Rumi e o encontro dos dois oceanos

Criador ou codificador da célebre dança dos dervixes, ele é considerado um dos pilares do sufismo. Exemplo supremo do místico passional, inebriado e quase enlouquecido pelo amor divino, conseguiu alcançar a sobriedade que sucede a embriaguez.

Ele não era certamente um muçulmano convencional. Mas seguidores fervorosos da fé islâmica o reverenciam como santo e sábio. O amplo círculo de seus discípulos reunia judeus, cristãos, muçulmanos e adeptos de outras religiões. Porém, desde o século 13 até hoje, seu túmulo, na cidade turca de Konya, é um dos centros de peregrinação do mundo islâmico. Tendo recebido do próprio pai o título de Maulana, que significa “Nosso Mestre”, é considerado um dos pilares do sufismo, o núcleo místico do Islã. Foi o criador — ou, mais provavelmente, o codificador — da famosa dança giratória dos dervixes e autor de alguns dos mais apaixonados poemas da literatura espiritual. Exemplo supremo do místico passional, inebriado e quase enlouquecido pelo amor divino, conseguiu alcançar a sobriedade que sucede a embriaguez.

Maulana Jalal ud-Din Rumi, um dos poetas maiores da literatura persa, nasceu em 30 de setembro de 1207, na aldeia de Waksh, atualmente no território do Tadjiquistão. E morreu em 17 de dezembro de 1273, na cidade de Konya, na Turquia. Foi contemporâneo do muçulmano Ibn Árabi (1165-1240), dos cristãos Francisco de Assis (1182-1226) e Tomás de Aquino (1225-1274) e dos judeus Abraham Abulafia (1240-1291) e Moisés de León (1240-1305) — todos eles mestres consumados de suas respectivas tradições. É difícil acreditar que essa notável sincronia, que já foi parcialmente apontada pelo teólogo brasileiro Leonardo Boff, tenha sido resultado do mero acaso. Parece — isto sim — sinalizar um movimento profundo do Espírito, em seu processo de auto-realização.

Reconhecimento precoce

Por ocasião do nascimento de Rumi, a aldeia de Waksh encontrava-se sob o controle administrativo de Balkh, hoje no Afeganistão. Uma das cidades mais antigas do mundo, capital do velho reino da Bactriana, berço da civilização ariana e pátria do profeta Zaratustra, Balkh integrou, em uma síntese de extraordinária complexidade, influências das culturas meda, persa, grega, indiana e chinesa. Sob o domínio dos califas abássidas, recebeu o título de “Mãe das Cidades” e tornou-se um dos mais brilhantes centros do Islã. O futuro poeta era ainda adolescente quando a iminente invasão das hordas mongólicas, chefiadas pelo terrível Gengis Khan, obrigou sua família a emigrar. O pai, Baha ud-Din Walad, era um teólogo ilustre e renomado mestre sufi. Sob o comando dele, a família perambulou durante cinco anos.

Nesse período errante, Rumi desposou, em Samarcanda, a jovem Gowhar Katun. E cumpriu sua peregrinação ritual a Meca. Ao passar por Nishapur, na Pérsia, visitou, em companhia do pai, o célebre mestre sufi e poeta Farid ud-Din Attar, autor de A Linguagem dos Pássaros. Conta a tradição que Attar reconheceu de imediato a estatura espiritual de seu jovem visitante e, maravilhado com tal grandeza, abençoou a luz daquele dia, afirmando que era a primeira vez que via um Lago (o pai) ser seguido pelo Oceano (o filho).

Em 1228, a família fixou-se finalmente em Konya. A região da Anatólia, na atual Turquia, era então conhecida pelo nome de Rum. E foi daí que se originou a alcunha Rumi, atribuída ao poeta. Capital do Império Seljúcida, Konya correspondia à antiga cidade de Iconium e, sob a epiderme da cultura muçulmana, conservava ainda a memória de seu passado greco-romano e das pregações do apóstolo Paulo. Extratos bem mais arcaicos ligavam-na ao antiqüíssimo povoamento de Çatal Huyuk, do 8º milênio a.C.. A convite do sultão, Baha ud-Din assumiu a cátedra de teologia na Madrassa (escola religiosa) de Konya.

