Galileu Galilei

 

Final do século XVI. É manhã na cidade italiana de Pisa. Diante da famosa torre inclinada, toda a comunidade universitária está reunida. Doutores vestidos de veludo acotovelam-se com simples estudantes. Há um clima de zombaria no ar. É que um novo e ainda obscuro professor, Galileu Galilei, ousou refutar ninguém menos do que o grande Aristóteles (século IV a.C.). Este afirmara que, se dois corpos de pesos diferentes caíssem da mesma altura, o mais pesado chegaria primeiro ao solo. Desde o século XIII, todos os sábios acreditam nisso, porque assim falou “o Filósofo”, com efe maiúsculo, como era chamado então Aristóteles. E agora vinha esse ilustre desconhecido querer provar que os corpos alcançavam o chão no mesmo instante. Mas Galileu não se deixa intimidar. A confiança na ciência o anima a enfrentar o dogma. Armado de duas bolas de ferro – uma pesando 100 libras e a outra, apenas uma –, o herói sobe a escadaria do campanário. Os acadêmicos aristotélicos trocam risinhos e esfregam as mãos, antegozando o fracasso do jovem físico. Destemido, Galileu deixa cair os pesos. E – surpresa geral! – eles chegam juntos. A experimentação vence a autoridade. Acaba de nascer a ciência moderna!

As lendas costumam ser mais convincentes e duradouras do que os fatos. Também a história da ciência é feita de lendas. A célebre “experiência de Pisa” é uma delas. Conforme demonstrou o historiador da ciência Alexandre Koyré (1892 – 1964), ela jamais ocorreu [1]. Da mesma forma que tantos outros, este foi um experimento mental, realizado por Galileu no recesso silencioso de sua imaginação (onde era possível eliminar a resistência do ar) e não no alto da torre, diante de uma platéia barulhenta. Quanto a por em dúvida os ensinamentos de Aristóteles, escreveu Koyré, “havia 100 anos que não se fazia outra coisa”. A ciência moderna, que se costuma associar ao método experimental, não nasceu de um ato isolado e espetacular, de uma façanha heróica, mas de lenta germinação. Suas raízes perfuram o solo da Era Moderna, atravessam o Renascimento, entram pela Idade Média e vão buscar nutrientes em camadas ainda mais profundas da civilização.

Galileu não foi o seu fundador. Nem sequer seu maior protagonista. Se, junto com Descartes e Kepler, ele compõe o trio de gigantes sobre cujos ombros Newton afirmou haver subido para enxergar tão longe, seu papel nessa tríade parece ter sido decididamente superestimado por admiradores. Com o distanciamento que só o tempo proporciona, é possível perceber hoje que sua importância foi muito menos científica do que política. Em sua longa existência, Galileu ofereceu à ciência duas contribuições de primeira grandeza: as observações astronômicas que realizou com o telescópio holandês e o desenvolvimento da cinemática. Essas duas realizações seriam suficientes para imortalizá-lo. Mas, assim como ocorreria séculos mais tarde com Einstein, seus contemporâneos e a posteridade lhe atribuíram um sem número de façanhas e engrandeceram sua biografia até transformá-lo em um super-herói da ciência.

Ele não inventou o telescópio, não jogou os pesos do alto da torre de Pisa, não provou o movimento da Terra, não foi torturado pela Inquisição e, diante do Tribunal do Santo Ofício, não disse “Eppur, si muove” (“Todavia, se move”). Sua fama, que se esforçou por cultivar, deveu-se à combinação de três ingredientes. Só o primeiro, na ordem cronológica, pode ser considerado científico: suas observações astronômicas, de fato espetaculares, que revolucionaram a visão de mundo da intelectualidade européia. Os outros dois foram decididamente políticos: a conquista de importantes apoios e patrocínios, entre eles o da poderosa família Medici; e o confronto com a Igreja, que lhe deu a aura de mártir. Reconduzi-lo à escala humana não é diminuir o alcance de suas realizações, mas desfazer-se de uma lenda que só ilusoriamente contribuiu para progresso da ciência.

Em busca de um lugar ao Sol

Galileu nasceu em Pisa, no dia 15 de fevereiro de 1564. Seu pai, Vincenzo Galilei, um empobrecido descendente da pequena nobreza italiana, destacara-se como compositor. Culto e arejado, procurou oferecer ao filho uma educação esmerada, matriculando-o na escola dos jesuítas de Vallombrosa, perto de Florença. O jovem desenvolveu forte interesse por literatura e arte. Mais tarde, escreveria comentários críticos sobre Dante, Ariosto e Tasso e expressaria sua admiração pela sobriedade estética do Alto Renascimento em contraposição às excentricidades do Maneirismo. Em 1581, ingressou na Faculdade de Medicina de Pisa, e, ainda estudante, fez sua famosa observação do movimento pendular, descobrindo que, independentemente da amplitude da trajetória, um pêndulo oscila sempre com freqüência constante. Era um início promissor. Mas, apesar de seu brilhantismo, o jovem teve que abandonar a universidade, sem concluí-la, quatro anos mais tarde. A impossibilidade de o pai continuar custeando sua educação e a não obtenção de uma bolsa obrigaram-no a interromper os estudos regulares.

Felizmente, não se desinteressou pela ciência. Como autodidata, continuou às voltas com disciplinas como a mecânica, a hidráulica e a balística, procurando solucionar problemas técnicos por meio de métodos matemáticos. É dessa fase a publicação de sua primeira obra, La bilancetta (A balança), na qual retoma os estudos de Arquimedes relativos à determinação dos pesos específicos e dos baricentros dos corpos. Graças à intercessão do marquês Guidobaldo del Monte, obteve uma nomeação para a cátedra de matemática da Universidade de Pisa.

Foi nessa etapa de sua biografia que a lenda incrustou a pretensa experiência da queda dos corpos. Mas essa exibição perigosa não combina com a prudência que pautou suas ações no período. Buscando alavancar a carreira e elevar seus rendimentos, não lhe convinha envolver-se em confrontos acadêmicos. Embora o espírito polêmico fosse um componente central de sua personalidade, ele parece ter tido o cuidado de ocultá-lo, à espera da ocasião oportuna. De motu (Sobre o movimento), um tratado iniciado na época, permaneceria inédito.

Em 1592, após várias tentativas, conseguiu finalmente sua transferência para a Universidade de Pádua, protegida pela República de Veneza. O novo emprego lhe proporcionava, de saída, melhor remuneração. Ele a engordou com sucessivos aumentos. E implementou ainda mais sua condição financeira ministrando aulas particulares e montando em sua casa uma pequena oficina para o reparo de instrumentos de precisão. Em pouco tempo, conquistou confortável condição econômica e sólido prestígio nos meios aristocráticos de Pádua e Veneza.

