Ibn Árabi, ash-shaïkh al-akbar

Enquanto cristãos e muçulmanos guerreavam insensatamente em nome da fé, este grande mestre do misticismo islâmico reconheceu cada religião como uma via específica de acesso ao Divino. E ensinou que suas diferenças eram, na verdade, complementares.

Em um de seus textos maiores, este sábio superlativo escreveu: “Se o homem religioso entender o significado do provérbio ‘a cor da água é a cor do receptáculo’, ele admitirá a validade de todas as crenças e reconhecerá Deus em cada forma e em cada objeto de fé”. Seu nome: Abu Bakr Muhammad ibn Ali ibn al-Árabi. Cognome: Muhyiddin, que, na língua árabe, significa “Vivificador da Fé”. Muhyiddin ibn Árabi ou simplesmente Ibn Árabi: foi deste modo que a posteridade o imortalizou.

Assim como a água continua sendo água, embora sua cor varie conforme o receptáculo, Deus continua sendo Deus, apesar da sua representação mudar de acordo com a tradição religiosa. A frase citada faz parte do Fusus al-Hikam (A Sabedoria dos Profetas), um dos mais importantes tratados de Ibn Árabi. Essa obra, extremamente complexa, redigida em Damasco (Síria), em 1229, discorre sobre a natureza espiritual dos principais profetas da tradição islâmica (Adão, Abraão, Moisés, Jesus, Muhammad e outros). Literalmente, seu título quer dizer “engastes das sabedorias”. Os profetas são os “engastes” (fusus) nos quais se prendem as pedras preciosas das “sabedorias” (al-hikam), que são diferentes aspectos da Sabedoria Divina (al-Hikmat).

Nascido em 1165, em Múrcia, na Espanha, então sob domínio muçulmano, e morto em 1240, em Damasco, Ibn Árabi foi um poeta e filósofo de talento excepcional. Também considerado santo e sábio. Os sufis, os grandes místicos muçulmanos, até hoje o chamam de “o maior de todos os mestres” (ash-shaïkh al-akbar). Ele proclamou a complementaridade das religiões em densos tratados filosóficos. E em versos de rara beleza.

A abertura espiritual

Ibn Árabi nasceu em uma família importante. O pai era um personagem proeminente da administração islâmica da Espanha. E descendia do célebre Hatim Tai, que os árabes até hoje consideram o homem mais generoso que já existiu. Ainda pequeno, o futuro mestre mudou-se com a família para Sevilha, então a capital da Andaluzia muçulmana. Lá, recebeu a melhor educação disponível em seu tempo e, por volta dos 14 anos, teve a primeira experiência mística.

A abertura espiritual por ele vivenciada recebe, na terminologia sufi, o nome de Futuh (Desvelamento ou Efusão Divina). Ibn Árabi disse que a experimentou quando sua barba e bigode ainda não haviam crescido. Por sua narrativa, conclui-se que o episódio durou de uma a duas horas, mas continuou reverberando por vários meses. Assim ele o descreveu: “Comecei meu retiro na primeira luz e alcancei o ‘Desvelamento’ antes de o Sol se levantar. Depois disso, entrei no ‘Brilho da Lua Cheia’ e em outras estações, umas após as outras. Permaneci no meu retiro por 14 meses. Por meio disso, ganhei todos os mistérios que coloquei por escrito”. Afirma-se que a Lua está “cheia” quando seu disco se encontra totalmente iluminado pela luz do Sol. O “Brilho da Lua Cheia” e as “outras estações”, a que se refere o mestre, são estados ampliados de consciência, alcançados durante a experiência mística.

