Para entender a China

Este longo texto foi veiculado, originalmente, como uma série de artigos, pelo site Ática Educacional. Tais artigos, escritos em 2005, foram depois reunidos e reeditados, para compor um livro, que não chegou a ser publicado. As duas últimas seções passaram por várias atualizações, a última delas em 2008.

Quando postei o texto no blog, resisti à tentação de reatualizar essas seções, pois o ritmo do desenvolvimento chinês é tão intenso que qualquer dado se torna em pouco tempo obsoleto. Para ter ideia, a economia chinesa, que ocupava a quarta posição no ranking mundial em 2008, ascendeu à primeira posição em 2014 [usando-se como critério de classificação os PIBs nacionais calculados com base na paridade de poder de compra (purchasing power parity – PPP)].

Ademais, minha intenção original não era compor um retrato minucioso da China contemporânea, cuja complexidade demandaria esforço muito mais aprofundado de pesquisa, mas tentar mostrar, em largas pinceladas, o processo histórico que possibilitou a uma semicolônia do século XIX transformar-se na superpotência emergente do século XXI.

Considero que o texto é interessante em sua maior parte, desde o “Prefácio” até o final da seção A “transição dinástica” (1976-1978)”. Nesse trecho, os eventuais leitores poderão encontrar informações que talvez nunca tenham sido veiculadas no Brasil. A seção seguinte, “A escalada modernizadora (1978-2002)”, que trata bastante de economia, deixa a desejar, pois não tenho formação de economista. E as duas últimas seções, além de estarem desatualizadas, expressam opiniões que deveriam ser cuidadosamente reconsideradas. Eu as mantive porque, apesar dos defeitos, trazem algumas informações poucas vezes difundidas.

Um último comentário é que o texto não foi adaptado às normas definidas pela nova reforma ortográfica. Por isso, algumas palavras aparecem grafadas à maneira antiga.

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DA GUERRA DO ÓPIO AO NASCIMENTO DE UMA SUPERPOTÊNCIA

Observação sobre a grafia das palavras chinesas

Sempre que possível, as palavras chinesas foram transliteradas de acordo com o sistema pinyin, a escrita oficial do idioma chinês em caracteres latinos. O pinyin corresponde melhor à sonoridade dos vocábulos do que grafia tradicional, extremamente arbitrária. Mesmo assim, a correspondência está longe de ser perfeita. Quando se trata de palavras muito conhecidas, usamos o pinyin seguido da grafia tradicional, entre parênteses. Por exemplo: Beijing (Pequim) ou Mao Zedong (Mao Tsé-tung).

Índice

Prefácio

O impacto colonialista (1839-1911)

O ciclo revolucionário I (1911-1919)

O ciclo revolucionário II (1919-1937)

O ciclo revolucionário III (1937-1949)

A construção de um novo país (1949-1960)

No olho do furacão (1960-1976)

A “transição dinástica” (1976-1978)

A escalada modernizadora (1978-2002)

Contratempos da modernização (2002-2005)

Rumo ao futuro

Referências bibliográficas

Prefácio

No início do século 20, a China era chamada de “o homem doente da Ásia” – alusão à profunda crise econômica, social, política, cultural e espiritual que fazia dela o prato favorito no banquete das grandes potências imperialistas.

Um século depois, início do século 21, a nação chinesa vive uma arrancada desenvolvimentista que poderá transformá-la na única superpotência do mundo, além dos Estados Unidos. Nos cem anos que decorreram entre as duas situações, o país viveu uma das experiências mais ricas e conturbadas da história contemporânea: a derrocada da ordem tradicional, a revolução republicana, a fermentação de ideologias radicais, a guerra civil, a luta contra a invasão japonesa, a revolução popular, o envolvimento no conflito da Coréia, os saltos e sobressaltos da industrialização e da reforma agrária, os usos e abusos da revolução cultural, o culto à personalidade de Mao Tsé-tung, a abertura da economia, os gigantescos projetos de modernização.

Essa saga grandiosa e complexa é o objeto do presente texto.

O impacto colonialista (1839-1911)

Depois de cinco milênios de história contínua e esplêndidas realizações nos campos da filosofia, das ciências, da tecnologia, das artes e da gestão pública, a China chegou ao século 19 esgotada. Ao cabo de um prolongado período de estagnação e decadência, sua antiquada estrutura econômica, social, política e cultural mostrava-se incapaz de resistir à nova ordem que o capitalismo havia introduzido na Europa e na América do Norte. Isolados do mundo no interior da Cidade Proibida, em Pequim, cercados de um luxo sem paralelo e sobrecarregados por pesadas regras de etiqueta e protocolo, os derradeiros imperadores da dinastia Qing ou Manchu (considerados estrangeiros pela população chinesa, que, em sua maioria, pertence à etnia Han), mantinham-se alheios à agonia do Império. A administração afundava na defesa de privilégios, na rigidez burocrática e no imobilismo.

O país possuía, porém, riquezas imensas, despertando a cobiça das potências capitalistas emergentes. A Guerra do Ópio, desencadeada pela Inglaterra em 1839, foi o primeiro ataque desfechado por essas nações contra o combalido Império chinês.

A Guerra do Ópio

Já nas primeiras décadas do século 19, a Inglaterra assumiu, por meio da Companhia das Índias Orientais, o controle de 80% do comércio exterior chinês. E, junto com outras mercadorias, introduziu no país o ópio, estimulando o vício na população. Apesar de proibida pelas autoridades imperiais, a droga, produzida sob domínio inglês na região de Bengala, Índia, entrava na China com a conivência de funcionários corruptos e tornou-se rapidamente o primeiro item na pauta de importações chinesa.

Depois de negociações infrutíferas com os representantes britânicos, o imperador decidiu, em 1839, pôr fim ao tráfico. Os estoques de ópio, armazenados no porto de Cantão, principal ponto de entrada dos produtos ingleses, foram inutilizados e atirados ao mar. E os comerciantes, intimados a suspenderem suas importações. Sentindo seus interesses ameaçados, os ingleses reagiram, bombardeando Cantão e outros centros populacionais ao sul do rio Yang Tsé: tinha início a Guerra do Ópio, um dos episódios mais vergonhosos da história contemporânea.

A partir da costa, as forças armadas britânicas penetraram profundamente em território chinês. E, em 1842, ameaçaram cortar o abastecimento da capital imperial, Pequim. Atemorizado, o governo Manchu capitulou, assinando o tratado de Nanquim. Além de entregar Hong Kong aos ingleses e de liberar-lhes os portos de Cantão, Xangai e outros três, o imperador extinguiu a comissão encarregada de reprimir o tráfico e indenizou os comerciantes cuja droga havia sido confiscada.

O Reino Celestial da Grande Paz

Combinada com calamidades agrícolas, a capitulação Manchu criou um ambiente social explosivo. Uma rebelião popular de feitio messiânico alastrou-se pelo país no início da década de 1850. Hong Xiuquan (1814-64), o líder da revolta, era um professor de aldeia que fora reprovado nos exames imperiais de admissão ao serviço público. Dizendo-se inspirado por Deus e Jesus Cristo, compôs uma ideologia eclética que combinava elementos da antiga filosofia taoísta com crenças herdadas do cristianismo protestante. Com base nisso, idealizou uma sociedade utópica, na qual os camponeses possuiriam e trabalhariam a terra em comum. Nessa sociedade ideal, inspirada num passado lendário, a escravidão, a tortura policial, os casamentos arranjados, o concubinato, o consumo de ópio, a idolatria e outros costumes da China Imperial, como o cruel hábito de enfaixar e comprimir os pés das mulheres, seriam abolidos.

Num país em crise, Hong logo atraiu milhares de seguidores. Seus adeptos eram pessoas que se opunham às profundas desigualdades sociais, aos costumes opressivos, à rapinagem colonialista e à odiada dinastia Manchu. Incluíam não apenas camponeses e operários que aspiravam por um mundo melhor, mas também membros de antigas sociedades secretas, descontentes com as humilhações que os “estrangeiros” manchus e o colonialistas ocidentais estavam impondo à China. Essas multidões se organizaram num exército revolucionário, que em 1851 tomou o poder na província de Guizhou, conquistou a cidade de Nanquim e outras, e proclamou o Taiping Tianguo, Reino Celestial da Grande Paz, com Hong Xiuquan como rei.

Incapaz de enfrentar sozinho os rebeldes, o governo imperial apelou às potências colonialistas. Estas preferiram apostar suas fichas numa dinastia decadente, que apesar de se opor à presença ocidental no final sempre capitulava, a arriscar seus polpudos interesses com o eventual triunfo da rebelião Taiping. Tropas britânicas e francesas e aventureiros norte-americanos vieram em socorro do exército imperial. O radicalismo das reformas propostas pelos rebeldes, seus ataques à tradicional moral confuciana (que legitimava a tríplice submissão do jovem ao idoso, da mulher ao homem e do servo ao senhor) e sua tolerância frente às sociedades secretas assustavam as classes abastadas, impedindo que o movimento ampliasse sua base social. Mesmo assim, o Reino Celestial resistiu durante 14 anos, e só foi destruído ao custo de 30 milhões de mortes. Em uma outra formulação ideológica, suas principais metas seriam retomadas pelas grandes revoluções que transformaram a fisionomia da China no século 20.

A “política de portas abertas”

Embora tenham socorrido o governo imperial na luta contra a rebelião Taiping, as potências colonialistas ainda não estavam satisfeitas com as concessões obtidas. O apetite inglês parecia insaciável. E os franceses e norte-americanos também queriam abocanhar sua parte. Aproveitando-se de um pretexto fútil (o aprisionamento de um barco chinês comandado por capitão britânico), Inglaterra e França iniciaram operações de guerra. Mais uma vez, o imperador viu-se obrigado a ceder: o tratado de Tientsin, de 1858, legalizou o uso do ópio, liberou o trânsito de estrangeiros e as atividades dos missionários cristãos em todo o território chinês e previu o estabelecimento de representações diplomáticas em Pequim.

Quando as autoridades chinesas tentaram opor obstáculos à implementação do tratado, os ingleses e franceses voltaram a se mobilizar. Uma tropa conjunta das duas potências ocupou Pequim, saqueando e incendiando o célebre Palácio de Verão. Um novo tratado, assinado em Pequim em 1859, concedeu aos ocidentais vantagens ainda maiores, entre elas, pesadas indenizações por danos sofridos durante as operações de guerra.

Em conjunto, os tratados de Nanquim, Tientsin e Pequim instauraram na China aquilo que os ideólogos do colonialismo chamaram de “política de portas abertas”. Na prática, isso significava que o país fora posto de joelhos diante das potências: mais de 80 portos haviam sido liberados, um cidadão britânico assumira a chefia das alfândegas, os estrangeiros agora gozavam de imunidades jurídicas frente às autoridades chinesas, bairros inteiros de Xangai e outras cidades importantes passaram a ser administrados diretamente pelos colonialistas. A vigência dos tratados estendeu-se até 1943, em plena Segunda Guerra Mundial.

Bem antes disso, no final do século 19, o Japão entrou em cena. O pequeno arquipélago, que, desde a década de 1860, vinha passando por acelerado processo de modernização capitalista, também emergia como potência colonialista, especialmente interessada nas riquezas minerais da Coréia, o principal Estado tributário da China. Em 1895, tropas japonesas invadiram a Manchúria e outras áreas do território chinês. Cada vez mais enfraquecida, a dinastia Manchu só sabia capitular. Pelo tratado de Shimonoseki, concedeu, em benefício dos interesses japoneses, independência à Coréia. E ainda entregou ao Japão quatro portos ao seu comércio e vários territórios, entre eles o arquipélago de Taiwan (Formosa).

A Reforma dos Cem Dias e a Revolução dos Boxers

Sob a alegação de que a expansão japonesa rompia o equilíbrio na região, as potências ocidentais, que agora incluíam também a Bélgica, a Alemanha e a Rússia, arrancaram da China novas concessões. Temendo a completa desintegração do país e inspirada no modelo japonês, uma ala modernizadora do governo, tendo à frente o jovem imperador Guangxu, deflagrou, em 1898, a chamada “Reforma dos Cem Dias”. Por meio de decretos, a vaga reformista atingiu a agricultura, o comércio, a administração civil, as forças armadas, a educação, a justiça etc. O sucesso do movimento ofereceria à dinastia Qing (Manchu) uma sólida perspectiva de sobrevivência, a exemplo do que ocorrera com a Revolução de Meiji, no Japão. Mas a idéia de entregar os anéis para não perder os dedos era estranha aos poderosos chineses.

Um golpe palaciano ultraconservador, encabeçado pela rainha-mãe Ci Xi, transformou o imperador em virtual prisioneiro e anulou a maior parte das reformas. Concubina do antigo imperador Xianfeng, Xi Ci já dava as cartas durante a longa enfermidade do amante. Depois da morte de Xianfeng, em 1862, ela enfeixou ainda mais o poder em suas mãos, primeiro como regente de seu filho Tongzhi (cujo assassinato ela teria ordenado) e depois como regente de seu sobrinho Guangxu. Com a destituição branca deste último, essa mulher terrível, que gostava de se igualar à Deusa da Misericórdia, mas que seus súditos preferiam comparar a um dragão, tornou-se a chefe incontestável do Estado chinês.

Em 1900, ainda em reação ao movimento reformista, ela conclamou as sociedades secretas de adeptos das artes marciais a eliminar os “demônios estrangeiros”. Uma onda de xenofobia propagou-se pelo território. As áreas urbanas administradas pelas potências colonialistas foram sitiadas, e alguns de seus diplomatas e missionários assassinados: era a Revolução dos Boxers (boxeadores). Pegos inicialmente de surpresa, os colonialistas reagiram e, após dois meses de combate, uma força multinacional entrou em Pequim. A corte, que se refugiara no Sião (Tailândia), capitulou. Com a derrota dos boxers, o governo imperial perdeu os últimos vestígios de autoridade. Derrotada, mas não destruída, a imperatriz-dragão manteve-se no poder até sua morte, em 1908.

O ciclo revolucionário I (1911-1919)

A derrota humilhante da Revolta dos Boxers eliminou a última esperança de uma solução imperial e conservadora para a crise chinesa. A partir de então, o ideal republicano e revolucionário ganhou terreno rapidamente. Sun Yixian (Sun Yat-sen), um homem de rara grandeza, tornou-se o pólo aglutinador e o ícone desse novo sentimento, que culminou em um levante militar contra o poder manchu.

A Revolução de 1911

Filho de camponeses pobres, Sun Yixian (Sun Yat-sen, 1866-1925) nasceu na província de Cantão e formou-se em medicina na cidade de Hong Kong. Em contato com o pensamento ocidental, converteu-se ao cristianismo. E, como muitos intelectuais chineses do período, ficou impressionado pela teoria evolucionista do inglês Charles Darwin. Com o objetivo de agrupar todos os adversários do Império em um partido único, fundou, em 1894, a Associação para a Regeneração da China. No ano seguinte, empenhou-se em uma tentativa de golpe de Estado, cujo fracasso obrigou-o a exilar-se. Uma década no exterior fez dele uma figura de prestígio internacional. Nesse período, tornou-se uma referência para os democratas chineses e quase foi seqüestrado por agentes secretos da polícia imperial, o que aumentou ainda mais sua fama.

Em 1905, Sun sintetizou sua filosofia política nos chamados Três Princípios do Povo. Eram eles o nacionalismo (com a derrubada do poder manchu e o fim da hegemonia estrangeira na China), a democracia (com a eleição pelo voto popular de um governo republicano) e o bem-estar da população (com a democratização da posse da terra e dos meios de produção). Seus nobres ideais tornaram-se extremamente populares entre os estudantes e as comunidades chinesas residentes no exterior. Sustentado por generosas doações, seu movimento conquistou também a adesão de militares das províncias e de políticos que haviam abandonado a China após a derrota da Reforma dos Cem Dias.

Depois de uma onda de protestos e vários levantes abortados, uma rebelião republicana eclodiu nas Forças Armadas da cidade de Wuchang, capital de província de Hubei, no dia 10 de outubro de 1911. O movimento conquistou rapidamente a adesão das cidades vizinhas e o apoio dos partidários de Sun. No final de novembro, 15 das 24 províncias do Império haviam declarado sua independência: o poder manchu desmoronava. O líder republicano – que estava nos Estados Unidos, arrecadando fundos junto a chineses de ultramar e a simpatizantes norte-americanos – regressou então ao país. Em 1 de janeiro de 1912, foi proclamado, em Nanjing (Nanquim), presidente provisório da nova República da China.

