A Fraternidade Pitagórica

A Tetraktys, diagrama místico-matemático e principal objeto de contemplação da Fraternidade Pitagórica

Vestígios da tradição shivaísta no Ocidente

Em seu instigante livro, Shiva e Dioniso [1], Alain Daniélou (1907 – 1994) afirma que vestígios do culto shivaísta, cuja origem o intelectual francês faz recuar ao sexto milênio antes de Cristo, encontram-se disseminados por um vasto território, que alcança o Sudeste da Ásia, de um lado, e a Europa e a África, de outro. Esculpidos, gravados em pedra ou impressos em argila, esses símbolos compreendem:

  • o Lingam, o Pilar Fálico – uma representação não figurativa do Deus;
  • a figura de Pashupati – uma representação do Deus como o Senhor dos Animais;
  • a figura de Parvati – uma representação da Deusa como a Dama da Montanha;
  • a figura de Nandi, o Touro – a montaria (vahana) de Shiva e uma manifestação zoomórfica do próprio Deus;
  • a figura da Kundalini, a Serpente – a potência divina presente em nós e uma manifestação zoomórfica da própria Deusa [2].

Compreendem também a Suástica e a Estrela de Seis Pontas [3].

Em um sepultamento descoberto na antiga Iugoslávia, datado do quinto ou sexto milênio antes de Cristo, verificou-se que o morto havia sido cuidadosamente disposto em siddhasana, a postura dos iogues perfeitos. E esta seria mais uma prova de que, no período que chamamos de Neolítico, não apenas as formas exteriores do culto shivaísta, mas também suas práticas interiores, voltadas para a autorrealização, já haviam alcançado o Ocidente. Estes registros esparsos são especialmente veementes, pois, como lembrou Daniélou, o que chamamos de Idade da Pedra foi, na verdade, um período de perecíveis edificações de madeira. “Ainda existe em nossa época, na Índia e no Sudeste da Ásia, civilizações de madeira”, escreveu o estudioso francês, “e sabemos que, qualquer que seja o seu refinamento, elas praticamente não deixam vestígio”.

Zagreu (o Senhor dos Animais) e Cibele (a Dama da Montanha), o casal divino cultuado na ilha de Creta, correspondem sensivelmente a Shiva (na forma de Pashupati) e à sua consorte Párvati (a Princesa da Montanha, filha do Himalaia). Símbolos tipicamente shivaístas, como o Pilar Fálico e a Árvore Sagrada, o Touro e a Serpente, a Suástica e o Machado Duplo, também estão presentes nessa tradição. O labirinto, como espaço de iniciação espiritual, e a dança extática, destinada a levar os adeptos ao transe místico, são outros elementos que a religião cretense compartilhou com shivaísmo indiano.

O início da civilização cretense teria ocorrido por volta de 4500 a.C. e seu apogeu artístico foi alcançado entre 2800 e 1800 a.C.. O período compreendido em torno do ano 1400 a.C. corresponde à época da primeira destruição de Cnossos pelos aqueus. Esses conquistadores, vindos do Norte, incorporaram Zagreu e Cibele ao seu panteão. Zagreu foi identificado com Zeus (o Dyaus das primitivas línguas indo-européias, Senhor do Espaço ou Pai do Céu, de cujo nome deriva a palavra Deus). Cibele recebeu, entre outras, a denominação de Rhea (formada a partir do vocábulo grego reo, que significa “manar”, porque da Terra, identificada com a Deusa, provêm todas as coisas).

Mas, se o culto a essas divindades maiores foi de certa forma preservado, o mesmo não se deu com as realizações interiores da antiga tradição. Ao contrário do ocorreu na Índia, o ioga, a filosofia, as ciências e as artes de inspiração shivaísta praticamente desapareceram do território grego, delas sobrevivendo apenas frágeis vestígios nas tradições populares.

O influxo dionisíaco e a revitalização da cultura grega

Por volta do século VI a.C., ou pouco antes disso, uma divindade estrangeira, que guarda vários pontos de contato com o Zagreu cretense, foi introduzida na Grécia. Seu nome, Dioniso, parece derivar de uma contração dos termos Dyaus e Nisa, significando, portanto, o “Deus de Nisa”. Entre a Índia, a Leste, e a Líbia, a Oeste, e entre o Cáucaso, ao Norte, e a Arábia, a Sul, há mais de 10 cidades com esse nome. Talvez todas tenham recebido tal denominação por estarem ligadas ao culto de Dioniso. Em qual delas nasceu o Deus que iria fascinar o mundo grego? Daniélou sugere que ele talvez não tenha nascido em nenhuma, pois Nisa pode muito bem ser uma variação fonética de Nisah (Supremo), que é um dos 1008 nomes de Shiva.

