O Filho arquetípico e seu poder medicinal

O siddha Boganathar produz, por meios alquímicos, a estátua de Murugan (imagem popular do Tamil Nadu, Índia).

O pecado original e a doença de fundo do homem é a ilusão da separação. Abrindo os olhos, emergindo, graças ao Poder da Serpente [1], da inconsciência edênica, que nos fazia inocentes como qualquer animal, iniciamos nosso longo e árduo processo de individuação. A capacidade diferenciadora, propiciada pela Árvore do Conhecimento [2], permitiu que nos distinguíssemos na Totalidade Indivisa. Mas o uso abusivo dessa função – tal é o fruto proibido – fez com que nos víssemos como uma realidade em si mesma, separada do Todo. E tivemos vergonha de nossa nudez. Reduzindo o Todo à condição de uma coisa entre outras coisas, chegamos a negá-lo, e finalmente nos esquecemos dele. Aí ocorreu nossa queda. Não por termos sido expulsos do Éden, mas por havermos expulsado o Éden de nós.

A perda de contato consciente com o núcleo totalizante da existência propiciou o tríplice divórcio que presenciamos hoje: da humanidade com a natureza, dos homens entre si, do indivíduo consigo mesmo. Esquecidos do fio que nos liga à grande teia cósmica, engajamo-nos em um funesto processo de hipertrofia do ego, que agora põe em risco nossa própria sobrevivência.

O Filho é o enviado do Pai que, oferecendo em si mesmo a visão da totalidade, possibilita que nos reintegremos no Todo. “Ninguém jamais viu a Deus. O Filho unigênito, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer” [3]. Ele é o selo do Criador, o princípio totalizante, desde sempre presente no espírito humano. A relação com o arquétipo do Filho constitui o processo curador que permite ao homem superar sua doença e reencontrar o equilíbrio, a unificação e a renovação.

Doença de fundo, remédio de fundo

A totalidade da existência, com sua multiplicidade de entes e eventos, é o desenrolar do drama divino. Ao longo de sucessivas vidas, representamos nele vários papeis. Como bons atores, devemos nos esforçar por representá-los da melhor maneira possível, sem jamais nos confundirmos com eles. Os papéis se trocam e a fortuna ou o infortúnio são posições intercambiáveis no jogo cósmico.

Por meio do sublime Satguru, a graça do Filho derrama-se incessantemente [4]. Mas é preciso estar completamente acordado, atento às menores pistas, para poder percebê-la [5]. Não nos prendamos à aparência ilusória dos acontecimentos: em nenhum momento, mesmo quando nos angustiamos acreditando experimentar a maior solidão, estamos realmente sozinhos. “Racha um pedaço de madeira e eu lá estou”, disse Jesus. “Levanta uma pedra e lá me encontrarás” [6].

A doença do homem é a doença de cada ente humano e a fonte de todos os seus transtornos. Constelada em situações concretas de aparente abandono, a ilusão da separação produz uma ferida duradoura na estrutura psíquica. Esta, por sua vez, engendra elementos secundários, seja como desdobramentos de si mesma, seja como mecanismos de compensação. Como antítese de um saudável atributo original, cada chakra recebe sua porção de miséria.

No muladhara, instala-se a gula (ou outras formas equivalentes de compulsão). No swadhisthana, a lubricidade (e as perversões sexuais que dela, eventualmente, derivam). No manipura, o medo. No anahata, a raiva. No vishudda, a mágoa. No ajna, a negatividade. Esses seis venenos se conjugam para compor a imagem de uma criança ferida, que nos sentimos condenados a carregar nos braços. Quanto nos custa carregar essa criança infeliz! Não poderíamos transmutá-la no resplandecente Bala Murugan [7], cheio de contentamento, vitalidade, coragem, amor, alegria e conhecimento?