A contramarcha conservadora

Mas o poder de Sun era, em grande parte, apenas nominal. Beijing (Pequim), a capital do país, continuava em mãos do comandante das Forças Armadas imperiais, Yuan Shikai. Para evitar uma guerra civil e a eventual intervenção das potências estrangeiras que apoiavam Yuan, Sun viu-se forçado a aceitar as descabidas exigências do chefe militar e a abrir mão de seu cargo, permitindo que a nação se unificasse sob o comando do outro. No dia 12 de fevereiro de 1912,Pu Yi (1906-1967), o último imperador, então uma criança de apenas seis anos, foi obrigado a abdicar. Menos de um mês mais tarde, Yuan Shikai foi empossado no cargo de presidente provisório da República da China.

Sem dispor de um exército capaz de assegurar as conquistas revolucionárias, os partidários de Sun Yixian foram rapidamente marginalizados por Yuan Shikai. Sobrepondo-se ao Parlamento e revisando a Constituição, o chefe militar assumiu poderes ditatoriais. Para enfrentar essa nova adversidade, Song Jiaoren, um íntimo colaborador de Sun, unificou vários pequenos grupos em uma grande agremiação política, o Guomindang (Kuomintang ou KMT – Partido Nacional do Povo).

Nas eleições parlamentares de 1913, o Guomindang (Kuomintang) conquistou a maioria das cadeiras. Em resposta, o ditador ordenou o assassinato de Song e de vários generais revolucionários. Indignadas, sete províncias do Sul levantaram-se contra o governo central. Mas foram esmagadas pelo chefe militar. Sun e seus principais seguidores tiveram que se exilar no Japão, enquanto Yuan obtinha o reconhecimento das potências capitalistas ao preço de novas concessões territoriais.

Depois de uma série de atos arbitrários, o militar enfureceu o país ao anunciar, em 1915, sua intenção de restabelecer a monarquia. Em meio a rebeliões generalizadas, Yuan morreu de causas naturais no ano seguinte. A nação estava em frangalhos, com caudilhos militares rivais (os chamados “senhores de guerra”) controlando as diferentes províncias. Estando as potências européias ocupadas na Primeira Guerra Mundial, os imperialistas japoneses sentiram que sua hora na China havia chegado. Em 1915, Tóquio apresentou a Beijing (Pequim) um conjunto de 21 demandas, que, se implementadas, fariam do território chinês um protetorado nipônico.

O enfraquecido governo central rejeitou formalmente a maioria dessas reivindicações. Porém, por meio de acordos secretos, fez enormes concessões ao Japão – entre elas, entregou-lhe o controle de partes da Manchúria, da Mongólia Interior e da próspera província de Shandong (Xantung). Por ocasião da Conferência de Paz de Versalhes, ocorrida na França em 1919, com a finalidade de redesenhar o mapa mundi após o término da guerra, esses fatos vieram a público, provocando indignada reação interna. No dia 4 de maio de 1919, professores e estudantes de Beijing (Pequim) saíram às ruas para protestar. Como fogo ateado a um rastilho de pólvora, as manifestações propagaram-se rapidamente pelo país e imprimiram um novo rumo à história chinesa.

O Movimento Quatro de Maio

As demonstrações estudantis de 4 de Maio de 1919 foram o ponto alto de uma longa fermentação política e intelectual que ficaria conhecida como Movimento da Nova Cultura ou Movimento Quatro de Maio. Estendendo-se de 1917 a 1923, esse processo heterogêneo e complexo pleiteava nada menos do que a total transformação da vida e da cultura chinesas.

Desencadeadas por uma demonstração de 3 mil estudantes da Universidade de Beijing (Pequim), as manifestações propagaram-se por mais de 200 cidades da China. E, ao longo de 18 meses, mobilizaram nada menos do que 20 milhões de pessoas (estudantes, professores, operários, pequenos comerciantes e burgueses nacionais), em comícios, passeatas, interrupções de trabalho e greves, constituindo – como escreveria mais tarde o líder comunista Mao Zedong (Mao Tsé-tung) – uma crise de consciência sem precedentes na história chinesa.

O dirigente revolucionário registrou ainda, como características especiais do movimento, o fato de que:

– suas greves eram puramente políticas, uma vez que os trabalhadores não faziam exigências salariais nem reivindicavam vantagens trabalhistas (o que demonstrava um alto grau de “consciência revolucionária”);

– os pequenos comerciantes e os burgueses nacionais contribuíam com dinheiro e também se manifestavam junto com os trabalhadores (o que demonstrava a viabilidade de uma “frente unida” ou aliança de várias classes);

– grande parte dos protestos foram totalmente espontâneos e alcançaram escala nacional (o que demonstrava enorme capacidade de “ação em massa”).

Voltando-se contra a opressão estrangeira e os grandes proprietários de terras e chefes militares que haviam traído os interesses do país em troca de benefícios pessoais, a rebelião assumiu, nas palavras de Mao, um caráter “antiimperialista e antifeudal”. No plano político, o movimento lutava pela completa independência nacional e a democracia (incluída aí a igualdade de direitos para as mulheres e o sufrágio feminino); no plano cultural, opunha-se aos valores tradicionais e à herança confucionista (que constituiu durante séculos o alicerce ideológico da sociedade aristocrática e imperial chinesa). Na China, nunca havia se lido tanto, escrito tanto, debatido tanto. Jornais, revistas, livros, grupos de estudo, círculos de debate, escolas noturnas para trabalhadores: a nação fervia. A Universidade de Beijing (Pequim) era o epicentro da rebelião.

No domínio literário, que foi uma de suas principais manifestações, o Movimento Quatro de Maio pregou e praticou a substituição do wen yen (língua literária clássica) pelo pai hua (língua falada coloquial), aproximando o jornalismo e a literatura das camadas populares, embora apenas 5% dos habitantes do país fossem alfabetizados. No domínio político, resgatou e aprofundou as diretrizes da Revolução de 1911, produzindo um amplo espectro de tendências que ia da completa ocidentalização do país ao nacionalismo extremado e do democratismo radical ao socialismo.

Considerado o maior escritor da China contemporânea, Lu Xun (pseudônimo de Zhou Shuren, 1881-1936) foi um dos grandes protagonistas do Movimento Quatro de Maio. Uma avaliação precocemente crítica da cultura tradicional o fizera trocar a educação clássica por cursos técnicos. E o desejo de ajudar seu povo o impulsionara a estudar medicina no Japão. Mas, ao assistir a um filme, deu-se conta da enorme resignação da população chinesa. E concluiu que a melhor maneira de auxiliá-la não era cuidando de seu corpo, mas educando sua mente. Abandonou então a faculdade de medicina para seguir a carreira de professor e escritor. Em Beijing (Pequim), uniu-se à vanguarda intelectual e participou da Revolução de 1911. Porém o malogro do processo revolucionário atirou-o na mais profunda depressão. Saiu dela graças ao encorajamento de um amigo e, em 1918, começou a escrever.

Influenciado por autores ocidentais (entre eles o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e os grandes romancistas russos do século 19), Lu Hsun produziu novelas extremamente vigorosas, como Diário de um louco e A verdadeira história de A Q, que lembram Kafka, na crítica ao absurdo da existência, e Gorki, na denúncia da ordem social. Apesar de participar dos embates revolucionários dos anos 20 e 30 e de se posicionar claramente como intelectual de esquerda, Lu Hsun jamais aderiu ao Partido Comunista.

O ciclo revolucionário II (1919-1937)

O Movimento Quatro de Maio trouxe Sun Yixian (Sun Yat-sen) novamente ao centro dos acontecimentos. Ele havia regressado à China em 1916, após a morte de Yuan Shikai. E, com o suporte de chefes militares do sul, formara um governo alternativo em Cantão. A nova vaga revolucionária inspirou-o a reorganizar o Guomindang (Kuomintang), com vistas a conquistar o poder também em Beijing (Pequim) e em todo o norte do país, que continuavam sob o controle dos senhores de guerra. A nação encontrava-se dividida e o líder republicano passou os últimos anos de sua vida lutando pela reunificação. Fracassando em suas tentativas de obter o apoio das potências ocidentais, ele buscou o respaldo da jovem União Soviética – formada a partir da vitória da revolução socialista de outubro de 1917, na Rússia.

O Movimento Quatro de Maio, porém, introduziu um novo ator na cena chinesa. A vaga de rebeldia deflagrada pelos estudantes de Beijing produziu uma tremenda aceleração na marcha dos acontecimentos. E sua conseqüência mais importante foi a criação, em 1921, do Partido Comunista Chinês (PCC). A partir de então, as relações contraditórias – ora cooperativas ora conflituosas – entre o PCC e o Guomindang (Kuomintang) dariam o tom do processo histórico, impulsionando uma nova fase do ciclo revolucionário.

A fundação do Partido Comunista

A fundação do Partido Comunista Chinês foi conseqüência direta do Movimento Quatro de Maio. Mais especificamente, foi conseqüência da radicalização que ele adquiriu em seu palco mais importante, a Universidade de Beijing. Seus principais fundadores – Li Dazhao (1888-1927), Chen Duxiu (1879-1942) e Zang Guotao (1897-?) – além de importantes protagonistas do movimento foram também ligados àquela instituição de ensino: os dois primeiros, como professores e agitadores intelectuais, e o terceiro, como aluno e líder estudantil. Entre os três, destaca-se Li Dazhao, não apenas por ter sido o introdutor do marxismo na China, mas principalmente por causa de sua interpretação peculiar da teoria marxista. Apesar de sua morte prematura (ele foi preso pela polícia do senhor da guerra que controlava Beijing e morto por estrangulamento em 1927), seu pensamento exerceu uma influência de longo prazo no curso da revolução chinesa e foi determinante para o seu sucesso. Os estudiosos apontam quatro características fundamentais desse pensamento:

– Constituiu-se a partir da própria obra de Marx e não da interpretação que lhe deram os revolucionários russos. Isso permitiu que o PCC elaborasse, mais tarde, uma linha política alternativa à desastrosa orientação para a revolução chinesa ditada pela União Soviética;

– Mesclava o ideal socialista com um forte componente nacionalista. Isso permitiu que o PCC se transformasse na força de vanguarda da luta antiimperialista – papel que, após a morte de Sun Yixian (Sun Yat-sen), o Guomindang, cada vez mais direitista e comprometido com os interesses estrangeiros, se mostrou incapaz de desempenhar;

– Atribuía enorme importância à participação do campesinato na revolução. Isso permitiu que o PCC conquistasse uma base de massas de milhões de indivíduos para seu projeto revolucionário, que de outra forma teria abortado, dada a debilidade numérica do proletariado urbano chinês;

– Tinha um viés fortemente voluntarista. Isso permitiu que o PCC escapasse da armadilha do determinismo histórico, que, enfatizando o insuficiente desenvolvimento do capitalismo chinês, recomendava o adiamento da revolução.

Li Dazhao era professor de história e bibliotecário-chefe da Universidade de Beijing. Mao Zedong (Mao Tsé-tung), um professor primário que trabalhava na universidade como bibliotecário assistente, tornou-se seu discípulo,e, ao longo das três décadas seguintes, colocou em prática as idéias de seu mestre. A liderança de Mao, porém, só se afirmou pouco a pouco. Ele foi um dos 12 delegados que, representando menos de 60 comunistas chineses, se reuniram clandestinamente no bairro estrangeiro de Xangai para fundar o Partido Comunista da China, em julho de 1921. Mas seu papel nesse congresso parece ter sido bastante apagado. Por medida de segurança, Li Dazhao e Chen Duxiu, os mentores do comunismo chinês, não estavam presentes. A reunião foi presidida por Zang Guotao, e, sob a pressão do russo Voitinsky, que representava a Internacional Comunista (organizada e controlada pela União Soviética), aprovou a linha política personificada por Chen Duxiu, em tudo oposta à de Li Dazhao.

A política da União Soviética

Seguindo o figurino russo, Chen Duxiu acreditava que a revolução devia ser protagonizada por proletários urbanos (não possuidores dos meios de produção e, por isso, integralmente revolucionários) e não por camponeses ignorantes (apegados à posse da terra). Porém, como o proletariado chinês era numericamente insignificante, essa orientação de aparência radical resultou em uma prática ultra-moderada, que atribuía à burguesia nacional a liderança do processo revolucionário e colocava o PCC a reboque do Guomindang (Kuomintang).

Para a jovem União Soviética, que enfrentava o cerco das potências imperialistas e o ataque dos contra-revolucionários internos, essa política parecia muito conveniente, pois lhe proporcionava um forte ponto de apoio no Oriente. Ao mesmo tempo que controlavam o PCC com rédea curta, os russos procuravam conquistar a simpatia de Sun Yixian (Sun Yat-sen), que passaram a assessorar diretamente na reorganização política e militar do Guomindang (Kuomintang), a partir de 1923.

Os comunistas foram, então, orientados a ingressar nos organismos de direção do grande partido nacionalista. Ao mesmo tempo, partidários de Sun, como o oficial Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek), recebiam treinamento intensivo em Moscou. Enquanto Sun Yixian (Sun Yat-sen) viveu, o arranjo funcionou às mil maravilhas. O honesto líder precisava da ajuda soviética para derrotar os senhores de guerra e reunificar a China sob um governo democrático. Assim, acolheu amigavelmente os comunistas, que haviam adotado seus Três Princípios do Povo. Nuvens escuras logo se acumularam, porém, nesse horizonte cor-de-rosa.

Jiang Jieshi e o Guomindang

De volta ao país, Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) comandou a reorganização do exército do Guomindang (Kuomintang) e adquiriu proeminência cada vez maior no governo de Sun. Em vez de incutir-lhe idéias de esquerda, sua longa permanência na União Soviética o transformara em um anticomunista visceral. Ao mesmo tempo, casando-se com a filha do banqueiro Sung, um dos homens mais ricos da China, o militar aproximou daquele segmento da grande burguesia chinesa que, por interesse econômico e afinidade ideológica, compactuava com as potências imperialistas ocidentais. Jiang soube esconder temporariamente suas convicções.

Em 1925, Sun morreu de câncer. Naquele mesmo ano, como comandante-em-chefe do novo exército nacional, Jiang lançou o ataque há muito esperado contra os senhores de guerra que controlavam o norte do país. Em nove meses de combate, metade da China estava em suas mãos. Jiang sentiu-se então suficientemente forte para romper o pacto. Em março de 1926, dispensou os assessores soviéticos e impôs restrições à participação dos comunistas no Guomindang (Kuomintang). Em abril de 1927, voltou traiçoeiramente seu exército contra os efetivos do PCC em Xangai e Cantão, massacrando 100 mil militantes.

Estabeleceu então uma ditadura militar em Nanjing (Nankim). A China passava a ter três capitais: Beijing, sede do governo dos senhores de guerra, que desfrutava de reconhecimento internacional; Nanjing (Nankim), sede do governo direitista de Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek); e Wuhan, sede de um governo esquerdista formado pelo que restou do PCC e a ala esquerda do Guomindang (Kuomintang).

O Levante da Colheita de Outono

A linha política ditada por Moscou, que mesmo depois de março de 1926 continuou insistindo no apoio a Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek), revelara-se catastrófica. Atendo-se a ela, a cúpula do PCC desmoralizou-se. Foi então que Mao Zedong (Mao Tsé-tung) conquistou vôo próprio. Despindo a camisa-de-força representada pela orientação da Internacional Comunista e retomando as concepções de seu mestre, Li Dazhao, Mao desencadeou, em 1927, uma insurreição camponesa em sua província natal, Hunan. Esse episódio entrou para a história com o nome de “Levante da Colheita de Outono”. O ex-professor primário despontava como líder. E o fazia no ambiente em que se sentia mais à vontade, pois ele mesmo era de origem camponesa e, no meio rural, movia-se como um peixe dentro d’água.

A despeito, porém, dessa nova iniciativa, o PCC atravessava o momento mais difícil de sua existência. O vento de direita soprava forte. Exterminados como moscas em Xangai e Cantão, os comunistas também foram expelidos do governo de Wuhan pelos guomindanguistas de esquerda. Estes, de sua parte, seriam destituídos por um golpe militar. Por volta de 1928, Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) passou a enfeixar, ao menos formalmente, todo o poder em suas mãos. O “generalíssimo” (como passou a ser chamado) havia batido os senhores da guerra e a esquerda e recebeu imediato reconhecimento internacional como único governante legítimo da nação chinesa.

Jiang estabeleceu um governo autoritário e corrupto, mas até certo ponto modernizador. O ditador empenhou-se em construir ferrovias e estradas, promover a produção agrícola e industrial, controlar a inflação e reformar o sistema bancário, coibir o tráfico de drogas e renovar o judiciário. Porém, as obscenas concessões às potências imperialistas foram mantidas, bem como os acintosos privilégios da alta burguesia e dos grandes proprietários rurais. A vaga revolucionária pusera o trem da China em movimento. E o que Jiang lhe oferecia eram bitolas estreitas demais.

