Maimônides: o casamento da fé e da razão

Retrato tradicional e assinatura de Maimônides

 

Médico, filósofo e teólogo, ele desempenhou no seio do judaísmo um papel equivalente ao de Tomás de Aquino na Cristandade e ao de Averróes no Islã. E forneceu fundamento e estrutura para que sua comunidade sobrevivesse ao trauma do exílio.

 

Pessach, 4895: páscoa judaica do ano 1135 do calendário cristão. Nessa data auspiciosa, no bairro israelita da cidade de Córdoba, Espanha, nasceu aquele que seria uma luz para seus contemporâneos e um motivo de admiração para as gerações futuras: Moshe ben Maimon, cujo nome hebraico ficaria imortalizado na forma grega Maimônides. Médico, filósofo e teólogo, ele promoveu o casamento da fé judaica com o racionalismo aristotélico, desempenhando no seio do judaísmo um papel equivalente ao de Tomás de Aquino na Cristandade e ao de Averróes no Islã. Como líder espiritual, porém, a importância dele foi ainda maior, pois, enquanto o cristão e o muçulmano se dirigiam a populações protegidas por governos que, bem ou mal, professavam a mesma religião, Maimônides falava a uma comunidade exilada, cuja fortuna ou infortúnio dependiam criticamente da boa vontade alheia.

Jóia arquitetônica às margens do rio Guadalquivir, Córdoba constituía então um dos pólos da civilização islâmica. Enquanto Paris e outras capitais da Europa cristã não contavam com mais de 30 mil ou 40 mil habitantes, ela possuía já em torno de 300 mil a 400 mil e era, depois de Bagdá e do Cairo, a terceira maior cidade do Islã. Poucas vezes a Providência foi tão generosa com uma época e um lugar, pois presenteou a Córdoba dos séculos 11 e 12 com o supremo místico muçulmano, Ibn Árabi, com seu filósofo maior, Averróes, e com um poeta de primeira grandeza, Ibn Hazm. Na comparação com esses grandes nomes, Maimônides não foi um presente de menor proporção.

 

O impacto de uma catástrofe

 

Descendente de uma família ilustre, cuja árvore genealógica remontava ao rei Davi, ele era filho do rabino Maimon, que exercia o importante cargo de juiz na comunidade de Córdoba. Recebeu educação esmerada. Esta se pautava evidentemente pelo estudo religioso da Torá (a chamada Lei Escrita, que abarca os cinco primeiros livros da Bíblia – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) e do Talmude (o vasto corpo de interpretações e comentários rabínicos da Lei). Mas incluía também disciplinas profanas, como filosofia, matemática e astronomia. Por meio da leitura dos filósofos árabes, chegou a Aristóteles, sua principal referência fora do judaísmo.

Quando tinha 13 anos, uma catástrofe se abateu sobre o califado islâmico de Córdoba. A culta, refinada e tolerante dinastia dos Omíadas, cujo esplendor se alicerçava na coexistência pacífica entre muçulmanos, cristãos e judeus, foi derrubada do poder por berberes provenientes do norte da África, adeptos da seita do Almoádas, que professavam uma versão deturpada e fanática do islamismo. Aos israelitas, os conquistadores só ofereciam duas alternativas: converter-se ao Islã ou morrer. A família de Maimônides conseguiu escapar da cidade e, depois de vagar algum tempo pela Europa cristã, estabeleceu-se em Fez, no Marrocos. Apesar da saudade de sua terra natal, o período marroquino não foi infecundo para o jovem estudioso. Na Fez muçulmana, ele aprendeu medicina, redigiu os primeiros tratados filosóficos e, aos 23 anos, iniciou uma de suas obras maiores, o Comentário da Mishná. Também chamada de Lei Oral ou Segunda Lei, a Mishná é um conjunto de sentenças rabínicas, acumulado ao longo de quase quatro séculos, que constitui a base do Talmude.

Muitos membros da comunidade judaica marroquina haviam sido forçados a converter-se ao Islã, mas continuavam praticando o judaísmo na intimidade. Um intolerante rabino de fora do Marrocos escreveu, porém, uma carta, na qual chamava os judeus convertidos de “pecadores” e qualificava suas preces de “abominações”. Esse texto produziu um efeito devastador, fazendo com que vários israelitas abandonassem completamente a religião. O rabino Maimon e seu filho assumiram abertamente a defesa dos convertidos e a orientação espiritual da comunidade. A excessiva visibilidade acabou despertando, no entanto, as suspeitas das autoridades islâmicas, obrigando a família a deixar o país. Depois de uma breve estadia no sul da Síria, atual território de Israel, Maimônides e seus parentes fixaram-se no Egito, na localidade de Fostat, nas cercanias do Cairo. Aproximadamente na mesma época, vitimado por causas naturais, seu pai faleceu.

 

Médico na corte de Saladino

 

Como é hábito até hoje entre os judeus religiosos, estando o filho mais velho, Maimônides, consagrado ao estudo da Torá, coube ao irmão menor, Dovid, um negociante de pedras preciosas, cuidar do sustento da família. Em 1168, após uma década de trabalho, o sábio concluiu e publicou finalmente seu monumental Comentário da Mishná, escrito em árabe. A introdução a um dos capítulos contém seus famosos 13 princípios da fé judaica, que constituem, ainda na atualidade, uma espécie de Credo extra-oficial do judaísmo. Entre outras asserções, esses princípios proclamam a crença na unicidade de Deus, na origem divina da Torá e na vinda do Messias.

