Em busca do Jesus histórico

Cristo Pantocrator do Sinai

Cristo Pantocrator do Sinai

 

“Disse Jesus: se vossos guias vos afirmarem ‘eis que o Reino está no Céu’, então as aves estarão mais perto dele do que vós; se vos disserem ‘eis que o Reino está no mar’, então os peixes já o conhecem. Pelo contrário, o Reino está dentro de vós e também fora de vós. Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai, o Vivente. Mas, se não vos conhecerdes, então estareis na ilusão e sereis a ilusão.” (Evangelho de Tomé, Logion 3)

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Os cristãos reconhecem nele o próprio Deus feito homem. Xamãs indígenas, cabalistas judeus e sufis muçulmanos o consideram um mestre consumado de suas respectivas linhagens. Iogues indianos o reverenciam como um siddha (perfeito) e até mesmo um avatar (encarnação divina). Nenhuma tradição espiritual se mantém indiferente ao apelo de Jesus. Sua figura fascina filósofos, cientistas e artistas. Conforta as dores, apazigua os corações e alegra a vida de milhões de pessoas comuns. Porém, com tudo o que já foi dito a seu respeito, ela continua envolta em mistério. Quem foi, afinal, Jesus?

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Fontes

Quase tudo o que sabemos de sua vida vem de narrativas conhecidas como “evangelhos” — palavra de origem grega que significa “boa-nova”. A veracidade desses textos chegou a ser contestada por historiadores tão influentes quanto Ernest Renan (1823-1892) e por teólogos tão importantes quanto Rudolf Bultmann (1884-1976). De fato, vários evangelhos seguem a estrutura de um gênero literário muito apreciado na Antigüidade: os relatos sobre a vida de homens ilustres. Seus autores não tinham a preocupação de documentar rigorosamente os acontecimentos narrados e misturavam, com muita liberdade, ingredientes históricos, lendários e doutrinários. É esse tempero peculiar que confere às obras seu sabor inconfundível. São evidentes nos evangelhos as influências de antigas tradições judaicas, de mitologias pagãs (greco-romana e orientais) e de correntes esotéricas do século 1º. Mas isso não diminui sua confiabilidade como fontes de informação factual. Ultrapassando as objeções de Renan e Bultmann, os pesquisadores da atualidade tendem a valorizá-los cada vez mais.

Há um grande número de evangelhos. Apenas quatro são aceitos por todas as igrejas cristãs institucionalizadas: os chamados “canônicos” (isto é, “de acordo com a regra”), atribuídos aos redatores Mateus, Marcos, Lucas e João. Os demais foram considerados “apócrifos” (isto é, “não autênticos”). Porém, alguns deles vêm despertando grande interesse entre os estudiosos. É o caso do Evangelho de Tomé, redescoberto em Nag Hammadi, no Egito, em 1945.

O evangelho mais antigo, o de Marcos, deve ter sido redigido em sua forma final entre os anos 66 e 68 d.C. — certamente antes de 70 d.C., data da destruição de Jerusalém pelos romanos, porque nele não há nenhuma alusão a esse importante acontecimento. Na década de 80 d.C., apareceram, na forma como os conhecemos hoje, os evangelhos de Mateus e Lucas. Entre os anos 90 e 110, concluiu-se a redação do Evangelho de João. Pouco depois, foi finalizado o Evangelho de Tomé.

Um dos argumentos levantados contra a confiabilidade dos evangelhos são as datas relativamente tardias de sua composição. Afirma-se que eles foram escritos várias décadas depois dos fatos narrados, quando a memória dos acontecimentos já estava deturpada. Contudo, esse ponto de vista é rejeitado hoje pelos especialistas. Pois cada evangelho passou por uma longa e complexa elaboração antes de chegar ao texto final. Para se ter idéia, o evangelho canônico mais recente, o de João, levou quatro décadas até alcançar a forma definitiva. Isso já deslocaria a versão original do período 90-110 para os anos 50-70. É pouco provável que qualquer um dos evangelhos citados seja obra de um único homem. A análise textual mostra que eles correram de mão em mão antes de assumirem o formato que conhecemos hoje. Não se sabe qual foi a participação efetiva que os supostos autores tiveram na redação. Ela parece mais provável no caso de Lucas e menos no caso de João, cujo texto talvez tenha sido obra de seu círculo de seguidores.

Os pesquisadores acreditam que muito cedo, antes de qualquer registro escrito, se consolidou uma tradição oral acerca da vida e da mensagem de Jesus. Seu núcleo era o querigma — palavra grega que significa “anúncio” (leia adiante). Em torno dele, juntaram-se frases e parábolas atribuídas a Jesus e um relato mais detalhado de sua morte e ressurreição. À medida que as testemunhas oculares dos acontecimentos começaram a morrer, as comunidades cristãs sentiram a necessidade de fixar essa tradição por escrito. Os textos primitivos passaram, depois, por sucessivas reelaborações, nas quais o material original recebeu acréscimos, sofreu cortes ou foi adaptado às concepções do grupo a que pertenciam os redatores.

Em sua forma final, os quatro evangelhos canônicos aparecem redigidos em grego, o idioma falado pelos judeus que viviam fora da Palestina. O texto atribuído a Tomé é a versão em língua copta de um original grego. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas apresentam tantas semelhanças que o costume era colocá-los em colunas paralelas, de modo que pudessem ser abarcados com um só olhar. Daí serem chamados de “sinópticos”. Eles possuem 330 versículos em comum. Acredita-se que sua redação passou por três etapas: a arcaica, a intermediária e a final. Ao longo dessas etapas, os redatores teriam influenciado uns aos outros, bem como utilizado materiais retirados de documentos independentes, jamais localizados.

Tal hipótese, baseada na análise crítica dos textos finais, recebeu, em 1992, um reforço espetacular. Foi a descoberta, em uma das grutas do sítio arqueológico de Qumran, na região do Mar Morto, em Israel, de um fragmento de papiro datado do ano 50 d.C., no qual é possível ler, em caracteres gregos, trechos de dois versículos do Evangelho de Marcos. Se o fragmento corresponde ao próprio evangelho ou a algum documento perdido, que o redator utilizou como fonte, isso é impossível saber. De qualquer modo, o achado desmente a idéia de uma composição tardia e, portanto, pouco confiável das narrativas evangélicas. Duas décadas depois da morte de Jesus, a história dele já estava sendo escrita!

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O querigma

O querigma era uma fórmula curta, de forte impacto emocional, utilizada pelos discípulos para converter os ouvintes. Um possível exemplo do querigma aparece na primeira carta de Paulo à comunidade cristã de Corinto, na Grécia. Nela, o apóstolo afirma: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze” [1 Coríntios 15.3-5]. As “Escrituras”, a que Paulo se refere, são os livros proféticos do Antigo Testamento da Bíblia; “Cefas” é a forma original do nome de Pedro; e os “Doze” são os discípulos mais íntimos de Jesus. Paulo não conheceu Jesus pessoalmente. Sua frase repete uma fórmula que, provavelmente, já estava bem consolidada na tradição oral.

