Kabir, o tecelão da palavra

Para a humanidade, que tateia no escuro, os grandes mestres espirituais são como lampejos de luz, que iluminam momentaneamente o cenário, e sinalizam o caminho. Homens e mulheres que buscaram e alcançaram, credenciam-se a conduzir pelas mãos os que vêm atrás. Assim foi Kabir, o grande poeta indiano do século XV. Iletrado, produziu uma obra poética que surpreende até hoje pela genialidade; crítico ferino da religião institucionalizada e acusado de heresia, foi reconhecido como santo pelo hinduísmo, o islamismo e o siquismo; irreverente até o limite da insolência, tornou-se um guia consumado do ioga e do sufismo. Tecelão e sábio, Kabir desafia os rótulos e as classificações.

Como outros grandes mestres do passado, seu rosto imerge da veladura dos séculos como uma imagem difusa no meio da névoa. Existem inúmeras lendas a seu respeito, uma mais fantástica do que a outra. Mas sua biografia não lendária resume-se quase que somente a um nome, por trás de uma obra poética cuja própria autenticidade chega a ser, às vezes, contestada. Os poucos dados verossímeis proporcionam, aos especialistas, farto material para intermináveis controvérsias.

Poeta oral, declamou ou cantou sua poesia na cidade santa de Varanasi (Benares). Os que a ouviram, transmitiram-na de boca a boa, antes que ela fosse reunida em diferentes coleções e fixada por escrito em vários idiomas – tantos que, para verter uma amostra minimamente representativa da produção kabiriana ao inglês, um erudito contemporâneo precisou traduzir material de nada menos do que 11 línguas: sânscrito, árabe, farsi, híndi, urdu, avadhi, bhojpuri, braj bhasha, rajasthani, khadi boli e punjabi [1].

Essa poesia, solvente como o alkahest dos alquimistas, capaz de decompor e arrastar todas as impurezas, atuou e atua como um poderoso princípio medicinal, expurgando da mente humana o medo, a pequenez e o preconceito, e abrindo espaço para a manifestação da vasta realidade supramental [2].

O tempo, o lugar e as pessoas

Kabir! Por trás do nome, buscamos o homem. Porém não é fácil encontrá-lo. Como tudo que lhe diz respeito, seus locais exatos de nascimento e morte são disputados. Mas isso não deve nos surpreender. Assim como ocorreu com outros homens e mulheres ilustres, é compreensível que diversas cidades chamem para si a glória de ter trazido à luz ou de ter subtraído dela o poeta. Ao menos quatro construções diferentes – um dargah (mausoléu islâmico destinado a acolher os restos mortais de um grande sufi) e três samadhi mandirs (monumentos hinduístas destinados a reverenciar os locais dos mahasamadhis dos grandes iogues) – assinalam os lugares onde o mestre teria supostamente exalado seu último suspiro ou sido enterrado [3].

Onde quer que tenha iniciado ou finalizado a vida, é certo que passou a maior parte dela em Varanasi, também conhecida pelos nomes de Benares e Kashi. Segundo a tradição, esse renomado núcleo urbano, antigo ao ponto de ser citado no Rig Veda, no Ramayana e no Mahabharata, foi fundado pelo próprio deus Shiva, há milhares de anos. Intimamente associada ao Ganges, e famosa por seus ghats (escadarias) e shmashanas (crematórios) nas margens do rio, Varanasi é uma das sete cidades sagradas do hinduísmo.

Apesar de a poesia de Kabir ser inteiramente voltada para a dimensão espiritual da existência, a realidade física de Varanasi e a proximidade sensível do Ganges perpassam seus versos. Neles, podemos “ouvir” o burburinho das ruas cheias de gente e “ver” a superfície do rio encrespar-se nos dias de tempestade. Por meio desses versos mágicos, e com um forte esforço de imaginação, capaz de abstrair do cenário atual o caos urbano da Índia moderna, tentemos reconstruir mentalmente a cidade dos tempos do poeta, quando esta se encontrava sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206 – 1526), que controlou uma vasta porção do norte indiano, antes de ser submetido pelo também muçulmano Império Mughal (1526 – 1857).

Então, como agora, Varanasi se notabilizava por dois tipos de atividade: a tecelagem e a religião. Tecidos quase transparentes de tão finos ou ricamente bordados com fios de ouro e ornamentados com pedras preciosas faziam a fama de seus artesãos. E, nos festivais religiosos, especialmente no mahashivaratri, a grande noite de Shiva, multidões de devotos e peregrinos se aglomeravam nos ghats para o banho ritual no Ganges.