As semelhanças mitológicas e simbólicas dos cultos de Shiva e Dioniso são, de fato, muito evidentes e constituem o tema central do livro de Daniélou. Mas, considerado o filho de Zeus, Dioniso identifica-se melhor com Murugan, o Filho, do que com Shiva, o Pai, como o demonstrou exaustivamente Patrick Harrigan, em seu brilhante ensaio “Dionysus and Kataragama: Parallel Mystery Cults” [4]. Embora reconhecendo o caráter precursor do trabalho de Daniélou, Harrigan critica, com razão, muitas de suas conclusões apressadas. Como atenuante, deve-se dizer que a complexidade do material mitológico com que se defrontou Daniélou predispõe realmente à confusão. Pois, nascido exclusivamente de Shiva, sem a participação do Princípio Feminino, Murugan é, de certo modo, uma réplica do próprio Deus Supremo, que se manifesta no mundo como o Eterno Adolescente [5]. Ele é o Filho, enviado pelo Pai, como Salvador. Os paralelos com tradição cristã saltam aos olhos – e não terminam aqui.

Tendo como símbolos a Lança (que representa a Kundalini-Shakti plenamente desperta e elevada ao longo do sushumna, o “canal central de energia sutil”) e a Estrela de Seis Pontas (que representa a integração de Shiva e Shakti, do Princípio Masculino e do Princípio Feminino, do que está “em cima” e do que está “em baixo”), Murugan é a deidade favorita dos siddhas, os chamados “iogues perfeitos”. E um de seus 1008 nomes é justamente Siddha Senapati, o Comandante dos Siddhas. Ele é também a deidade por excelência da Kali Yuga, a “Era dos Conflitos” em que, segundo alguns, estaríamos vivendo [6].

A dualidade entre Apolo (outro filho de Zeus) e Dioniso, que tanto impressionou o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), levando-o a cunhar os termos “apolíneo” e “dionisíaco”, o primeiro para expressar a serenidade, o segundo para expressar a exaltação, parece ser um desdobramento tardio dos atributos de Murugan. Como Filho Unigênito do Pai, ele enfeixa originalmente ambas as características. E a contradição entre elas explica alguns dos aspectos mais paradoxais de seu mito.

O influxo dionisíaco (ou, mais propriamente, apolíneo-dionisíaco) do século VI a.C. oxigenou o ambiente cultural grego, aplainando o terreno para suas maiores realizações. Seu primeiro grande fruto foi o surgimento, no próprio século 6 a.C., da Fraternidade Pitagórica. Em um momento em que, após longo divórcio, a ciência se reaproxima da espiritualidade, o exame da herança pitagórica adquire para nós extraordinária importância e atualidade.

A matematização do conhecimento

Os pitagóricos são comumente lembrados pelo chamado Teorema de Pitágoras [7]. Sua denominação não é exata, pois, em uma forma restrita (a de um triângulo retângulo cujos lados medem cinco, quatro e três unidades, respectivamente), ele já era conhecido pelos antigos em épocas muito anteriores a Pitágoras; a generalização do teorema, por outro lado, não foi obra do mestre, mas de seus sucessores [8].

De qualquer modo, o teorema de Pitágoras está longe de ser a principal contribuição da Fraternidade Pitagórica à ciência. Sua maior realização – aquela que modelou todo o pensamento científico posterior – foi a idéia de que, debaixo da superfície aparentemente desconexa de seus entes e fenômenos do mundo, a Realidade apresenta uma notável regularidade matemática. Daí deriva a possibilidade da matematização do conhecimento, alcançada posteriormente por disciplinas como a física e a química e ambicionada por outras, como a sociologia e a psicologia. Concordando com essa concepção ou discordando dela, todos os que vieram depois – de Platão e Aristóteles a Einstein e Niels Bohr – se moveram, contentes ou contrariados, no terreno epistemológico definido pelos pitagóricos. É pouco provável que haja, na longa trajetória do pensamento, outro exemplo de influência tão definitiva.