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O meio

Na época em que Jesus nasceu, os territórios que correspondem hoje a Israel e à Palestina se encontravam sob domínio romano. Antes disso, desde o século 6º a.C., a região fora conquistada, sucessivamente, por babilônios, persas e gregos. Roma consolidou sua ocupação em 63 a.C.. E, no ano 40 a.C., o estrangeiro Herodes, natural da Iduméia, foi proclamado rei da Judéia pelo Senado romano. O pai dele, Antípatro, ocupara a função de procurador na administração romana — cargo cuja principal tarefa consistia em supervisionar a cobrança de impostos. Com muita habilidade política, nenhum escrúpulo, um exército de mercenários e as bênçãos de Roma, Herodes impôs seu reinado sobre um território que se estendia da Síria ao Egito. Foi cognominado “o Grande” graças a um fabuloso programa de obras urbanísticas e arquitetônicas.

Em seu governo, Jerusalém e outras cidades foram reurbanizadas à moda romana: cortadas de ponta a ponta por grandes avenidas (o cardo maximo), subdivididas por ruas que formavam ângulos retos, e embelezadas com palácios, anfiteatros, hipódromos, piscinas e jardins. Acima de todas as obras, destacou-se a suntuosa reconstrução do Templo de Jerusalém, com a qual o rei esperava conquistar a simpatia dos judeus. O preço desse frenesi de edificações foi a extorsão e a opressão ilimitadas do povo. Aterrorizado pela idéia de perder o poder, Herodes recorreu a todo tipo de crime, inclusive o assassinato de membros de sua própria família. Quando finalmente morreu, no ano 4 a.C., o reino foi dividido entre seus filhos Arquelau, Filipe e Herodes Antipas, que, sem possuírem o talento do pai, seguiram fielmente seu figurino político.

Jesus nasceu ainda sob o reinado de Herodes e viveu em territórios governados pelos filhos dele. Foi um período excepcionalmente conturbado na história do povo judeu. A cobrança de impostos extorsivos, a opressão política e a ingerência romana em assuntos religiosos despertavam exaltada oposição popular e geravam um clima de revolução iminente. Na década de 60 d.C., trinta anos depois da morte de Jesus, o país explodiu em levantes generalizados contra o domínio romano. A repressão a esse movimento insurrecional culminou, no ano 70, com a destruição de Jerusalém pelas legiões comandadas por Tito, futuro imperador de Roma.

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O nascimento

Sabemos hoje que Jesus nasceu antes da era cristã. Esse paradoxo se deve a um erro de cálculo, cometido no século 6º pelo monge Dionísio, o Pequeno. Uma passagem muito precisa do Evangelho de Lucas permite balizar o ano do nascimento. Ele deve ter ocorrido entre os anos 8º e 6º a.C., porque, segundo o evangelista, o fato aconteceu na época do recenseamento ordenado pelo imperador romano César Augusto. Esse recenseamento, o primeiro realizado na Palestina, tinha por objetivo regularizar a cobrança de impostos. E os historiadores o situam no período que vai de 8 a 6 a.C..

Nesse triênio, o ano mais provável é o 7º a.C. Isso porque nele se registrou um evento astronômico que poderia ser associado à “estrela” natalina mencionada no Evangelho de Mateus. Trata-se da conjunção dos planetas Júpiter e Saturno, que produziu no céu um ponto de brilho excepcional. Se o astro de Mateus representa mais do que um enfeite mitológico, ele deve corresponder a tal fenômeno, que certamente impressionou os astrônomos da época. Esses sábios, atraídos a Jerusalém pelo movimento aparente do ponto luminoso, seriam os “magos do Oriente”, de que fala o evangelista.

Com o recenseamento de Lucas e a “estrela” de Mateus, conseguimos chegar o mais perto possível do ano do nascimento. O mês e o dia continuam, porém, em aberto. O 25 de dezembro é obviamente uma data simbólica. Nesse dia, ocorria em Roma o festival pagão do Solis Invictus (Sol Invencível). Realizado logo depois do solstício de inverno, quando o percurso aparente do Sol ocupa sua posição mais baixa, o evento celebrava o triunfo do astro, que voltava a ascender no firmamento. Muito cedo, os cristãos associaram as virtudes solares a Jesus, atribuindo-lhe várias qualidades do deus Apolo. Não surpreende que acabassem por transformar o festival pagão em sua festa de Natal. Isso aconteceu por volta do ano 330 d.C.

Mateus, seguido por Lucas, afirma que Jesus nasceu em Belém — hoje em território palestino. Essa afirmação chegou a ser contestada por alguns estudiosos contemporâneos. Belém era a cidade de Davi e, segundo a tradição, o Messias esperado deveria surgir na descendência desse antigo rei de Israel. Situar o nascimento em Belém — dizem os contestadores — era uma forma de legitimar Jesus na condição de Messias. Embora interessante, esse raciocínio crítico não se apóia em nenhuma prova convincente. Lucas, ao contrário, oferece um bom argumento a favor de Belém: José, o esposo de Maria, futura mãe de Jesus, pertencia a uma família originária daquela cidade e a regra do recenseamento exigia que cada indivíduo se alistasse em sua localidade de origem. Por isso, a maioria dos especialistas aceita Belém sem reservas.

De passagem por essa cidade, José e Maria procuraram onde se alojar. Mas, segundo Lucas, “não havia um lugar para eles na sala” [cf. Lc 2.7]. A palavra “sala” (katalyma, em grego) tanto pode designar uma pousada como a casa de algum parente de José. Estando o local cheio, devido ao grande número de pessoas vindas de outras regiões para o recenseamento, o casal teve que se acomodar do lado de fora, talvez sob um alpendre, junto à manjedoura dos animais. Foi aí que Maria deu à luz. O nascimento de Jesus nesse local humilde, rejeitado pelas “pessoas de bem”, possui um profundo significado teológico. Ele repete a saga de grandes personagens mitológicos, como o deus indiano Skanda-Murugan (correspondente ao Dioniso dos gregos), que nasceu entre os caniços do pântano. E anuncia a trajetória futura daquele que seria a mais perfeita expressão da figura arquetípica do “Servo de Deus”.

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O aprendizado

No tempo de Jesus, o analfabetismo era muito raro entre os judeus do sexo masculino. Pois, ao completarem 13 anos, os meninos deviam comparecer à sinagoga e ler uma passagem da Torá (as Sagradas Escrituras judaicas, constituídas pelos cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Era o bar mitzvá, um rito de passagem no qual o jovem se tornava responsável por seus atos. Por força dessa tradição, todos os garotos recebiam uma instrução elementar, que compreendia a leitura, a escrita, a história do povo judeu e o conhecimento dos principais salmos bíblicos, adotados como orações. Jesus teve certamente acesso a essa educação básica. E a famosa passagem de Lucas, na qual o menino Jesus debate com os doutores do Templo, é interpretada por alguns especialistas como nada mais do que sua cerimônia de bar mitzvá.