A preocupação que tinha de esconder suas opiniões anticonvencionais é abertamente admitida na primeira carta que escreveu a Kepler, em 1597. Referindo-se ao sistema heliocêntrico do cônego polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), que afirma a translação da Terra ao redor do Sol, Galileu disse: “Adotei os ensinamentos de Copérnico há muitos anos e escrevi inúmeros argumentos em apoio a ele, mas até agora não ousei publicá-los, atemorizado pelo destino do próprio Copérnico, nosso mestre, que, embora tenha adquirido fama imortal com alguns, constitui ainda, para uma infinita multidão de outros (que tal é o número dos tolos), objeto de ridículo e zombaria” [2]. Tinha então 33 anos. Apesar de discordar dele, continuou ensinando o sistema geocêntrico do astrônomo alexandrino Cláudio Ptolomeu (século II d.C.), que afirma a imobilidade da Terra. E não só o ensinou por mais 16 anos, como o defendeu por escrito no Trattato della sfera o cosmografia (Tratado da esfera ou cosmografia), publicado em 1603.

A carta deixa claras as preocupações de Galileu. Ele não temia a perseguição da Igreja, pois o sistema copernicano ainda não havia sido censurado e podia ser discutido livremente, como “hipótese matemática”. Temia, sim, indispor-se com a comunidade acadêmica, adepta do aristotelismo e do geocentrismo, tornando-se, conforme suas próprias palavras, “objeto de ridículo e zombaria”. A obstinação em apartar-se de uma origem humilde, que explica o afã por ascensão social e reconhecimento intelectual, parece ter tido um papel decisivo na composição de sua atormentada personalidade. Para conquistar um lugar ao Sol, estivesse ele imóvel ou em movimento, o cientista não recuou diante de pequenas baixezas. E teve um comportamento bem menos heróico do que desejariam seus românticos admiradores.

O mensageiro das estrelas

Até o ano de 1610, Galileu não publicou nenhuma obra que lhe assegurasse mais do que uma nota de rodapé nos compêndios de história da ciência. Seu temperamento fogoso e inegável talento científico e literário foram desviados para escritos menores e desperdiçados em mesquinhas disputas autorais, como a acalorada polêmica que travou com um certo Baldassar Capra sobre a primazia na invenção de um compasso geométrico-militar. No verão de 1609, porém, o destino bateu em sua porta. Foi quando recebeu um texto com a descrição de um instrumento, construído na Holanda, que permitia enxergar coisas distantes como se estivessem próximas. Tomando por base a luneta holandesa, Galileu fabricou, ele próprio, um aparelho semelhante, capaz de aumentar nove vezes o tamanho aparente dos objetos. Aquele instrumento tosco, que para muitos não passaria de uma simples curiosidade, fez milagres em suas mãos. Em vez de apontá-lo para alvos triviais, o cientista o direcionou para o céu. As descobertas que realizou revolucionaram toda a visão de mundo de seu tempo.

Durante os quase três anos em que esteve dominado pela febre da observação astronômica, Galileu constatou que:

  • Em vez de ser uma mancha esbranquiçada no firmamento, a Via Láctea era formada por “incontável multidão de estrelas amontoadas”;
  • O número de “estrelas fixas” superava “mais de dez vezes as conhecidas anteriormente”;
  • A superfície da Lua não era “perfeitamente lisa, livre de desigualdades, nem exatamente esférica”, mas, “tal qual a superfície da própria Terra, diversa por toda parte, com montanhas elevadas e vales profundos”;
  • Júpiter era circundado por quatro luas, “nunca vistas desde o começo do mundo”;
  • As estrelas não tinham contornos definidos e circulares; eram como chamas, que “brilham, vibram, cintilam”; ao passo que os planetas se apresentavam “sob a forma de pequenos globos redondos, uniformemente iluminados”;
  • Vênus mostrava fases como as da Lua;
  • Saturno exibia uma protuberância na altura do equador, que ele atribuiu a duas pequenas luas opostas, bem próximas da superfície do planeta (tratava-se, na verdade, dos anéis, identificados pouco mais de 50 anos depois pelo matemático, físico e astrônomo holandês Christiaan Huygens);
  • As manchas solares eram “exalações” da própria superfície do Sol.

Em março de 1610, em um livreto de apenas 24 páginas, que trazia o título latino de Sidereus Nuncius (O Mensageiro das Estrelas), Galileu comunicou ao mundo a maior parte de suas espetaculares descobertas [3]. Poucas vezes um texto causou tanto impacto sobre a visão de mundo de uma época. Johannes Kepler, talvez o maior astrônomo de todos os tempos, chorou de emoção ao lê-lo. E, em apenas 11 dias, escreveu um entusiasmado panfleto em sua defesa [4]. A pronta acolhida de Kepler prenunciou o apoio que a obra iria conquistar nos meios cultos da Europa.

As descobertas de Galileu não trouxeram nenhuma prova definitiva a favor do sistema heliocêntrico, como muitos acreditam e ele próprio parece ter acreditado. Seu impacto, porém, foi muito maior. Ele simplesmente derrubou uma concepção que dominava a cosmologia desde os tempos de Aristóteles, no século IV a.C. O filósofo grego dividira o Cosmo em duas regiões qualitativamente diferentes. A Terra e suas imediações seriam formadas por uma mistura variável de quatro “elementos”: terra, água, ar e fogo. Daí estarem sujeitas a mudanças constantes e à corrupção. A partir da órbita da Lua, porém, outro tipo de matéria, a nobre “quintessência”, tornava os corpos celestes perfeitos, imutáveis e eternos. Antes de Galileu, essa falsa idéia fora contesta por filósofos como Nicolau de Cusa (1401-1464) e Giordano Bruno (1548-1600) e astrônomos como Tycho Brahe (1546-1601) e Johannes Kepler (1571-1630). Faltava-lhes, porém, uma prova objetiva e irrefutável, que pudessem contrapor à enorme autoridade de Aristóteles. Galileu apresentou tal prova.

Ao descobrir o relevo da Lua e constatar, pouco depois, que as manchas solares se deviam a “exalações” do próprio Sol, ele demonstrou empiricamente que, assim como a Terra, os astros passavam por transformações. Deviam, portanto, ser compostos do mesmo tipo de matéria. Essa nova perspectiva, profundamente radical, permitiria que, meio século mais tarde, o grande Isaac Newton (1642-1727) unificasse a física terrestre à física celeste e, sobre essa base, edificasse sua teoria da gravitação universal, coroando a revolução cognitiva que produziu a ciência moderna.