O enclave vermelho de Mao

As contradições sociais no meio rural eram particularmente explosivas. Apesar da derrota do “Levante da Colheita de Outono”, Mao continuara a organizar o campesinato da província de Hunan. Sem esperar pela aprovação da cúpula do PCC, confinada em Xangai, ele começou a estabelecer sovietes (conselhos de representantes eleitos) camponeses na fronteira entre as províncias de Hunan e Jiangxi (Kiangsi). E, com a preciosa colaboração do general Zhu De (Chu Teh, 1886-1976) passou a treinar grupos guerrilheiros. Quando Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) consolidou-se no poder, em 1928, o exército vermelho de Mao contava já com 10 mil homens (camponeses em sua esmagadora maioria, mas com uma expressiva minoria de operários e intelectuais vindos das cidades). Em 1931, o novo líder revolucionário proclamou a República Soviética da China, nas áreas sob seu controle.

A cúpula do PCC entrou em pânico. Os dirigentes comunistas continuavam a seguir a orientação de Moscou e haviam trocado a desastrosa política de subordinação ao Guomindang (Kuomintang) por uma estratégia de insurreição urbana. Porém, o esmagamento de todas as tentativas insurrecionais os deixou sem um gato para puxar pelo rabo. Os membros do Birô Político do PCC (a mais alta instância do partido) viajaram até a região sob controle de Mao Zedong (Mao Tsé-tung) com o intuito de convencê-lo a abrir mão de seu projeto. Porém o líder revolucionário inverteu o jogo e saiu das conversações vitorioso.

Bem mais difícil, porém, seria enfrentar Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek). De 1931 a 1934, o “generalíssimo” lançou cinco grandes campanhas militares contra a jovem República Soviética da China. Na última, os revolucionários foram implacavelmente derrotados. Mao viu-se obrigado a empreender então a mais memorável retirada da história militar, a épica Longa Marcha, que levou seus seguidores da província de Jiangxi (Kiangsi) à província de Shanxi (Xensi).

A Longa Marcha

A Longa Marcha tornou a revolução chinesa conhecida em todo o mundo e inscreveu definitivamente o nome de Mao nas páginas da história. Durante um ano, de outubro de 1934 a outubro de 1935, os revolucionários percorreram 12.500 quilômetros, sustentando combates encarniçados contra o exército de Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek), que os perseguia. No curso desse épico deslocamento, atravessaram 11 províncias, ultrapassaram 18 cadeias de montanhas, cruzaram 24 rios. E, maior dos desafios, marcharam sobre terríveis pradarias, pontuadas em toda a sua extensão por pântanos traiçoeiros, devoradores de homens, capazes de engolir um indivíduo ao menor descuido.

Dos 100 mil combatentes que partiram de Jiangxi (Kiangsi), apenas 8 mil chegaram ao seu destino, a base montanhosa de Ienan, na província de Shanxi (Xensi). Os demais morreram no caminho, em batalha ou devido às duríssimas condições da jornada. Aos 8 mil sobreviventes juntaram-se outros 22 mil revolucionários, provenientes de várias regiões do país.

Entre os integrantes da Longa Marcha, havia apenas 35 mulheres, esposas dos altos dirigentes revolucionários. Uma delas era Ho Tsé-cheng, a terceira esposa de Mao. Em Ienan, contrariando a opinião dos dirigentes do partido, ele se casaria uma quarta vez, com Jiang Qing (Chiang Ching), que se tornaria mundialmente famosa por seu papel na Revolução Cultural. Mas isso levaria muitos anos para acontecer. No início da Longa Marcha, Mao ainda estava lutando por sua posição no interior da cúpula dirigente do PCC. E só conseguiu consolidá-la no Congresso de Tsunyi, realizado no ano de 1935 em meio à travessia. Chegou à base rural de Ienan, nas montanhas de Shanxi (Xensi), como uma lenda viva.

A invasão japonesa

Um fato notável mudou então o rumo dos acontecimentos. Em 1931, os japoneses haviam invadido a Manchúria e instalado na província um governo fantoche, formalmente dirigido por Pu Yi, o último imperador chinês. Para enfrentar o invasor, os comunistas propuseram a Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) a cessação das hostilidades e a formação de uma frente unida. O “generalíssimo”, porém, recusou a oferta e lançou ataques demolidores contra as forças revolucionárias. Tirando partido da divisão e do enfraquecimento mútuo dos antagonistas, os imperialistas nipônicos ampliaram suas atividades com vista a dominar toda a China.

A passividade de Jiang frente à agressão estrangeira e sua obstinação em combater os revolucionários, que continuavam propondo aliança, causou profunda indignação na população chinesa, inclusive no próprio exército do Guomindang (Kuomintang). Tropas nacionalistas sublevaram-se em Xian e um grupo de generais seqüestrou Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) e o manteve prisioneiro por vários dias, até que ele aceitasse negociar com os comunistas. O episódio, ocorrido em dezembro de 1936, ficou conhecido como “Incidente de Xian”. Para selar um acordo com o “generalíssimo”, o PCC enviou seu mais hábil negociador, Zhou Enlai (Chu En-lai, 1896-1976). Em 7 de julho de 1937, as forças japonesas atacaram Beijing. No mesmo dia, o PCC e o Guomindang tornaram pública sua aliança, conclamando a nação a cerrar fileiras, numa frente unida contra o invasor.

 

 

China: o ciclo revolucionário III (1937-1949)

Junto com a Guerra da Abissínia (iniciada em 1935 pela invasão italiana do território africano) e a Guerra Civil Espanhola (iniciada em 1936 pelo ataque das forças de direita, lideradas pelo general Francisco Franco, às forças de esquerda, unidas em torno da República), a Guerra Sino-Japonesa (iniciada em 1937 pelo assalto japonês a Beijing) foi um dos três conflitos precursores da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Eles expressavam o acirramento das contradições que oporiam as potências nazi-fascistas do “Eixo” (Alemanha, Itália, Japão) aos “Aliados” (União Soviética, Inglaterra e Estados Unidos) e arrastariam todo o planeta em um confronto devastador.

O movimento de resistência ao invasor

Com a rica província da Manchúria sob seu controle desde 1931, o Japão completou a ocupação de Beijing em julho de 1937. No mês seguinte, tropas japonesas desembarcaram em Xangai. E, ao longo dos anos 1937-1938, sem declarar formalmente guerra à China, apoderaram-se das principais cidades industriais chinesas, dos portos e áreas costeiras e da grande planície do Norte. A máquina bélica japonesa compunha-se de 40 divisões modernas e, na fase final da guerra, chegou a contar com 1.300.000 homens.

Numerosas, porém desmotivadas, mal organizadas e mediocremente equipadas, as forças armadas do Guomindang (Kuomintang) sofreram sucessivas derrotas. No final de 1938, o “generalíssimo” Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) foi obrigado a abandonar a chamada “China útil” e refugiar-se nos remotos planaltos da província de Sechuan, onde estabeleceu uma nova capital em Xunquim.

Enquanto os chamados nacionalistas se desmoralizavam, os comunistas, comandados por Mao Zedong (Mao Tsé-tung) e Zhu De (Chu Teh), sustentavam uma incansável campanha de guerrilhas contra os invasores japoneses. Evitando um confronto total, que lhes teria sido desastroso, os vermelhos seguiam a teoria da guerra popular prolongada, sistematizada por Mao.

A guerra popular prolongada

Em dois importantes textos, escritos no fogo dos combates, em maio de 1938, Mao Zedong (Mao Tsé-tung) traçou as diretrizes que deveriam ser seguidas pelos comunistas na guerra de resistência aos invasores japoneses. Esses artigos – “Problemas estratégicos da guerra de guerrilhas contra o Japão” e “Sobre a guerra prolongada” – o consagraram como um dos maiores estrategistas da história. E definiram a linha militar que não apenas transformaria a débil China em um atoleiro para os poderosos japoneses, como levaria os comunistas ao poder em 1949. Essa mesma linha seria mais tarde adotada e adaptada pelos vietnamitas em sua guerra vitoriosa contra os norte-americanos.

Analisando a correlação de forças e sua dinâmica, Mao concluiu que a guerra contra os japoneses seria necessariamente prolongada, mas daria a vitória final à China. Refutando tanto os acomodados, que acreditavam ser inevitável a subjugação nacional frente à superioridade do inimigo, quanto os imprudentes, que apostavam em uma vitória rápida, ele afirmou: “a vantagem do Japão reside em sua grande capacidade bélica, e suas desvantagens, na natureza retrógrada e bárbara de sua guerra, na insuficiência de seus recursos humanos e materiais e no escasso apoio internacional com que conta” (…) “a desvantagem da China reside em sua debilidade militar, e suas vantagens, no caráter progressista e justo de sua guerra, no fato de que é um país grande e no amplo apoio internacional com que conta” (…) “estas características determinaram e determinam o caráter prolongado da guerra e que a vitória final pertença à China e não ao Japão”.

Partindo do princípio básico de “conservar as próprias forças e destruir as do inimigo”, Mao dividiu a guerra em três etapas:

– “Defensiva estratégica”,

– “Estabilização estratégica”,

– “Contra-ofensiva estratégica”.

Na primeira, as forças lideradas pelos comunistas, muito inferiores às japonesas, deveriam recorrer a ações de guerrilha, atormentando e paralisando o inimigo, favorecendo as operações do exército regular do Guomindang (Kuomintang) e acumulando um grande número de pequenas vitórias. Fortalecendo-se paulatinamente, as unidades guerrilheiras se transformariam então em unidades regulares, transitando da guerra de guerrilhas para a guerra de movimentos e conduzindo o processo a sua segunda etapa. Empreendendo já operações de grande porte e contando com uma evolução favorável da situação internacional, elas alcançariam a terceira etapa, expulsando finalmente os invasores japoneses da China.

Como seria de se esperar, os textos apresentam-se muito mais detalhados nas orientações para a primeira etapa, então em curso. E, nessas orientações, Mao revela-se um mestre no manejo da dialética – não da sofisticada dialética hegeliana, herdada pelo marxismo, mas da antiga dialética taoísta, que modelou durante séculos a cultura chinesa. Recorrendo sistematicamente a pares de conceitos contraditórios, o líder revolucionário recomenda que os combatentes realizem:

– Ooperações ofensivas dentro de uma guerra defensiva;

– Operações de decisão rápida dentro de uma guerra prolongada;

– Operações em linhas exteriores dentro de uma guerra em linhas interiores

Iniciativa, flexibilidade e planejamento são os três princípios básicos que deveriam nortear as operações. Para derrotar um inimigo que, no conjunto, era incomparavelmente mais poderoso, Mao propunha aniquilar suas forças “uma a uma”, opondo-lhe em cada batalha uma concentração superior de homens e armas e só travando combates cuja vitória fosse segura. Isso implicava em: escolher de antemão onde e quando atacar (iniciativa); ser extremamente ágil nos deslocamentos, na concentração e dispersão de forças (flexibilidade); programar minuciosamente cada ação (planejamento). Segundo Mao, “as guerrilhas devem concentrar a maior quantidade possível de forças, atuar secreta e velozmente, atacar o inimigo de surpresa e decidir rapidamente os combates; devem evitar por todos os meios a defesa passiva, o prolongamento dos combates e a dispersão de forças no momento de empreender uma ação”. E acrescentava que os guerrilheiros deviam ameaçar a Leste, mas atacar a Oeste, aparecer ora no Sul ora no Norte, ser tão rápidos no ataque quanto na retirada, e operar de noite.

Deixou claro, porém, que as guerrilhas eram um meio e não um fim em si. Elas desempenhavam um papel importantíssimo “debilitando o inimigo”, “imobilizando suas forças” e “obstruindo seu transporte”. Mas as unidades guerrilheiras não podiam se isolar e eternizar-se como grupos de combate. Ao contrário, deviam atuar de maneira coordenada com as unidades convencionais (do Guomindang), estabelecer bases de apoio e transformar-se paulatinamente em forças regulares. “Uma vez que tenhamos acumulado muitas vitórias por meio da decisão rápida em campanhas e combates ofensivos” – escreveu Mao – “poderemos alcançar os objetivos estratégicos de uma guerra prolongada: por um lado, ganhar tempo para aumentar nossa capacidade de resistência; por outro, acelerar e ao mesmo tempo aguardar as mudanças na situação internacional e a derrubada interna do inimigo, a fim de lançar uma contra-ofensiva estratégica e expulsar os invasores japoneses da China”.

A história confirmaria suas palavras.

O embrião de uma nova nação

A teoria da guerra prolongada, que preconizava compensar a inferioridade estratégica com a superioridade tática, permitiu a Mao colher um grande número de pequenas vitórias e acumular extraordinário prestígio junto à população chinesa. Nas áreas libertadas, os comunistas trataram de construir o embrião da futura nação, transformando a estrutura administrativa e promovendo a reforma agrária em benefício dos camponeses. Os membros do partido foram orientados a integrar-se ao povo como unha e carne, “trabalhando junto”, “comendo junto” e “estudando junto”. As forças do PCC cresceram de maneira notável. Em 1937, no início da guerra sino-japonesa, seu número de militantes não excedia 100 mil. Ao final do conflito, em 1945, havia alcançado 1,2 milhão.

É evidente que a cúpula do Guomindang (Kuomintang) não via com bons olhos esse fortalecimento. Apesar de defenderem escrupulosamente a frente unida antijaponesa, os comunistas tinham objetivos de longo prazo antagônicos aos dos nacionalistas. E os nacionalistas não perderam tempo em dificultar-lhes o caminho. A aliança começou a apresentar dificuldades já no final de 1938. A partir de 1940, os conflitos tornaram-se freqüentes nas áreas fora do controle japonês. A situação internacional experimentou, porém, uma mudança espetacular, que veio em socorro da causa chinesa.

No dia 7 de dezembro de 1941, o Japão desfechou um ataque de surpresa contra a base norte-americana de Pearl Harbour. E isso provocou a entrada dos Estados Unidos na guerra. Embalados pelo sonho megalomaníaco de conquistar metade do mundo (a outra metade ficaria para os alemães e ambos concederiam algumas migalhas aos italianos), os imperialistas japoneses dispersaram suas forças por um número excessivamente grande de territórios e mobilizaram contra si uma quantidade exagerada de inimigos, fracos ou poderosos. Isso acabaria causando sua ruína.

A China, na qual o Japão havia imaginado dar um passeio, transformou-se para ele em um terrível atoleiro. Oito anos depois da invasão, seus soldados enfrentavam uma resistência encarniçada em território chinês. Foi quando, às 8h15 do dia 6 de agosto de 1945, um segundo sol brilhou de repente no horizonte oriental. A cidade japonesa de Hiroshima acabava de ser volatilizada pela bomba atômica norte-americana. Instantaneamente (ou ao longo dos penosos meses que se seguiram), 200 mil pessoas (em sua maioria civis japoneses ou prisioneiros coreanos, obrigados a trabalhar como escravos nas indústrias do Japão) foram subtraídas ao mundo dos vivos. Três dias depois, uma segunda bomba, lançada sobre Nagasaki, colhia outras 70 mil vidas.

Não há palavras para descrever o horror desse crime, praticado em nome da liberdade. Com a guerra praticamente ganha e já buscando assegurar sua hegemonia no pós-guerra, os Estados Unidos estavam ansiosos para mostrar ao mundo (principalmente aos russos) seu novo e perigoso brinquedo. As inocentes cidades de Hiroshima e Nagasaki foram escolhidas como alvos dessa extravagante exibição de força: 270 mil pessoas, quase noventa vezes o número de vítimas do atentado terrorista ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, pagaram por isso. Em 2 de setembro de 1945, o Japão anunciou, de cabeça baixa, sua rendição incondicional.

Nasce a nova China

A China emergiu do confronto como uma potência militar, mas com sua economia arruinada pelos gastos de guerra, por uma inflação galopante e pela corrupção descarada do governo do Guomindang (Kuomintang), cujos integrantes fizeram fortunas durante o conflito. Inundações calamitosas agravaram as dificuldades da população. Milhões de pessoas passavam fome. Como se não bastasse, as tropas soviéticas aproveitaram sua presença na Manchúria, onde ingressaram durante as operações de guerra, para desmontar e levar consigo mais da metade dos equipamentos industriais deixados pelos japoneses.

Os norte-americanos, de sua parte, haviam estabelecido sólidos vínculos com o regime do Guomindang (Kuomintang). Desde sua entrada na guerra, os Estados Unidos vinham fornecendo polpuda ajuda financeira e militar a Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek). E, em 1943, pressionaram seus aliados ingleses a aceitar a revogação dos humilhantes tratados impostos à China a partir de 1840. Em retribuição, Jiang autorizou o acantonamento de tropas norte-americanas em território chinês, como parte do esforço conjunto contra o Japão. Terminada a conflagração, essas forças militares permaneceram na China, para contrabalançar a pressão soviética no Nordeste e sustentar o Guomindang (Kuomintang) no poder.