Teria a instrução de Jesus se interrompido nesse estágio? Durante muito tempo acreditou-se que a pobreza da família impediu o acesso dele à educação superior. Tal suposição parecia concordar com certas passagens dos evangelhos, como um trecho de João no qual os ouvintes se admiram com os seus ensinamentos, dizendo: “Como pode ser ele versado nas Escrituras, sem as ter estudado” [cf. Jo 7.15]. Mas a opinião dos pesquisadores começou a mudar nos últimos anos. Um estudo mais profundo das narrativas evangélicas e principalmente uma nova compreensão da sociedade judaica da época parecem mostrar que nem sua família era tão pobre nem sua instrução parou no nível elementar. Na verdade, os especialistas se inclinam cada vez mais a encará-lo como um rabino, altamente versado na cultura tradicional de seu povo. “Rabino”, aliás, é o título pelo qual seus interlocutores o tratam em numerosas passagens dos evangelhos.

Uma das formas de obter essa educação superior era participar dos círculos de discípulos de rabinos ilustres. Paulo — que inicialmente perseguiu os seguidores de Jesus e depois se tornou o principal teórico e propagandista do cristianismo — recebeu esse tipo de instrução junto ao rabino Gamaliel, um dos maiores mestres da época. Teria Jesus vivido uma experiência parecida? É possível. Os evangelhos, porém, não fornecem nenhuma informação a respeito. Marcos e João começam cada qual seu relato com Jesus prestes a iniciar a sua missão, aos 30 anos ou, mais provavelmente, aos 33 anos de idade. Mateus e Lucas traçam um brevíssimo retrato da infância e, daí, pulam para a idade adulta. Alguns apócrifos apresentam outras cenas infantis, mas são narrativas tardias e tão fantasiosas que não despertam confiança. O resultado de tudo isso é uma lacuna de quase vinte anos na “biografia” do homem.

Essa omissão de dados deu margem a todo tipo de especulação. Alguns autores associaram Jesus à comunidade dos essênios — conjectura totalmente descartada pelas pesquisas mais recentes (leia adiante). Outros o fizeram viajar à Índia, em busca de conhecimentos esotéricos. Não há nenhuma prova a favor ou contra essa hipótese. De qualquer modo, apesar de fascinante, ela é desnecessária, pois a sabedoria oculta estava disponível na Palestina. O Antigo Testamento menciona explicitamente a existência de confrarias místicas no tempo dos profetas Elias e Eliseu. Elas certamente continuavam a existir, e talvez até com maior expressão, no século 1º, quando o judaísmo se encontrava dividido em um sem-número de seitas. A eventual participação do jovem Jesus em um desses círculos iniciáticos é assunto polêmico. Mas poderia explicar as peculiaridades de alguns dos seus ensinamentos, certas passagens obscuras da sua vida e mesmo a maneira pela qual estruturou o seu próprio grupo de discípulos.

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O homem

Os evangelhos canônicos nada dizem sobre a aparência de Jesus. E as primeiras imagens cristãs, produzidas sob influência da arte romana, mostram-no como um jovem imberbe, com os cabelos frisados. Tal forma de representação sofreu uma brusca mudança no século 6º. Foi quando os religiosos do mosteiro de Santa Catarina, no Egito, produziram um magnífico ícone, que apresenta um Jesus barbado, com longos cabelos repartidos ao meio, e feições muito próximas do tipo semítico. Tal ícone, o Cristo Pantocrator do Sinai (reproduzido acima), tornou-se um modelo para a posteridade e ainda impressiona por seu realismo, beleza e majestade. Que fator teria provocado essa mudança na representação de Jesus? Utilizando uma sofisticada técnica de superposição de imagens, o pesquisador americano Alan Whanger, da Universidade de Durham, na Carolina do Norte (EUA), obteve nada menos do que 170 pontos de congruência entre a face desse ícone e a figura impressa no Santo Sudário — o tecido de linho que, segundo a tradição, teria sido o lençol mortuário de Jesus.

A autenticidade do Santo Sudário é um assunto extremamente polêmico. Nenhum objeto foi tão estudado quanto essa relíquia, guardada na catedral de Turim, Itália. Dezenas de livros e centenas de artigos foram escritos a favor ou contra a tradição segundo a qual essa mortalha teria envolvido o corpo de Jesus morto. Uma datação feita em 1988, com base no método do carbono 14, fixou como período de fabricação do tecido os anos compreendidos entre 1260 e 1390. Concluiu-se então, apressadamente, que o lençol seria uma fraude medieval. Porém, a qualidade desse teste foi contestada por especialistas com as melhores credenciais científicas. E Harry Grove, principal responsável pela datação, admitiu que a grande contaminação que o pano sofreu ao longo dos séculos pode ter falseado os resultados.

A questão continua em aberto. Não se trata de desenvolvê-la aqui. Mas vale lembrar a opinião de vários pesquisadores que associam o Sudário ao Mandylion de Edessa — uma relíquia venerada em território bizantino desde o século 6º e desaparecida durante o saque de Constantinopla pelos cruzados, em 1204. Se verdadeira, a hipótese de que o Mandylion era o Sudário restabelece a conexão entre o lençol de Turim e os primeiros tempos do cristianismo. E daí até o sepultamento de Jesus. Neste caso, o estudo detalhado da imagem do Sudário forneceria informações detalhadas de como teria sido a aparência do mestre:

1. Ele teria aproximadamente 79 kg de peso e 1,80 m de altura — pouco mais do que a estatura média dos judeus adultos do século 1º, estimada em 1,77 m ou 1,78 m;

2. Seria um homem musculoso — o que converge com a informação dos evangelhos de que exercia a profissão de carpinteiro e fazia longas viagens a pé;

3. Possuiria barba e cabelos longos, trançados abaixo do pescoço — uma moda comum entre os homens judeus da época;

4. Seus traços faciais corresponderiam ao grupo étnico semita — o que diverge dos retratos convencionais, inspirados pela arte renascentista européia, que o mostram com olhos azuis e cabelos ruivos.