A contemplação da natureza matemática da realidade levou os pitagóricos a importantes descobertas em campos como a aritmética, a geometria, a ciência dos tons e harmonias musicais e a astronomia. Suas aquisições nesses domínios continuam a ser ensinadas aos estudantes de hoje, omitindo-se, muitas vezes, que o conhecimento expresso por elas foi adquirido há mais de 2500 anos. Vejamos suas principais contribuições.

1. Na aritmética, devemos aos pitagóricos muito do que sabemos sobre as propriedades dos números naturais – como, por exemplo, as noções de números ímpares e pares, e a possibilidade de se construir, a partir da série de números ímpares (1,3,5,7,9 etc), uma série de quadrados perfeitos (1,4,9,16,25 etc), bastando, para isso, repetir o primeiro termo da série, o número um, e somar sucessivamente a ele os termos seguintes (1; 1+3; 1+3+5, 1+3+5+7; 1+3+5+7+9 etc). Aliás, a própria expressão “número quadrado”, que empregamos correntemente, é de origem pitagórica.

2. Em geometria, entre outras conquistas, os pitagóricos descobriram que a soma dos três ângulos internos de um triângulo é igual a dois ângulos retos (180 graus). Aqui, sim, a descoberta parece ter sido realizada pelo próprio Pitágoras, como pretende a tradição de sua escola.

3. No domínio que se transformaria, muitos séculos mais tarde, na ciência da acústica, os pitagóricos constataram a relação numérica exata entre os intervalos harmônicos (e foi deles que herdamos a noção de harmonia) da música grega e os comprimentos das cordas e tubos dos instrumentos musicais.

4. Em astronomia, finalmente, eles nos legaram nada menos do que o sistema heliocêntrico, que afirma estar o Sol no centro das órbitas planetárias. Este modelo, baseado em outro, proposto no século V a.C. pelo filósofo pitagórico Filolau de Crotona, foi rigorosamente formulado no século III a.C. por Aristarco de Samos, o maior astrônomo da Fraternidade. Preterido pelas gerações posteriores em favor do sistema geocêntrico do grego-alexandrino Cláudio Ptolomeu (século II d.C.), que faz o Sol e os planetas girarem em redor da Terra, ele seria retomado apenas no século XV, por obra do astrônomo polonês Nicolau Copérnico. No tratado Sobre a revolução dos corpos celestes, Copérnico, que era cristão e padre, reconhece explicitamente a origem pitagórica de “seu” sistema.

É impossível compreender, porém, a unidade e o sentido destas e outras contribuições científicas sem levar em conta o caráter mais profundo da Fraternidade Pitagórica. Ela não foi uma corrente filosófica como outras que a sucederam ao longo da história. Foi, principalmente e antes de tudo, uma confraria religiosa, movida por intenso apelo místico. A palavra “religião” deve ser entendida aqui em sua acepção original, de “re-ligação”. Não estamos nos referindo a um sistema institucionalizado de dogmas e poder. Mas à busca de comunhão com o Divino; ao empenho por resgatar, em um nível mais elevado, a Unidade Primordial perdida. Nesta perspectiva, a atividade filosófica (e, por decorrência científica, pois não havia se operado ainda a divisão entre filosofia e ciência) era, para os pitagóricos, um meio de purificação e elevação espiritual, um modo superior de contemplação das essências divinas escondidas no mundo dos fenômenos.

Toda a especulação aritmética, geométrica, musical e astronômica dos pitagóricos deriva destes pressupostos. Se, para eles, a Realidade era matemática em seus estratos mais profundos, isto ocorria porque as formas matemáticas constituem padrões arquetípicos por meio dos quais a Divindade se manifesta nos entes e fenômenos do mundo. Números e figuras geométricas não eram, para os pitagóricos, criações humanas, decorrentes de abstrações realizadas pela inteligência a partir da observação da realidade material. Mas essências eternas, que precedem e modelam essa mesma realidade.

Daí o caráter fortemente qualitativo e simbólico da ciência pitagórica. De seu ponto de vista, as diferenças entre o número três e o número quatro ou entre o triângulo e o quadrado, por exemplo, não se restringem a uma simples questão de quantidade. Cada número ou figura geométrica expressa uma qualidade essencial inconfundível. As distintas qualidades, por outro lado, são, todas elas, modos de manifestação da Unidade Primordial, que não é outra coisa senão a própria Divindade. É a percepção desta “unidade na multiplicidade” que constitui o núcleo da noção de harmonia.