Marcha triunfal

Galileu dedicou o Sidereus Nuncius a Cosimo II, grão-duque da Toscana e chefe da poderosa família Medici. Considerando que tal adulação ainda não era suficiente, batizou as quatro luas de Júpiter com o nome de “astros mediceus”. A manobra foi um sucesso. Cosimo ficou encantado e, em retribuição, nomeou o cientista “primeiro matemático e filósofo do grão-duque de Toscana” e “primeiro matemático da Universidade de Pisa”, sem obrigação de residência e ensino. Galileu assumiu o cargo em setembro de 1610 e mudou-se para o Palácio Medici, em Florença.

Pouco depois, viajou para Roma, onde foi recebido em triunfo. A exclusivíssima Academia dei Lincei (aqueles que têm olhos de lince), presidida pelo príncipe Federico Cesi, o acolheu como membro e lhe ofereceu um banquete. O poderoso Collegium Romanum (Colégio Romano) dos Jesuítas – que possuía em seu quadro de professores um notável grupo de astrônomos, liderados pelo padre alemão Christopher Clavius (1538 – 1612), principal autor da reforma do calendário – o homenageou com várias cerimônias. Como se não bastasse, o papa Paulo V o recebeu em audiência particular.

Os astrônomos jesuítas, que a princípio haviam duvidado das descrições do Sidereus Nuncius, confirmaram depois todas as suas descobertas astronômicas, inclusive a das fases de Vênus – o que tinha enorme importância, pois provava que ao menos esse planeta girava em torno do Sol. Incensado pelos donos da cultura, do poder e da riqueza, Galileu conquistou a fervorosa admiração do cardeal Maffeo Barberini, futuro papa Urbano VIII.

Da noite para o dia, Galileu transformara-se na maior celebridade da ciência européia. Uma de suas primeiras providências foi abandonar sua antiga companheira, Marina Gamba. Essa mulher simples, que ele conhecera muito jovem em uma de suas viagens a Veneza, foi sua empregada e amante em Pádua. E lhe deu três filhos, Virgínia, Lívia e Vincenzo. O cientista não registrou nenhum deles. Em sua certidão de batismo, Virgínia, a mais velha, é descrita como “filha, por fornicação, de Marina, de Veneza”, sem menção do pai. Quando se instalou na corte dos Medici, Galileu levou as duas filhas consigo, e deixou Marina e o pequeno Vincenzo, então com apenas quatro anos, para trás. Assim que pôde, enfiou as duas meninas em um convento. Como ambas fossem demasiado jovens para assumir a responsabilidade por tal decisão, o cientista contornou o impedimento legal recorrendo à intercessão do cardeal Barberini. Ele não foi o primeiro e infelizmente não seria o último a subir os degraus da fama pisando sobre a felicidade de mulher e filhos.

O perigoso embate teológico

Ao reconhecer as dificuldades de relacionamento de Galileu com seus familiares, Antonio Banfi (1886 – 1957), famoso filósofo italiano e entusiasmado biógrafo do cientista, afirma que sua verdadeira família foram os discípulos [5]. Apesar de seu deslumbramento pela aura heróica do biografado, Banfi nos permite entrever a influência que esses discípulos podem ter tido no comportamento do mestre, alimentando ainda mais sua vaidade, insuflando seu temperamento naturalmente exaltado e empurrando-o de encontro a perigosos confrontos. Como seria de esperar, a corte dos Médici era um ninho de cobras. E as opiniões proferidas abertamente pelo cientista à mesa de jantar logo se espalhavam por Florença e mais além, em uma rápida transmissão de bocas a ouvidos. Já em 1611, surgiu a primeira manifestação pública contra suas idéias: o tratado Contra o movimento da Terra, do acadêmico Lodovico delle Colombe.

Medíocre partidário do aristotelismo, Colombe desceu ao último degrau da argumentação, apelando a citações da Bíblia para contestar as opiniões de Galileu. Em pleno século IX, o grande filósofo cristão João Escoto Erígena (Johannes Scotus Eriugena, 810 – 877) sustentara que cada passagem das Sagradas Escrituras possuía inúmeras camadas de significados, admitindo portanto múltiplas interpretações. É uma notável prova de decadência intelectual que, setecentos anos mais tarde, os acadêmicos católicos regredissem a uma leitura unívoca e ingenuamente literal do texto bíblico.

Em 1613, amparado pela notoriedade que havia adquirido, Galileu foi à forra. Sentindo-se suficientemente poderoso, fez sua primeira declaração pública a favor do sistema copernicano. Foi uma declaração discretíssima, não mais do que três linhas no final do tratado Istoria e dimostrazione intorno alle macchie solari (História e demonstração sobre as manchas solares), no qual dava prosseguimento à divulgação de suas descobertas astronômicas e contestava o princípio aristotélico da incorruptibilidade dos corpos celestes. Esse tímido movimento foi suficiente, porém, para assanhar os ânimos de padres ignorantes e professores conservadores. O diz-que-diz-que recrudesceu.

Galileu poderia ter simplesmente ignorado esse tolo falatório, que em nada abalava o impacto de suas descobertas. Tanto mais que seu tratado sobre as manchas solares fora elogiado pelo cardeal Barberini em pessoa. Mas, dando vazão a sua veia polêmica e instigado pelos discípulos, resolveu enfrentar seus opositores no mais desfavorável dos terrenos, o da teologia.

Em três breves textos, entre eles a famosa Carta a Cristina de Lorena, dirigida à mãe de Cosimo II, o cientista rebateu os ataques que vinha sofrendo. Afirma ele, nesse documento, que as Sagradas Escrituras e a natureza provêm, ambas, da mesma fonte: o “Verbo Divino”. Mas, enquanto a Bíblia, “para adaptar-se ao entendimento da generalidade das pessoas”, diz muitas coisas que são “distintas, na aparência e quanto ao significado nu das palavras, da verdade absoluta”, a natureza é inexorável e imutável, “jamais ultrapassando os limites das leis a ela impostas”, sem se preocupar se “suas recônditas razões e modos de operar estão ou não ao alcance da capacidade dos homens”. Com base nessa distinção, conclui que não se pode, apelando aos textos das Escrituras, colocar em dúvida, e muito menos condenar, “aquilo que a experiência sensível nos coloca diante dos olhos, ou as demonstrações necessárias nos fazem concluir” [6].

Orientada por uma perspectiva tipicamente moderna, a Carta a Cristina de Lorena demarca o terreno entre a ciência e a teologia, reservando para a primeira a atribuição de investigar as “leis” da natureza e deixando para a segunda a tarefa de interpretar a Bíblia. De modo semelhante, O Príncipe, de Maquiavel, outro texto constitutivo da modernidade, delimita os campos da política e da ética. No longo prazo, os resultados desse divórcio parecem ter sido desastrosos em ambos os casos. Mas não cabe discuti-los aqui.