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A profissão

A tradição cristã diz que José, o esposo de Maria, exercia a profissão de carpinteiro. O evangelho de Marcos vai além. E afirma que o próprio Jesus seguia esse ofício: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria (…)?” [cf. Mc 6.3], perguntam seus ouvintes, admirados com a profundidade dos ensinamentos que ele acabara de proferir na sinagoga. Tal afirmação é muito verossímil, pois na época as profissões passavam de pai para filho. Mas a tradução não faz inteira justiça ao texto grego do evangelista. Pois a palavra tékton, utilizada por Marcos, possui um significado mais amplo, aplicando-se tanto à função de carpinteiro quanto às de pedreiro e serralheiro. O mais provável, portanto, é que Jesus fosse um trabalhador autônomo capaz de exercer essas diferentes habilidades profissionais, de acordo com a demanda dos clientes. Tal interpretação converge para o que escreveu o autor cristão Justino de Roma, no ano 150. Esse escritor, nascido na Galiléia, a região onde Jesus viveu, afirmou que ele fazia cangas para bois e arados.

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O mestre

Alguns evangelhos apócrifos atribuem a Jesus ensinamentos esotéricos que se aproximam muito do gnosticismo (corrente mística que teve sua maior expressão no século 2º d.C.). A autenticidade das supostas palavras do mestre é muito duvidosa no Pistis Sophia (Fé e Sabedoria) — documento tardio, do século 2º ou 3º, que apresenta uma doutrina gnóstica extremamente rebuscada. Mas parece bastante plausível no Evangelho de Tomé. Certos especialistas chegam mesmo a afirmar que muitas de suas sentenças são mais confiáveis do que as correspondentes nos evangélicos canônicos. A imagem de Jesus que resulta desses textos é bem mais complexa do que a convencional.

Teria ele transmitido dois corpos complementares de ensinamentos: um deles, exotérico, adaptado à capacidade de compreensão do grande público; o outro, esotérico, destinado a um círculo mais íntimo de discípulos? Numerosas correntes espirituais, dentro e fora do cristianismo, acreditam que sim. Para algumas, ele foi um grande mestre da Cabala (Kabbalah ou Qabalah), a tradição mística judaica. Para outras, o portador de um conhecimento oculto que vem sendo comunicado à humanidade desde tempos imemoriais — conhecimento cujas origens remontam aos mais antigos iogues indianos e, antes deles, aos xamãs pré-históricos. As duas hipóteses não são contraditórias. E mais algumas poderiam ser acrescentadas.

Nesse terreno movediço das suposições, é muito arriscado fazer qualquer afirmação taxativa. No entanto, apenas como subsídio à reflexão, é interessante rever, à luz dessas hipóteses, algumas passagens da história de Jesus:

1. Após um período de quase vinte anos, do qual nada se sabe, ele iniciou a sua atuação pública. Essa nova fase da vida foi precedida por um rito iniciático adotado por várias tradições místicas. Trata-se do batismo. A prática era utilizada pelos essênios. Mas não apenas por eles. Comunidades esotéricas de diferentes épocas, regiões e ambientes culturais recorreram e ainda recorrem ao mesmo ritual. Nele, o aspirante vivencia, de maneira simbólica, um processo de morte e renascimento. Ao ser submerso na água, “morre” para sua antiga existência. Emergindo dela, “renasce” para uma vida nova.

2. Depois do batismo, Jesus viveu ainda outra experiência iniciática, jejuando durante quarenta dias no deserto da Judéia. Provas desse tipo são tão antigas quanto o xamanismo e continuam a ser utilizadas por várias tradições místicas. Sua função é submeter o aspirante a uma condição de isolamento e privação, na qual ele seja levado a confrontar o lado sombrio de si mesmo. Nos evangelhos — especialmente em Mateus — esse domínio obscuro da psique assume a forma do Diabo, que assedia Jesus com três tentações: quebrar o jejum, transformando em pães as pedras do deserto; atirar-se do alto do Templo de Jerusalém, para que os anjos o amparassem; e adorar o próprio Diabo, em troca do reinado sobre a Terra. Essas três tentações poderiam ser analisadas à exaustão. Na impossibilidade de fazê-lo, basta dizer que elas tinham todas o mesmo objetivo: desviar Jesus da sua missão, levando-o a direcionar os seus poderes para metas egoístas. Ele rejeitou a todas, de maneira soberana.

3. Iniciada a missão, suas ações e palavras passaram a atrair um número cada vez maior de pessoas. Os evangelhos distinguem três tipos de público: a grande massa, à qual ele se dirigia nas sinagogas e outros espaços coletivos; um contingente amplo de discípulos, com os quais se mantinha em freqüente contato; e o grupo mais restrito dos “doze”, cujos integrantes tiveram que abandonar os próprios compromissos profissionais e familiares para segui-lo. A narrativa de João informa que pelo menos dois dos “doze” haviam sido antes discípulos de João Batista, e deixaram seu mestre para aderir a Jesus. A constituição e estrutura desse círculo talvez fossem bem menos informais do que se supõe, obedecendo a um modelo há muito estabelecido nas comunidades místicas. Um exemplo típico de ensinamento destinado à multidão é o “Sermão da Montanha”, ambientado em uma colina próxima à cidade de Cafarnaum. Sentenças mais densas, encontradas no evangelho de Tomé, mas também eventualmente nos canônicos, poderiam conter parte das lições esotéricas transmitidas aos discípulos.

4. Depois de o mestre ser julgado e condenado à morte, o governador romano Pôncio Pilatos escreveu pessoalmente em uma tabuleta a frase: “Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus”. Essa inscrição, redigida em hebraico, grego e latim, foi afixada à cruz. E costuma ser interpretada como um resumo da acusação imputada ao homem. Porém, à luz das especulações de que estamos tratando, pode ter um significado bem diferente do convencional. “Nazareno” parece ser o designativo de habitante da cidade de Nazaré, onde ele teria vivido parte de sua existência. Mas poderia se referir também ao status de “nazir” ou “nazireu”, indivíduo inteiramente consagrado a Deus, que, entre outras obrigações rituais, devia se abster de cortar os cabelos. Sansão, um personagem semi-lendário do Antigo Testamento, era “nazir” e teria perdido temporariamente os poderes sobrenaturais quando os cabelos foram cortados. Também na Índia, muitos iogues, devotos de Shiva, não cortam os cabelos nem a barba, porque acreditam que os pêlos funcionam como antenas, conectando o corpo físico do indivíduo aos seus corpos sutis. Haveria algum ponto de contato entre a mística judaica e o shivaísmo indiano? Vários indícios apontam nesse sentido. Mas o desenvolvimento do tema, já esboçado em livro de nossa autoria (Do xamã ao Prêmio Nobel, todos são filhos de Deus), é extenso demais para ser exposto aqui. Outra palavra da inscrição de Pilatos que costuma ser reinterpretada pelas escolas místicas é o termo “rei”. Ele não se referiria a um cargo político, porém ao título que, nos círculos esotéricos, era dado ao indivíduo que iniciava os demais adeptos no conhecimento dos mistérios. Também o filósofo neoplatônico Porfírio (233-305) foi chamado de Malchos, que significa “rei” em idioma siríaco. E com essa conotação, de mestre iniciático, a palavra foi amplamente utilizada pelos sufis muçulmanos.