Com o pai, Rumi estudou mística, teologia, jurisprudência e literatura. E tão notáveis foram os progressos intelectuais dele que, apesar de ter apenas 24 anos por ocasião da morte de Baha ud-Din, foi imediata e oficialmente convidado a sucedê-lo. Para completar seu treinamento na difícil senda do sufismo, aceitou, ao longo de uma década, a tutela espiritual de Sayyed Burhan ud-Din Muhaqiq, um antigo e avançado discípulo de seu pai. Iniciando a instrução com retiros espirituais de 40 dias, Burhan ud-Din o fez escalar os vários degraus da “Ciência dos Estados Místicos”. Nesse período, Rumi passou mais de quatro anos em Alepo e Damasco, na Síria, mas, ao contrário do que já foi dito, não há registro de que tenha se encontrado com Ibn Árabi.

Uma experiência avassaladora

Quando o treinamento finalmente terminou, Rumi havia alcançado o status de instrutor sufi. Chefe de família, cercado por centenas de discípulos e cumulado de honrarias, ele parecia ter um futuro perfeitamente definido. Foi nesse majestoso platô da existência que um acontecimento extraordinário causou uma completa reviravolta em sua trajetória. Era o dia 28 de novembro de 1244. Coberto por um turbante tão imponente quanto sua reputação, Rumi, então com 37 anos, cavalgava para a Madrassa à frente de um séqüito de estudantes. Ao passar diante de uma pousada de caravanas, um desconhecido postou-se à frente dele. O forasteiro trajava um surrado manto de lã preta, característico dos dervixes. E, antes que o ilustre professor pudesse esboçar qualquer reação, fulminou-o com uma pergunta: “Tu, que és o grande conhecedor de teologia e das Escrituras, responde-me: quem é maior, o Profeta Muhammad ou Bayazid Bistami [mestre sufi do século 9º]?”.

A questão parecia um completo disparate. E o professor respondeu a ela da maneira mais convencional possível: “Muhammad foi, sem dúvida, o maior de todos os santos e profetas”. Ao que o dervixe replicou: “Se é assim, por que Muhammad disse ‘Não te conhecemos, Senhor, como deves ser conhecido’, enquanto Bayazid exclamou ‘Glória a mim! Imensa é minha glória! Pois não há nada senão Deus em cada partícula do meu ser’?”. O desconhecido havia tocado no ponto nevrálgico de toda a mística: a unidade essencial entre o homem e Deus. O impacto de sua afirmação foi tamanho que Rumi caiu desmaiado. Anos mais tarde, assim relataria sua experiência: “Quando ele me apresentou aquela questão, vi uma janela se abrir no alto de minha cabeça, e uma fumaça elevar-se até o Trono de Deus”. Ao recobrar a consciência, tomou o forasteiro pela mão e entrou com ele na Madrassa. Juntos permaneceram trancados durante 40 dias, sem que ninguém se atrevesse a perturbá-los.

O homem que causou tanta impressão em Rumi é um dos personagens mais enigmáticos da história da espiritualidade. Shams ud-Din Tabrizi (Sol da Religião de Tabriz) é o nome pelo qual ficou conhecido. Errante e solitário, recebeu também a alcunha de Parinda (Pássaro), por estar sempre voando de galho em galho. Anticonvencional até o limite da insolência, demolia as convicções de seus mais ilustres interlocutores com frases mordazes. Ao mesmo tempo, era capaz de passar por uma cidade em perfeito anonimato, sem que ninguém suspeitasse de sua magnitude espiritual. Sempre vestido com o manto de lã preta e permanecendo, muitas vezes, uma semana inteira com um único prato de sopa rala, parecia ter sido na juventude uma pessoa de rara beleza. Tinha de 45 a 65 anos quando se encontrou com Rumi.

No Maqalat Shams-i Tabrizi (Discursos de Shams de Tabriz), única obra em que foram compilados seus ensinamentos, Shams revela que fora discípulo do xeque Abu Bakr, de Tabriz, na Pérsia. “No entanto, havia em mim algo que meu mestre não pôde ver”, disse. “De fato, ninguém era capaz de vê-lo. Mas meu senhor Maulana o viu. Eu era água estagnada, fervendo e entornando-me sobre mim mesmo e já começando a cheirar mal, até que a existência de Maulana me encontrou. Então, aquela água começou a correr e continua correndo: doce, fresca, saborosa”. As palavras de Rumi a seu respeito não são menos veementes: “Eu estava cru. Depois fui cozido. E enfim consumado.”

O intercâmbio espiritual entre Rumi e Shams vai muito além da relação convencional de discípulo e mestre. Foi a rara confluência de dois místicos da mais alta estatura, a que os sufis se referem como “o encontro dos dois oceanos”. Rumi já era um homem de conhecimento e santidade, mas necessitava do impacto da personalidade ígnea de Shams para maturar toda a sua potência espiritual e transformá-la em ato. Shams, por sua vez, era puro fogo e precisava de alguém capaz de suportar o ardor de sua presença e dar um destino útil àquilo que, de outra forma, teria sido essencialmente destrutivo.