O país estava à beira do colapso, com sua própria integridade territorial ameaçada frente às maquinações dos Estados Unidos e da União Soviética, que agora repartiam o mundo em esferas de influência. A única força capaz de salvá-lo era o PCC. Ao contrário dos comunistas italianos, que obedecendo docilmente as ordens de Moscou haviam entregado as armas utilizadas na resistência antifascista às tropas de ocupação norte-americanas, os comunistas chineses não perderam tempo em tomar para si a maior quantidade possível do armamento capturado aos japoneses. Em 1946, os combates entre o PCC e o Guomindang (Kuomintang) recomeçaram. Percebendo que seria impossível controlar a situação sem uma intervenção militar maciça, os Estados Unidos retiraram suas forças no início de 1947, limitando-se a entupir Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) de dinheiro. A guerra civil generalizou-se.

No final de 1948, a situação de Jiang tornou-se insustentável. Apesar de controlar a maior parte do território, de dispor de forças armadas mais numerosas e melhor equipadas e de contar com vultosos recursos estrangeiros, o Guomindang (Kuomintang) estava mergulhado na corrupção, na indisciplina e na desmoralização. No campo de batalha, suas tropas retiravam-se estabanadas frente ao avanço do Exército Popular de Libertação (EPL), liderado pelos comunistas. Em janeiro de 1949, Beinjing foi capturada sem luta. No dia 21 de abril de 1949, Mao Zedong (Mao Tsé-tung) e Zhu De (Chu Teh) conclamaram o EPL a “avançar valentemente e aniquilar resoluta, definitiva, cabal e totalmente, em todo o território chinês, a todos os reacionários guomindanguistas que se atrevam a opor resistência; libertar o povo inteiro; defender a independência, a integridade territorial e a soberania da China”. A ordem não podia ser mais categórica. As principais cidades do país foram tomadas com facilidade pela máquina militar vermelha. Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) e algumas centenas de milhares de seus partidários refugiaram-se, sob proteção norte-americana, na ilha de Taiwan, que até hoje reivindica o status de “República da China” e que o governo chinês classifica, também formalmente, como “província rebelde”.

No dia 1o de outubro de 1949, uma assembléia com mais de 600 delegados – representando o PCC e partidos coligados, o EPL e diversas organizações de massas, as diferentes regiões e etnias do território chinês, bem como as comunidades de ultramar – proclamou, em Beijing, a República Popular da China. Discursando frente à multidão reunida na Praça da Paz Celestial, Mao exclamou: “Nasceu a nova China. O povo chinês se pôs de pé!”.

 

 

A construção de um novo país (1949-1960)

No período de 21 anos que se estendeu da tomada do poder pelos comunistas (1949) até o final do chamado Grande Salto Adiante (1960), a China viveu transformações de proporções épicas. Sem um instante de repouso, a extraordinária energia despertada pelo impacto colonialista, responsável pela mais longa, violenta e complexa revolução da história, canalizou-se para a edificação de uma economia, uma sociedade, uma política e uma cultura radicalmente novas. Foi um período de grandes realizações e imensos sofrimentos para o povo chinês. Dezenas de milhões de pessoas perderam a vida devido às dificuldades inerentes ao processo ou aos erros em sua condução.

A eliminação dos inimigos externos (os imperialistas ocidentais e os invasores japoneses) e internos (o Guomindang) não pôs fim aos conflitos, que passaram a se travar dentro do Partido Comunista Chinês (PCC), em um balé intrincado, ora pacífico ora sangrento, entre várias facções.

Como pano de fundo para esses confrontos internos, a China enfrentou agudos antagonismos externos: primeiro, o cerco norte-americano, e, logo, a progressiva deterioração de suas relações com a União Soviética. As divergências sino-soviéticas, que se manifestaram desde a fundação do PCC, em 1921, agravaram-se após a morte do dirigente soviético Josef Stálin, em 1953.

Com finalidade didática e empregando, em alguns casos, a terminologia utilizada pela propaganda oficial, é possível dividir o período em quatro fases:

– A implantação da República Popular da China (1949-1953);

– A “Transição para o Socialismo” (1953-1957);

– A “Campanha das Cem Flores” (1957);

– O “Grande Salto Adiante” (1958-1960).

A implantação da República Popular da China (1949-1953)

Com capital em Beijing (Pequim), a República Popular da China foi oficialmente criada no dia 1o de outubro de 1949. Idealmente, o adjetivo “popular” correspondia a uma aliança de quatro classes sociais: o proletariado, o campesinato, a pequena burguesia e a burguesia nacional. Ficavam fora do poder os latifundiários e o segmento da grande burguesia que se aliara às diferentes potências imperialistas. Na prática, porém, o país passou a ser governado pelo PCC.

Atribuindo-se o papel de “vanguarda do proletariado”, o Partido, que possuía na época 4,5 milhões de militantes, era constituído de fato por uma esmagadora maioria camponesa, que correspondia a aproximadamente 90% de seus membros. Mao manteve-se no cargo de presidente do PCC e Zhou Enlai (Chu En-lai) passou a ocupar o de primeiro-ministro. Esse governo de partido único perdurou até 1954, quando foi eleita a primeira Assembléia Nacional Popular, sob hegemonia comunista, mas integrada também por representantes de outros partidos (classificados como democráticos), de organizações sociais e das minorias étnicas (que respondiam por cerca de 8% da população do país).

A União Soviética reconheceu a nova república um dia depois de sua fundação. E, após meses de árduas negociações, assinou com o país, no início de 1950, um Tratado de Amizade, Aliança e Ajuda Mútua. Com a experiência adquirida na administração das áreas libertadas durante a guerra sino-japonesa e a guerra civil contra o Guomindang (Kuomintang), os quadros do PCC estavam habilitados a governar o país. E, para manter a coalizão de classes, adotaram uma orientação moderada que lhes assegurou êxitos em todas as frentes e notável apoio popular. O processo foi perturbado, porém, pelas maquinações dos Estados Unidos, que continuavam apoiando Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) em sua pretensão de retomar o poder.

A Guerra da Coréia

A situação agravou-se em 1950, com a eclosão da Guerra da Coréia. O país vizinho encontrava-se dividido desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Derrotado o Japão, que controlara e oprimira duramente a Península Coreana desde 1910, o território coreano foi repartido entre os dois grandes vencedores do conflito. A União Soviética, com o apoio do Partido Comunista da Coréia, que se destacara na luta contra o domínio japonês, ocupou o norte; os Estados Unidos, respaldados nas forças pró-capitalistas locais, instalaram-se no sul. A divisão foi oficializada em 1948, com a criação de dois Estados independentes. Mas o triunfo da revolução chinesa, em 1949, e o sinal verde de Moscou estimularam os comunistas coreanos a ampliar seu controle territorial: em 25 de junho de 1950, tropas do norte invadiram o sul, e, em três dias, apoderaram-se de Seul.

Com o aval do Conselho de Segurança da ONU (obtido na ausência do embaixador soviético), os Estados Unidos intevieram maciçamente no conflito. Sentindo-se ameaçada pela escalada norte-americana nas proximidades de sua área mais industrializada e atendendo ao apelo dos norte-coreanos, a China entrou na guerra. No dia 25 de outubro de 1951, tropas do Exército Popular de Libertação chinês atravessaram o rio Yalu, na fronteira entre os dois países, e obrigaram as forças dos Estados Unidos a recuar. A ação, porém, isolou diplomaticamente Beijing (Pequim).

Em 1951, sob inspiração norte-americana, a ONU declarou a China agressora e aprovou um embargo global à nação. Cercada e com seu exército sustentando ferozes combates em território coreano, a jovem República Popular radicalizou sua política interna, deflagrando campanhas maciças contra os assim chamados “inimigos do Estado” e acelerando a reforma agrária. À medida que o processo se aprofundou, não apenas agentes inimigos, contra-revolucionários e corruptos foram atingidos, mas também empresários, camponeses ricos e intelectuais, numa escala de milhões.

A “Transição para o Socialismo” (1953-1957)

A República Popular da China sobreviveu ao difícil período de instalação e à Guerra da Coréia. Em 1953, pôs em prática seu Primeiro Plano Qüinqüenal, calcado no modelo soviético. Centralização política, industrialização (com ênfase na indústria pesada) e reforma agrária eram os principais objetivos a serem alcançadas. Visando estabelecer as metas do plano, os novos dirigentes chineses promoveram o primeiro censo moderno do país. Este revelou que, em 1953, a China possuía 583 milhões de habitantes. Para alimentar essa enorme população e gerar capital para o ambicioso programa de industrialização, o país só dispunha de uma fonte de recursos, a agricultura. Era preciso aumentar a produtividade agrícola. E isso impunha a aceleração da reforma agrária, com a distribuição de terras aos camponesas e a cooperativização. No final de 1956, as cooperativas respondiam por 90% da produção agropecuária. Na mesma data, os bancos, a grande indústria e o grande comércio encontravam-se estatizados.

A primeira Assembléia Nacional Popular (ANP), reunida em 1954, entregou à China uma nova Constituição. Com atribuições legislativas e o poder de eleger e destituir o presidente da República e outros dirigentes de Estado, a ANP tornava-se a instância suprema do país. Os principais cargos governamentais foram entregues a Mao (presidente da República), Liu Shaoqi (presidente da ANP) e Zhou Enlai (Chu En-lai, primeiro-ministro). À frente de uma coalisão de oito partidos, que haviam lutado na guerra civil contra o Guomindang (Kuomintang), o PCC teve seu papel dirigente assegurado pela Constituição. Na hierarquia interna do PCC, Mao ficou com o posto de presidente e Deng Xiaoping (que na estrutura governamental ocupava a função de vice-primeiro-ministro) com o de secretário geral, o que lhe dava o controle efetivo da máquina partidária. Sob a batuta de Deng, o partido alcançou 10,8 milhões de membros em 1956. A participação camponesa caiu para 69%, enquanto houve um ingresso importante de técnicos e intelectuais.

A “Campanha das Cem Flores” (1957)

A mobilização dos técnicos e intelectuais era decisiva para o desenvolvimento do país. Mas o esforço de implantação da indústria pesada, desviando recursos da agricultura e da indústria leve e reduzindo o consumo de massa, gerara descontentamento. Forças direitistas, que continuavam vivas no território chinês, procuravam tirar proveito da situação. E os meios intelectualizados eram particularmente sensíveis à sua influência. Manifestações oposicionistas ocorreram em 1956. Destoando da política repressiva adotada pela União Soviética, que vinha de esmagar a revolta popular na Hungria, o PCC procurou desanuviar o ambiente promovendo uma abertura política e cultural. As pessoas foram incentivadas a expressar livremente suas queixas e opiniões e a debater idéias. O governo comprometia-se a não tratar as críticas como inimigas e a fazer ajustes no programa de desenvolvimento para aliviar o peso sobre as costas da população. O próprio Mao assumiu a liderança do processo, lançando o famoso slogan “Que cem flores desabrochem; que cem escolas de pensamento disputem entre si”.

No início, a campanha surtiu efeito positivo, revitalizando a vida política e cultural do país. Em meados de 1957, porém, as críticas ao Partido e seus quadros se radicalizaram. Oposicionistas beneficiavam-se da liberdade concedida e ameaçavam a própria estabilidade do regime. Alarmada, a cúpula do PCC mudou de orientação. Enquanto mantinha a descentralização política, administrativa e econômica proposta pela Campanha das Cem Flores, desencadeou um duro ataque ao que chamou de “direitistas burgueses”. Contra-revolucionários foram reprimidos e passou-se a considerar que a aceleração do desenvolvimento econômico era a única forma de cortar o mal pela raiz.

O “Grande Salto Adiante” (1958-1960)

O fracasso da Campanha das Cem Flores expusera a fragilidade interna do regime. Por outro lado, no plano externo, as divergências com a União Soviética haviam alcançado um novo patamar. Apesar de ter experimentado sérias dificuldades de relacionamento com o dirigente soviético Iosif Stalin (1879-1953), a cúpula do PCC discordava da maneira unilateral e simplista como Stalin fora criticado no 20o Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em 1956. Discordava também das novas diretrizes da política soviética, que priorizavam a coexistência pacífica com os Estados Unidos e a transição pacífica do capitalismo ao socialismo. As divergências manifestaram-se inicialmente de forma velada. Mas, durante um congresso do Partido Comunista da Romênia, Nikita Krutchev, secretário geral do PCUS, atacou abertamente os dirigentes chineses. Estes responderam com uma série de artigos, que configuravam uma clara cisão no movimento comunista internacional.

Apesar de seu sucesso, o Primeiro Plano Qüinqüenal chinês (1953-1957) tornara a China excessivamente dependente da ajuda soviética. Mao e seus companheiros temiam que o aprofundamento dessa dependência comprometesse a liberdade chinesa. Ou, pior ainda, que, em função das divergências políticas e ideológicas, a União Soviética suspendesse unilateralmente a ajuda, deixando a China na mão (o que realmente viria a ocorrer, em 1960). Ademais, a ênfase na indústria pesada favorecera a formação de um segmento social de técnicos e burocratas que gozavam de privilégios em relação aos operários e camponeses e defendiam com unhas e dentes sua posição. Esse grupo – avaliavam os chineses – fora responsável pela fossilização do regime soviético. E eles temiam que isso pudesse ocorrer também em seu próprio país.

Nesse contexto complexo e adverso, a China iniciou seu Segundo Plano Qüinqüenal (1958-1962). E Mao, em pessoa, procurou imprimir-lhe um caráter militante, em contraste com o viés burocrático do plano anterior: em lugar do rígido determinismo das leis econômicas, o poder da vontade humana; em lugar do planejamento centralizado dos especialistas, a multiplicação de iniciativas espontâneas das massas; em lugar dos privilégios da tecnoburocracia, o espírito de sacrifício do povo. Essas idéias eram uma expressão concentrada do que havia de mais característico no pensamento maoísta: o voluntarismo extremado; a desobediência às regras estabelecidas; a confiança ilimitada na criatividade popular.

A propaganda oficial logo encontrou um nome para esse conjunto de idéias: Grande Salto Adiante. Como em outras iniciativas de Mao, seu protótipo era uma das lendas favoritas do dirigente chinês, a do velho tonto que removeu as montanhas. Diz ela que um pobre camponês e seus filhos, munidos de simples pás, puseram-se a cavar duas enormes montanhas que obstruíam sua visão. Ridicularizado por um vizinho, o camponês, conhecido como o velho tonto, argumentou que as montanhas não podiam crescer, mas se ele e seus filhos e seus netos e seus sucessivos descendentes continuassem cavando, acabariam por removê-las. A estória comporta um final miraculoso: comovido pelo esforço do homem, Deus envia seus anjos, que levam as montanhas embora. Em 1945, ao comentar essa lenda, o ateu e materialista Mao afirmou que seu Deus não era outro senão as massas populares da China. Em 1958, ao desencadear o Grande Salto Adiante, ele voltou a apelar às massas. E novamente elas vieram em seu auxílio. Porém, os resultados foram funestos. Mais de 30 milhões de camponeses deram a vida para implementar esse projeto, que se revelou um dos grandes desastres econômicos e sociais da história.

O objetivo do Grande Salto Adiante era arrancar a China do atraso e permitir que, em 15 anos, ela conquistasse o nível de desenvolvimento econômico da Inglaterra. A palavra de ordem “marchar com as duas pernas” condensava a idéia de um desenvolvimento simultâneo da indústria e da agricultura. Entre outros objetivos grandiosos, as metas incluíam duplicar a cada dois anos a produção de aço e chegar a 1967 com uma produção de cereais de 450 milhões de toneladas. A energia popular foi mobilizada ao extremo. Agitadores políticos assumiram o lugar dos técnicos no comando do processo. Os camponeses foram estimulados a produzir aço em pequenos auto-fornos domésticos e a plantar em todos os lugares possíveis. Operários e estudantes foram enviados ao campo para integrar-se ao campesinato. Gigantescas obras de infra-estrutura (barragens, canais, estradas) foram confiadas a legiões de trabalhadores, armados de enxadas.

Em agosto de 1958, o Comitê Central do PCC determinou a fusão das cooperativas camponesas em unidades produtivas maiores. Nascia a “comuna popular”, uma forma radicalmente nova de organização econômica, social, política, cultural e militar. Controlando todos os meios de produção, as comunas eram entidades auto-suficientes, que combinavam atividades agropecuárias, industriais (de pequena escala), comerciais, administrativas, educacionais, de segurança etc. Seus habitantes eram divididos em brigadas de produção e também em milícias armadas. Cozinhas comunitárias, grandes refeitórios e creches liberavam as mulheres da milenar servidão da vida doméstica. Escolas e outros espaços de socialização afastavam as crianças da tutela dos adultos. Em algumas comunas, chegou-se até a ensaiar a substituição das moradias familiares tradicionais por dormitórios coletivos. O objetivo não era apenas aumentar a produtividade do trabalho, mas também realizar o ideal comunista do “homem novo”, capaz de expressar sua criatividade nos mais variados domínios. No final de 1958, 750 mil cooperativas haviam se fundido em 23.500 comunas, cada qual com aproximadamente 22 mil integrantes. O país fervia de entusiasmo e as façanhas chinesas espantavam o mundo.