Se pudermos compreender [8] que estamos, desde sempre e para sempre, nos braços da Divindade onipotente saberemos que não há o que temer. Estar nos braços de Deus ou carregar Deus nos braços: que diferença existe? Percebamos as incessantes manifestações da Graça. Consideremo-nos merecedores delas. Aprendamos a fruí-las com gosto. Estabilizemo-las como um fogo interior. Ofereçamos os seis venenos em sacrifício a esse fogo, fazendo-o queimar ainda mais intensamente. E vejamos nascer dele as seis virtudes da Criança Divina. Ancoremos esses atributos em nossos chakras, fazendo deles o núcleo de nossas verdadeiras identidades.

O reino está dentro de nós e também à nossa volta [9]. Nosso verdadeiro Eu é o Cristo alquímico, o Puro Cristal, a Pedra da Transmutação, não o pequeno eu, com suas fraquezas e artimanhas. Possa o arquétipo do Filho, que jorra em nossos corações como água da vida, proporcionar-nos a cura e a autorrealização.

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Notas

 

Escrevi, inicialmente, este texto para mim mesmo, sem intenção de publicá-lo. Depois percebi que aquilo que me era útil poderia também interessar a outras pessoas. E desenvolvi o material, acrescentando-lhe as notas explicativas, com o intuito de aumentar a inteligibilidade de certas passagens. Muito do que aqui é dito tem o aval da tradição, mas há também afirmações que traduzem apenas o meu ponto de vista, podendo, com maior motivo, ser contestadas.

A imagem postada no alto desta página é uma representação popular de um episódio famoso da vida do siddha (iogue perfeito) Boganathar. Nela, o grande mestre aparece confeccionando a prodigiosa estátua de Murugan (o Filho arquetípico), que até hoje se encontra instalada no “santo dos santos” do Templo de Palani, no sul da  Índia. Diz a tradição que Boganathar produziu essa estátua por meios alquímicos: com 4448 ervas raras, compôs nove poções diferentes; misturou oito delas no molde; e utilizou a nona como catalisador. Essa estátua, objeto de intensa devoção, já foi submetida a vários estudos científicos, inclusive a espectrofotometria de absorção atômica, e jamais foi possível identificar o material de que é constituída. O líquido resultante dos abhisheka, as lavagens rituais da estátua, realizadas dezenas de vezes por dia, todos os dias, é utilizado pelos devotos como remédio para todos os males.

[1] A serpente bíblica simboliza a Kundalini, a “potência divina” presente em cada ente humano. Essa “força” parece desempenhar um papel decisivo no processo de nascimento, quando o parto é natural, dirigindo o movimento de saída do feto; depois, torna-se latente; e só volta a atuar, na maioria dos casos, no momento da morte, quando promove o desprendimento dos corpos sutis. Inativa, ela é visualizada, pelos clarividentes, como uma serpente, enrodilhada três vezes e meia em torno de um lingam (pilar fálico) de cristal, e adormecida no muladhara, o chakra (centro sutil) básico, localizado embaixo da coluna vertebral, na região do períneo, entre os genitais e o ânus. No entanto, a prática intensiva do ioga pode despertar a Kundalini e fazê-la subir pelo sushumna, o nadi (canal sutil) existente no interior da coluna. Em sua ascensão, a Kundalini ativa, sequencialmente, os vários chakras dispostos ao longo do trajeto. O resultado é uma formidável expansão da consciência e dos poderes do indivíduo.

A Kundalini é uma manifestação da Shakti, o aspecto feminino e imanente de Deus. Sua contraparte é Shiva, o aspecto masculino e transcendente, que, no microcosmo humano, “reside” no chakra sahasrara, situado no topo da cabeça. Quando, ao termo de sua escalada, a Kundalini alcança o sahasrara, diz-se que ocorre aquilo que os antigos gregos chamaram de Hieros Gamos, o casamento místico de Shiva e Shakti. O iogue entra, então, em samadhi: um estado de superconsciência e intensa comunhão com a Divindade.

O mito da serpente, em sua versão patriarcal e tardia, consignada na epiderme do livro do Gênesis, estigmatiza a Kundalini, como estigmatizada foi a grande deusa Asherah, manifestação da Shakti, e portadora da serpente. Mas, nas próprias entrelinhas do texto bíblico, fica claro que é a Kundalini que possibilita a Adão e Eva, os míticos genitores da espécie, emergir da animalidade e, mediante o poder nomeador, constituir-se como humanos.