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Os partidos

Diversos grupos político-religiosos se mobilizavam na comunidade judaica do tempo de Jesus. E, em diferentes momentos de sua atuação pública, ele interagiu com esses partidos ou seitas. É o que informa a famosa frase do Evangelho de Mateus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão” [cf. Mt 23.27]. Que agrupamentos eram esses? A que segmentos sociais estavam ligados? Que idéias professavam em matéria de política e religião? Pelo menos cinco deles precisam ser mencionados:

1. Saduceus — partido constituído por grandes proprietários de terras e membros da elite sacerdotal. O historiador judeu Flávio Josefo (35-111 d.C.) escreveu que os saduceus representavam o poder, a nobreza e a riqueza. Conciliadores em relação ao domínio romano, eles controlavam o Sinédrio (o senado de Israel) e o Templo de Jerusalém. Negavam a imortalidade da alma, rejeitavam o Talmude (conjunto de comentários e opiniões dos antigos rabinos) e aceitavam apenas o que estava escrito na Torá, cuja redação era atribuída a Moisés. Mais do que qualquer outro grupo, os saduceus foram os principais responsáveis pela condenação de Jesus (leia adiante).

2. Doutores da Lei (“Escribas”) — não estavam ligados a um segmento social específico, nem constituíam uma seita ou partido, na acepção estrita das palavras, porém desfrutavam de enorme autoridade, como intérpretes abalizados das Escrituras. Homens de grande erudição, eram consultados em assuntos polêmicos e influenciavam as decisões do Sinédrio, onde possuíam assento. Por isso, também tiveram parte na condenação de Jesus. Ao contrário dos saduceus, cuja atividade religiosa se exercia somente no Templo de Jerusalém, os doutores atuavam também nas sinagogas e escolas rabínicas. Reverenciavam mais do que ninguém a Torá, mas não se prendiam a uma leitura literal do texto sagrado, reconhecendo nele toda uma dimensão esotérica. Muitos doutores pertenciam ao grupo dos fariseus.

3. Fariseus — partido formado por indivíduos de todas as camadas sociais, principalmente das classes dos artesãos e pequenos comerciantes. Religiosos e formalistas, seus membros se separavam do resto da comunidade judaica pelo cumprimento minucioso de todas as regras de pureza prescritas na Torá, especialmente no livro do Levítico. Daí o nome “fariseus”, que deriva da palavra hebraica perishut (“separação”). Eram especialmente ativos nas sinagogas. Os evangelhos canônicos relatam vários episódios em que foram admoestados por Jesus, em razão do fato de se apegarem aos detalhes epidérmicos da Lei enquanto negligenciavam o seu fundamento. Dirigindo-se a eles e aos doutores, o mestre acusou-os de coar o mosquito e tragar o camelo. Apesar disso, a doutrina farisaica exerceu forte influência sobre o futuro pensamento cristão, legando-lhe, principalmente, a crença na imortalidade da alma e na ressurreição do corpo. Em política, os fariseus eram nacionalistas e aguardavam a vinda do Messias, que deveria libertar Israel da dominação romana.

4. Zelotes — dissidência radical da seita dos fariseus, formada principalmente por pequenos camponeses e outros segmentos pobres da sociedade. Muito religiosos e ultranacionalistas, pretendiam expulsar pelas armas os dominadores pagãos. Por isso, eram ferozmente perseguidos pelo poder romano. Entre os discípulos mais íntimos de Jesus, havia provavelmente dois zelotes: Simão e Judas Iscariotes. Porém, a amplitude, a profundidade e o longo alcance da mensagem de Jesus chocavam-se com o caráter restritamente político e imediatista do projeto revolucionário zelote. E isso talvez ajude a explicar a traição de Judas.

5. Essênios — seita constituída por sacerdotes dissidentes do clero de Jerusalém e outros judeus religiosos, que se apartavam do conjunto da sociedade para viver em comunidades ultrafechadas, como a que se estruturou na região de Qumram, próxima ao Mar Morto. Os essênios eram ainda mais rigorosos do que os fariseus em relação aos costumes, considerando-se os únicos remanescentes puros de Israel. De forma intransigente, combatiam tanto os romanos quanto o poder concentrado no Templo de Jerusalém, opondo-se ao sacrifício de animais. Rejeitavam a propriedade privada e o comércio, valorizavam o trabalho manual na lavoura e levavam uma vida comunal extremamente austera. Praticavam o celibato ou se casavam apenas para procriar. Os aspirantes ao grupo precisavam passar por um período de iniciação que durava três anos e culminava no ritual do batismo. E todos os integrantes da seita deviam estar preparados para chegada iminente do Messias, que os conduziria em uma guerra santa destinada a eliminar os pecadores e a instaurar o reino dos justos. Houve muitas especulações de que Jesus teria pertencido a esse agrupamento. Em reforço a tal idéia, pesquisas arqueológicas recentes mostraram que existia em Jerusalém um bairro essênio, contíguo ao bairro cristão. É provável que as duas comunidades tenham se influenciado mutuamente. No entanto, a suposta filiação de Jesus aos essênios é totalmente rechaçada pelos estudiosos contemporâneos. Um essênio jamais se sentaria à mesa de um cobrador de impostos ou perdoaria a uma mulher adúltera, como fez o mestre. Presos aos preceitos de pureza e ao seu próprio orgulho espiritual, os essênios afastavam-se do mundo corrompido para não se contaminar. Jesus, ao contrário, transgredia deliberadamente essas mesmas regras. E mergulhava no mundo para transformá-lo.

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A língua

Em que idioma se dirigiu Jesus aos seus contemporâneos? Há um trecho no Evangelho de Lucas especialmente elucidativo acerca desse ponto. Diz o texto: “Ele foi a Nazaré, onde fora criado, e, segundo seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; abrindo-o, encontrou o lugar onde está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres (…)’. Enrolou o livro, entregou-o ao servente e sentou-se. Todos na sinagoga olhavam-no, atentos. Então começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura’” [Lc 4.16-21].

A língua na qual estava escrita a passagem lida por Jesus era o hebraico. A língua na qual ele afirmou que a passagem se cumprira era o aramaico. O servente, ao qual entregou o livro de Isaías (um rolo de pergaminho que, ao ser estendido, alcançava cerca de quatro metros de comprimento), era mais do que um simples ajudante. Sua principal função na sinagoga consistia em traduzir as leituras do hebraico para o aramaico. Isso porque, no tempo de Jesus, o povo já não falava mais o hebraico. Tal idioma, considerado sagrado, era utilizado apenas na composição de obras eruditas e nos ritos religiosos. Na linguagem comum do dia-a-dia, desde a época do exílio na Babilônia (586-538 a.C.), só se usava o aramaico.