Vida cotidiana e ascese espiritual

Na própria Grécia, em escolas filosóficas como a Academia de Platão (427-347 a.C.) e o Liceu de Aristóteles (384-323 a.C.), iniciou-se a lenta e gradativa separação entre a especulação intelectual e as demais atividades humanas. Tal separação foi “legitimada” durante a Idade Moderna pelo sistema filosófico de René Descartes (1596-1650), que estabeleceu uma distinção absoluta entre o intelecto (res cogitans) e o corpo (res extensa). E chegou ao completo divórcio no mundo contemporâneo, onde encontramos a figura do intelectual egocêntrico, confinado no estreito mundo da razão, e completamente alienado das mensagens do corpo, da dinâmica das emoções, dos imperativos éticos e das inspirações espirituais.

Essas dissociações entre o corpo e o intelecto, o esforço cognitivo e a conduta moral, a atividade científica e a contemplação mística estiveram ausentes na tradição pitagórica, ao menos em seu período inicial, que se estendeu do final do século VI a.C. ao início do século IV a.C. Nele, a fraternidade pitagórica parecia-se muito menos com a imagem que temos atualmente de uma escola filosófica do que com as comunidades iogues da Índia. Como nos ashrams (eremitérios) indianos, a vida cotidiana dos pitagóricos era regida por rigorosas regras de alimentação, vestuário, comportamento sexual e conduta moral.

Exigia-se dos adeptos que não comecem carnes nem feijões, usassem roupas brancas e não vestissem trajes de lã, se abstivessem de práticas sexuais promíscuas, fossem humildes, leais e piedosos. A iniciação na fraternidade era marcada por um longo período de silêncio e o integrante devia manter o mais estrito segredo acerca de ensinamentos esotéricos (destinados apenas aos iniciados) da Tradição. Além da música e da filosofia, a contemplação de determinados símbolos matemáticos, como a Tetraktys, era considerada um meio de purificação da alma [9]. É bastante provável que, à semelhança dos iogues indianos, os pitagóricos também se utilizassem de certas práticas corporais e exercícios respiratórios como veículos para a elevação espiritual.

O sistema econômico da fraternidade correspondia àquilo que Marx e Engels chamaram de “comunismo primitivo”, não havendo propriedade privada dos meios de produção nem diferença de classe social entre os seus membros. Contrastando com as características patriarcais e até misóginas da sociedade grega, as mulheres eram admitidas e desfrutavam de alta consideração no interior da comunidade.

Um elemento-chave da tradição pitagórica, que modelou profundamente suas concepções e práticas, era a crença na transmigração da alma. Mediante sucessivas encarnações, a alma teria a oportunidade do aperfeiçoamento, podendo eventualmente libertar-se deste ciclo e alcançar a almejada união com o Divino. Todas as disciplinas ascéticas dos pitagóricos – e se incluem em tal classificação as especulações científicas, orientadas pela concepção de harmonia cósmica – tinham por meta essa progressão espiritual. Da transmigrarão da alma deduziram os pitagóricos a doutrina do parentesco de todos os entes, o que justificava, junto com outros motivos, sua interdição do consumo de carne e do uso de roupas de lã. O próprio Pitágoras afirmava lembrar-se de suas encarnações passadas, em uma das quais, diz a tradição, teria sido Eufórbio, ferido no peito durante a guerra de Tróia.

Pitágoras e a via acusmática de acesso ao saber

Possuímos poucos conhecimentos seguros acerca da biografia de Pitágoras. Tão poucos que alguns historiadores chegaram a considerá-lo um personagem lendário. Mas tal suposição foi descartada pela historiografia contemporânea. Pitágoras teria nascido na ilha de Samos, na Grécia, naquele extraordinário século VI a.C. que, segundo as datas fixadas por diferentes tradições, deu ao mundo grandes luminares do caminho espiritual: Zaratustra na Pérsia, Buda e Mahavira na Índia, Lao Tsé e Confúcio na China. Por volta do ano 525 a.C., transferiu-se para Crotona, na Magna Grécia (sul da Itália), lá estabelecendo sua comunidade. São-lhe atribuídas várias viagens, inclusive à Pérsia, onde – acredita-se – encontrou Zaratustra. Entre os numerosos poderes paranormais creditado a Pitágoras estava o da clariaudiência, capacidade de ouvir vozes e sons musicais originários de outras instâncias da Realidade, e inaudíveis para a percepção comum.