O mahashivaratri continua a ser celebrado anualmente em uma data móvel, calculada com base no calendário lunar. Tivemos a oportunidade de participar dessa comemoração em 2010, durante a kumbha mela [4] de Haridwar. Separados de Kabir pela blindagem do tempo, nossa experiência nos ajuda a imaginar como podem ter sido esses festivais nos tempos do poeta.

Segundo a contagem oficial, 8 milhões de peregrinos afluíram a Haridwar no mahashivaratri de 2010. E, no rigor do inverno norte-indiano, as atividades foram iniciadas, na véspera, com as marchas de milhares de ascetas inteiramente nus. Com seus corpos cobertos de cinzas, cabelos emaranhados que chegavam à cintura e barbas espessas que desciam até o meio do peito, pesados rosários pendurados no pescoço, e tridentes ou espadas nas mãos, esses sadhus constituíam espetáculos impressionantes [5]. Atrás deles, incontáveis multidões, com bandas de música, passistas, carros alegóricos, cavalos e até elefantes, compunham cortejos alegres e multicoloridos, que mais pareciam desfiles carnavalescos do que aquilo que um tristonho e cinzento Ocidente convencionou serem procissões religiosas. Os participantes se espalharam depois por vários acampamentos, para cumprir o jejum diário e a vigília noturna, com entoações de mantras (sílabas místicas) e bhajans (cânticos devocionais) em volta de fogueiras, até o irromper do dia seguinte, quando todos voltaram a se juntar no vários ghats da cidade, para a imersão nas águas geladas do Ganges [6].

Embora possam ter suscitado a crítica e a condenação dos religiosos convencionais, essas manifestações exuberantes e heterodoxas parecem ter sido bem aceitas pelas autoridades islâmicas, cuja flexibilidade fazia do Sultanato de Delhi um vasto mosaico multiétnico e multirreligioso, no qual seguidores das mais diversas tradições espirituais podiam coexistir em relativa harmonia. Esse ambiente tolerante e inclusivo seria mantido pelo esplêndido Império Mughal até datas bem tardias – mais especificamente até o desastroso reinado de Aurangzeb (1618 – 1707) [7].

Mas isso tudo aconteceu muito depois Kabir. A época exata em que viveu o poeta é outro tema disputado pelos estudiosos. Os kabirpanthis [8], que atribuem ao mestre um período de vida extraordinariamente longo, de 120 anos, afirmam que ele nasceu em 1398 e morreu em 1518. Existências extensíssimas, e até mesmo a imortalidade física, pontuam as biografias ou as lendas de muitos grandes iogues. Mas os pesquisadores acadêmicos, que adoram tornar o mundo rotineiro e aborrecido, acharam que 120 anos era tempo demais. E resolveram abreviar a duração da vida do poeta. Porém, se todos estavam de acordo em relação ao corte, as opiniões se dividiram quanto ao que cortar. No arco compreendido entre 1398 e 1518, vários intervalos menores foram propostos, todos eles com ótimas justificativas, que não levaram a conclusão nenhuma. Neste breve perfil, basta reter que o poeta viveu no século XV, ainda nos tempos do Sultanato de Delhi.

Como ocorre ainda hoje, a ostentação religiosa era um traço característico daquela época. Esse vício comportamental sempre foi criticado pelos grandes mestres. É bem conhecida a passagem do Evangelho de Mateus em que Jesus ensina seus seguidores a orar em segredo, a portas fechadas, e não em locais de grande visibilidade, como faziam os hipócritas [9]. No tempo e no lugar em que viveu Kabir, o exibicionismo da fé esteve em voga tanto no meio hinduísta quanto no meio muçulmano. Ostentar piedade religiosa em público era um modo fácil e relativamente barato de conquistar status social. O poeta ironizou e fustigou tal comportamento em seus versos. Mas, ao lado dessa religiosidade epidérmica e falastrona, houve igualmente, naquele contexto, um movimento de interiorização espiritual profundo e sincero. Não foi à toa que a fundação ou codificação do siquismo pelo guru Nanak (1469 – 1539) tenha ocorrido em tal ambiente. Kabir, reivindicado como precursor pelos siques, foi, em grande medida, um produto desse impulso místico, e, ao mesmo tempo, aquele que mais profundamente o influenciou.