Da mesquita à taverna

Pelas mãos de Shams, Rumi transitou, como dizem os sufis, “da mesquita à taverna” — o que significa que transcendeu a religiosidade convencional para alcançar a experiência direta do Divino. E ele vislumbrou Deus por trás das feições do avassalador dervixe, a quem passou a devotar um amor exclusivo e ilimitado. A percepção da Divindade, essencialmente sem forma, em uma figura humana não é um fato raro na história da espiritualidade. No cristianismo, a manifestação por excelência do Divino é o Cristo encarnado. E santos como Francisco de Assis vivenciaram essa figura com tal intensidade que reproduziram no próprio corpo os estigmas da Paixão. No hinduísmo, ela se dá por meio de Krishna e outros avatares. Inebriado pela presença de Shams, Rumi não tinha olhos e ouvidos para mais ninguém.

“Quando Shams chegou”, afirmou, “senti acender em meu coração uma poderosa chama de amor por ele. E ele deliberou comandar-me de modo despótico e definitivo. Shams me disse: ‘Deixa, de uma vez por todas, de ler as palavras de teu pai’. Obedeci à sua ordem e, desde aquele momento, nunca mais as li. Em seguida, ordenou-me: ‘Guarda silêncio e não te dirijas a mais ninguém’. Cortei, então, todo contato com meus discípulos. Meus pensamentos eram o néctar de meus discípulos. E eles sofreram, por isso, fome e sede. Surgiram, então, sentimentos negativos entre eles. E uma praga caiu sobre meu mestre.”

A desgraça a que ele se refere consumou-se em duas etapas. Na primeira, acossado pelo ciúme doentio dos discípulos, Shams desapareceu sem deixar vestígio. No ápice do desespero, Rumi encontrou-o em sonho, jogando dados em uma taverna de Damasco. E mandou seu filho primogênito e querido, Sultan Walad, trazê-lo de volta. Na segunda, o ressentimento dos preteridos foi ainda mais longe. Tendo à frente outro filho de Rumi, Al ud-Din Muhammad (que recitava o versículo do Corão que diz “Ele não é de teu povo”), os enciumados lançaram-se sobre o dervixe na calada da noite, subtraíram-lhe a vida a punhaladas e atiraram o corpo no fundo de um poço.

A ilimitada dor da separação

Quando soube ou pressentiu o que havia ocorrido, Rumi mergulhou em uma dor sem limites. É difícil traduzir em palavras a imensidão de seu pesar. Para suportar o sofrimento, desenvolveu o sama, a dança giratória dos dervixes, em que os praticantes rodopiam em torno do próprio eixo, ao mesmo tempo que transladam em torno de um eixo maior e invisível, situado no centro do grupo. Com estas tocantes palavras, Sultan Walad descreve a experiência de seu pai naquele tempo de luto:

“Noite e dia, em êxtase, ele dançava.

Na terra girava, como giram os céus.

Rumo às estrelas, lançava seus gritos.

E não havia quem não os escutasse.

Aos músicos provia ouro e prata

E tudo mais de seu entregava.

Nem por um instante ficava sem música e transe,

Nem por um momento sequer descansava”.

O sama tornou-se a prática espiritual característica dos sufis da Ordem Mevlevi, fundada pelo próprio Sultan Walad. Girando sem parar, enquanto recitam interiormente a frase Lâ ilâha ill’Allâh (“Não há deus senão Deus”), os dervixes alcançam patamares cada vez mais elevados de consciência, até atingir o estado em que afirmam encontrar a Divindade “face a face”. Em seu êxtase, Rumi recitava poemas, que os discípulos anotavam às pressas. Assim nasceu a maior parte do Divan-i Shams-i Tabrizi (Divã de Shams de Tabriz), que, juntamente com o Masnavi e o Fihi ma fihi, constituiu a grande trilogia da obra literária de Rumi.

À custa de muito sama e recitação, o místico conseguiu finalmente aplacar a dor e ancorar o Amado dentro de si. Quando Rumi e Shams se tornaram “um”, o poeta de Konya transformou-se em mestre consumado do Caminho.

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Nota

Este texto foi publicado como capítulo de meu livro Mestres. Não passou posteriormente por revisão, para adaptação às normas da última reforma ortográfica. Por isso, algumas palavras aparecem grafadas à maneira antiga.

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2 Comentários

  1. Dois poemas de Rumi | José Tadeu Arantes (Kabir)
  2. O homem de Deus (um poema de Rumi) | José Tadeu Arantes (Ganapati)

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