Respeitando a demarcação por ele mesmo estabelecida, Galileu poderia ter restringido seus argumentos ao campo estritamente científico – o que lhe teria sido bem mais seguro. Mas estava convencido de que, provindo de uma fonte comum, Deus, a natureza e a Bíblia não tinham como ser conflitantes. Se as novas proposições científicas haviam rompido a coerência entre ambas, essa coerência deveria ser restabelecida mediante uma reinterpretação das Escrituras. O procedimento adotado por Galileu em matéria de exegese bíblica seria, mais tarde, amplamente utilizado pela Igreja e consagrado na encíclica Providentissimus Deus, promulgada por Leão XIII em 1893. Visto com olhos atuais, é até uma atitude conservadora, que permite salvar os dogmas religiosos frente ao avanço do conhecimento científico. Mas, na época, representava uma inovação escandalosa.

A condenação do modelo heliocêntrico

O poder da Igreja encontrava-se, então, seriamente ameaçado pela propagação da Reforma protestante. Enquanto era adulado por cardeais sofisticados, Galileu adquiria as feições de um novo Lutero na imaginação do clero miúdo. Durante quase um ano, cópias da carta circularam nos meios eclesiásticos. Trechos fora de contexto eram acompanhados de boatos alarmistas. A questão adquiriu proporções assustadoras.

No púpito da igreja de Santa Maria Novella, em Florença, um vulgar instigador do povo, o padre dominicano Caccini, fez inflamado sermão, tomando como tema a frase evangélica “Por que ficais, galileus, a contemplar os céus?”. O termo “galileus” referia-se, é claro, a “homens da Galiléia”, porém Caccini o empregava maliciosamente com o significado de “seguidores de Galileu”, mobilizando os fiéis contra os matemáticos em geral. Pouco depois, os dominicanos do Convento de São Marcos resolveram encaminhar a Carta a Cristina de Lorena à apreciação do Santo Ofício (Inquisição). A fim de incriminar o cientista, os padres anexaram ao pedido de exame uma cópia do documento com duas passagens deliberadamente adulteradas.

Apesar da manobra, o consultor da Inquisição considerou que, se o acusado abusara de “termos impróprios”, ele não ultrapassara os “limites da linguagem católica”. E propôs o encerramento do caso. Mas os inimigos de Galileu não se contentaram como o veredicto conciliador. Novas citações, pinçadas do tratado sobre as manchas solares, foram evocadas contra o cientista. Caccini chegou a inventar supostas conexões dele com conhecidos “hereges” da época. A situação se agravava. Galileu resolveu sair a campo. Confiando na influência de seus amigos poderosos, dirigiu-se a Roma, onde, com o apoio de um expressivo grupo de cardeais, esperava convencer o papa de sua posição.

Paulo V, porém, não se deixaria levar. Conservador, o sumo pontífice via qualquer atividade filosófica e científica como trabalhos suspeitos. Era suficientemente esperto, porém, para perceber que as novidades cosmológicas defendidas por Galileu de fato ameaçavam a visão de mundo tradicional da Igreja. Ademais, a questão já havia ido longe demais e ninguém sabia que rumo poderia tomar na conjuntura movediça da época. Antes que a situação fugisse ao controle, Paulo V resolveu agir – rápida e drasticamente, conforme seu estilo pessoal. No dia 24 de fevereiro de 1616, atendendo a determinações explícitas do papa, o tribunal do Santo Ofício incluiu o tratado de Copérnico, Sobre a revolução dos corpos celestes, no Index dos livros proibidos.

Composto por uma maioria de dominicanos, que em alusão às cores de suas vestes eram chamados de “os cães brancos e negros da Inquisição” e constituíam então uma das ordens mais conservadoras da Igreja, o tribunal declarou que a proposição de estar o Sol imóvel no centro do mundo era “insensata e absurda em filosofia e formalmente herética, na medida em que contradizia expressamente numerosas passagens das Sagradas Escrituras”. Declarou também que a proposição do movimento diário de rotação da Terra em torno do próprio eixo era “no mínimo, errônea na fé”. Até aquele momento, a Igreja tolerara o ensino e o debate do modelo heliocêntrico, desde que este fosse encarado como hipótese matemática, destinada a acomodar os dados da observação, e não como uma expressão da verdade objetiva. A partir de então, ele foi enquadrado no rol das heresias.

O tribunal era presidido pelo cardeal Roberto Bellarmino. Além de pertencer à ordem jesuíta, então a mais progressista da Igreja, Bellarmino era considerado o maior teólogo da cristandade. Culto e flexível, ele parece ter desempenhado um papel moderador nas discussões do Santo Ofício. Não pôde salvar a teoria copernicana, uma vez que sua condenação obedecia ao desejo expresso e inquestionável do próprio papa, mas poupou Galileu. Defendido por amigos poderosos e protegido pelo grão-duque em pessoa, seu nome não foi sequer citado nas declarações públicas do tribunal.

O processo de 1616 tratou exclusivamente do modelo heliocêntrico e não de pessoa de Galileu No entanto, dois dias depois da sentença de 24 de fevereiro, o cientista foi chamado à presença de Bellarmino e do comissário geral da Inquisição. Em nome do papa, estes o intimaram a “abandonar inteiramente a opinião que pretende que o Sol esteja no centro do mundo e imóvel e que a Terra se mova; abster-se de sustentá-la de qualquer maneira, de ensiná-la ou defendê-la, por palavra ou por escrito, sob pena de ser submetido a processo diante do Santo Ofício”. Galileu prometeu obedecer.

A construção do paradigma mecanicista

O cientista ficou sete anos sem publicar nada de importante. Em 1623, rompeu o silêncio. Ocorre que, em 1618, haviam aparecido três cometas no céu. Seguindo a interpretação do grande astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, o jesuíta Orazio Grassi (1583–1654), do Collegium Romanum, escreveu um tratado manifestando a idéia de que os cometas, da mesma forma que os planetas, eram corpos celestes que se moviam em órbitas regulares. Esse ponto de vista, que seria confirmado pela posteridade, chocava-se com a opinião aristotélica de que os cometas eram o resultado de emanações da região sublunar. Furioso pelo fato de o seu nome não ter sido citado no texto de Grassi, Galileu fez publicar uma réplica, assinada por seu discípulo Mario Guiducci (1585–1646). Nesta, retrocedendo a Aristóteles, o cientista afirmava que os cometas, assim como a aurora boreal, não eram objetos reais, mas simples ilusões de óptica, causadas pela reflexão dos raios solares pelas emanações que se elevavam nas altas camadas da atmosfera.

