Olival distingue três períodos bem definidos [7].

1. O primeiro vai do início dos anos 1940 até 1951. Sob a orientação de Robert Oppenheimer, Bohm estuda em profundidade a física quântica e adere, embora com reservas, à chamada “Interpretação de Copenhague”, proposta por Niels Bohr (1885-1962) e colaboradores [8]. Muito resumidamente, esta afirma que:

  • Somos incapazes de saber o que os componentes da matéria (elétrons etc) realmente são. Devemos nos contentar em descrever seu comportamento no contexto da observação.
  • Por eles se comportarem ora como partículas ora como ondas, precisamos acolher as duas descrições. Apesar de contraditórias, essas descrições devem ser consideradas complementares.
  • É impossível alcançar um conhecimento totalmente objetivo da realidade. A subjetividade do observador e as condições observacionais influenciam o fenômeno observado.
  • As equações que descrevem os fenômenos do mundo subatômico têm caráter estritamente probabilístico. Não permitem prever o curso dos acontecimentos, mas apenas suas possibilidades e probabilidades.

Para compreender essas idéias e convencer a si mesmo de sua validade, Bohm escreveu o livro Quantum Theory.

2. O segundo período inicia-se em 1951 e, embora em crise, perdura, de certa forma, até o final da década de 1950. Estimulado por Einstein, principal adversário da “Interpretação de Copenhague”, Bohm começa a trabalhar, ainda em Princeton, na criação de um modelo alternativo, que retoma a pretensa objetividade e o rígido determinismo da física clássica. Nele, não há dualidade partícula-onda nem equações probabilísticas. Os componentes da matéria voltam a ser corpúsculos movendo-se no espaço segundo trajetórias perfeitamente definidas por um campo, que Bohm chamou de “potencial quântico”. A peculiaridade desse campo é que sua intensidade permanece constante, não decaindo com o quadrado da distância como ocorre com os campos gravitacional e eletromagnético clássicos.

3. O terceiro período germina no Brasil, floresce em Israel e frutifica plenamente na Inglaterra, o último país que acolheu o cientista exilado. Aqui, a influência decisiva é a de Schenberg. Quando chegou ao Brasil, Bohm ainda era um leitor de manuais soviéticos, que, em nome do “materialismo dialético”, professavam um positivismo rasteiro [9]. Usando o mais cândido ou astucioso dos “argumentos” – o de que, segundo Lênin, “todo bom comunista devia ler Hegel” –, Schenberg o encaminhou ao estudo da boa filosofia. Foi uma revolução. O biógrafo David Peat afirma que, até o final de sua vida, Bohm permaneceu “um hegeliano comprometido que tentou traduzir as idéias do filósofo alemão para a física” [10].

O tema em pauta nas discussões com Schenberg era o da causalidade. Com sua “influência do observador” e suas “equações probabilísticas”, a Escola de Copenhague introduzira a subjetividade e o acaso na física – em franca contradição com as diretrizes do paradigma dominante desde a revolução científica do século XVII. Aderindo à perspectiva de Einstein, Bohm tentou eliminar a subjetividade e o acaso com a hipótese das “variáveis ocultas”, que atuariam, por assim dizer, nos bastidores da cena quântica, num nível mais profundo da realidade. Uma vez conhecidas, tais “variáveis” confeririam às leis da física quântica um caráter objetivo e determinista, eliminando a contradição com a física clássica. Schenberg mostrou-lhe que a ciência chegara a um estágio de desenvolvimento no qual conceitos como “causalidade” e “casualidade”, “necessidade” e “contingência” já não podiam ser utilizados de forma trivial. Os fenômenos da natureza tinham causas, sim – isto é, correspondiam a necessidades. Mas estas não determinavam o curso dos acontecimentos de maneira única e inexorável. Definiam um leque de possibilidades. A efetivação deste ou daquele desenvolvimento possível decorria de fatores que não possuíam o mesmo status das causas – isto é, de fatores contingenciais.

Ainda no Brasil, Bohm redigiu o livro Causality and Chance in Modern Physics. E, durante sua estadia em Israel, que se estendeu do início de 1955 até meados de 1957, dedicou o melhor de seu esforço intelectual ao estudo da Lógica de Hegel. David Peat diz que, até seus últimos dias, ele sempre levava o livro consigo em todas as viagens. Sem o suporte da filosofia hegeliana e do inquebrantável afeto de Sarah Woolfson, com quem se casou em 1956, teria sido muito difícil para ele resistir ao baque de dois acontecimentos que, naquele ano, minaram profundamente a fé comunista: a divulgação dos hediondos crimes de Stálin e a brutal invasão da Hungria por tropas soviéticas.

Em sua fase madura, Bohm acrescentou ao estudo de Hegel a leitura das obras de grandes místicos e iogues. Interagiu com pessoas como o pensador indiano Jiddu Krishnamurti, o filósofo da ciência austríaco Paul Feyerabend e o Dalai Lama. E se tornou uma das mais valorizadas presenças em encontros interdisciplinares, como as conferências da International Transpersonal Association, presidida pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof .

É impossível fazer justiça a toda a riqueza de seu pensamento nos limites físicos deste artigo, mas deve-se dizer que ele passou a conceber a realidade como um todo indivisível em permanente transformação. Nessa perspectiva, objetos como o elétron, por exemplo, não têm existência real. Só existem como manifestações da totalidade. É como se um observador olhasse o oceano tendo à frente um anteparo perfurado. Focalizando a atenção no anteparo, ele vê o mundo como uma série de confetes coloridos. Por trás do anteparo, no entanto, o que existe é o oceano em movimento. Na concepção de Bohm, esse anteparo representa um limiar de observação. Os confetes são o que chamou de “ordem explícita”. O oceano por trás do anteparo é a “ordem implícita”, a realidade primordial subjacente ao mundo físico aparente.

Suas últimas palavras: “Sinto que estou no limite de alguma coisa”.

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[1] O Zohar (São Paulo, Polar Editorial e Comercial, 2006). Echad (“Um”, em hebraico) é uma das palavras que compõem a Shemá, a oração central do judaísmo: Shemá Israel Adonai Elohênu Adonai Echad (“Escuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, o Senhor é Um”). No Zohar, a exortação a que se pense no Echad é atribuída ao rabino Shimon ben Yochai. E, mais do que uma declaração da unicidade de Deus, o célebre livro cabalista interpreta a palavra como uma proclamação da unicidade da Real. Isto equivale a dizer que não apenas “existe um só Deus”, mas que “só Deus existe”, e que todo o Cosmo, com sua incontável multiplicidade de entes e fenômenos, repousa sobre uma unidade fundamental, pois é uma teofania ou manifestação divina. Este sentido ampliado da Shemá torna-se mais evidente quando levamos em conta que o termo Adonai (“Senhor”) é sempre empregado em substituição ao Nome Inefável, YHVH.

[2] Londres, Routledge, 1980.

[3] O dêuteron é o núcleo do deutério, constituído por um próton e um nêutron.

[4] David Peat, Infinite potential: the life and times of David Bohm, Reading, Addison-Wesley Publishing Company, 1996, p.64.

[5] Olival Freire Jr, Michel Paty e Alberto Luiz da Rocha Barros, “David Bohm, sua estada no Brasil e a teoria quântica”, Estudos Avançados, vol. 8, no 20, São Paulo, janeiro-abril de 1994.

[6] Carta a George Yevick, mencionada por David Peat, op. cit., p.155.O físico George Yevick foi o maior amigo de Bohm em Princeton. Isso não impediu que, em um contexto em que o “amor livre” e as “relações abertas” faziam parte do ideário da esquerda, Bohm se tornasse amante da esposa de George, Miriam. Mais ou menos na mesma época, ele manteve um namoro não muito bem sucedido com a bela e inteligente Hanna Loewy. Estudante de filosofia, tradutora de poesia alemã e futura diretora de cinema, Hanna era enteada do filósofo judeu-alemão Erich Kahler e filha de Lilly Kahler, uma austríaca de personalidade fulgurante que se acredita ter sido amante de Einstein. A casa dos Kahler, onde Bohm alugou um quarto, era um ponto de encontro da intelectualidade e recebia celebridades como Einstein, Wolfgang Pauli e Thomas Mann. No Brasil, Bohm vivenciou um sério bloqueio sexual e afetivo. Mais tarde, em Israel, casou-se com Sarah Woolfson, que foi sua companheira devotada até o final da vida.

[7] Depoimento pessoal ao autor. Publicado em José Tadeu Arantes, “Os anos brasileiros de David Bohm”, revista Globo Ciência, no 78, São Paulo, janeiro de 1998. Para uma abordagem muito mais aprofundada, ver Olival Freire Jr, “Science and exile: David Bohm, the hot times of the Cold War, and his struggle for a new interpretation of quantum mechanics”, Historical Studies in the Physical and Biological Sciences, vol. 36, no 1, Berkeley, 2005.

[8] Sob a entusiasmada liderança do dinamarquês Niels Bohr, a “Interpretação de Copenhague” resultou das contribuições de um grande número de excepcionais cientistas. Entre eles, Werner Heisenberg, Max Born, Pascual Jordan e Wolfgang Pauli. As “peças de resistência” desse modelo são o Princípio da Complementaridade, de Bohr, e o Princípio da Incerteza, de Heisenberg.

[9] Aquilo que o químico alemão Robert Havemann (1910-1982) chamou de “os piores e mais vulgarizados restos da pior filosofia” (Dialética sem dogma – São Paulo, J.Z.E., 1967).

[10] David Peat, op. cit., p.156.

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2 Comentários

  1. Excelente texto, emocionante! Não sabia da influência de Schoenberg na fase final dos trabalhos de Bohm.

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  1. Mário Schenberg: um renascentista nos trópicos « José Tadeu Arantes (Kabir)

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