[2] A Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento, as duas árvores que o livro do Gênesis afirma haverem sido plantadas no Jardim do Éden (Gn 2, 9), situam-se, no microcosmo humano, respectivamente, no corpo vital, ou corpo de prana (pranamayakosha), e no corpo mental, ou corpo de manas (manomayakosha). A descida e o enraizamento da Árvore da Vida promoveu a primeira grande revolução cósmica: o surgimento, no seio da matéria inanimada, de entidades vivas. Posteriormente, a descida e o enraizamento da Árvore do Conhecimento promoveu a segunda grande revolução cósmica: o surgimento, no seio da matéria viva, de entidades mentalizadas. Ao comerem o fruto proibido da Árvore do Conhecimento, Adão e Eva, os ancestrais simbólicos da espécie, transcenderam a animalidade e conquistaram a condição humana.

Embora pareçam duas, a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento – juntamente com outras tantas árvores, que o texto bíblico não menciona, pelo motivo de ainda não terem deitado raízes no solo ingrato da humanidade – constituem, de fato, diferentes manifestações da mesma entidade arquetípica, a Árvore Sefirótica, que Moisés vislumbrou como um arbusto que ardia sem se consumir na epifania do Monte Horeb (Ex 3, 2-5).

A Árvore Sefirótica constitui o arcabouço de cada um dos cinco corpos humanos. Sua rede de nadis e chakras é facilmente perceptível no corpo vital (pranamayakosha). Mas ela também subjaz, de distintas maneiras, os demais corpos: o físico (annamayakosha), o mental (manomayakosha), o intelectual (vijnanamayakosha) e o espiritual (anandamayakosha). E configura, ainda, a interface entre esses mesmos corpos: um sistema de diques e eclusas, no qual cada sefirah define um portal entre diversos níveis de consciência e diferentes instâncias da realidade.

[3] Conforme o famoso prólogo do Evangelho de João (Jo 1, 18). Penso que um dos enganos do cristianismo exotérico (a religião institucionalizada), em contraste com o cristianismo esotérico (a espiritualidade mística), é confundir o Cristo cósmico com o Jesus histórico. O Filho unigênito é o Cristo cósmico. O grande mestre Jesus realizou plenamente esse arquétipo. Mas a descida da Divindade à carne não constitui um fenômeno singular, para sempre circunscrito à Palestina do século I. É, isto sim, uma necessidade recorrente e irresistível.

Não pode ser outro o sentido da extraordinária frase de Paulo em sua Epístola aos Gálatas: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo. É o Cristo que vive em mim” (Gl, 2: 20). A interpretação esotérica da afirmação do apóstolo é a de que, após anos de completa entrega, ele havia deslocado seu senso de identidade do “pequeno eu” (o ego) para o “grande Eu” (o Cristo). Totalmente identificado com essa instância maior, já não era o ego, mas o próprio Cristo que pensava, falava e agia por meio dele.

O que Paulo realizou, e, mais ainda, iogues perfeitos como Babaji realizaram, todos nós estamos destinados a realizar, mesmo que, para tanto, tenhamos que morrer e renascer milhares de vezes. O Filho é nosso verdadeiro Eu, o “Ponto Ômega” da evolução, conforme o concebeu magistralmente Teilhard de Chardin (1881 – 1955). Alguém já disse, com muita propriedade, que Jesus não nasceu, ensinou, realizou prodígios, sofreu, morreu e ressuscitou para nos tornar cristãos, mas para nos tornar Cristos.