A felicidade quase perfeita desse período foi violentamente abalada no ano seguinte, quando, viajando com toda a fortuna da família, Dovid morreu em um naufrágio. Mergulhando em profunda depressão, Maimônides passou um ano inteiro de cama. Teve que se levantar para assumir, por meio do exercício da medicina, a responsabilidade pela manutenção material dos parentes. Em 1177, foi nomeado Nagid (Líder) da comunidade judaica de Fostat. E, durante a década de 1180, produziu sua obra máxima: a Mishneh Torah (Recapitulação da Torá), uma codificação de toda a tradição rabínica do Talmude. Ao contrário de seus demais textos, escritos em árabe, a Mishneh Torah, que se esparrama por 14 volumes, foi o único livro de Maimônides redigido em hebraico. A intenção dele, ao produzi-lo, era oferecer aos judeus um guia completo que, ao lado da Torá, pudesse orientá-los em todas as situações da vida, dispensando-os das intermináveis polêmicas acerca da interpretação da Lei. Essa boa intenção não impediu que ele fosse atacado pelos israelitas tradicionalistas, que o acusaram de, com sua obra, desviar as pessoas do estudo do Talmude.

Por volta de 1185, o grande sucesso no exercício da medicina fez com que ele fosse nomeado médico oficial da corte islâmica do célebre sultão Saladino. Sua vida tornou-se, então, extremamente atarefada. Como ele mesmo relatou a um de seus tradutores, deixava sua casa de manhãzinha e passava o dia no palácio, atendendo o sultão, as mulheres de seu harém, os numerosos filhos e vários altos funcionários. Se nada de excepcional o obrigasse a pernoitar no Cairo, regressava a Fostat à tarde, encontrando sua sala de espera sempre cheia de gente, judeus e não judeus, nobres e plebeus, amigos e desconhecidos. Depois de desmontar do animal e lavar as mãos, compartilhava com aqueles que o aguardavam sua única e breve refeição do dia, antes de se lançar a uma nova rodada de consultas médicas, que avançava noite adentro. Quando a maratona terminava, estava tão exausto que mal encontrava forças para falar. Só tinha tempo para os assuntos religiosos no Sabbath (sábado). Nesse dia, após o serviço matutino na sinagoga, a congregação inteira, ou ao menos a maioria de seus membros, se reunia na casa dele até o meio-dia, para receber instruções espirituais e estudar a Torá. Muitos retornavam depois do serviço vespertino e continuavam a ler com ele até o momento das preces noturnas.

 

A “Arca do Senhor”

 

O Rambam — como o chamavam os contemporâneos, a partir das iniciais de seu título e nome, Rabi Moshe ben Maimom — utilizou sua posição na corte para favorecer a comunidade judaica, tanto a do Egito quanto as de outras localidades, como o Iêmen. A rotina estressante não impediu que, por volta de 1190, ele produzisse a terceira de suas três obras maiores, o Guia dos Perplexos, na qual procura conciliar o judaísmo com a filosofia aristotélica. Embora não se afaste um milímetro da tradição, a obra provocou intensa oposição dos tradicionalistas. Entre outros motivos, por sua tentativa de oferecer explicações racionais para os Mandamentos.

Em seus textos filosóficos, buscando compatibilizar as verdades da fé com as verdades da ciência, Maimônides escreveu que, apesar da sua onipotência, Deus jamais violava as leis da natureza. E, ecoando Platão, afirmou que o termo “anjo”, tantas vezes utilizado pela Bíblia e o Talmude, era na verdade uma metáfora para designar os princípios arquetípicos a partir dos quais o universo inteiro fora estruturado. Em algumas questões fundamentais, porém, ele não hesitou em ficar com o judaísmo, em oposição a Aristóteles. Assim, sustentou, por exemplo, que o mundo não era eterno, como pretendia o filósofo grego, mas fora criado “do nada”, como ensina a Bíblia.

Também é profundamente judaica, com um forte tempero neoplatônico, sua idéia de que nenhum predicado é adequado para expressar a natureza de Deus. Embora todos os filósofos escolásticos cristãos sustentassem a mesma coisa, nenhum deles, ao escrever sobre a Realidade Divina, utilizou tão radicalmente como Maimônides a chamada “via negativa”. Apesar de admitirem, por exemplo, que o termo “eterno” fosse inadequado, eles não se incomodavam em subscrever frases do tipo “Deus é eterno”. Maimônides, ao contrário, como que emudecido diante da Presença Divina, não se atrevia a dizer mais do que “Deus não é não-eterno”. Não obstante, influenciou profundamente vários pensadores da Cristandade, como Tomás de Aquino, que conhecia, ao menos em parte, seu Guia dos Perplexos.

Quando o Rambam faleceu, no ano 4965 (1204, do calendário cristão), seu filho Avraham o sucedeu na posição de Nagid. A comunidade israelita do Egito observou três dias de luto e, citando um famoso versículo bíblico, os eruditos afirmaram: “A Arca do Senhor nos foi tomada”. Nos anos que se seguiram, entre os judeus de todo o mundo, se popularizaria a frase: “De Moisés (o profeta) a Moisés (Maimônides), jamais houve alguém como Moisés”.

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Este texto foi publicado originalmente como capítulo de meu livro Mestres, e não passou depois por revisão para adaptação às regras da última reforma ortográfica. Por isso, algumas palavras aparecem grafadas à maneira antiga.

 

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2 Comentários

  1. Artur Watt Filho

     /  31 de maio de 2013

    Muito bem escrito.
    Parabéns!

    Responder
  2. Muito Legal! Gostei muito!

    Responder

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