As duas tradições que melhor expressaram essa tendência centrípeta e espiritualizante foram o bhakti ioga (o caminho devocional hinduísta) e o sufismo (a espiritualidade interior muçulmana). Ambas elegeram o amor místico como via privilegiada de acesso ao Divino. E a poesia amorosa como forma preferencial de expressão. Já antigos naquele tempo, o bhakti ioga e o sufismo viveram um auge no período medieval. Para a confluência de ambos, o Sultanato de Delhi era o meio propício; Varanasi, a cidade adequada; e Kabir, o homem certo no lugar certo. O amor místico permeou seus versos, fazendo-o escalar alturas poucas vezes igualadas na paisagem da poesia devocional.

O encontro com o Destino

Segundo a tradição, Kabir nasceu em uma família hinduísta da casta dos brâmanes (sacerdotes). Porém, viúva e empobrecida, sua mãe o abandonou na mais tenra idade. E ele foi adotado e educado por um casal de muçulmanos pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima, que, sem poderem ter filhos, rezavam a Allah, pedindo por um. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica dominava a produção e o comércio de tecidos finos na Índia. E sua mestria, tanto no desenho e na confecção das peças mais elaboradas quanto na arte da pechincha e do regateio na hora de vendê-las, era uma herança transmitida de geração a geração. Nomeado Kabir (“Grande”, em árabe), que é um dos 99 nomes de Deus mencionados no Corão, o menino recebeu, dos pais adotivos, o afeto, o ofício e a religião.

A fértil imaginação dos devotos criou várias lendas para explicar como esse órfão pobre, de baixa condição social, e ainda por cima muçulmano, veio a se tornar discípulo do célebre santo e sábio hinduísta Ramananda. A menos verossímil, porém mais interessante, diz que Kabir encontrou seu mestre, ou foi encontrado por ele, quando ainda era criança. Conforme o relato, havia, na época, um costume que possibilitava a qualquer indivíduo ser aceito no seleto círculo de seguidores de um grande instrutor espiritual. Bastava que, em um determinado dia do ano, esse mestre pronunciasse sobre a pessoa em questão o nome divino. O episódio teria ocorrido em uma dessas datas auspiciosas. Nessa ocasião, como fazia diariamente, Ramananda desceu bem cedo as escadarias do Ganges, para o banho ritual no rio sagrado. Qual não foi sua surpresa quando, ainda na escuridão que antecede o amanhecer, sentiu uma pequena mão lhe agarrar o pé. Espantado, o santo deu um passo para trás, e pronunciou em voz alta seu nome favorito de Deus: “ó Ram!” Fixando o olhar, percebeu que aquela mãozinha vinha de um braço no qual estava tatuado, em caracteres arábicos, a palavra Kabir. Imediatamente, entendeu que o Destino colocara aquele menino em seu caminho. E que era um dever espiritual recebê-lo em seu ashram (eremitério).

Outra versão, mais plausível, afirma que Kabir já era moço quando procurou a tutela do mestre. Tendo morrido seu pai adotivo, ele o substituíra como arrimo de família, tecendo e vendendo os panos que asseguravam o magro sustento da mãe e de si mesmo. Durante o trabalho, porém, entrava frequentemente em êxtase e, com a atenção absorta no Divino, fabricava peças fora do padrão ou ficava à mercê de ladrões quando as expunha no mercado. Sua exuberante vocação espiritual precisava ser disciplinada por meio de uma prática ióguica rigorosa. E o jovem místico foi buscar essa orientação com Ramananda, que o acolheu afetuosamente assim que ouviu sua demanda.

As duas versões convergem em um ponto: Kabir não foi aceito com boa disposição pelos discípulos do mestre. Ao contrário, com a mente atulhada por ridículos preconceitos de casta, muitos deles, provenientes de famílias brâmanes tradicionais, deixaram o ashram em protesto. Mas Ramananda não abriu mão de sua decisão. Quando jovem, ele mesmo sofrera na carne a ferroada do preconceito, pois, tendo viajado para o sul da Índia, em visita à sua família de origem, fora segregado pelos colegas ao voltar, sob a alegação de que, durante a ausência, poderia não ter cumprido, com toda a minúcia, as regras rituais de pureza relativas à alimentação. Ficou tão magoado com esse comportamento absurdo que abandonou o ashram de seu mestre e prosseguiu sua sadhana (caminho espiritual) sozinho, em uma cabana erguida às margens do Ganges. Quando se tornou um mestre realizado, adotou como lema a seguinte frase: “Não perguntes ao homem a que casta ele pertence ou que alimentos ingere. Se o homem é devoto de Hari, ele se torna o próprio Hari” [10].