Ainda falado em círculos restritos, o aramaico é uma língua do grupo semítico, originária da Alta Mesopotâmia. A partir dos últimos reinados assírios e persas, do século 6º a.C., tornou-se um idioma internacional, utilizado principalmente no comércio. É tão aparentado com o hebraico quanto o português com o espanhol. Jesus comunicava-se em aramaico. E o seu perfeito conhecimento das Sagradas Escrituras mostra que dominava também o hebraico. É bem provável que falasse ainda o grego (o inglês da época), introduzido na Palestina em 332 a.C., com a conquista de Alexandre, o Grande. Quanto ao latim, a quarta língua da região, seu uso se restringia aos quadros da administração romana.

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A mensagem

Em um contexto de aguda opressão econômica, social e política, bem como de profunda crise dos valores tradicionais, o povo judeu aguardava ansiosamente a vinda do Messias. Esse termo — Mashiah, em hebraico — significa “Ungido”. E designava no Antigo Testamento os sumos sacerdotes e depois os reis, sobre cuja cabeça se derramava o óleo santo, como expressão de que haviam sido escolhidos por Deus para desempenhar uma missão especial junto à comunidade. A exemplo do que fizera Davi, mil anos antes, o Messias esperado no tempo de Jesus deveria libertar o país do domínio estrangeiro e restaurar uma realeza legítima em Israel.

Quando iniciou sua ação pública, Jesus foi identificado com esse personagem. E a frase “cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo” [Marcos 1.15] pode ter sido tomada por muitos como anúncio de uma revolução iminente contra o jugo romano e a corrupção da dinastia herodiana. No entanto, o desenvolvimento da atividade de Jesus frustrou essa expectativa guerreira, nacionalista e monárquica. Seus inimigos saduceus souberam explorar tal frustração para levá-lo à morte.

Em seu livro Jesus Cristo Libertador, o teólogo brasileiro Leonardo Boff analisa essa contradição entre a prática de Jesus e as perspectivas messiânicas de seu tempo. “A práxis de Jesus”, escreve Boff, “alcança a estrutura da sociedade e da religião da época.” Ele “não se apresenta como um reformista ascético à maneira dos essênios, nem como observante da tradição como os fariseus, mas como um libertador profético”. No entanto, prossegue o teólogo, “Jesus não se organizou para a tomada do poder político”. Pois “sempre considerou o poder político como tentação diabólica, porque implicava uma regionalização do Reino, que é universal”.

A revolução messiânica que muitos aguardavam na época tinha um caráter limitado e imediatista: enxotar os dominadores estrangeiros e instaurar um novo regime político. A revolução proposta por Jesus era incomparavelmente mais ampla e profunda. E, por isso, desdobrava-se em um processo de longo prazo. Operando-se no interior das consciências, exteriorizava-se não como simples mudança de poder, mas como transformação radical de toda a existência.

Interrogado pelo governador romano Pôncio Pilatos sobre se era, como diziam, o rei dos judeus, Jesus teria respondido: “O meu Reino não é deste mundo” [João 18.36], indicando, com essas palavras, a dimensão transcendental da sua mensagem. Talvez influenciados por certa interpretação da filosofia platônica ou pelo gnosticismo, alguns dos primeiros pensadores cristãos atribuíram a essa passagem do Evangelho de João uma conotação essencialmente negativa, de repúdio da vida terrena. Mas isso não tem nada a ver com a mensagem de Jesus. Nesta, o “Reino de Deus”, que transcende o mundo material, deve realizar-se também nele. Ensinamento expresso, com clareza meridiana, neste outro trecho do mesmo evangelho: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” [João 10.10].

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O Templo

Alguns dos episódios mais dramáticos da vida de Jesus transcorrem nas amplas dependências do Templo de Jerusalém. Reformado e ampliado durante o reinado de Herodes, que se estendeu de 37 a 4 a.C., ele era, então, um dos maiores e mais suntuosos edifícios da Antigüidade. E também o centro econômico, político e religioso da Palestina. Sua enorme importância fora adquirida séculos antes, no governo do rei Josias (entre 640 e 609 a.C.). Até aquela época, havia vários santuários espalhados pelo país. Josias destruiu esses santuários, queimou os objetos sagrados, massacrou os sacerdotes e centralizou o culto em Jerusalém. De acordo com o segundo livro dos Reis, um dos textos do Antigo Testamento, o objetivo de medidas tão drásticas era depurar a religião judaica das influências pagãs, herdadas dos povos vizinhos. Mas é inegável a dimensão política dessa reforma religiosa. Centralizar o culto, fazendo o povo de todas as regiões acorrer a Jerusalém nas datas prescritas, era uma forma de unificar o país em torno da casa real de Judá.

Com a decadência da realeza, a classe sacerdotal assumiu cada vez mais o controle da vida nacional. A base de seu poder eram os sacrifícios diários de animais (bois, carneiros e pombos) e a cobrança de impostos realizados no Templo. Alguns estudos afirmam que, na época de Jesus, por ocasião da Páscoa, chegou-se a imolar mais de 250 mil cordeiros. Ora, os animais a serem sacrificados deviam passar por um rigoroso controle de qualidade, baseado nas regras de pureza estabelecidas no Levítico, um dos cinco livros bíblicos que compõem a Torá ou Pentateuco. Isso fazia com que a maior parte dos animais trazidos pelos pequenos produtores fosse recusada. Em seu lugar, os fiéis deviam comprar animais “aptos”, criados por grandes proprietários de terra ligados às famílias sacerdotais, e oferecidos nos pátios do Templo. Os preços flutuavam de acordo com o demanda. No tempo das festas religiosas, um pombo, o animal mais barato, alcançava até cem vezes o seu preço normal, chegando a custar um denário (o equivalente ao salário pago por um dia de trabalho). Parte da carne dos animais sacrificados ficava com os sacerdotes, parte era consumida pelas pessoas que os haviam oferecido.

Além dos sacrifícios, o sistema econômico, político e religioso estruturado em torno do Templo lucrava com a cobrança de impostos. Todo judeu homem, com mais de 20 anos, era obrigado a pagar. E o Templo tinha o cadastro de cerca de um milhão de contribuintes, dentro e fora da Palestina. Para serem admitidas no Templo, as inflacionadas moedas correntes — consideradas “impuras” — deviam ser trocadas pela tetradracma tíria, uma moeda forte que não sofrera qualquer desvalorização em um período de 300 anos. Essa moeda, cunhada na cidade de Tiro, na Fenícia (atual Líbano), trazia a imagem de Melkart, deus protetor dos fenícios, e a águia de Júpiter, principal divindade dos romanos. Para os judeus piedosos, era um escândalo o fato de os sacerdotes do Templo adotarem como dinheiro oficial uma moeda decorada com figuras pagãs. Igualmente escandaloso era o ágio de 8% que os cambistas cobravam pela conversão.