Nas descrições acumuladas ao longo das gerações pela Fraternidade, a figura de Pitágoras, intimamente associada à do deus Apolo, adquiriu traços semelhantes aos dos avatares (encarnações divinas) da espiritualidade indiana. Entre os elementos constitutivos da doutrina pitagórica, os estudiosos identificaram vestígios do xamanismo e, mais ainda, do orfismo (religião de caráter iniciático, decorrente de um desenvolvimento acentuadamente apolíneo do culto de Dioniso).

Do repertório do orfismo, teriam os pitagóricos recolhido algumas de suas principais concepções e práticas: a transmigração da alma, a possibilidade de evolução espiritual e união com o Divino, a iniciação rigorosa, o segredo em relação aos ensinamentos esotéricos, o vegetarianismo, a prescrição do uso de roupas brancas, a proscrição dos trajes de lã, a utilização da música com finalidades ascéticas. Praticamente todos esses elementos são encontrados também em tradições espirituais indianas do mesmo período, como o jainismo, codificado por Mahavira.

Durante o século V a.C., o pitagorismo disseminou-se por várias cidades do sul da Itália. Sua crescente influência política acabou provocando uma violenta reação popular, provavelmente instigada por chefes corruptos e demagogos, ameaçados em seus interesses econômicos e políticos pelos elevados valores morais da Fraternidade. Entre os poucos líderes pitagóricos que escaparam ao massacre, o principal foi Filolau de Crotona, que fugiu para a Grécia, lá formando pequenos círculos de adeptos, a partir dos quais o pitagorismo voltou a crescer.

O dom da clariaudiência, atribuído a Pitágoras, teria sido partilhado por vários de seus sucessores, de modo que, conforme a tradição pitagórica, grande parte dos conhecimentos da Escola foi adquirida por meio de tais comunicações sonoras (acusmas). A coexistência pacífica entre a via acusmática (mística) e a via matemática (racional) de acesso ao saber perdurou até o início do século IV a.C., quando a diferenciação entre as duas tendências provocou uma cisão na Fraternidade. A partir daí, o pitagorismo matemático foi quase todo absorvido pelo platonismo [10].

Um movimento neopitagórico teve início em meados do século I d.C., sobre a liderança de Apolônio de Tiana, que afirmava ser uma reencarnação do próprio Pitágoras. Desse novo surto de atividade, resultaria o surgimento, no século III d.C., da Escola Neoplatônica. Ainda mais do que o platonismo clássico, foram os neoplatônicos (Plotino, Jâmblico, Proclo e outros) que resgataram, junto com as contribuições filosóficas e científicas, a dimensão mística do pitagorismo original.

Ao longo dos séculos seguintes, a transmissão e o desenvolvimento desses conhecimentos foram assegurados, primeiro, pelo pensador cristão que ficou conhecido na literatura filosófica sob a alcunha de Pseudo-Dionísio Areopagita [11], e, mais tarde, pelos sufis muçulmanos [12]. Pelas mãos do Pseudo-Dionísio e dos sufis, o pitagorismo, o platonismo e o neoplatonismo impregnaram o monoteísmo semítico (judaico, cristão e islâmico), influenciando profundamente a filosofia, as ciências e as artes medievais. A consequência remota desse formidável esforço civilizatório foi chamada “Revolução Científica do Século XVII”, na qual se constituiu a ciência moderna.

Em um protagonista da revolução científica como o astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630) está ainda bem viva a consciência da ancestralidade pitagórica: suas geniais descobertas acerca do movimento planetário derivam de uma especulação mística sobre a estrutura matemática do Cosmo. Essa consciência, porém, se perdeu, na aridez espiritual instaurada pelo paradigma científico moderno. Do pitagorismo, a modernidade reteve apenas a tendência matematizante e as grandes descobertas científicas, despojadas da perspectiva metafísica que lhes dava unidade e sentido. Três séculos depois, a crise do paradigma moderno abre caminho para o reencontro da ciência com suas preciosas raízes espirituais.