O colapso

A euforia durou vários meses. Mas a dura realidade acabou mostrando sua face. As metas fixadas estavam muito além das possibilidades concretas. No vão afã de realizá-las, chefes de comunas e agentes do partido transformaram-se em pequenos tiranos, que exauriam até a última gota a energia dos camponeses. A ditadura dos técnicos fora substituída pela ditadura dos quadros políticos. E o entusiasmo não compensou a incompetência. Para alimentar 1 milhão de pequenos auto-fornos espalhados pelo país, florestas inteiras foram derrubadas, provocando um desastre ecológico. Em muitas localidades, os camponeses derreteram seus instrumentos de trabalho para cumprir as cotas de produção de aço. Porém, de pouco adiantou tudo isso, pois o produto final revelou-se de baixa qualidade.

Com medo de serem acusados de direitistas, os dirigentes locais não ousavam contestar as metas. Em vez disso, passaram a maquiar os dados, fornecendo relatórios que estavam longe de corresponder à realidade. A produção de grãos anunciada em 1958, de 375 milhões de toneladas, teve depois que ser retificada para 250 milhões, e muitos economistas ocidentais acreditam que não tenha chegado a 215 milhões. No entanto, as exportações agrícolas não paravam de crescer, pois o país precisava de dinheiro para financiar seu esforço de industrialização e pagar a dívida anteriormente contraída com a União Soviética. Conseqüência disso, a ração individual de grãos caiu de 205 quilos ao ano em 1957, para 201 em 1958, 183 em 1959, 156 em 1960, e 154 em 1961! A escassez de alimentos castigou a população do interior. Camponeses moíam cascas de arroz, sabugos de milho e folhas secas para fazer mingau. E porcos passaram a ser alimentados com excrementos humanos. Estima-se que mais de 30 milhões de chineses tenham morrido de fome e exaustão.

Apesar de terem insuflado vida nova ao campo, liberando a força de trabalho feminina, realizando portentosas obras de irrigação que levaram prosperidade a regiões anteriormente estéreis, criando uma milícia popular de 220 milhões de pessoas capaz de desencorajar qualquer agressão estrangeira, estimulando rústicos trabalhadores braçais a escrever contos e poesias, as comunas populares revelaram-se um passo maior do que as pernas. A área e o contingente populacional de cada uma delas, a escala de suas unidades de produção, a completa substituição das compensações materiais por incentivos morais, a radical mudança de hábitos que elas impunham a seus habitantes, tudo isso estava adiantado demais em relação ao seu tempo.

De todas as realizações feitas em nome do marxismo, as comunas populares chinesas foram as que mais se aproximaram do sonho de Marx sobre o desenvolvimento do homem integral, polivalente e criativo. Mas a remuneração dos camponeses segundo suas necessidade e não segundo o seu trabalho, que pretendia acelerar a chamada transição do socialismo ao comunismo, mostrou-se utópica no sentido literal da palavra: era uma idéia fora de lugar. No início de 1959, muitas comunas já haviam se desmembrado em estruturas menores ou retornado às formas cooperativas anteriores. E lotes particulares voltaram a ser distribuídos a famílias camponesas, com vistas a estimular a produção, que entrara em colapso.

Estava claro que o Grande Salto Adiante fracassara. Em abril de 1959, Mao foi demitido do cargo de presidente da República, para o qual a Assembléia Nacional Popular elegeu Liu Shaoqi. Manteve o posto de presidente do PCC, mas seu poder tornou-se em parte apenas nominal, pois, na função de secretário geral, Deng Xiaoping controlava de fato a máquina partidária. Apesar desse duro revés, o líder revolucionário não estava liquidado. Em julho, em uma conferência do Partido realizada em Lushan, Mao admitiu que errara, mas ameaçou seus companheiros, dizendo que, se insistissem em apontar apenas o lado negativo, ele iria pessoalmente ao campo, para liderar os camponeses em uma nova revolução. Seus interlocutores sabiam que ele era suficientemente ousado para cumprir a ameaça. O ministro da Defesa, Peng Dehuai (Peng Teh-huai), um dos heróis da Longa Marcha, que encabeçou as críticas à condução do Grande Salto, foi destituído do cargo, acusado de estar mancomunado com o líder soviético Nikita Krutchev. Para seu lugar, foi eleito Lin Biao (Lin Piao). Estee desempenharia futuramente um papel de destaque, durante a Grande Revolução Cultural Proletária, quando chegou a ser apontado como “herdeiro” de Mao.

 

 

No olho do furacão (1960-1976)

O expurgo de Peng Dehuai (Peng Teh-huai) e seus partidários serenou temporariamente a luta interna no PCC. As diferentes facções se uniram para enfrentar os graves desafios externos. Os Estados Unidos haviam decidido fornecer mísseis de última geração ao governo de Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) em Taiwan. E a China revidou, intensificando seus ataques de artilharia contra ilhas pertencentes ao arquipélago rebelde. Por outro lado, a ocupação do Tibete, invadido pela China em 1950, desmoralizava a retórica antiimperialista dos dirigentes de Beijing (Pequim). A despeito de seus discursos grandiosos sobre a autodeterminação dos povos, eles não vacilaram em apoderar-se de um território estrangeiro, eliminar parte de seus habitantes e empenhar-se na destruição sistemática de sua cultura milenar.

Em 1959, a população tibetana insurgiu-se contra a ocupação. E os chineses desbarataram com violência a rebelião. Seu malogro criou uma situação insustentável para o Dalai Lama. Temendo transformar-se em prisioneiro em seu próprio palácio, com sua presença sendo utilizada para legitimar a dominação externa, o então jovem líder espiritual tibetano tomou a difícil decisão de fugir para a Índia. O asilo oferecido a ele e seus mais próximos seguidores ocasionou séria deterioração das relações sino-indianas. Vários incidentes entre os dois países culminariam com uma guerra de fronteira em 1962.

O conflito sino-soviético

Os conflitos com Taiwan e a Índia eram fenômenos menores, porém, frente ao agravamento das contradições da China com a União Soviética. Beijing (Pequim) e Moscou vinham trocando farpas desde o 20o Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em 1956. As acusações veladas tornaram-se cada vez mais veementes. E ameaçavam criar uma cisão no movimento comunista internacional. Com o passar do tempo, ficou claro que os soviéticos não cumpririam sua promessa de fornecer tecnologia nuclear à China. Em setembro de 1960, a temperatura chegou ao ponto de ebulição. A União Soviética retirou seus 1330 consultores e especialistas do território chinês. A perda desse pessoal qualificado provocou enorme crise no programa de desenvolvimento do país: 343 grandes contratos e 257 projetos técnicos foram cancelados. Um ano mais tarde, em derradeira manobra conciliadora, Zhou Enlai (Chu En-lai) compareceu a novo congresso do PCUS. Mas retirou-se do encontro quando o líder soviético Nikita Krutchev subiu à tribuna para atacar Stalin e a Albânia, único país do bloco socialista europeu que apoiava as posições chinesas.

Ao deixarem a China, dois dos técnicos soviéticos, detentores de segredos nucleares, picaram seus papéis em pedacinhos e os atiraram ao lixo. Fazendo jus à sua proverbial paciência, os chineses reconstituíram, peça por peça, os documentos originais. Juntando os dados soviéticos às informações obtidas por cientistas chineses formados no Ocidente, a China iniciou, sob a coordenação do Exército Popular de Libertação (EPL), um acelerado programa de construção da bomba. Em outubro de 1964, dois dias depois de Krutchev ser derrubado do poder por seus subalternos na União Soviética, a China detonou seu primeiro artefato nuclear. Para melhor saborear sua vitória, os dirigentes chineses deram à bomba o apelido sarcástico de “596”, referência ao mês de junho (“6”) de 1959 (“59”), quando Krutchev os informara que não daria à China um protótipo da cobiçada arma. Em menos de três anos, o país completou novo salto tecnológico, alcançado o estágio termonuclear, com a explosão de uma bomba de hidrogênio de 3 megatons em junho de 1967.

A luta interna pelo poder

O apaziguamento temporário da luta interna no PCC significou, de fato, a predominância daquela que viria a ser rotulada mais tarde como a “linha de direita”. Enquanto o ideológico Mao ficou reduzido a uma posição meramente decorativa, pragmáticos como Liu Shaoqi, Deng Xiaoping, Chen Yun, Peng Zhen (Peng Chen) e outros assumiram de fato as rédeas do poder. E logo trataram de corrigir o que consideravam ser os excessos da época anterior. A autoridade central foi reforçada, o partido teve sua estrutura organizativa e hierárquica fortalecida, a disciplina voltou a predominar no interior das forças armadas, a gestão das comunas populares e das fábricas passou a ser regida por critérios técnicos e produtivistas. Em lugar das improvisações do Grande Salto Adiante, a cúpula enfatizava agora a necessidade de planejamento eficiente.

Mao não podia se conformar, obviamente, com tal situação. Aos seus olhos, o aumento da produtividade às custas de incentivos materiais aos operários e camponeses corrompia as massas. E a nova direção expressava o predomínio de uma tendência burguesa no interior do partido. Se o desvio não fosse corrigido, pensava ele, a China trilharia a mesma trajetória funesta seguida pela União Soviética. Um novo confronto, de grandes proporções, desenhava-se no xadrez da política chinesa. E Mao não demorou a fazer o movimento de abertura. Com o objetivo de reinfundir o fervor ideológico nos quadros e militantes do PCC, ele, na condição de presidente do Partido, lançou em 1962 o que denominou Movimento de Educação Socialista. Liu Shaoqi, Deng Xiaoping e os outros, que a duras penas estavam devolvendo o país à estabilidade, sentiram a ameaça potencial desse novo chamamento revolucionário. Não ousaram opor-se abertamente ao projeto, mas procuraram emperrá-lo na prática.

Sentindo a resistência da burocracia partidária e contando com o importante apoio do marechal Lin Biao (Lin Piao), que substituíra Peng Dehuai à frente do Ministério da Defesa, Mao treplicou acrescentando uma nova palavra de ordem ao seu Movimento de Educação Socialista: “Aprender com o Exército Popular de Libertação (EPL)”. Num lance tão ousado quanto arriscado, típico de sua personalidade impetuosa, ele jogava a força do exército contra a força do partido. Ao mesmo tempo, implementou uma antiga idéia da época do Grande Salto Adiante: uma reforma educacional que levava os estudantes a combinarem sua atividade intelectual nas escolas e universidades com o trabalho manual nas comunas e nas fábricas. A intenção era estabelecer uma conexão de mão dupla, que permitisse aos camponeses e operários se beneficiar com os conhecimentos acadêmicos dos estudantes e permitisse aos estudantes se beneficiar com os conhecimentos práticos das massas populares. Nos marcos de qualquer país, isso significaria uma profunda revolução. Mais ainda na China, moldada por séculos de confucionismo, com seu predomínio avassalador da “casta” dos intelectuais.

O dragão da revolução estava outra vez em atividade. E os pragmáticos fizeram de tudo para cortar-lhe as asas. De 1962 a 1965, uma guerra surda, não declarada, foi travada em várias instâncias do poder. Em 1965, Lin Biao produziu o instrumento que iria torná-la pública e explosiva. Compilando frases retiradas de vários textos de Mao Zedong, ele e seus assessores criaram um dos mais influentes instrumentos de propaganda da história, o Livro das Citações do Presidente Mao. Ou, como ficou conhecido, o Livrinho Vermelho. De formato compacto, adequada aos largos bolsos dos uniformes do Exército Popular de Libertação, e linguagem fácil, ao alcance de qualquer leitor alfabetizado, a obra era uma mistura de bíblia com manual de escoteiro, capaz de fornecer respostas para todas as perguntas. Qualquer dúvida sobre qualquer assunto? Era só consultar o Livrinho Vermelho. O pequeno objeto tornou-se um equipamento obrigatório dos soldados do EPL, mais essencial do que farda ou o fuzil. Lido, relido, estudado, decorado, ele iria se transformar em verdadeiro amuleto mágico nas mãos da juventude revolucionária.

A Grande Revolução Cultural Proletária (1966-1971)

Confiando na força do Exército Popular de Libertação e no poder de mobilização do Livrinho Vermelho, Mao ansiava pelo momento de confrontar seus adversários. A oportunidade lhe foi oferecida por uma peça teatral. Ainda em 1961, Wu Han, um intelectual do PCC que ocupava o cargo de prefeito adjunto de Beijing (Pequim), publicou um drama histórico de sua autoria. Na peça, a pretexto de discorrer sobre a demissão de um funcionário da dinastia Ming, que lutara pelos direitos do povo e fora punido pelo imperador, Wu criticava veladamente o afastamento de Peng Dehuai por Mao. Apesar do empenho do líder, a peça não foi proibida e, nos anos seguintes, o assunto ficou restrito aos altos escalões do PCC. Sentindo-se isolado em Beijing, Mao viajou no final de 1965 a Xangai, onde seus partidários controlavam o Comitê Municipal do Partido. Sob a liderança de Jiang Qing (Chiang Ching), sua quarta esposa, um grupo de intelectuais ultra-esquerdistas vinha se reunindo na cidade. E foi um deles, o jornalista Yao Wenyuan, que, em novembro de 1965, publicou na imprensa local um forte ataque à peça de Wu Han.

A publicação dessa crítica, certamente decidida em uma reunião na qual participou o próprio Mao, é considerada o ponto de partida da Grande Revolução Cultural Proletária, uma encarniçada luta pelo poder que quase levou o país à ruína. Inicialmente, o grupo maoísta concentrou o ataque em Wu Han e seus protetores da Municipalidade de Beijing, em especial o poderoso prefeito Peng Zhen (Peng Chen), no Departamento de Propaganda do PCC e no Ministério da Cultura. Assim que se sentiram suficientemente fortes, porém, os partidários de Mao ampliaram o foco e passaram a atacar alvos ainda mais altos na hierarquia partidária e estatal. No final de maio de 1966, Nie Yuanzi, professora de filosofia da Universidade de Beijing (Pequim), escreveu e afixou o primeiro dazibao (grande cartaz mural), criticando o reitor. O vírus revolucionário rapidamente contagiou os estudantes universitários e secundaristas: dazibaos multiplicaram-se pelas principais cidades chinesas e surgiram as organizações juvenis de Guardas Vermelhos.

Brandindo seus Livrinhos Vermelhos, excitados até a histeria e dispostos a um radicalismo sem limites, os Guardas Vermelhos tornaram-se os principais atores da Revolução Cultural. Mao os convocou a atacar os representantes dos “quatro velhos”: velhas idéias, velha cultura, velhos hábitos e velhos costumes. Sua convocação, deliberadamente vaga e genérica, foi pronta e fanaticamente atendida: antigos prédios, templos, bibliotecas e coleções de arte foram destruídos; professores, diretores de escola, dirigentes partidários e pais foram “julgados” e humilhados publicamente, obrigados a usar orelhas de burro, chapéus em forma de cone ou tabuletas com inscrições incriminadoras no pescoço; milhares de intelectuais foram espancados até a morte; outros suicidaram-se, depois de verem seus livros e objetos de arte destruídos ou de serem cruelmente ridicularizados. Séculos de submissão confuciana dos filhos aos pais e dos discípulos aos mestres, anos de submissão comunista dos indivíduos ao Estado e dos escalões inferiores aos superiores, toda uma cultura baseada na repressão sexual e no autocontrole explodiram de repente em um frenesi sem limites. Há denúncias de que, em algumas localidades remotas, os rituais de execração pública dos “reacionários” transformaram-se em festins antropofágicos, com os acusados sendo comidos vivos pela turba enlouquecida.

Radicalismo sem limites

Mao não se assustava com tais excessos. Ao contrário, dava toda corda a um movimento que, segundo suas palavras grandiosas, expressava a luta de classes entre o proletariado e a burguesia no interior da sociedade socialista. Em termos mais prosaicos, a agitação de massas viabilizava sua volta ao poder. Para estimular ainda mais a superexcitada juventude revolucionária, resolveu dar pessoalmente um exemplo de vitalidade, atravessando o rio Yangzi (Yang Tsé) a nado, em julho de 1966. No mês seguinte, de um palanque erguido na Praça da Paz Celestial, em Beijing, passou em revista um milhão de Guardas Vermelhos. Chegara a hora de definir com maior clareza a tarefa da Revolução Cultural. E Mao o fez ainda em agosto de 1966, em um dazibao escrito de próprio punho. Nele, o velho líder conclamava os revolucionários a “bombardear o quartel-general burguês”.