Ramananda, considerado um dos maiores expoentes do bhakti ioga hinduísta [11], foi o primeiro mestre da época a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Um de seus poemas chegou a nós, por intermédio do Guru Granth Sahib, o livro sagrado dos siques. Seus versos foram musicados no modo melódico da raga basant [12]. A temática e até mesmo algumas expressões e palavras lembram imediatamente Kabir. Mas é impossível saber até que ponto isso corresponde às características originais do poema ou decorre de um esforço de harmonização dos compiladores.

O mestre oculto

Sob a direção desse instrutor generoso, Kabir firmou o passo e cresceu no caminho espiritual, até alcançar, ele mesmo, o status de santo e sábio, reconhecido por numerosos discípulos e inúmeros admiradores. Mas, além de Ramananda, outro guia, ainda maior, o teria conduzido na difícil senda do ioga. Essa informação, por séculos mantida em sigilo, foi divulgada ao grande público por Paramahansa Yogananda (1893 – 1952) em sua célebre autobiografia [13]. Disse Yogananda que Kabir teve um guru secreto, que o iniciou nos conhecimentos mais avançados e esotéricos. Esse mestre oculto teria sido ninguém menos do que Babaji, classificado por seus seguidores como o Mahasiddha (“maior dos iogues perfeitos”) e o Mahavatar (“maior das encarnações divinas”) [14]. Para os devotos de Babaji, a presença do misterioso iogue é quase palpável em alguns poemas kabirianos.

Assim como Adi Shankaracharya (788 d.C. – 820 d.C.), considerado o maior filósofo da Índia, Kabir concebia Deus como a única realidade existente: o “Um sem um segundo”, ao mesmo tempo transcendente e imanente. Transcendente, existiria em si mesmo, como o inefável Brahman [15]; imanente, se manifestaria, de maneira velada, por trás da aparência dos entes e fenômenos do mundo. Para esse monismo radical, o Criador e a criatura são um e o mesmo, não podendo haver separação real entre ambos. Tal compreensão não impediu, porém, que o grande poeta reconhecesse o valor do ioga devocional e exaltasse, em sua poesia, a relação amorosa entre o homem e Deus. Pois, se é certo que o amante procede do Amado, sendo, portanto, o próprio Amado, também é certo que sua verdadeira natureza se encontra escondida. Separado da essência pelo véu da aparência, o homem sofre a dor da distância e da ausência, e aspira e suspira pelo Eu maior que se oculta em seu interior, em um anseio de retorno e reunião. Esse Grande Eu foi plenamente percebido por Kabir na forma corpórea de seu Satguru, o incomparável Babaji [16].

Nossos poucos dados confiáveis estão se acabando. Mesmo as biografias melhor documentadas deixam, ao final, um sentimento de frustração. Porque ninguém, senão a própria pessoa, e às vezes nem ela mesma, sabe o que se esconde em seu coração. O que dizer da vida de um tecelão afastado de nós pelo manto dos séculos e pelos véus da lenda? Ainda mais quando toda a existência real desse indivíduo – suas batalhas, suas derrotas, suas vitórias – foi tecida com fios imateriais. Restam-nos algumas migalhas. Tratemos de nos satisfazer com elas.

Consta que, ao contrário de muitos místicos, que seguiram a árida estrada da renúncia e do celibato, Kabir casou e teve dois filhos. A tradição atribuiu à sua esposa o nome de Loi. Sacerdotes hinduístas e mulás muçulmanos condenaram seus ensinamentos como heréticos. Reis e sultões os ouviram com enlevo e reverência. Cantadores de rua os repetiram, ao som de toscos instrumentos. O povo simples os memorizou, e, talvez por isso, tenha subido um ou mais degraus na escada do autodesenvolvimento. No crepúsculo de uma longa existência, e a despeito das súplicas dos discípulos e do próprio soberano da cidade, o poeta teria deixado a amada Varanasi, para viver seus últimos dias em Magahar, cerca de 160 quilômetros ao norte. Aos que argumentaram que cometia um grande erro, pois era uma bênção espiritual poder morrer na cidade santa, ele respondeu com estes versos:

“Kashi, Magahar, para o homem contemplativo, que diferença existe?