Afora a mágoa por não ter sido citado, o que levava Galileu a sustentar essa posição insustentável era o fato de as trajetórias dos cometas serem tão acentuadamente elípticas que não podiam de forma alguma ser conciliadas com as órbitas circulares postuladas pelo sistema copernicano. Ora, Galileu era absolutamente conservador quando se tratava da forma dos movimentos celestes. Apegando-se à idéia platônica da perfeição da circunferência, ele sentia profunda repugnância por qualquer curva que se afastasse da rigorosa redondeza dessa figura absolutamente simétrica. O mesmo preconceito estético-filosófico que o levava a rejeitar as excentricidades da arte maneirista alimentava sua ojeriza à excêntrica elipse.

Atacado, Grassi treplicou, em um texto publicado sob o pseudônimo de Lothario Sarsi. E essa tréplica obrigou Galileu a sair dos bastidores. O cientista veio a público, em 1623, com o tratado Il Saggiatore (O Ensaiador). Em um tom asperamente polêmico, reivindicou a descoberta de “todos os fenômenos novos no céu” e defendeu sua tese errada acerca dos cometas.

O Saggiatore tornou-se uma peça-chave na composição do paradigma científico mecanicista [6]. Nele, Galileu expôs seus princípios filosóficos e metodológicos, distinguindo o que chamou de “qualidades primárias” e “qualidades secundárias” da natureza. As primeiras englobariam apenas o número, a forma, a posição e o movimento dos corpos. As segundas incluiriam as cores, os sons, os cheiros, os gostos etc. O cientista considerava que apenas as “qualidades primárias” eram objetivas. As “secundárias” seriam um produto da subjetividade do observador. Do ponto de vista galileano, só eram suscetíveis de investigação científica os objetos que podiam ser subjugados pelas ferramentas matemáticas disponíveis em seu tempo.

Essa distinção entre qualidade “primárias” e “secundárias” simplificou o horizonte temático da ciência e, embora partisse de uma matriz filosófica radicalmente oposta, insuflou vida nova ao enfoque reducionista do pensamento medieval tardio (adotado por Guilherme de Ockham e outros). Ela teria um papel decisivo na aceleração do processo de conhecimento. E também em seu posterior impasse. Nas palavras do célebre psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927 – 1989), tal distinção foi “o mais profundo corrompimento da concepção grega da natureza como physis, que é algo vivo, sempre em transformação e não divorciado de nós”. Se não tivesse buscado em outras fontes o antídoto contra o veneno reducionista, Newton jamais teria criado a física moderna.

Em guerra contra os jesuítas

Em seu ensaio sobre as manchas solares, Galileu atacara duramente o padre Christoph Scheiner (1573 ou 1575 – 1650), importante astrônomo jesuíta alemão. No Saggiatore, já vimos, afrontou Orazio Grassi. Mais tarde, voltaria a medir forças com outro expoente da Companhia de Jesus, Firenzuola, por causa de irrelevantes questões de engenharia militar. Esse comportamento destemperado e aparentemente inexplicável fez com que os jesuítas se transformassem de amigos em inimigos. O Collegium Romanum, que o acolhera de braços abertos em sua viagem triunfal a Roma, passou a dedicar-lhe uma fria hostilidade. E essa hostilidade seria sua perdição. O padre e astrônomo austríaco Christoph Grienberger (1561 – 1636), que sucedeu Clavius na direção do Colégio, escreveu anos mais tarde: “Se Galileu não tivesse incorrido no desagrado da Companhia, poderia escrever livremente sobre o movimento da Terra até o fim de seus dias”.

O paradoxal é que os astrônomos jesuítas poderiam ter sido importantes aliados seus na cruzada em defesa do sistema heliocêntrico. Formalmente, eles já haviam abandonado o modelo de Ptolomeu e adotado, como hipótese matemática, o modelo de Tycho Brahe. Neste, embora a Terra permaneça no centro do Cosmo, todos os demais planetas orbitam o Sol e acompanham o astro em seu movimento ao redor da Terra. Respaldado em sólidas observações astronômicas, o sistema ticônico era uma construção respeitável. Mas alguns jesuítas, parece, tinham avançado além dele, abraçando secretamente o sistema copernicano. Ademais, a Companhia de Jesus era o que havia de mais progressista na Igreja da época. O próprio Galileu se beneficiara de seu sistema educacional.

Teria ele alguma mágoa secreta de seus tempos de estudante? Algum ressentimento contra seus professores do colégio de Vallombrosa, que projetou depois sobre todos os jesuítas, indistintamente? Não se pode descartar o componente psicológico. Mas o estudioso norte-americano Michael Billington levanta outra hipótese: a de que as obras de Galileu seriam um importante componente ideológico do confronto global entre República de Veneza e a Companhia de Jesus, um confronto que envolveria poderosos interesses econômicos e políticos e se espalharia por regiões tão distantes quanto a China. Por mais bizarra que essa idéia pareça, ela tem pelo menos o mérito de chamar a atenção para um tema que vem sendo tratado de maneira superficial pela maioria dos biógrafos. A contradição entre Galileu e os jesuítas teve conseqüências sérias demais para ser encarada como simples birra.

De volta às luzes do palco

1623, o ano da publicação do Saggiatore, é uma data a ser lembrada na biografia de Galileu. Nesse ano, morreu Cosimo II, seu protetor, e a regência da Toscana foi assumida por Cristina de Lorena. Nesse ano, morreram também Paulo V e o cardeal Bellarmino. E seu amigo Maffeo Barberini foi eleito papa. O cientista ainda teve tempo de dedicar-lhe o Saggiatore. Barberini, que assumiu o papado com o nome de Urbano VIII, foi um típico pontífice do Renascimento transplantado para a Idade Moderna. Inteligente e culto, cínico e politiqueiro, mundano e extremamente vaidoso, era ardente admirador de Galileu. Gabava-se de saber mais do que todos os cardeais juntos. Em 1613, mexera os pauzinhos para conseguir a internação de Virgínia e Lívia no convento. Em 1616, opusera-se ao decreto do Santo Ofício e intercedera a favor do cientista. Em 1620, dedicou-lhe um poema em latim, ao qual deu o título de Adulatio Perniciosa (Perigosa Adulação). Depois de eleito papa, chamou Galileu à sua presença, cumulou-o de homenagens, concedeu uma pensão ao seu filho e manteve com ele seis longas entrevistas particulares.

Os assuntos tratados nessas audiências já foram objeto de muitas especulações entre os estudiosos. Mas parece seguro que, a despeito dos argumentos de Galileu, Urbano VIII recusou-se a revogar o decreto de 1616. Nem seria hábil fazê-lo, pois isso equivalia a contrariar uma decisão de seu antecessor imediatamente depois de assumir o trono. Barberini propôs uma alternativa conciliadora: encorajou o cientista a escrever o que quisesse em defesa do sistema heliocêntrico, desde que evitasse argumentos teológicos e apresentasse a teoria copernicana como uma hipótese matemática, que, sem ser necessariamente verdadeira, explicava a contento os dados observados.