A conclamação ainda era obscura. Mas os meios de propaganda maoístas trataram de clarificá-la: a expressão “quartel general burguês” referia-se aos pragmáticos encastelados nos mais altos postos do Estado e do partido. Em outras palavras, Liu Shaoqi, Deng Xiaoping e companhia. Após uma breve e ruidosa campanha de massas, todos eles foram demitidos. Com seu fôlego de sete gatos, o pequeno e irriquieto Deng Xiaoping, que desde a década de 1920 participara de todos os grandiosos acontecimentos da Revolução Chinesa, sobreviveu a esse expurgo, como sobreviveria a um outro, para se tornar, após a morte de Mao, o líder supremo da China. Porém Liu Shaoqi não resistiu aos maus tratos e morreu em 1969. Decepada a cabeça da suposta “camarilha burguesa”, a Revolução Cultural poderia arrefecer seu ímpeto. Mas não era essa a opinião de Mao. Ele queria que a vaga revolucionária penetrasse em todos os poros da sociedade, sacudisse todas as estruturas e remodelasse o país de alto a baixo. Os rebeldes foram incentivados a ir ainda mais longe.

Apesar de ser idolatrado pela juventude revolucionária e amplos segmentos populares, Mao não dispunha de um controle absoluto da situação. Seu poder resultava de uma complexa e instável composição de forças. Pelo menos três vetores participavam desse arranjo:

– a ruidosa ultraesquerda, encabeçada por Jiang Qing e seus aliados de Xangai, os intelectuais Zhang Chunqiao e Yao Wenyuan (a esses três se juntaria mais tarde o jovem operário Wang Hongwen, compondo a chamada “Gangue dos Quatro”);

– o ambicioso ministro da Defesa e comandante do Exército Popular de Libertação Lin Biao, que levou o culto à personalidade de Mao ao paroxismo (entre outras “pérolas”, ele foi o autor da fórmula que o definia como “grande mestre, grande líder, grande comandante supremo e grande timoneiro”) e depois foi acusado de atentar contra sua vida;

– o hábil e pragmático primeiro-ministro Zhou Enlai, que conseguiu sobreviver a todas as intempéries da Revolução Cultural e garantiu que, apesar do caos, a China continuasse minimamente funcionando.

A divisão não ocorria apenas no nível da cúpula. Também as bases estudantis, operárias e até militares se dividiram em facções rivais, todas reivindicando a condição de representantes do proletariado e defensoras do marxismo-leninismo e do pensamento de Mao e rotulando suas concorrentes como burguesas, contra-revolucionárias e outros adjetivos infamantes. Os maquiavélicos burocratas do partido logo descobriram um jeito de sobreviver e conservar o poder. Bastava jogar um grupo contra o outro e safar-se das acusações, acusando seus acusadores. O fanatismo e a histeria coletiva dificultavam qualquer avaliação serena. Quem gritasse mais alto levava. Sérios conflitos, com feridos e mortos, começaram a acontecer. E o radicalismo extrapolou todas as regras.

A Comuna de Xangai

O episódio mais importante ocorreu em Xangai, o coração industrial da China, em janeiro de 1967. A classe operária se dividiu. De um lado, comissões de fábricas hostis às autoridades municipais formaram o Quartel General dos Operários Rebeldes, que se uniu aos Guardas Vermelhos. De outro, trabalhadores fieis aos dirigentes agruparam-se na facção dos Milicianos Vermelhos. Choques violentos entre os dois grupos deram a vitória aos Operários Rebeldes, que depuseram os chefes da Municipalidade e instauraram um sistema de poder ultrademocrático inspirado pela experiência da Comuna de Paris, de 1871: os dirigentes não gozavam de privilégios especiais, eram eleitos diretamente pelos trabalhadores e podiam ser destituídos a qualquer instante.

A Comuna de Xangai empolgou o país. Tentativas semelhantes multiplicaram-se pelas províncias. Os acontecimentos tomavam rumos inesperados e começavam a escapar a qualquer controle. Embora apoiasse verbalmente a Comuna de Xangai, o chamado Grupo Central da Revolução Cultural, órgão do Comitê Central do PCC encarregado de dirigir o processo (integrado por Chen Boda, Jiang Qing, Kang Sheng e outros), parece ter ficado seriamente preocupado com seus desdobramentos. Tanto que enviou Zhang Chunqiao e Yao Wenyuan para restabelecer a ordem na cidade. Com astúcia, Zhang e Yao desmantelaram a comuna e, seguindo a nova orientação da cúpula de Beijing (Pequim), instalaram em seu lugar um comitê revolucionário, estrutura tríplice composta por representantes eleitos pelas organizações de massa, militares indicados pelo Exército Popular de Libertação e dirigentes “revolucionários” do partido.

A intervenção militar

O Exército Popular de Libertação (EPL) foi chamado a intervir nas províncias. E reprimiu com truculência os grupos radicais. Testemunhas oculares descreveram imagens dantescas de rios bloqueados por cadáveres e corpos foram arrastados pela correnteza até as praias de Hong Kong. Em outubro de 1967, a Guarda Vermelha foi dissolvida, e seus membros mandados de volta aos locais de origem. Jiang Qing que, em seus arroubos esquerdistas, chegara a acusar o EPL de estar se transformando em um instrumento da burguesia, agora o elogiava como guardião da ditadura do proletariado. O vento decididamente mudara de direção. No comando do exército, a única instituição que sobrevivera praticamente intacta ao caos da Revolução Cultural, Lin Biao tornara-se o homem forte da China. O 9o Congresso do PCC, realizado em abril de 1969, o designou oficialmente como sucessor de Mao, colocando-o acima de Zhou Enlai na hierarquia comunista.

Esse arranjo era frágil, porém. Uma acirrada luta pelo poder continuava sendo travada nos bastidores. Zhou Enlai gozava de enorme prestígio no interior do Partido e junto à população. Mao era objeto de uma idolatria fanática, mas Zhou despertava um amor sincero no povo. Com habilidade, protegia os dirigentes partidários injustamente perseguidos pela Revolução Cultural, procurava salvar a economia nacional da catástrofe e desenvolvia o plano que tiraria a China do isolamento diplomático. Dono de uma inteligência brilhante e de um charme a toda prova, ele possuía o porte de um grande estadista, no interior de uma coalizão formada por figuras sórdidas e grotescas. Lin Biao e Jiang Qing o odiavam. E, mancomunados, tentaram, sem sucesso, dirigir o fogo da Revolução Cultural contra ele.

Em 1970, durante uma de suas várias visitas-relâmpago ao Vietnã, então em guerra contra os Estados Unidos, Zhou Enlai escapou por pouco de uma tentativa de assassinato tramada por Lin Biao. Sem ser informado sobre quem estava a bordo, o comandante militar da região de Kunming recebera ordem de abater um certo avião que sobrevoaria seu espaço aéreo em determinado horário. O fato só não se consumou porque Zhou resolveu trocar de aparelho no último momento. O comandante militar de Kunming obrigou o avião a aterrisar e ficou perplexo quando descobriu que transportava o primeiro-ministro. Quando este lhe pediu explicações, o aturdido militar apresentou uma ordem escrita, assinada por Lin Biao. Analistas suspeitam que esse atentado tenha contado com a colaboração de Wang Dongxing, guarda-costas de Mao desde 1935, alçado ao posto de chefe de segurança da poderosa Comissão Militar Central e comandante da temida unidade militar 8341, que, a pretexto de protegê-los, controlava todos os movimentos dos dirigentes chineses.

Cai Lin Biao, sobe Zhou Enlai

Esse atentado fracassado deve ter sido um dos fatores que precipitaram a queda de Lin Biao. A versão oficial é que sua ilimitada ambição de poder foi frustrada pelo próprio Mao. Proclamado o número 2 na hierarquia do partido, Lin Biao almejava tornar-se também o número 1 na estrutura do Estado, ocupando o cargo de presidente da República, vago desde a demissão de Liu Shaoqi. Mao, porém, extinguiu a posto, deixando Lin Biao (ministro da Defesa) abaixo de Zhou Enlai (primeiro-ministro). Revoltado contra esta e outras manobras do velho líder, destinadas a minar sua força, Lin teria armado um complô com a intenção de assassiná-lo. Descoberto, fugiu apressadamente com a família rumo a União Soviética. Mas, com combustível insuficiente e sem um navegador, seu avião caiu na Mongólia, em 13 de setembro de 1971. Verdadeira ou não, a versão mostra a que extremos de sordidez havia chegado a luta palaciana no interior da cúpula chinesa.

A queda de Lin Biao pôs fim à Revolução Cultural. A despeito da oposição de Jiang Qing e seu grupo, a posição de Zhou Enlai tornou-se dominante tanto no Partido quanto no Estado. Sinceramente ou não, Mao a apoiava. A ameaça internacional representada pela União Soviética parece ter contribuído decisivamente para esse apoio. Os dirigentes chineses consideravam a União Soviética seu principal inimigo. E a invasão soviética da Checoslováquia, em 1968, e os choques fronteiriços sino-soviéticos, em 1969, parece tê-los convencido de que uma guerra de grandes proporções era praticamente inevitável. Para enfrentá-la, eles precisavam de estabilidade interna e um amplo leque de alianças internacionais.

Isso era tudo o que Zhou Enlai queria. Em janeiro de 1972, as universidades, fechadas pela Revolução Cultural, foram reabertas. Em fevereiro, coroando uma espetacular articulação diplomática, o presidente norte-americano Richard Nixon visitou a China. Em setembro, o país reatou relações com o Japão. Em abril de 1973, Deng Xiaoping foi ostensivamente reabilitado no cargo de vice-primeiro-ministro. Em agosto, o 10o Congresso do PCC reintegrou vários dirigentes e militantes que haviam sido expurgados sob a acusação de seguirem o caminho capitalista. Em julho de 1974, perante a Assembléia Nacional Popular, Zhou relançou seu programa das Quatro Modernizações (agrícola, industrial, militar e científica), que havia sido abortado pela Revolução Cultural. Em 1976, um após o outro, morreram, em idade avançada, Zhou Enlai (Chu En-lai), Zhu De (Chu Teh) e Mao Zedong (Mao Tsé-tung). Encerrava-se toda uma era da história chinesa.

O balanço da Revolução Cultural

Cerca de 1 milhão de mortos; 100 milhões de pessoas atiradas à prisão, deportadas para o campo, desempregadas ou reduzidas à mendicância; 160 milhões de crianças e jovens (de 8 a 18 anos) retirados das escolas, fanatizados pela propaganda, levados a cometer toda a sorte de excessos, inclusive o homicídio; destruição de tesouros artísticos de valor incalculável; desestruturação econômica, social, política e cultural do país: este é o balanço, apenas parcial, da Grande Revolução Cultural Proletária.

O mais trágico é que esse imenso sacrifício, que quase destruiu o país, não trouxe nenhum benefício concreto para o seu povo. Os outrora jovens Guardas Vermelhos procuram hoje exorcizar os fantasmas do passado. E, salvo os mortos, todos os antigos dirigentes “seguidores do caminho capitalista”, afastados pela Revolução Cultural, foram reconduzidos ao poder depois da morte de Mao. Graças à sua nova orientação, baseada no programa das Quatro Modernizações de Zhou Enlai (Chu En-lai), a China vive atualmente uma extraordinária fase de desenvolvimento econômico. E está dando à sua enorme população o bem-estar e a esperança que os anos de utopia igualitarista do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural lhe negaram.

A Revolução Cultural colocou no centro dos acontecimentos personagens tenebrosos, como Lin Biao, Jiang Qing e Kang Sheng. Vejamos seus perfis.

Lin Biao (1908-1971)

Filho de um pequeno industrial, Lin Biao (Lin Piao) entrou aos 19 anos na Academia Militar de Whampoa, fundada e dirigida por Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek). Em 1927, com a patente de coronel, aderiu com seu regimento aos grupos guerrilheiros de Mao Zedong (Mao Tsé-tung). Comandou o Primeiro Corpo do Exército Vermelho (precursor do Exército Popular de Libertação, EPL), participou da Longa Marcha e desempenhou importante papel nos últimos combates que levaram os comunistas ao poder, em 1949. Em 1959, assumiu o Ministério da Defesa, após a demissão de Peng Dehuai.

Intelectualmente medíocre, autor de obras que veiculam uma visão aviltada do marxismo, valeu-se da mais escandalosa adulação e da promoção do fanatismo de massas numa escala jamais vista para alcançar o poder. Tendo chegado perto do cume graças à força do EPL, que, sob suas ordens, reprimiu duramente os extremistas de esquerda durante a Revolução Cultural, envolveu-se em macabras tentativas de assassinato para subir ainda mais. Essas maquinações causaram sua ruína.

Jiang Qing (1913-1991)

Ex-atriz de teatro e cinema, Jiang Qing ligou-se a Mao nas montanhas de Yenan, em 1938. Os veteranos comunistas, que tinham na mais alta conta a terceira esposa de Mao (uma revolucionária de primeira hora, que acompanhara o marido nos épicos acontecimentos da Longa Marcha), não aprovaram essa nova união.

Vendo Jiang Qing como uma oportunista e carreirista, vetaram seu acesso a qualquer cargo político importante até o início dos anos 1960. Frustrada e ressentida, ela fez da vingança contra seus desafetos (especialmente Liu Shaoqi e sua esposa, Wang Guangmei) uma das molas propulsoras da Revolução Cultural. Alçada aos cargos de conselheira cultural do Exército Popular de Libertação, vice-presidente do Grupo Central da Revolução Cultural e membro da Comissão Permanente do Birô Político do Comitê Central do PCC, perseguiu intelectuais, destruiu o repertório clássico da Ópera de Beijing (Pequim) e levou a cultura chinesa a um dos períodos mais obscurantistas de sua história.

Kang Sheng (1898-1975)

Filho de um proprietário de terras, Kang Sheng nasceu em 1898. Em 1924, com 26 anos, aderiu à Liga da Juventude Comunista e ingressou no Partido, no ano seguinte. Dedicou-se desde cedo ao serviço secreto e, em 1933, foi enviado a Moscou, onde se aperfeiçoou na atividade policial. Voltou à China como um estalinista convicto. Na base revolucionária de Yenan, promovia encontros amorosos de concubinas com os altos dirigentes comunistas e valia-se desse expediente para obter informações. Foi ele quem aproximou Jiang Qing de Mao Zedong. Protegido de Mao e alçado por este à chefia do Departamento Pessoal do Comitê Central, controlava os arquivos do organismo, bem com fichas detalhadas de todos os dirigentes partidários. Nada acontecia sem o seu conhecimento.

À frente da polícia secreta do partido, mantinha sofisticados equipamentos de escuta eletrônica em todos os gabinetes da direção. Durante a Revolução Cultural, mandou executar vários dirigentes. Outros foram torturados até a morte, eliminados pela fome ou enviados a asilos psiquiátricos. Estima-se que, sob sua batuta, 10 mil quadros superiores ou médios do Partido, 940 mil quadros inferiores ou simples militantes e 10 milhões de pessoas tenham sido presas, sob a acusação de espionagem, atividades contra-revolucionárias ou relações com o Guomindang (Kuomintang).

Falando a respeito dele em 1978, Chen Yun, um veterano comunista, afirmou: “Mao era um homem, não um deus; Peng Dehuai, um homem, não um demônio; Kang Sheng, um demônio, não um homem”. Conselheiro do Grupo Central da Revolução Cultural e pretenso defensor da arte proletária, apoderou-se de uma formidável coleção de obras antigas, transferidas dos museus para sua residência particular. Alcoólatra, passou os últimos anos de sua vida atormentado pelo delirium tremens.

O papel de Mao

Durante a Revolução Cultural, Mao Zedong (Mao Tsé-tung) foi objeto de um culto à personalidade que, pelo número de pessoas mobilizadas, pelo fervor coletivo e pelo uso maciço da propaganda, talvez não tenha paralelos na história do mundo. Nem o culto de Stálin, na antiga União Soviética, atingiu tal proporção. E, se Mao não foi tão incensado fora da China quanto Stálin o no exterior da União Soviética, nem por isso deixou de empolgar ao redor do mundo toda uma geração de seres humanos, comunistas ou não.

Na China, seu Livrinho Vermelho transformou-se na Bíblia de milhões de pessoas. O Livrinho Vermelho não era apenas lido, estudado, decorado, mas também reverenciado como se fosse um objeto religioso, um ícone ou até mesmo um amuleto. Quanto à sua pessoa, nas raras ocasiões em que aparecia em público, provocava um frenesi que ultrapassava o delírio suscitado pelos artistas pop. Exemplo bizarro desse culto à personalidade foi proporcionado pelo destino dado a uma manga que o líder colheu da árvore e ofertou a um grupo de jovens revolucionários. Essa fruta tornou-se uma espécie de relíquia sagrada. Submetida a tratamento químico para não deteriorar, ela era conduzida de avião, em assento especial e sobre uma almofada de veludo, para os quatro cantos da China. Nas várias localidades por que passava, era exibida e reverenciada.