Se minha devoção se esgotar, o que me conduzirá à margem oposta?”

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Notas

Este perfil do grande poeta místico indiano do século XV foi composto com excertos do prefácio que escrevi para meu livro Cem Poemas de Kabir (Attar Editorial, 2013). Os referidos 100 poemas, que representam apenas uma parte da obra kabiriana, são aqueles que Rabindranath Tagore traduziu para o inglês. Publicada na Inglaterra em 1915, essa famosa versão tornou Kabir amplamente conhecido no Ocidente e serviu de base para numerosas retraduções (em francês, espanhol etc.). Em meu livro, procurei recriar os 100 poemas em português, devolvendo-lhes uma forma poética que, no texto de Tagore, havia sido, muitas vezes, perdida.

Meu amigo Sérgio Rizek, de Attar Editorial, concedeu-me generosamente permissão para reproduzir alguns dos 100 poemas neste Blog. Eles aparecem na seção “Traduções”.

Encontrei a bela ilustração publicada no alto desta página no site da The Enchanting Verses Literary Review. O site não informa o nome do autor da imagem, nem faz qualquer referência a direitos autorais eventualmente associados a ela. Trata-se, com toda evidência, de uma criação relativamente recente. A cena retratada alude a uma das muitas lendas que enfeitam a biografia de Kabir. Diz ela que o poeta, condenado à morte por suas supostas heresias, foi acorrentado e atirado às águas do Ganges. Miraculosamente, porém, as correntes se romperam. E seus adversários tiveram que se curvar diante desse prodígio. Não há nenhuma confirmação de que tal fato tenha realmente ocorrido. Mas, simbolicamente, a lenda não deixa de captar um nível mais profundo de realidade. Liberto das correntes que o prenderiam ao mundo das aparências, o mestre realizado flutua sobre as águas tumultuosas da torrente fenomênica, com sua consciência ancorada no Absoluto. Ele está neste mundo e atua em prol da humanidade. Porém nada mais pode perturbá-lo.

[1] Dharwadker, Vinay. Kabir – the weaver’s songs. New Delhi, Penguin Books, 2003.

[2] A existência e a atuação de vários domínios psíquicos situados “além” e “acima” da mente ordinária são reconhecidas, desde épocas imemoriais, por todas as tradições místico-filosóficas. E começam a ser corroboradas também pela pesquisa científica convencional. Os termos “sobremental” e “supramental”, para designar certas faixas específicas do amplo espectro da consciência, foram cunhados e popularizados pelo grande iogue e filósofo indiano Aurobindo Ghose (1872 – 1950). Líder do movimento pela independência da Índia, antes que Gandhi despontasse no cenário político, Sri Aurobindo foi acusado de subversão e encarcerado pelas autoridades britânicas. Na prisão, viveu dramática experiência espiritual, que o fez abandonar as atividades revolucionárias para se dedicar exclusivamente ao ioga. Combinando enorme erudição e inspiração genuína e um perfeito domínio tanto da moderna cultura ocidental quanto das antigas tradições espirituais indianas, escreveu uma obra que o consagrou como um dos maiores mestres da atualidade. Infelizmente, seus livros são, hoje, muito pouco conhecidos no Brasil.

[3] Mahasamadhi, ou grande êxtase, é o termo sânscrito que designa o passamento dos iogues realizados deste mundo para o outro. Trata-se de uma morte em estado de consciência plena. Conforme o antigo ritual, no momento pré-determinado, o iogue se põe de pé, gira três vezes em torno de seu próprio eixo no sentido anti-horário, senta-se com o rosto voltado para o Norte, e inspira e expira pela última vez.

[4] A kumbha mela (festival do pote) é o maior encontro multirreligioso do mundo. Ocorre quatro vezes a cada 12 anos, em um sistema de rodízio por quatro cidades sagradas da Índia: Prayag, Ujjain, Nasik e Haridwar. Os pontos altos das comemorações, que, em cada localidade, se estendem por vários meses, são os banhos rituais no Ganges. O festival recorda um tema comum a várias mitologias: a guerra cósmica entre os devas (deuses) e os asuras (titãs). Durante a batalha pelo pote de amrita (o néctar da imortalidade), quatro gotas do precioso líquido teriam caído na Terra, nas localidades mencionadas. Segundo a tradição, o poder dessas gotas seria realçado, ciclicamente, devido a intricadas configurações astrológicas. Os chamados “grandes banhos” ocorrem nessas datas propícias.