Esse acontecimento definiu o rumo de sua vida. Ele diria, muitos anos mais tarde, que tudo o que escreveu foi apenas uma explicitação dos conhecimentos que lhe foram revelados naquela ocasião. Afirmação impressionante, considerando-se o volume colossal de sua produção literária. O estudioso egípcio Osman Yahia, talvez o maior especialista em Ibn Árabi da atualidade, estima que ele tenha escrito cerca de 700 livros, muitos dos quais se perderam. Grande parte dessa obra imensa foi redigida em estado de transe místico. Segundo a tradição, um ser luminoso se manifestava ao mestre e ditava os tratados até que ele desmaiasse de cansaço. Quando Ibn Árabi acordava, a entidade espiritual ainda estava lá e retomava o ditado.

Peregrinação a Meca

Aos 30 anos, ele deixou pela primeira vez a Espanha, deslocando-se até Túnis, no norte da África. Sete anos mais tarde, em nova experiência mística, recebeu a instrução de viajar pelo Oriente. Visitou, então, a Turquia, o Egito, a Síria, o Iraque e a Arábia. Na peregrinação à cidade santa de Meca, juntou-se a uma caravana de sufis persas, cujo chefe era pai de uma jovem de beleza, inteligência e erudição excepcionais. Nizam era o nome dessa mulher, por quem Ibn Árabi se apaixonou. Compreendendo que a beleza humana é uma das mais perfeitas manifestações da beleza divina, o poeta celebrou a ambas em poemas de grande intensidade. No entanto, essa poesia, ao mesmo tempo erótica e mística, escandalizou os religiosos formalistas, incapazes de perceber seu significado espiritual profundo. Igualmente polêmica foi sua defesa da unidade fundamental de todas as religiões.

A peregrinação a Meca representou, para o mestre, uma viagem tanto exterior (de um lugar a outro) como interior (de um plano de consciência a outro). Anos depois, ele a descreveu em seu maior e mais importante livro, Futuhat al-Makkiyya (Revelações de Meca). Uma edição crítica dessa obra foi organizada, há alguns anos, no Egito. E possui nada menos do que 17 mil páginas!

Apesar da oposição dos meios conservadores, o prestígio de Ibn Árabi se firmou em todo o mundo muçulmano e alcançou a Europa cristã. Em 1223, aos 58 anos, ele se estabeleceu em Damasco, juntamente com numeroso círculo de discípulos. Lá, combinou o ensino e a escrita com uma intensa atividade social e política, aconselhando reis e governantes, alguns dos quais se tornaram alunos. Suas percepções espirituais atingiram alturas poucas vezes alcançadas pela inteligência humana. O grande visionário permaneceu na atual capital síria até o final da vida. Seu túmulo é, ainda hoje, local de peregrinação.

Um fragmento de Ibn Árabi

 

No Fusus al-Hikam, o mestre explicou, com as seguintes palavras, a criação do homem:

“Deus quis ver as essências de seus muito perfeitos nomes, cujo número é infinito. E, se você quiser, pode igualmente dizer: Deus quis ver a sua própria essência em um objeto global, que, tendo sido dotado de existência, resumisse toda a ordem divina, de modo que, aí, ele pudesse manifestar o seu mistério para si próprio. (…) A princípio, Deus criou o mundo inteiro como algo amorfo e desprovido de graça, comparável a um espelho ainda não polido. Mas é uma regra da atividade divina não preparar nenhum ‘lugar’ sem que este receba um espírito divino. (…) Assim, a ordem divina exigiu o polimento do espelho do mundo; e Adão tornou-se a própria luz desse espelho e o espírito dessa forma” [1].

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Notas

 

Este texto foi publicado como capítulo de meu livro Mestres. Não passou posteriormente por revisão, para adaptação às normas da última reforma ortográfica. Por isso, algumas palavras aparecem grafadas à maneira antiga.

A foto publicada no alto desta página é do túmulo de Ibn Árabi. Protegido pela estrutura de vidro que aparece ao fundo, o jazigo do grande meste se situa no interior de uma mesquita, na cidade de Damasco, na Síria.

 

[1] Versão de José Tadeu Arantes, a partir da célebre tradução francesa do Fusus al-Hikam (A Sabedoria dos Profetas) por Titus Burckhardt.

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