[4] A palavra “guru” significa, literalmente, “aquele que dissipa as trevas”. Antes de se referir a um ente humano particular, esse termo nomeia um princípio arquetípico de orientação, que corresponde ao que alguns chamaram de “eu profundo” ou “mestre interior”. Trata-se daquela voz calma e sábia que se pronuncia em nosso íntimo quando conseguimos aquietar o ruidoso e quase sempre inútil falatório da mente ordinária. Ou que se manifesta por meio da inspiração genuína, insights, sincronicidades, imagens simbólicas, sonhos altamente significativos e tantos outros modos. O Princípio do Guru (Guru Tattva) pode se materializar, com maior ou menor perfeição, em um indivíduo específico, um guru de carne e osso. Quando esse indivíduo se torna um mestre inteiramente realizado – isto é, quando por seu intermédio já não é o ego que se manifesta, mas o próprio Deus – ele ou ela recebe a denominação de Satguru. Aqui, o título Satguru refere-se especificamente ao incomparável Babaji.

[5] Conforme as palavras de Babaji ao grande discípulo Neelakantan, registradas no livro The Voice of Babaji.

[6] Evangelho de Tomé, logion 77.

[7] Murugan, o filho mitológico de Shiva, é a manifestação por excelência do arquétipo do Filho (*). Se a Shiva está associado o número cinco e a estrela de cinco pontas, emblemas das cinco atividades divinas (a criação, a manutenção e a dissolução do cosmo, o obscurecimento e o esclarecimento da consciência), Murugan, herdeiro das cinco potências do Pai, a estas acrescenta uma sexta: a de ser “aquele que olha para baixo”, isto é, aquele que, compadecendo-se do sofrimento humano, desce ao mundo como salvador. Seu yantra, ou diagrama místico, é a estrela de seis pontas, intersecção do triângulo ascendente (símbolo do poder masculino, condensado no lingam, o pênis) e do triângulo descendente (símbolo do poder feminino, condensado no yoni, a vagina). No esoterismo ocidental, tal figura recebe o nome de Estrela de Davi ou Selo de Salomão.

Enquanto Shiva, o Pai Primordial, “reside” no chakra sarashara, no topo da cabeça, e Shakti, a Mãe Primordial, “reside” no chakra muladhara, na base do tronco, Murugan, o Filho Primordial, “habita” o chakra anahata, situado no centro do peito, na posição correspondente ao osso esterno. Ocupando o posto médio na coluna dos sete chakras principais, com três chakras acima e três chakras abaixo, o anahata, cidadela de Murugan, enfeixa todas as potencialidades do humano e associa-se principalmente ao sentimento do amor. A iconografia cristã, especialmente a magistral pintura de El Grego, captou esse conhecimento com perfeição, nas representações de Jesus com a mão direita pousada no centro do peito.

Conhecido por 1008 nomes diferentes, entre eles, Sanat Kumara (Eterno Adolescente), Jnana Pandita (Expositor da Sabedoria) e Kali Yuga Varada (Aquele que Abençoa e Protege os que Buscam sua Graça na Era dos Conflitos – a época em que vivemos), Murugan recebe, quando representado na forma infantil, a denominação Bala Murugan. Bala Murugan, a Criança Divina, na qual Jung reconheceu a representação privilegiada do arquétipo do Self (o Grande Eu), corresponde, no imaginário cristão, à encantadora figura do Menino Jesus.

(*) Na mitologia shivaísta, há dois filhos: Ganesha, o filho mais velho, nascido da Deusa, sem a participação do Princípio Masculino; e Murugan, o filho mais novo, nascido do Deus, sem a participação do Princípio Feminino. Cada um deles é uma espécie de clone de seu genitor exclusivo. Ganesha está associado aos conhecimentos e atividades exotéricos (daí ser-lhe creditada a invenção da escrita), ao passo que Murugan está associado aos conhecimentos e atividades esotéricos (sendo ele o supremo mistagogo e o Siddha Senapati, “Comandante dos Iogues Perfeitos”). A relação, ora conflituosa, ora harmoniosa, entre os dois irmãos, é tema de saborosas lendas, de tom folclórico, condensadas nos textos dos Puranas. Os dois irmãos são, obviamente, desdobramentos e polarizações do mesmo arquétipo divino. Na mística cristã, os atributos de Ganesha e Murugan encontram-se sintetizados no Cristo.

[8] Compreender não apenas mentalmente, mas como uma experiência capaz de nos perpassar de alto a baixo e ancorar-se em nossos interiores.

[9] Conforme o Evangelho de Tomé, logion 3.

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