[5] Sadhu é todo aquele que se retira da vida ordinária para se dedicar inteiramente a uma sadhana, ou caminho de autotransformação e desenvolvimento espiritual. Existem sadhus de todos os tipos. Os ascetas mencionados no parágrafo, chamados de nagababas (literalmente, pais-serpentes), constituem uma linhagem específica, com várias subdivisões. Devotos de Shiva, andam, como o próprio deus, inteiramente nus, com os corpos polvilhados de vibhuti (cinzas sagradas decorrentes da queima das flores oferecidas à deidade). Não cortam os cabelos nem as barbas porque afirmam que os pelos constituem canais de energia que conectam o corpo físico aos corpos sutis. Seus rosários, ou japamalas, utilizados na contagem dos mantras, são feitos de rudraksha, uma semente especificamente associada ao culto shivaísta. E o tridente que carregam é outro emblema divino. Demonizado pela superstição cristã, esse antigo objeto, empregado desde há milênios como instrumento agrícola ou arma de guerra, simboliza, no imaginário shivaísta, o próprio corpo humano, com seus três nadis (canais de energia sutil) principais: ida (o nadi lunar, que flui à esquerda, ao longo da coluna vertebral), píngala (o nadi solar, que flui à direita) e sushumna (o nadi principal, que flui no centro).

[6] Haridwar é a primeira cidade banhada pelo Ganges quando o rio, após descer as encostas do Himalaia, ingressa na Planície Indo-Gangética. Apesar de já haverem passado por vários vilarejos e cidades himalaicas, suas águas, que atualmente chegam imundas em Varanasi, ainda estão relativamente limpas ao alcançar Haridwar. Mas é preciso segurar com firmeza as correntes que margeiam os ghats, para não escorregar no limo que recobre os degraus e ser arrastado pela correnteza ao entrar no rio.

[7] Bisneto do maior imperador mughal, Akbar, o grande, e filho do célebre Shah Jahan e da não menos famosa Muntaz Mahal (para a qual o esposo construiu, como mausoléu, o incomparável Taj Mahal), Aurangzeb subiu ao trono após matar três irmãos e aprisionar o pai no Forte de Agra. Apesar de ser um estudioso aplicado do sufismo, nada reteve do ecumenismo generoso de grandes mestres sufis do passado, como o andaluz Muhyiddin ibn Árabi (1165 – 1240), o persa Jalaluddin Rumi (1207 – 1273) e o próprio Kabir. Nem da tolerância de seus antepassados familiares. Seu paradigma religioso era um credo exclusivista, mesquinho e opressivo. Com base nessa concepção fanática, impôs a sharia (sistema legal muçulmano) a todos os habitantes de seu império. E essa imposição infeliz provocou reações violentas e fortes ressentimentos, que minaram a unidade multicultural da Índia e levaram o Império Mughal ao declínio. Após 150 anos de prolongada decadência, o país caiu de joelhos diante do poderio colonial britânico.

[8] Os kabirpanthis, ou seguidores do “caminho de Kabir” (Kabir panth), formam uma confraria de quase 10 milhões de pessoas, com expressão na Índia e nas comunidades indianas residentes em outros países. Adotando o Bijak, uma das coleções de poemas kabirianos, como livro sagrado, exaltam a verdade, a simplicidade e a compaixão. E estendem sua noção de simplicidade a todas as esferas da vida cotidiana, como as posses, o vestuário e a alimentação, praticando um vegetarianismo estrito. É de se perguntar, porém, se o próprio Kabir aprovaria que uma seita religiosa, com códigos, ritos e sacerdotes fosse constituída em seu nome. Espírito livre e libertário, o mestre via a religião institucionalizada como uma camisa de força, conforme deixa bem claro em vários poemas.

[9] “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé, nas sinagogas, nas esquinas das praças e nas ruas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: eles já receberam sua recompensa. Tu porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e ora a teu Pai em segredo. E o Pai, que vê o que está escondido, te recompensará.” ( Mt, 6: 5,6).