O que mais Galileu poderia querer? Desde os gregos, havia a consciência de que os modelos astronômicos eram construções convenientes, destinadas a “salvar os fenômenos”. Hoje temos claro que isso vale para qualquer teoria científica. Só um ingênuo principiante é capaz de encarar uma teoria como expressão acabada da verdade. Assim como o sistema de Ptolomeu, o modelo de Copérnico era um produto altamente artificial. A observação diria qual deles apresentava maiores vantagens. Qualquer cientista sensato acharia o arranjo perfeitamente satisfatório. Mas havia um componente diabólico na personalidade de Galileu – um componente que o empurrava ao encontro do desastre.

Ademais, ele não possuía uma sólida bagagem em astronomia. Suas descobertas espetaculares foram fruto da extraordinária multiplicação da capacidade observacional do ser humano pelo telescópio. Mas daí a enquadrar os dados observados em um modelo matemático consistente vai uma longa distância. Genial, Galileu nem de longe se equiparava, como astrônomo, a um Kepler, um Tycho Brahe, e até mesmo um Ptolomeu. Não lhe interessava envolver-se em observações exaustivas e cálculos extenuantes, como Kepler em relação à trajetória de Marte. Ávido de efeitos retumbantes, fez do heliocentrismo mais um tema de discussões apaixonadas do que um objeto de ponderações meticulosas. O caminho sóbrio indicado pelo papa era tudo o que não queria. Armado de uma versão ultrassimplificada do sistema copernicano, lançou-se a uma cruzada propagandística.

O torneio cosmológico

Com o sinal verde de Urbano VIII, Galileu acreditou que sua hora e sua vez haviam enfim chegado. Mesmo assim levou nada menos de seis anos, de 1623 a 1629, para redigir sua defesa do sistema copernicano. Na segunda metade desse período, simplesmente a colocou de lado, talvez duvidando da força dos próprios argumentos ou da solidez do apoio papal. Mas a pressão dos amigos e discípulos acabou falando mais alto. Em 1630, completou a redação do Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (Diálogo sobre os dois maiores sistemas do mundo). A obra só recebeu autorização eclesiástica para publicação em 21 de fevereiro de 1632, depois de o cientista haver consentido em fazer algumas modificações. A forma dialógica foi o expediente encontrado por Galileu para contornar a proibição de 1616 e popularizar seu texto. E também esconder suas deficiências teóricas.

O diálogo é conduzido por três personagens: Salviati, um cientista brilhante, que obviamente encarna o próprio Galileu; Sagredo, um homem prático e inteligente, que desempenha o papel de mediador, mas de fato levanta as bolas para Salviati cortar; e Simplício, um simpático porém ingênuo defensor de Aristóteles e Ptolomeu. A ação desenvolve-se em quatro jornadas, tendo por cenário o palácio de Sagredo, em Veneza [8].

Na primeira jornada, Salviati critica os princípios da física aristotélica e os fundamentos da teoria ptolomaica, em especial a presumida contradição entre corruptibilidade da Terra e a perfeição do céu. Na segunda jornada, os debatedores se engalfinham em argumentos pró e contra o movimento da Terra. Salviati refuta brilhantemente a célebre objeção, sempre repetida pelos aristotélicos, de que, caso o planeta se movesse, qualquer coisa que não estivesse firmemente atada a ele seria deixada para trás. O cientista argumenta que, assim como uma pedra abandonada do alto do mastro de um navio sempre cai ao pé do mastro, porque, ao mesmo tempo que cai, acompanha o navio em seu deslocamento horizontal, também uma pedra abandonada do alto de uma torre cai ao pé da torre, por acompanhar o movimento da Terra.

Nessa argumentação, ao explicar pela boca de Salviati o movimento da pedra, Galileu oscila entre o conceito medieval de impetus, que é uma propriedade adquirida pelo corpo, e o conceito moderno de inércia, que é uma propriedade intrínseca a ele. Porém essa vacilação é perfeitamente compreensível. Os dois conceitos são difíceis de deslindar e foi preciso uma longa maturação para que a ciência os diferenciasse com clareza. O próprio Newton cometeu essa confusão ao longo da redação dos Principia, sua obra máxima. E, só em uma fase adiantada do trabalho, chegou a uma definição concisa e precisa do princípio da inércia. As duas primeiras jornadas são, de longe, a parte mais consistente do Dialogo.

Na terceira jornada, Galileu apresenta finalmente seus argumentos astronômicos a favor da teoria heliocêntrica. No confronto entre os dois sistemas do mundo, oferece como provas da superioridade do copernicano as fases de Vênus (que evidenciam o movimento de translação daquele planeta em redor do Sol) e as luas de Júpiter (que demonstram a existência de pelo menos um outro centro orbital além da Terra). Mas a verdade é que, embora ponham em xeque o sistema ptolomaico, os dois fenômenos, descobertos pelo cientista, não constituem provas conclusivas a favor do sistema copernicano. Pois também poderiam ser acomodados pelo sistema ticônico.

Além disso, Galileu afirma que, para explicar as aparentes paradas e retrocessos dos movimentos planetários, Ptolomeu fora obrigado a introduzir em seu modelo numerosos artifícios matemáticos, os epiciclos, que Copérnico havia descartado com “um único movimento da Terra”. E omite o fato de que o modelo copernicano é tão atulhado de epiciclos quanto o ptolomaico – pelo simples e bom motivo de as trajetórias reais dos planetas (que Kepler demonstrou serem elípticas) não coincidirem com as circunferências perfeitas postuladas pelo polonês. Para ajustar uma coisa à outra, este também fora obrigado a recorrer a uma parafernália de artifícios [9].

Ademais, o sistema copernicano apresenta outras anomalias que eram perfeitamente conhecidas pelos astrônomos da época, como a não coincidência entre a posição do Sol e o centro das órbitas planetárias. Mas Galileu não diz uma palavra a respeito. Para efeitos propagandísticos, ele faz uma drástica simplificação desse modelo, retendo a idéia geral de os planetas girarem em torno do Sol em movimentos perfeitamente circulares e com velocidade linear constante, e varrendo para baixo do tapete todos os remendos que Copérnico fora obrigado a fazer nesse esquema, a fim de ajustá-lo às trajetórias planetárias reais, observadas pelos astrônomos.

O cientista reserva para a quarta jornada seu grande trunfo, aquele que acreditava ser a prova definitiva a favor do sistema copernicano: sua teoria das marés. Ele havia rejeitado, como ocultista e fantasiosa, a correta explicação de Kepler de que as marés se deviam a uma atração da Lua sobre as águas. E, contradizendo toda a argumentação apresentada na segunda jornada, de que os corpos terrestres acompanhavam sem perturbações o movimento da Terra, atribuiu as marés a um atraso e adiantamento periódicos das águas em relação à terra firme, causados pela ação combinada da rotação e translação do planeta. O tão esperado argumento definitivo estava em contradição com seus próprios pressupostos, e já havia sido amplamente ultrapassado pela ciência da época. Sua teoria das marés revelou-se um furo n’água.