“Então” – diz o Evangelho de Mateus – “Jesus entrou no Templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: ‘Está escrito: minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões’” [Mt 21.12,13].

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A morte

A mensagem radicalmente transformadora de Jesus já o havia colocado em franca contradição com a alta cúpula sacerdotal e o partido dos saduceus, guardiões da ordem econômica, social, política e religiosa. Quando expulsou os cambistas e vendedores de animais do Templo, ele deu um passo adiante e golpeou com firmeza o próprio núcleo do poder dominante. Seus inimigos responderam com rapidez. Levado à presença do Sinédrio, foi acusado de blasfêmia pelo próprio Caifás, o sumo sacerdote, e condenado à morte.

Semelhante ao Senado romano, o Sinédrio (Sanhedrim, em hebraico) era o conselho supremo de Israel, ao qual cabiam todas as decisões de natureza legal ou ritual. Sua autoridade se exercia até sobre as populações judaicas que viviam fora da Palestina. Sediado nas dependências do Templo, na chamada Sala da Pedra Talhada, era presidido pelo sumo sacerdote em exercício e composto por 70 membros, escolhidos entre as pessoas mais proeminentes da comunidade: saduceus, doutores da lei e fariseus. Sua existência remonta provavelmente ao século 2º a.C. e estendeu-se até 66 d.C.. Apesar de se pautar por uma política de colaboração com os romanos, algumas de suas antigas atribuições foram cassadas pelos dominadores. Entre elas, o direito de executar os condenados. Por isso, a sentença promulgada contra Jesus teve que ser ratificada — a contragosto — pelo governador romano Pôncio Pilatos.

Se coubesse ao próprio Sinédrio executar o condenado, Jesus teria sido apedrejado até a morte, pois essa era a forma prescrita pela lei judaica. Seguindo o procedimento adotado em todo o Império, os romanos o crucificaram. Em uma época de aguda fermentação revolucionária, um número enorme de judeus conheceu esse tipo de morte. Somente na repressão ao levante nacionalista do ano 4 d.C., dois mil homens foram crucificados.

As cruzes (feitas de uma árvore de pequeno porte, a oliveira palestinense) não eram altas, como imaginariam os pintores renascentistas muitos séculos mais tarde. Havia três tipos delas. A mais simples consistia na própria oliveira com os galhos aparados. Outra possibilidade era amarrar uma barra de madeira horizontal ao tronco ainda enraizado da árvore. Ou, então, um poste rústico, feito a partir do tronco, era fixado ao chão e nele se encaixava a trava horizontal, transportada até o local de execução pelo próprio condenado. Três longos pregos de ferro — um em cada pulso (e não nas palmas das mãos, como se costuma representar) e o terceiro juntando os dois pés — prendiam o condenado à cruz. Um pequeno suporte horizontal permitia-lhe sentar, impedindo que os pulsos se rasgassem devido à ação do peso e prolongando sua agonia. Os braços alteados dificultavam a respiração; os líquidos iam se acumulando nos pulmões; e a morte sobrevinha por asfixia.

Era comum o crucificado sobreviver por até três dias. Jesus morreu em apenas seis horas. Essa consumação rápida pode ter sido provocada pelas terríveis torturas que sofreu, tanto na presença do Sinédrio quanto entre os soldados romanos. Mas tal interpretação, baseada em uma causa natural, não exclui outras, que enfatizam o aspecto sobrenatural. Neste caso, poder-se-ia pensar que, uma vez cumprida a sua missão em favor da humanidade, Jesus foi poupado, por intervenção divina, de um sofrimento desnecessariamente prolongado.

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Acontecimentos impressionantes

Os evangelhos narram diversos acontecimentos impressionantes que teriam acompanhado a agonia e a morte de Jesus. A narrativa mais detalhada, a de Mateus, diz que “desde a hora sexta até a hora nona”, isto é, do meio-dia às três horas da tarde, “houve treva em toda a terra”. Quando Jesus exalou o último suspiro, “o véu do Santuário se rasgou em duas partes, de cima a baixo, a terra tremeu e as rochas se fenderam” [Mt 27.45-56]. Se as trevas mencionadas pelo evangelista correspondem a um eclipse, a morte de Jesus pode ter ocorrido no ano 30 d.C., quando se deu um evento dessa natureza. Neste caso, considerando que Jesus nasceu entre os anos 8 e 6 a.C., ele deve ter vivido então de 36 a 38 anos, e não 33 anos, conforme fixou a antiga tradição cristã.

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A Ressurreição

Para os discípulos e outros que acreditaram nele, a morte de Jesus deve ter sido um golpe demolidor. Surpresos com a rapidez dos acontecimentos, aturdidos por um desfecho tão trágico, que contrariava suas expectativas, amedrontados ante o possível alargamento da repressão, eles certamente sentiram o chão ceder debaixo dos pés. Que perplexidade, que angústia, que desalento! No entanto, toda a sua perspectiva se refez com a notícia da ressurreição. Como interpretar esse derradeiro mistério?

Segundo o teólogo Leonardo Boff, a análise crítica dos evangelhos sugere que se constituíram inicialmente dois relatos independentes acerca da ressurreição: o do sepulcro vazio, visto por Madalena e as outras mulheres que foram visitá-lo na manhã do terceiro dia após a morte; e o da aparição do mestre ressuscitado aos discípulos. Mais tarde, esses dois fragmentos da tradição oral foram unificados na composição dos textos escritos. A narrativa resultante é muito sumária em Marcos e Mateus, porém bem mais extensa e inspiradora em Lucas e João. O texto dos Atos dos Apóstolos, obra também atribuída ao evangelista Lucas, fixa em 40 dias o tempo de permanência de Jesus ressuscitado na Terra. O evangelho gnóstico Pistis Sophia prolonga a estadia para 11 meses e apresenta os ensinamentos esotéricos supostamente comunicados nesse período.

Os canônicos afirmam que os discípulos não reconheceram Jesus no primeiro momento. E o fazem aparecer e desaparecer de cena de forma misteriosa. Certas correntes do cristianismo primitivo interpretaram esses dados como indícios de que o mestre voltara à Terra em um corpo sutil. No entanto, em Lucas, o próprio Jesus insiste na materialidade do seu corpo: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho” [Lc 24.39].

O mistério da ressurreição certamente escapa à capacidade interpretativa da ciência atual. Mas a idéia da transmutação do corpo físico e da conquista da imortalidade não é estranha a antigas tradições espirituais como o shivaísmo indiano e o taoísmo chinês. Embora extremamente rara — dizem —, essa possibilidade estaria no horizonte do ser humano. E teria sido alcançada pelos siddhas (perfeitos): homens e mulheres que, pela devoção integral a Deus, pelo exercício sistemático da auto-observação e pela prática intensiva das diversas disciplinas iogues, supostamente atingiram um estágio supremo de desenvolvimento, realizando a essência divina em todos os planos da existência (leia o último capítulo deste livro). Tal hipótese permite-nos enxergar Jesus por mais um ângulo. E acrescenta uma nova configuração à sua imagem caleidoscópica.