[10] Hari é um dos 1000 ou 1008 nomes de Vishnu mencionados no Vishnu Sahasranama, e especificamente associado a Krishna, considerado o grande avatar, ou encarnação humana, do deus. Existem também listas com os 1000 ou 1008 nomes de Shiva (Shiva Sahasranama), Shakti (Lalita Sahasranama), Ganesha (Ganesha Sahasranama), Murugan (Subrahmanya Sahasranama) e outras grandes deidades do panteão hinduista. Várias dessas listas, com os nomes divinos em sânscrito ou tâmil e suas traduções para o inglês, podem ser acessadas, por meio dos instrumentos de busca, na internet.

[11] Ramananda foi um dos principais (senão o principal) protagonistas do renascimento do ioga devocional durante a Idade Média tardia. Tendo Rama, que é um dos avatares (manifestações ou corporificações) de Vishnu como deidade favorita, filiava-se a escola vaishnava do bhakti ioga. Kabir, que muito deveu aos seus ensinamentos, o superou, ao integrar o bhakti hinduísta e o sufismo islâmico, e transcender todos os nomes e formas religiosas.

[12] A raga basant é um modo melódico muito antigo, cuja origem remonta ao século VIII d.C., que foi recuperado e revitalizado pelo guru Nanak (1469 –1539) e seus sucessores da tradição sique. Trata-se de uma raga primaveril, de andamento lento, que pode ser executada em qualquer horário do dia e da noite durante a primavera, mas deve ser tocada apenas entre as 21 horas e a meia-noite nas demais estações.

[13] Yogananda, Paramahansa. Autobiografia de um iogue. Trad. Adelaide Petters Lessa. São Paulo, Summus Editorial, 1981.

[14] Algumas informações sobre Babaji estão disponíveis no pequeno perfil do grande iogue publicado neste Blog, na seção “Mestres”.

[15] Não confundir Brahman (a Realidade Absoluta) com Brama (uma de suas manifestações relativas). No sincretismo hinduísta, Brama (a deidade criadora), Vishnu (a deidade mantenedora) e Shiva (a deidade destruidora) compõem a trimurti (“três formas”), a tríplice manifestação de Brahman. Mas Brahman é tanto manifesto quanto imanifesto. Indescritível, inimaginável, inconcebível, o Brahman do hinduísmo corresponde ao Ayn da cabala judaica, ao Hen do neoplatonismo grego, ao Dao do taoísmo chinês. Para enfatizar sua natureza inefável, muitos preferem a denominação Parabrahman (“Brahman supremo” ou “Aquele que está além de Brahman”). No shaiva siddhanta, que é uma tradição shivaísta, a mesma noção recebe o nome de Parashiva (“Shiva supremo” ou “Aquele que está além de Shiva”). Uma exposição mais extensa acerca da noção de Parashiva pode ser encontrada neste Blog, na seção “Espiritualidade / Conceitos”, sob o título “A realidade absoluta e suas manifestações primordiais”.

[16] A palavra “guru” significa, literalmente, “aquele que dissipa as trevas”. Antes de se referir a um ser humano particular, esse termo nomeia um princípio arquetípico de orientação, que corresponde ao que alguns chamaram de “eu profundo” ou “mestre interior”. Trata-se daquela voz calma e sábia que se pronuncia em nosso íntimo quando conseguimos aquietar o ruidoso e quase sempre inútil falatório da mente ordinária. Ou que se manifesta por meio da inspiração genuína, insights, sincronicidades, imagens simbólicas, sonhos altamente significativos e tantos outros modos. O “princípio do guru” (guru tattva) pode se materializar, com maior ou menor perfeição, em um indivíduo específico, um guru de carne e osso. Quando esse indivíduo se torna um mestre inteiramente realizado – isto é, quando por seu intermédio já não é o ego que se manifesta, mas o próprio Deus – ele ou ela recebe a denominação de Satguru.

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7 Comentários

  1. Mercia Viana

     /  2 de dezembro de 2014

    Perfeito esse texto! elevou minha mente e aqueceu meu coração. Tal como os poemas de Kabir, alguns textos nos chegam na hora e no lugar certo, gratidão eterna à José Tadeu Arantes, Paz e Luz inundem a sua vida!

    Responder
  2. oi tadeu,
    por favor como consigo contato com vc?
    grato,
    adriano.

    Responder
  1. Em busca do Satguru (*) « José Tadeu Arantes
  2. 12 Poemas de Kabir | José Tadeu Arantes (Kabir)
  3. Kabir: outros poemas | José Tadeu Arantes (Kabir)
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