À mercê da ira papal

Apesar de seu brilhantismo literário, o Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo é um texto inconsistente do ponto de vista científico. Essa obra estaria destinada a uma curta trajetória se – e esse “se” muda tudo – o demônio de Galileu não o tivesse empurrado, provocando uma escorregada fatal no último momento. Ocorre que, em uma de suas conversas reservadas com o cientista, quando o encorajara a apresentar o sistema copernicano como simples hipótese matemática, Urbano VIII lhe dissera que o fato de uma hipótese explicar bem certos fenômenos não significa que ela seja necessariamente verdadeira, porque Deus, todo poderoso, podia perfeitamente ter produzido esses mesmos fenômenos por meios totalmente diferentes e incompreensíveis para mente humana. Galileu guardou essa frase. E, no final do Dialogo, sem citar nominalmente o papa, a colocou na boca do tolo Simplício. Depois de proferi-la, este afirma que tal argumento provinha “da mais eminente e douta pessoa, diante da qual era preciso cair em silêncio”. Com o que os outros dois debatedores imediatamente concordam, declarando-se silenciados por “essa admirável e angélica doutrina” e decidindo encerrar a conversão e “desfrutar de uma hora de repouso na gôndola que espera por nós”.

A ironia, demasiado óbvia, passou despercebida pelos olhos do censor eclesiástico, que, com poucas alterações, autorizou a publicação da obra. Mas o vaidoso Urbano VIII ficou furioso ao tomar nas mãos o livro impresso e reconhecer suas palavras na boca do estúpido personagem. O mais herético dos argumentos teológicos a favor do heliocentrismo não teria insultado tanto o pontífice quanto aquela passagem mordaz, que ele interpretou como uma inapelável traição. Foi a afeto ferido de Barberini, e não qualquer divergência ideológica, que danou Galileu. A venda do Dialogo foi imediatamente suspensa e o cientista, citado diante do Santo Ofício.

Apesar da influência da família Médici, da intercessão de amigos poderosos e da alegação de estar doente, Galileu foi obrigado a apresentar-se em Roma, no dia 20 de janeiro de 1633. Alojou-se primeiro na embaixada toscana. Depois, teve que se transferir para a prisão da Inquisição. O processo contra ele desenvolveu-se em quatro sessões, de 12 de abril a 21 de junho. Acusação: ter violado a ordem pessoalmente recebida em 1616, e sustentado e defendido a teoria copernicana, já condenada como falsa e herética.

Em sua defesa, Galileu argumentou, primeiro, que havia solicitado e obtido licença de publicação e que sua obra não concluía a favor nem contra nenhuma das teorias. Depois, admitiu ter insistido demais nos argumentos copernicanos, mas que o fez por pura paixão dialética, já que, após o decreto de 1616, havia abandonado tal opinião. Finalmente, apertado pelos inquisidores, pediu piedade para sua velhice atormentada e, no dia 22 de junho de 1633, com vestes de penitência, recitou publicamente a fórmula da abjuração – “Abjuro, maldigo e detesto os citados erros e heresias” – e prometeu denunciar ao Santo Ofício “qualquer herege ou quem quer que seja suspeito de heresia”. Por mais que o cientista possa ter contribuído para esse desfecho trágico, é revoltante saber que um homem de sua estatura foi submetido a tal humilhação. E que esse procedimento odioso foi adotado em nome da fé. Galileu foi momentaneamente envergonhado, mas a Igreja se cobriria de vergonha por séculos a fio.

O Dialogo foi proibido e o cientista, condenado à prisão ordinária, durante o tempo que aprouvesse ao Santo Ofício, e a declamar, uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos da penitência. No entanto, ao contrário da versão amplamente difundida mais tarde, o tratamento dispensado ao cientista foi excepcionalmente brando para os padrões da Inquisição. Durante todo o processo, e ao contrário da prática então adotada, ele não ficou preso um dia sequer, não foi torturado, nem lhe foram mostrados os instrumentos de tortura. A pena de prisão ordinária foi comutada no mesmo dia pelo papa e até a ordem de recitar os salmos pôde ser transferida para sua filha Virgínia, que, como freira, adotara o nome de Maria Celeste.

Não há termos de comparação entre seu processo e o de Giordano Bruno, o primeiro filósofo moderno a proclamar a infinitude do Universo. Bruno permaneceu sete anos nas masmorras do Santo Ofício, foi barbaramente torturado e finalmente queimado vivo em uma praça pública de Roma, no ano de 1600. Galileu mais uma vez foi protegido por sua fama, pela influência da família Médici, por amigos muito poderosos e até mesmo pelo resto de estima que Urbano VIII continuava lhe dedicando. Dos 10 juízes do tribunal, três se abstiveram no momento de pronunciar a sentença, entre eles o cardeal Francesco Barberini, irmão do papa.

Foi lhe indicado, como moradia, o palácio dos Médici, em Roma. Depois, ele foi transferido para Siena, ao palácio do arcebispo Ascanio Piccolomini, seu amigo, onde, segundo o relato de visitantes, trabalhava em um “apartamento coberto de seda e luxuosamente mobilizado”. Sabendo que sentia nostalgia por sua terra, o papa autorizou nova transferência, desta vez para a villa do próprio cientista, localizada em Arcetri, perto de Florença.

O último fulgor do gênio

Desgastada pelo pesar que a condenação lhe causava, Maria Celeste morreu precocemente, na primavera de 1634. O amor doentio pelo pai, que obcecara sua vida, apressou-lhe também a morte. Galileu sobreviveu. Vigiado pela Inquisição, tornou-se progressivamente cego e entrevado pela artrite. Mas sua mente continuava lúcida. E brilhante. Aos poucos, o cientista voltou a se corresponder com os discípulos mais fiéis e retomou seus estudos de cinemática. Em 1638, aos 74 anos, publicou os Discorsi intorno a due nuove scienze (Discursos sobre duas novas ciências) [10].

Nos Discorsi, voltam os personagens Salviati, Sagredo e Simplício. Seu diálogo, que seria a contribuição verdadeiramente imortal de Galileu à ciência, divide-se em seis partes. A primeira trata da estrutura da matéria, da queda livre dos corpos, do movimento pendular e da hidrostática. A segunda discorre sobre a resistência dos sólidos. A terceira e quarta cuidam do movimento local e da trajetória dos projéteis. A quinta e sexta ficaram incompletas, sendo publicadas postumamente. Sintetizando a física terrestre desenvolvida por Galileu nos Discorsi com a física celeste de Kepler, Newton construiria, décadas mais tarde, sua teoria da gravitação universal. Outro homem teria se deixado destruir pela condenação. Galileu retirou dela força e sobriedade para produzir sua obra maior.