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Última reflexão

A história de Jesus já foi narrada incontáveis vezes. E cada narrativa nos chega com um sabor de novidade e nos deixa com uma fome de saber mais. Como se uma pequena faceta tivesse sido iluminada, enquanto muitas outras permaneceram na escuridão. Iniciamos este capítulo indagando quem foi Jesus. E, depois de percorrer os evangelhos, e acrescentar-lhes os dados da pesquisa histórica e arqueológica, sentimo-nos notavelmente ignorantes.

Talvez devêssemos endereçar a pergunta a nós mesmos. Quem somos nós? Um pequeno “eu” separado do Todo e, por isso, radicalmente diferente do “outro”? Um pequeno “eu” que, por estar separado, vivencia uma solidão que nada pode consolar, uma carência que nada pode suprir, uma dor que nada pode remediar? Um pequeno “eu” que, por ser radicalmente diferente, se engrandece diminuindo o “outro” e, perseguindo-o, alivia suas próprias frustrações? Jesus nos propõe uma alternativa: diferenciarmo-nos desse pequeno “eu”, ferido e mesquinho, que parece tão real, mas é apenas um produto de nossa ilusão; e abrirmos espaço para a manifestação do grande Eu, que não é outra coisa senão o próprio Cristo dentro de nós.

Diz o Evangelho de Tomé: “Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai, o Vivente”. Conhecendo a nós mesmos, isto é, reconhecendo esse grande Eu que desde sempre nos habitou, realizamos nossa verdadeira identidade, como filhos do Deus e irmãos de todas as criaturas.

 

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Nota
Este texto, que, em versão anterior, havia sido publicado, como reportagem de capa, na revista Globo Ciência, foi depois reescrito e transformado no capítulo mais extenso de meu livro Mestres. Não passou posteriormente por revisão, para adaptação às normas da última reforma ortográfica. Por isso, algumas palavras aparecem grafadas à maneira antiga.
A ilustração publicada no alto desta página é uma reprodução fotográfica do famoso Cristo Pantocrator do Sinai. Essa magnífica pintura, datada do século VI, e conservada até hoje no Monastério de Santa Catarina do Sinai, no Egito, é o primeiro ícone de Cristo e o protótipo de todos os ícones que seriam produzidos posteriormente. É também a primeira imagem a retratar Jesus com barba e cabelos divididos ao meio. As representações anteriores, copiadas da arte romana, o mostravam como um jovem imberbe, com os cabelos frisados. Especula-se que o modelo utilizado na confecção do Pantocrator do Sinai tenha sido o Santo Sudário, localizado atualmente na Catedral de Turim, na Itália. Utilizando uma técnica de superposição de imagens, o pesquisador norte-americano Alan Whanger, da Universidade de Durham, na Carolina do Norte, obteve nada menos do que 170 pontos de congruência entre a figura do ícone e a face misteriosamente impressa naquele que a tradição diz ter sido o lençol mortuário de Jesus.
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1 comentário

  1. Somente na mente de crentes e em benefício da própria fé, a história da origem do cristianismo pode ser acolhida como se apresenta. É contada no Novo Testamento, e apenas nele existe. Portanto, nada há de científico no seu acatamento. Trata-se de um ato de imposição política.
    Toda essa conversa de “Cornélio Tácito, respeitado historiador romano do primeiro século, escreveu: “O nome [cristão] deriva-se de Cristo, a quem o procurador Pôncio Pilatos executou no reinado de Tibério.” Suetônio e Plínio, o Jovem, outros escritores romanos daquela época, também se referiram a Cristo. Além disso, Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, escreveu sobre Tiago, a quem identificou como “o irmão de Jesus, que era chamado Cristo”. Não vale meio centavo furado. Por quê?
    Porque, inicialmente, nenhum dos primeiros apologistas cristãos se referiu a nenhuma dessas “provas” fabricadas posteriormente ou a partir do século IV. Por quê?
    Porque o cristianismo surgiu no século II e a “história” contada e situada na Palestina no século I é pura invenção. Oh! Não pode ser! Pode sim. Lembra de que nos primórdios havia uma contenda entre os cristãos? Pois então, Uns queriam um Cristo espiritual e outros um Cristo de carne e osso, o “histórico”. Os primeiros aspiravam pelo aprimoramento espiritual do indivíduo na luta contra o judaísmo. Os segundos estavam determinados a vencer e subjugar o judaísmo. Para tanto necessitavam de uma ligação mais convincente com a cultura judaica. Mais por quê?
    Porque nos primeiros séculos o proselitismo judaico avançava perigosamente sobre a cultura greco-romana e o número de convertidos plenos crescia de forma preocupante. A pressão de certa camada das classes altas pressionava o governo a tomar uma atitude e assim foi feito. O imperador Adriano (117-138) proibiu a circuncisão em todo o Império, um dos principais motivos da guerra contra os judeus, de 132.
    A conversão ao judaísmo seguia passos obrigatórios que levavam tempo. No final do processo o prosélito era circuncidado e somente a partir daí era aceito como membro da nação de Israel. Isto significa que a aceitação dos pagãos, em especial gregos e romanos, pelo judaísmo era ampla e perigosa para a cultura dominante na época. Todavia, o sucessor de Adriano, Antonino Pio (138-161), relaxou um pouco as medidas antijudaicas, mas manteve a proibição da circuncisão sob pena de morte somente para não judeus. Daí uma legião de prosélitos incircuncisos, que jamais seria aceita na nação de Israel, recebe atenção de uma nova religião alegadamente surgida de uma seita judaica que havia abolido a circuncisão e a rigidez mosaica abrindo concorrência com o judaísmo real.
    Detalhe: quem eram esses divulgadores ou propagandistas dessa nova religião?
    Judeus reformistas insatisfeitos com o judaísmo tradicional? Não. Eram gregos na maioria e uns poucos latinos, os mais incomodados com o proselitismo judaico, a liderar tal iniciativa.
    É só pensar um pouquinho: pelo teor das suas mensagens, Jesus, precisava ser judeu? Não. Por que os fariseus (defensores do judaísmo ortodoxo) foram tão esculachados pelos evangelhos e os judeus em geral pela história cristã? Por que a crucificação do personagem Jesus foi creditada aos malévolos judeus? Essa é uma história de ódio. Engana-se quem quiser. O Jesus histórico é uma invenção da ala vitoriosa do cristianismo primitivo na ânsia de submeter o judaísmo e a nossa cultura não quer que isto apareça se não ela se ferra. Pronto.

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