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Uma primeira versão deste texto foi publicada como capítulo do meu livro Do xamã ao Prêmio Nobel. Esse material original passou, depois, por considerável revisão. Pretendi emendar, a este texto, uma segunda parte, dedicada aos neoplatônicos, continuadores e aperfeiçoadores da tradição pitagórica. Mas, ao reler o material que havia publicado sobre os esses gigantes do pensamento, constatei ser ele muito deficiente: fraco na apresentação da biografia e do pensamento de Plotino e abaixo da crítica no que se refere a Jâmblico e Proclo, dois filósofos fundamentais, para não falar em Damáscio. Então, resolvi estudar melhor os neoplatônicos antes de escrever – o que pode levar alguns anos.

[1] DANIÉLOU A. 1989. Shiva e Dioniso. São Paulo: Martins Fontes.

[2] Uma apresentação mais extensa da noção de Kundalini pode ser lida na nota [1] do texto “O Filho arquetípico e seu poder medicinal”, postado neste Blog em Espiritualidade / Conceitos.

[3] É uma terrível perversão da história o fato de a suástica ter sido utilizada, no século XX, pelo nazismo, uma ideologia que não possui qualquer vínculo com o shivaísmo, servindo de emblema para a perseguição ao povo judeu, que adotou a Estrela de Seis Pontas como símbolo religioso.

[4] Disponível em http://www.kataragama.org/research/dionysus.htm

[5] Murugan é “filho” apenas do Grande Deus, assim como seu “irmão” mitológico, Ganesha, é “filho” apenas da Grande Deusa. Cada qual é uma extensão, projeção ou clone de seu genitor exclusivo. Os dois “irmãos”, ora em harmonia, ora em conflito, constituem desdobramentos do mesmo arquétipo divino, o Filho Primordial. Uma apresentação mais extensa do assunto pode ser lida no texto “O Filho arquetípico e seu poder medicinal”, postado neste Blog em Espiritualidade / Conceitos.

[6] A ideia de yuga expressa uma concepção cíclica do tempo, segundo a qual, quatro grandes eras, de durações desiguais, mas todas elas extremamente longas, se sucederiam, em uma sequência recorrente. Essas quatro grandes eras são a Satya Yuga, a Treta Yuga, a Dvapara Yuga e a Kali Yuga, que poderiam ser associadas, respectivamente, à Idade do Ouro, Idade da Prata, Idade do Cobre e Idade do Ferro. A Kali Yuga, que, segundo várias fontes tradicionais, é a era atualmente em curso, seria a mais decaída das quatro idades, caracterizada por manifestações extremas de materialismo, egoísmo e degradação. Teria principiado em 18 de fevereiro de 3102 a.C., data da morte de Krishna, devendo se prolongar ainda por centenas de milhares de anos. Nem todos os mestres indianos aceitam, porém, essa datação. Sri Yukteswar Giri, guru de Paramhansa Yogananda, sustentou, com base em complicados cálculos astrológicos, que ainda não entramos na Kali Yuga, estando, de fato, em uma das fases da Dvapara Yuga. Opinião diametralmente oposta foi expressa por Sri Aurobindo Ghose. De acordo com esse gigante da espiritualidade, a Kali Yuga já teria terminado, havendo o mundo ingressado na Satya Yuga, mas as manifestações exteriores desta nova Idade do Ouro ainda levariam algum tempo para se tornar perceptíveis. Seguindo a inspirada afirmação de Aurobindo, concluímos que tudo aquilo que nos horroriza no mundo contemporâneo são os despojos veementes de uma era encerrada – algo como o corpo de um animal morto, que prossegue, todavia, empesteando o ar com sua putrefação. Por baixo desse cadáver nauseante, porém, uma nova e fresca era já teria nascido, e poderíamos percebê-la inspecionando nossos próprios interiores. O tema é fascinante e merece uma investigação muito mais aprofundada.

[7] Traduzido em linguagem moderna, tal teoreama afirma que, em qualquer triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa (o lado oposto ao ângulo reto) é igual à soma dos quadrados dos catetos (os lados adjacentes ao ângulo reto).