Na mídia chinesa, Mao não era apenas o “maior marxista-leninista de nossa época”, o “grande timoneiro da revolução”, mas também um herói portador de valores sobre-humanos, que atravessava o rio Yang Tsé a nado, escrevia poesia clássica e protegia a nação de todos os males.

Depois da desmontagem dessa incrível construção mitológica, da morte de Mao e da abertura da China para o mundo, começou a circular uma outra versão acerca do líder: Ele havia desempenhado um papel importantíssimo na história da China, mas cometera erros, arriscaram alguns; ele praticara crimes hediondos, avançaram outros. Um suposto depoimento de seu médico particular trouxe revelações bombásticas. Segundo tal relato, o “grande timoneiro” era um devasso, que comia carne de cachorro, não tomava banho nem escovava os dentes e se regalava em orgias sexuais com garotas e garotos recrutados pelo Partido.

Qual foi o Mao verdadeiro? O que amava nadar ou o que tinha aversão a banho? O que edificava a juventude revolucionária ou o que se deitava com ela? Talvez ambos. Ou nenhum dos dois. Quem poderá responder? Para chegar ao Mao verdadeiro, seria preciso ultrapassar a barreira da manipulação de informações, tanto a de ontem quanto a de hoje. Mais do que isso, seria preciso ultrapassar a epiderme da personalidade pública para penetrar no espaço misterioso que constitui o interior de todo ser humano – esse pântano obscuro no qual as mais belas flores da inteligência vicejam sobre o lodo espesso de instintos primitivos.

Mao nasceu em 26 de dezembro 1893 e faleceu em 18 de setembro de 1976, com 82 anos. Veio ao mundo em uma China que parecia naufragar sob o peso da dinastia manchu, na cidade de Shaoshan, província de Hunan, em uma família de camponeses pobres que se tornaram remediados graças ao comércio de cereais. Odiava o pai e amava a mãe, como manda o figurino freudiano.

Sua progenitora, analfabeta, era budista devota. E ele também o foi, até a adolescência. Freqüentou a escola tradicional, na qual os alunos aprendiam a ler, recitando sem compreender os textos de Confúcio. Logo tornou-se um ávido devorador de novelas populares, como o célebre Romance dos Três Reinos, uma obra histórica saturada de heroísmo. Impressionou-se também com a tradução de um livro ocidental de biografias que exaltava personagens como Pedro, o Grande, George Washington, Napoleão e Lincoln.

Ajudava o pai nas tarefas do campo desde a idade de seis anos. Com 13, teve de abandonar a escola para se dedicar integralmente ao trabalho. Não completara ainda 18, quando eclodiu a Revolução de 1911. Alistou-se no exército republicano, mas, transcorrido algum tempo, voltou aos estudos, como autodidata, freqüentando durante seis meses a biblioteca provincial. Matriculou-se então na Escola Normal de Hunan. Para fortalecer o corpo e o caráter, ele e seus amigos engajavam-se em longas caminhadas, nadavam nos rios e expunham-se ao vento e à neve. O aprimoramento corporal tornou-se para ele uma verdadeira obsessão e um de seus primeiros artigos, publicado em 1917, exaltava a cultura física como instrumento para reerguer a nação.

Em 1918, conquistou seu diploma de professor primário. Ao contrário de outros fundadores do Partido Comunista, não cursou a universidade, jamais estudou fora do país e ignorava idiomas estrangeiros. Dominando apenas o dialeto hunanês, precisa de intérprete até mesmo para se comunicar em mandarim, a língua oficial chinesa. Em um agrupamento dominado por intelectuais cosmopolitas, esse foi certamente um dos fatores que suscitaram tanta resistência à afirmação de sua liderança.

Graduado, conseguiu emprego como bibliotecário assistente na Universidade de Beijing, tornando-se discípulo de Li Dazhao, o introdutor do marxismo na China. Retornou pouco depois a Hunan, para organizar o Movimento Quatro de Maio, na província. Em 1920, casou-se com Yang Kai-hui, filha de seu antigo professor de ética, Yang Chang-chi, um dos homens que mais o influenciara, apresentando-lhe tanto a literatura e a filosofia clássicas chinesas quanto os modernos pensadores ocidentais. Consta que Mao amou profundamente sua primeira esposa, assassinada em 1930 pelo Guomindang (Kuomintang). A partir da fundação do Partido Comunista, em 1921, sua biografia confunde-se com a própria história da China.

Seu papel na história ainda está por ser estabelecido. Mas a compaixão certamente não fazia parte de suas qualidades. Quando o imperador da Etiópia, Hailé Selassié, admirado pelas realizações chinesas, perguntou-lhe quantas vidas aquilo havia custado, o líder chinês respondeu: 50 milhões. Espantado, Selassié afirmou que tal cifra correspondia ao dobro da população etíope. Sem demonstrar emoção, Mao comentou que, no caso da China, ela representava apenas uma pequena fração. Em outra ocasião, afirmou que, se fosse alvo de um maciço ataque nuclear e perdesse metade de seus habitantes, ainda assim a China triunfaria, pois a outra metade a levaria à vitória. Nessa linha de raciocínio, o saldo de um milhão de mortos da Revolução Cultural deve ter-lhe parecido uma bagatela para assegurar sua volta ao poder.

Considerados os prós e os contras, e com o distanciamento imprescindível a uma avaliação serena, talvez o que se possa dizer é que Mao foi um personagem providencial na história da China, o catalisador de uma energia coletiva capaz de transformar um país camponês esfomeado e dilapidado numa superpotência emergente. Como Robespierre, na França, ou Lênin, na Rússia, ele encarnou aquela fase heróica da revolução, em que os protagonistas enfrentam uma batalha de vida ou morte contra inimigos incomparavelmente mais poderosos. Quando a meta inicial é alcançada e o ardor heróico cede lugar à frieza pragmática, essas figuras se transformam num incômodo anacronismo e costumam ser impiedosamente descartadas: a cabeça de Robespierre rolou na guilhotina; Lênin, doente, foi confinado em uma casa de campo. Mao continuou vivo e teimosamente atuante. E esse pode ter sido seu maior defeito.

Do atordoante culto à personalidade que lhe foi prestado, restou apenas um protocolar e inofensivo retrato na Praça da Paz Celestial. O futuro decidirá o seu lugar.

 

 

A “transição dinástica” (1976-1978)

O salto da China rumo à modernidade iniciou-se com um golpe palaciano, no mais puro estilo da era imperial. Corria o ano de 1976. Em janeiro, julho e setembro, respectivamente, faleceram Zhou Enlai (Chu Em-lai), Zhu De (Chu Teh) e Mao Zedong (Mao Tsé-tung), os três principais líderes da nação. Em julho, um terremoto como há muito não se via devastou a cidade de Tangshan, na província de Hebei. A sincronicidade do terremoto com a morte dos velhos dirigentes produziu na mente popular a convicção de que importantes mudanças estavam por ocorrer. No passado, os terremotos sempre foram associados a transições dinásticas e outros acontecimentos de grande magnitude. A marcha dos acontecimentos não desmentiria essa previsão, aparentemente supersticiosa.

O crepúsculo maoísta

A morte de Zhou Enlai (Chu En-lai) provocou intensa comoção popular. Ao contrário de Mao, cujo culto idólatra era em grande parte uma fabricação da máquina de propaganda oficial, Zhou contava com ampla, profunda e sincera afeição da população. Em abril, no dia que os chineses dedicam aos mortos, gigantescas manifestações de massa, aparentemente espontâneas, ocorreram junto ao memorial dedicado a Zhou, na Praça da Paz Celestial, em Beijing. Ao mesmo tempo que reverenciavam a memória do antigo primeiro-ministro, os manifestantes veiculavam palavras de ordem contra os mais íntimos aliados de Mao, em especial do grupo de Jiang Qing. Esta não tardou a acusar Deng Xiaoping pelo tumulto, que quase se transformou em insurreição.

Embora houvesse muito de espontaneidade nas demonstrações, não é improvável que o astuto Deng estivesse de fato por trás dos acontecimentos. Formalmente reabilitado após as perseguições sofridas durante a Revolução Cultural, ele fora nomeado vice-primeiro-ministro em abril de 1973, sob a ostensiva proteção de Zhou Enlai (Chu Em-lai). Desde então, sua influência não parou de crescer. Reinstalado no Comitê Central do PCC pelo 10o Congresso do Partido em agosto de 1973, teve evidente participação do relançamento do programa das Quatro Modernizações (agrícola, industrial, militar e científica), anunciado por Zhou em julho de 1974. Em 1975, foi eleito vice-presidente do PCC, membro da Comissão Permanente do Birô Político do Comitê Central (a cúpula da cúpula da cúpula partidária) e chefe do Estado Maior do Exército Popular de Libertação. Com Zhou Enlai (Chu En-lai) doente, passou a dirigir na prática o conselho de ministros. Era o sucessor natural do primeiro-ministro. Porém, a acirrada oposição do grupo de Jiang Qing, que nesse caso expressava a opinião do próprio Mao, fez com que sua nomeação fosse postergada. Para forçar a situação, Deng pode ter incentivado as manifestações de abril.

Mas o tiro saiu pela culatra. Acusado de fomentar um levante contra-revolucionário, nos moldes da insurreição húngara de 1956, ele foi deposto de todos os seus cargos. Apesar de já não dispor de condições físicas e mentais para comandar os destinos do país, Mao era uma lenda viva e suas palavras tinham a força de lei. Por determinação sua, o Birô Político aceitou imediatamente a destituição de Deng e nomeou o ministro da Segurança Pública, Hua Guofeng, um personagem medíocre e praticamente desconhecido, para os cargos de primeiro-ministro interino e primeiro vice-presidente do Partido.

Gato escaldado, Deng sabia que sua prisão era iminente. Para evitá-la, abandonou Beijing e refugiou-se em Cantão, sob a proteção do general Xu Shiyu, chefe da região militar, e de Wei Guoqing, primeiro secretário da província de Guangdong. A China parecia voltar à era dos senhores de guerra, quando os comandantes militares controlavam as províncias como monarcas absolutos. À salvo, Deng passou a conspirar intensamente para voltar ao poder. Ele tinha certeza de que um novo confronto se aproximava e que, desta vez, não havia a opção do meio termo: ou sua facção engolia o grupo de Jiang Qing ou seria devorada por ele.

A luta nos bastidores

A oportunidade, de todo previsível, surgiu com a morte de Mao, em 9 de setembro. Era hora de agir – e agir rápido. Cumpridos os ritos fúnebres, aos quais por óbvios motivos de segurança Deng não compareceu, o Birô Político reuniu-se para deliberar sobre a sucessão. Quem seria o novo presidente do Partido? Hua Guofeng possuía um trunfo que, em sua mente simplória, considerava infalível: um bilhete, escrito pelo próprio Mao, que afirmava “com você no comando, eu fico tranqüilo”. Era claramente sua indicação como sucessor. Hua apresentou o bilhete aos seus camaradas.

Mas Jiang Qing, que ambicionava ocupar o posto do marido, ficou furiosa. Ela sabia que, ao escrever aqueles poucos caracteres, Mao, afetado pelo mal de Parkinson e quase senil, já não era exatamente senhor dos seus atos. Impetuosa e inábil como sempre, ousou dizer isso abertamente na reunião. Foi a deixa para que os partidários de Deng se mostrassem sumamente indignados: como ela se atrevia a discordar de uma diretriz do presidente? Pura encenação, é claro. Porém os atores representavam bem. Dos 16 membros do Birô Político, a facção denguista possuía cinco. Mas eram cinco raposas: os dois principais protetores de Deng, o general Xu Shiyu e o dirigente provincial Wei Guoqing; o velho marechal Ye Jianying, vice-presidente da Comissão Militar; o planejador econômico Li Xiannian; e o marechal Liu Bocheng.

Impasse na reunião. Sessão suspensa, Ye Jianying reuniu-se em particular com Hua Guofeng e lhe recomendou mandar prender o grupo de Jiang Qing (que viria a ser chamado mais tarde de “Gangue dos Quatro”). Hua ficou horrorizado: ele não podia fazer isso, prender aquela que havia sido a esposa do grande líder. O velho marechal resolveu abrir o jogo: havia um golpe em marcha. Se Hua não prendesse os quatro, seria preso junto com eles. Enquanto conversavam, o primeiro-ministro interino escutou o som característico do deslocamento de tanques. Para neutralizar as forças enviadas à capital por Mao Yuanxin, sobrinho de Mao, Ye Jianying convocara a 112a divisão blindada do 38o exército. No mesmo instante, as tropas de Xu Shiyu ocupavam Xangai, a maior cidade industrial da China e principal reduto da “Gangue dos Quatro”.

O lerdo Hua finalmente acordou para a situação. Juntos, ele e Ye foram requisitar a colaboração de Wang Dongxing, chefe da temida unidade 8341, que os opositores do regime chamavam ironicamente de “Guarda Imperial” – uma tropa de elite, composta por 50 mil homens, fiéis até a morte, encarregada da segurança dos altos dirigentes do país. O comandante tinha exatos dois minutos para decidir de que lado estava. Apesar de ter sido durante décadas o guarda-costas de Mao e de ser íntimo de Jiang Qing, Wang não precisou de tanto tempo para saber a direção do vento. E aderiu aos golpistas. No dia 6 de outubro de 1976, às 15 horas, quando se apresentaram à reunião do Birô Político, que deveria recomeçar imediatamente, Jiang Qing e Zhang Chunquiao foram presos. Simultaneamente, Yao Wenyan e Wang Hongwen eram detidos em suas casas, e seus principais partidários, caçados por toda parte.

Quando a sessão do Birô Político foi reiniciada, três dias depois, o número de participantes havia diminuído para 12. A questão foi recolocada: quem seria o presidente do Partido? Sorridente, Hua Guofeng voltou a exibir o bilhete. Para sua surpresa, o rude general Xi Shiyu afirmou que aqueles caracteres tinham pouco valor, eles representavam apenas as intenções pessoais de Mao, não o ponto de vista do Partido, das Forças Armadas e do povo. Hua ficou perplexo e extremamente irritado. Percebeu que os outros o haviam utilizado e agora estavam prestes a descartá-lo. Novamente coube a Ye Jianying fazer a mediação. O velho marechal explicou-lhe que só havia uma maneira de ele ser presidente: promover a reabilitação de Deng Xiaoping.

É difícil imaginar a surpresa do pobre coitado. Deng deixara pela segunda vez o poder sob uma avalanche de acusações destruidoras. Reabilitá-lo? Impossível! É sua única chance, replicou Ye. Desta vez, Hua pensou rápido. E, refeito do susto, concordou. Concordou também quando a maioria do Birô Político decidiu rever completamente as diretrizes econômicas do país.

Iniciava-se a transição dinástica. Sem derramamento de sangue. E longe dos olhos do povo.

A irresistível ascensão de Deng Xiaoping

Quando a queda da “Gangue dos Quatro” foi oficialmente noticiada, o país exultou em um carnaval à moda chinesa. Tratando-se da China, é difícil discriminar as manifestações populares espontâneas dos atos fabricados pela máquina oficial ou por uma das facções em luta. Mas, aparentemente, o povo celebrava com sinceridade o fim do período de terror produzido pela Revolução Cultural. Em 1977, com a nação temporariamente governada por um triunvirato composto por Hua Guofeng, Ye Jianying e Li Xiannian, o miúdo Deng Xiaoping foi reconduzido a todos os seus cargos. O 11o Congresso do PCC, realizado em agosto, sacramentou a nova ordem, proclamou oficialmente o fim da Revolução Cultural e reafirmou que a tarefa fundamental do Partido no novo período histórico era transformar a China em um moderno e poderoso país socialista até o final do século 20.

As decisões do Congresso, no entanto, que mantinham Hua Guofeng na presidência do Partido e conservavam muito da ideologia maoísta, não eram totalmente satisfatórias para Deng, eleito vice-presidente, juntamente com Ye Jianying, Li Xiannian e Wang Dongxing. Com muita astúcia e uma energia que parecia inesgotável, ele começou a mexer os pauzinhos para enfeixar cada vez mais o poder em suas mãos e completar uma transição que, a seus olhos, ficara pelo caminho. Nos cinco anos seguintes, cada reunião do Comitê Central ou de outros organismos dirigentes do país produziu um fortalecimento de sua ala e um enfraquecimento correspondente no campo de seus adversários.