Cercado pelos principais discípulos, Castelli, Cavalieri, Magiotti, Rinuccini, Nardi, Baliani, Spinola, Torricelli e Viviani, usufruiu ainda de uma velhice tranquila, na calma campestre de sua villa, longe da excitação intelectual da corte dos Médici e das polêmicas sobre os modelos do mundo. Morreu, fisicamente combalido, mas lúcido, no dia 8 de janeiro de 1642.

A condenação de Galileu repercutiu pesadamente sobre a intelectualidade européia. Nos Estados católicos, esse ato de força provocou décadas de retraimento. Amedrontado, Descartes recusou-se a publicar seu tratado Le monde (O mundo), que só veio à luz em 1664, 14 anos depois de sua morte. Pouco a pouco, porém, a vida retomou seu curso inexorável. E a inteligência continuou a estudá-la. A Igreja tentou deter Galileu. Mas não podia imobilizar a Terra.

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Notas
Este texto – inédito até a presente postagem – foi escrito há muitos anos, no auge do meu entusiasmo por Kepler e correspondente reserva em relação a Galileu. Há nele uma óbvia influência de The sleepwalkers (Os sonâmbulos), o livro seminal de Arthur Koestler. Mas também uma pesquisa relativamente esforçada de outras fontes e alguma reflexão pessoal. Para esta postagem, atualizei a ortografia, conforme as normas da última reforma ortográfica; procurei citar edições mais recentes das obras consultadas, para facilitar seu acesso pelos leitores eventualmente interessados; e suprimi uma ou outra passagem pueril do artigo original. Mantive, no entanto, as mesmas ideias básicas e estrutura redacional – que talvez não correspondam exatamente ao que eu faria agora, porque a idade nos torna, ou deveria tornar, menos taxativos. De qualquer forma, trata-se apenas de um texto de divulgação, sem pretensão à originalidade.

Se meu pensamento se matizou, acredito que a contraposição Kepler-Galileu, que inspirou este artigo, continua válida, como emblema de uma bifurcação de caminhos no desenvolvimento da ciência e do pensamento. Moderno – apesar dos muitos traços medievais e de um forte resquício platônico, bem apontado por Alexandre Koyré –, Galileu parece hoje um tanto desgastado. Ao passo que o antiquado Kepler – místico e pitagorizante – cresce em importância neste tempo de revisão paradigmática e transdisciplinaridade.

Para mim, a reflexão sobre essa divergência de trajetórias tornou-se bastante inspiradora na escolha de meu próprio caminho. Galileu, que, por meio do grande teatro de Brecht, fora o herói científico de minha juventude, perdeu sua aura romântica à medida que meu pensamento se adensou. Kepler, antes apenas um nome por trás das famosas três leis do movimento planetário, agigantou-se proporcionalmente, até adquirir, aos meus olhos, a dimensão que efetivamente lhe cabe. Por meio de Kepler, cheguei aos grandes místicos medievais, e aos seus precursores sufis e neoplatônicos. A partir daí, havia transposto uma porta, e me encontrava na estrada que venho trilhando há quase três décadas.

A imagem publicada no alto desta página é o retrato de Galileu, pintado pelo pintor flamengo Justus Sustermans (1597 – 1681), que se encontra no National Maritime Museum, em Greenwich, Reino Unidos. Sustermans, que trabalhou para os Medici, também pintou um outro retrato de Galileu, que o mostra mais vital e dinâmico, conservado na Galeria Uffizi, em Florença, Itália.

 

[1] KOYRÉ A. 2011. Estudos de história do pensamento científico. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária. 3ª Edição.

[2] KOESTLER A. 1989. The sleepwalkers: a history of man’s changing vision of the universe. London: Penguin / Arkana. 5a Edição.

[3] GALILEI G. 2010. Sidereus Nuncius: O Mensageiro das Estrelas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2ª Edição.

[4] KOESTLER A. Op. Cit.

[5] BANFI A. 1992. Galileu. Lisboa: Edições 70.

[6] O texto integral da “Carta à Senhora Cristina de Lorena, Grã-Duquesa Mãe de Toscana”, pode ser lido, na abalizada tradução de Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, em NASCIMENTO CAR. 2009. Ciência e fé: cartas de Galileu sobre o acordo do sistema copernicano com a Bíblia. São Paulo: Editora Unesp. 2ª Edição.

Devo a longas, reiteradas e sempre instrutivas conversas com Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, Roberto de Andrade Martins, Amâncio Friaça e outros muito do que aprendi sobre história da ciência. No entanto, as opiniões que emito são de minha responsabilidade apenas. Com sua inteligência, erudição e treino acadêmico, esses grandes pesquisadores são muito mais rigorosos e prudentes do que eu, com a autoconfiança e a afoiteza típicas do leigo, me permito ser.

[7] Galilei G. 2000. O Ensaiador. São Paulo: Nova Cultural.

[8] MARICONDA PR. 2011. Galileu Galilei. Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano. São Paulo: Associação Filosófica Scientiae Studia / Editora 34. 3ª Edição.

[9] Para acomodar a trajetória real dos planetas, observada pelos astrônomos, ao dogma da centralidade da posição da Terra e da perfeita circularidade dos movimentos celestes, Ptolomeu, assim como seu antecessor, Hiparco, foi obrigado a utilizar vários artifícios matemáticos. Um deles: fazer os astros percorrerem pequenas circunferências (epiciclos), que eram arrastadas em órbitas circulares maiores (deferentes). Apesar de colocar o Sol no centro do Cosmo, Copérnico não abriu mão da circularidade das órbitas. Por isso, também teve que recorrer aos epiciclos. A cosmologia só se livrou deste e de outros expedientes quando Kepler demonstrou que as trajetórias planetárias eram elípticas – e não circulares – e que suas velocidades variavam ao longo da órbita. Com base nessas descobertas, realizou uma reforma radical do modelo copernicano, dando-lhe uma feição semelhante à que adotamos hoje. Apesar de conhecer perfeitamente a obra de Kepler, Galileu jamais abriu mão da idéia platônica da circularidade dos movimentos celestes.

[10] GALILEU G. 1914. Dialogues Concerning Two New Sciences. Translated from the Italian and Latin into English by Henry Crew and Alfonso de Salvio. New York: Macmillan. Disponível em versão online em

http://galileoandeinstein.physics.virginia.edu/tns_draft/index.html

e também em

http://oll.libertyfund.org/index.php?option=com_staticxt&staticfile=show.php%3Ftitle=753&layout=html

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  1. Johannes Kepler, cientista e místico | José Tadeu Arantes (Kabir)

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