[8] Os babilônios sabiam que um triângulo de lados iguais a 3, 4 e 5 unidades possuía um ângulo reto (isto é, igual a 90 graus, que correspondem à quarta parte da circunferência). E que a área do quadrado construído sobre o lado maior era igual à soma das áreas dos quadrados construídos sobre os lados menores. Esse triângulo costuma ser chamado de “egípcio”, porém não temos provas de que os egípcios dos períodos mais antigos realmente o conhecessem. Os babilônios, porém, o conheciam, como provam inscrições de cerca de 1850 a.C. que se referem explicitamente a ele. O conhecimento desse triângulo foi o ponto de partida do Teorema de Pitágoras, que seria enunciado e demonstrado pelos gregos cerca de 1300 anos mais tarde. Essa grande realização matemática, obra da Fraternidade Pitagórica foi atribuída ao próprio Pitágoras, conforme o antigo costume de creditar ao mestre as principais contribuições dos discípulos.

[9] A Tetraktys tem a forma de um triângulo equilátero apontado para cima, composto por 10 pontos [veja a ilustração no alto da página]. Possui um ponto no vértice, dois na linha imediatamente abaixo, três na linha seguinte, e quatro na base. Se o triângulo for girado, de modo que qualquer um dos outros dois lados se torne a base, a mesma sequência, com um ponto, dois pontos, três pontos e quatro pontos, se manterá. Na especulação filosófica grega, o “um” era associado ao Deus Supremo (a unidade primordial), o “dois” ao Intelecto (que contempla Deus), o “três” à Alma (pois dá origem ao triângulo, a primeira figura geométrica fechada sobre si mesma), e o “quatro” à Matéria [caracterizada pelos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), pelas quatro direções (norte, sul, leste e oeste), pelas quatro estações (primavera, verão, outono, inverno) etc.]. O número 10, que resulta da soma 1 + 2 + 3 + 4, era considerado um número sagrado pelos pitagóricos (*)

(*) Pretendi acrescentar a esta nota a prece, altamente devocional, que os pitagóricos dirigiam à Tretraktys. Mas não consegui encontrar uma versão inteiramente confiável dessa breve e intensa invocação. E me pareceu incorreto traduzir tal fórmula, que os seguidores de Pitágoras consideravam tão sagrada, a partir de fontes duvidosas.

[10] Vale lembrar que o próprio Platão se definia como pitagórico, conforme deixa claro em vários de seus textos dialógicos. Aliás, existe uma forte relação de continuidade naquilo que se tornou a via principal de desenvolvimento da filosofia grega. As separações em etapas e escolas são um produto do pensamento contemporâneo. Os próprios gregos preferiam enfatizar as semelhanças ao invés das diferenças. Os filósofos mais tardios da escola neoplatônica, como um Damáscio (século V d.C.), por exemplo, consideravam-se continuadores de uma tradição milenar, que começava em Pitágoras ou antes, passava por Platão e Aristóteles, e incorporva as contribuições de Plotino, Jâmblico e Proclo, para citarmos apenas os nomes mais proeminentes dessa nobre linhagem.

[11] O epíteto Pseudo-Dionísio Areopagita nomeia um pensador ou conjunto de pensadores sírio-bizantinos do final do século V ou início do século VI, responsável ou responsáveis pelo conjunto de tratados, escritos em grego, que ficaram conhecidos, a partir da tradução latina, como Corpus Areopagiticum. Esses tratados foram atribuídos, inicialmente, ao Dionísio do século I, convertido no Areópago pelo apóstolo Paulo, investido do cargo de primeiro bispo de Atenas e, mais tarde, canonizado pela Igreja. Cedo, porém, se verificou que tal atribuição era falsa. Daí o autor ou autores ser ou serem alcunhados como Pseudo-Dionísio. O Corpus Areopagiticum funde um cristianismo ainda jovem com um pensamento neoplatônico maduro (Proclo, Damáscio). A influência neoplatônica é tão forte que alguns estudiosos chegaram a afirmar que o chamado Corpus Areopagiticum havia sido composto, apocrifamente, pelo próprio Damáscio. Essa obra magistral influenciou profundamente toda a filosofia, a teologia e a mística medievais, nas suas três vertentes, judaica, cristã e muçulmana. A partir das versões francesa e inglesa do original grego, traduzi para o português um dos mais sublimes tratados do Corpus Areopagiticum: A Teologia Mística, que pode ser acessada, neste Blog, na seção Traduções.

[12] Informações sobre o sufismo podem ser encontradas, neste Blog, no texto “Para entender o Islã” (seção História) e, também, nos perfis de Ibn Árabi, Rumi e Kabir, postados na seção Espiritualidade / Mestres.

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