Para começar, um de seus protegidos, Hu Yaobang, substituiu Wang Dongxing, o antigo guarda-costas de Mao, na chefia do Birô de Organização do PCC. Foi também promovida uma reabilitação maciça, não apenas dos quadros perseguidos pela Revolução Cultural, mas também de outros que haviam caído em desgraça em épocas anteriores. E foram revogados todos os veredictos obscurantistas da Revolução Cultural nos campos educacional, artístico e intelectual. Essas medidas provocaram forte inquietação no bloco liderado por Hua Guofeng e uma aguda luta interna ganhou corpo nos bastidores do Partido. Deng aprendera as lições da Revolução Cultural e sabia como solapar a força de seus opositores: em 1978, dazibaos (grandes cartazes) criticando Hua, e até o próprio Mao, apareceram nos muros das universidades.

Na 3a Reunião Plenária do Comitê Central, realizada em dezembro de 1978, Hu Yaobang foi alçado à Secretaria Geral do Partido e o Birô Político foi engrossado por importantes cruzados da ala denguista, inclusive o veterano economista Chen Yun. E a linha tradicional do Partido, de promoção da luta de classes, foi oficialmente substituída por uma nova linha, que priorizava as Quatro Modernizações. Essa reunião é considerada por alguns analistas como um ponto de mutação na recente história da China.

 

 

A escalada modernizadora (1978-2002)

No plano externo, a principal conseqüência da “transição dinástica” foi o estabelecimento de relações diplomáticas plenas com os Estados Unidos, visitado por Deng no final de janeiro de 1979. Ao mesmo tempo, a China continuava definindo a União Soviética como sua principal inimiga e acreditando na inevitabilidade de um conflito global.

A aguda tensão sino-soviética motivou, em fevereiro de 1979, uma guerra de fronteira entre a China e o Vietnã. Aliado da União Soviética, o Vietnã havia invadido o Camboja, que era apoiado pela China, rompendo o precário equilíbrio geopolítico da região. Os chineses reagiram, alardeando que pretendiam apenas dar uma boa lição nos vietnamitas. Mas os combates revelaram-se mais difíceis do que eles esperavam e evidenciaram a inépcia de seus estrategistas e a obsolescência de seu equipamento bélico.

Paradoxalmente, essa experiência desfavorável à China fortaleceu a posição da ala denguista, pois demonstrou a pertinência de seus argumentos modernizadores. Em setembro, na 4a Reunião Plenária do Comitê Central, Ye Jianying classificou a Revolução Cultural como “uma pavorosa catástrofe” e referiu-se a sérios erros políticos cometidos pelos dirigentes. Mao não foi citado, mas a alusão era demasiado óbvia. Nos meses seguintes, os membros do Partido cuja ascensão se devia à Revolução Cultural sofreram uma campanha sistemática de expurgos ou rebaixamentos.

Ajuste de contas

A depuração prosseguiu na 5a Reunião Plenária, realizada em fevereiro de 1980. Enquanto protegidos de Deng Xiaoping, como Hu Yaobang e Zhao Ziyang, eram guindados ao topo da hierarquia partidária, Wang Dongxing, Wu De, Ji Dengkui e Chen Xilian, todos eles aliados de Hua Guofeng e logo apelidados de “Pequena Gangue dos Quatro”, foram obrigados a pedir demissão. Hua ficou, como se diz popularmente, com a brocha na mão e sem a escada debaixo dos pés. Outra decisão histórica da reunião foi a reabilitação formal do antigo presidente Liu Shaoqi, destituído pela Revolução Cultural como o principal seguidor do caminho capitalista e agora inocentado de todas as acusações. Liu, que morrera em 1969 devidos aos maus tratos, não estava presente para desfrutar o momento. Mas sua mulher, Wang Guangmei, que sobreviveu ao ódio de Jiang Qing e a todas as humilhações perpetradas pela Guarda Vermelha, recebeu as homenagens em nome do marido.

Um ajuste de contas, de grandes proporções, estava em andamento. O Comitê Central expulsou postumamente do Partido dois antigos colaboradores de Mao, o tenebroso Kang Sheng e Xie Fuzhi. E, no final do ano, ofereceu ao mundo um espetáculo cinematográfico: o julgamento da “Gang dos Quatro” e de seis supostos aliados de Lin Biao. Nada menos de 35 juizes compunham a corte e os acusados, contra os quais foi apresentada uma denúncia de 20 mil palavras, tiveram que comparecer algemados ao tribunal. Jiang Qing defendeu-se com altivez, mas, no final, ela e Zhang Chunqiao foram condenados à morte – sentença depois comutada para prisão perpétua. Wang Hongwen foi condenado à prisão perpétua e Yao Wenyuan, a 20 anos. Os seis colaboradores de Lin Biao, entre eles Chen Boda, receberam penas que variavam de 16 a 18 anos de prisão.

A transição completou-se em 1981. A 6a Reunião Plenária do Comitê Central aceitou formalmente o pedido de renúncia de Hua Guofeng. Despojado de todos os seus cargos, ele foi reduzido à condição de simples membro do Comitê Central. Não sofreu retaliações, mas desapareceu do noticiário. A ala denguista passou a ocupar os três postos mais importantes do país: Hu Yaobang ficou com a presidência do PCC, Zhao Ziyang com a função de primeiro-ministro e o próprio Deng com a presidência da Comissão Militar Central. Um documento de 35 mil palavras – “Resolução sobre certas questões da história de nosso Partido desde a fundação da República Popular da China” – foi aprovado na ocasião. Ele fazia, pela primeira vez em caráter oficial, críticas explícitas à condução de Mao Zedong. Bem ao gosto dos chineses, que adoram enumerações e porcentagens, o Comitê Central concluiu que Mao estivera certo durante 70% do tempo e errado nos 30% restantes, com a maioria dos erros cometidos na fase final de sua vida.

O élan reformista

Essa recomposição na cúpula do poder traduzia, na esfera política, as profundas transformações econômicas vividas pela China sob a batuta de Deng Xiaoping. Em 1978, os novos homens fortes puseram em prática seu programa modernizador. Iniciadas de forma cuidadosa, experimental, as reformas logo se generalizaram, modificando completamente a fisionomia do país. Com base nas informações fornecidas por Wladimir Pomar no livro China, o dragão do século XXI, apresentamos aqui as linhas gerais da primeira etapa da escalada modernizadora.

Reforma na agricultura

O processo reformista iniciou-se na agricultura. Já em 1978, as cotas que os camponeses deviam vender obrigatoriamente ao Estado tiveram seus preços elevados em 20% e o excedente de produção, em 50%. Enquanto isso, os preços dos produtos industriais destinados ao campo baixaram em 10% a 15%. Além disso, os agricultores puderam combinar sua atividade principal com a criação de pequenos animais, o plantio de hortaliças e a produção de outros bens por meio de atividades domésticas. E passaram a gozar do direito de vender os excedentes agrícolas e a produção doméstica em feiras e mercados rurais, com liberdade de preços. O objetivo era óbvio: implementar a prosperidade no campo e fornecer um forte estímulo material ao aumento da produção.

No ano seguinte, os dirigentes ensaiaram uma medida ainda mais ousada: a substituição das formas de produção em equipes por formas de produção familiares. Embora continuassem pertencendo às fazendas coletivas ou cooperativas, as terras foram virtualmente repartidas entre as famílias que compunham a equipe de produção. Dentro de certos limites, cada família passou a ser livre para decidir sobre o tipo de cultura, os métodos de cultivo, o tempo dedicado ao trabalho e as atribuições de cada um de seus membros no processo produtivo. Em 1985, as cotas de venda obrigatória ao Estado foram abolidas e os camponeses ficaram livres para comercializar toda a sua produção no mercado, com preços regidos pela lei da oferta e da procura.

Os resultados de todas essas iniciativas foram notáveis: a produção de cereais, que era de 284 milhões de toneladas em 1975, cresceu para 304 milhões em 1978, 332 milhões em 1979; 353 milhões, em 1982 e 407 milhões, em 1984. A partir daí, o crescimento tornou-se mais lento, porque a produtividade praticamente havia alcançado o limite permitido pelos recursos técnicos disponíveis. Para aumentar significativamente a produção, era necessário investir em ciência e tecnologia e dotar os camponeses de equipamentos mais sofisticados. Mesmo assim, a produção de cereais chegou a 456 milhões de toneladas em 1994. Simultaneamente, a renda média camponesa subiu de 100 yuans, em 1978, para 270 yuans, em 1982, e 920 yuans, em 1993.

Reforma na indústria

O aumento do poder aquisitivo da população camponesa estimulou o consumo, que, por sua vez, impulsionou as indústrias locais. Oficinas e pequenas fábricas da zona rural, instaladas desde a época do Grande Salto Adiante, tiveram notável expansão, transformando-se em importantes desaguadouros para a mão-de-obra excedente. Ao mesmo tempo, muitos camponeses transformaram suas atividades domésticas em prósperas empresas rurais.

De 1986 a 1993, o número de empresas da área rural saltou de 6 milhões para 19 milhões. E o número de trabalhadores nelas empregados, de 60 milhões para 96 milhões. Essa expansão contribuiu decisivamente para limitar o êxodo rural. O aumento das exportações, uma verdadeira febre de construções civis nas cidades grandes e médias e a integração de atividades agrícolas, industriais, comerciais e de serviços, realizada por muitas cooperativas, foram outros fatos de extraordinária importância para o desenvolvimento do país.

Nesse ínterim, a China passou a adotar uma vigorosa política importadora e exportadora: o valor dos negócios externos saltou de 14,8 bilhões de dólares, em 1977, para 37,8 bilhões, em 1980, 57,6 bilhões, em 1984 e 196 bilhões, em 1993. Porém o passo mais importante foi a criação, a partir de 1980, de cinco zonas econômicas especiais, dotadas de legislação específica para atrair capitais estrangeiros e absorver tecnologias, equipamentos e métodos gerenciais avançados. As zonas econômicas especiais passaram a destinar 70% de sua produção ao mercado externo.

Em 1984, foram criados 14 portos livres. E, no ano seguinte, surgiram zonas econômicas especiais no delta do rio Yangzi (Yang Tsé), no delta do rio Zhujiang e na área triangular compreendida pelas cidades de Fujian, Shandong e Liaodong. Nesses enclaves, foram definidas áreas para investimentos estrangeiros de até 10 milhões de dólares e as empresas chinesas adquiriram o direito de negociar diretamente com o exterior, sem intermediação do Estado. Entre 1990 e 1992, o governo chinês abriu duas novas zonas para investimentos estrangeiros: Pudong, em Xangai, e Yangpu, em Hainan.

Os investimentos de empresas estrangeiras e mistas saltaram de 1,5 bilhão de dólares, entre 1978 e 1980, para 23,65 bilhões, ao longo dos anos 1980, e 110,9 bilhões, entre 1991 e 1993. Nas mesmas datas, o número de empresas estrangeiras ou mistas atuando no país, passou de 80 para 37.000 e 167.500, respectivamente.

Ao mesmo tempo, a China passou a exportar capitais e tecnologia para países estrangeiros, direcionando-os principalmente para grandes obras de infraestrutura (hidrelétricas, portos, estradas etc), mineração, metalurgia, indústria mecânica, química, aeroespacial e de comunicações. No início dos anos 1990, mais de mil empresas chinesas atuavam em 75 países dos cinco continentes.

Reestruturação econômica

Completado esse período de testes, o governo engajou-se, a partir das áreas urbanas, em um processo de completa reestruturação da economia. Foi concedida ampla autonomia às empresas estatais e às cooperativas. E estimulada a multiplicação das empresas privadas nacionais e estrangeiras.

A autonomia concedida às empresas estatais e às cooperativas significava a separação entre a propriedade da empresa e sua gestão. A propriedade podia continuar em mãos do Estado ou de uma cooperativa, mas o gerenciamento passava a ser feito por diretores eleitos ou contratados ou por arrendatários. As decisões gerenciais já não se subordinavam apenas às determinações governamentais, mas também às exigências do mercado.

A igualdade de salários foi substituída por sua variação de acordo com o rendimento da empresa ou a produtividade individual. E foi facultado aos administradores o direito de dispensar ou realocar mão-de-obra. Para evitar um drástico aumento do desemprego, o Estado recorreu a vários mecanismos – entre eles, os financiamentos oferecidos a operários e técnicos para a formação de novas empresas, cooperadas ou privadas.

Reforma no comércio e nas finanças

As grandes empresas estatais atacadistas perderam o monopólio da comercialização, que passou a ser realizada diretamente pelos produtores. Para ganharem competitividade, as estatais precisavam tornar-se mais eficientes, apresentar vantagens aos fornecedores e oferecer produtos de melhor qualidade aos consumidores.

As reformas exigiram a completa reestruturação do antigo sistema financeiro, uma vez que o Estado deixou de ser o único controlador dos recursos e as empresas passaram a deter capitais próprios. De simples caixas do Estado, os bancos transformaram-se em captadores e emprestadores de dinheiro, pagando e cobrando juros. O Banco Popular da China passou a funcionar como um banco central, controlando a emissão de moeda, fixando a taxa de juros etc. Bancos estrangeiros foram autorizados a instalar filiais no país. E o governo autorizou o funcionamento de bolsas de valores.

Balanço da primeira etapa do processo reformista

No final dos anos 1950, o Grande Salto Adiante procurou arrancar a China do atraso, apelando para a mobilização ideológica da população. E fracassou. A concessão de incentivos materiais e a ênfase nos critérios técnicos, esboçadas no início da década de 1960, foram intensamente combatida pela Revolução Cultural. Suas unidades econômicas exemplares eram a comuna agrícola de Dazhai, na província de Shanxi, e o campo petrolífero de Daqing, na província de Heilongjiang. Esses dois exemplos foram exaltados pela imprensa oficial como autênticas materializações da parábola maoísta do velho tonto que removeu as montanhas: a heróica vitória da vontade coletiva sobre as adversidades naturais e a falta de recursos tecnológicos.

Perdoados todos os exageros propagandísticos acerca das realizações de Dazhai e Daqing, a experiência histórica provou que elas não podiam servir de modelo para um país imenso, diversificado e complexo como a China. O preço pago em sofrimento e vidas humanas pelos arroubos voluntaristas do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural foram desproporcionalmente altos para resultados tão decepcionantes. Depois de décadas de sacrifícios, o povo chinês merecia desfrutar das benesses do desenvolvimento material.

As reformas de Deng Xiaoping encaminharam-se nessa direção. Sua meta era fazer com que, em 2050, os chineses desfrutassem de um nível de vida semelhante ao dos belgas. Até 1978, todas as unidades agrícolas, industriais, comerciais e de serviços da China, mesmo as de pequeno porte, eram de propriedade estatal ou coletiva. Com as reformas, houve uma grande flexibilização do setor estatal e coletivo e um rápido crescimento do setor privado. Esse crescimento foi protegido pela legislação e incentivado por financiamentos e empréstimos governamentais. Aparentemente, os novos dirigentes chineses não fizeram mais do que reinventar o capitalismo. Mas essa afirmação é, no mínimo, incompleta, pois as reformas possuíam dois condicionantes notáveis:

1. O processo todo foi minuciosamente planejado e rigidamente monitorado pelo Estado. Não houve, como na antiga União Soviética, um colapso do poder central e uma transição econômica estabanada e traumática. Com isso, as conseqüências mais perversas da transição (inflação, especulação, desabastecimento, mercado negro, sucateamento das antigas unidades produtivas, desemprego, crescimento explosivo do setor informal, criminalidade, corrupção administrativa, dilapidação do patrimônio nacional, conflitos étnicos, desagregação da nação etc) puderam ser, senão abortadas, ao menos parcialmente controladas.

2. Desde o início, o discurso oficial enfatizava que as reformas deveriam promover uma efetiva melhoria nas condições de vida da população. Reportagens insuspeitas de jornalistas ocidentais, que passaram a gozar de muito maior liberdade de circulação no país, confirmaram que, desde então, os chineses progressivamente tiveram acesso a melhor alimentação, melhores roupas, melhores moradias, mais lazer, eletrodomésticos e outros bens de consumo duráveis etc. É certo que houve um brutal aumento do desemprego e das desigualdades sociais, com alguns segmentos disparando na frente dos outros, mas, aparentemente, todos saíram ganhando.

De 1978 a 1989, a China apresentou a maior expansão econômica do mundo, com seu Produto Interno Bruto (PIB) crescendo a uma impressionante taxa de 9,5% ao ano. Esse dado, por si só, permite-nos apreciar com maior benevolência o processo de reformas. E também relativiza o significado dos graves traumas ocorridos ao longo de seu curso. Foi o caso do massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, quando, segundo estimativas da imprensa ocidental, de 2 mil a 5 mil estudantes que lutavam pela democracia perderam a vida em Beijing (Pequim). Não se trata de subestimar a importância desse terrível acontecimento. O assassinato de um único manifestante teria sido um fato lamentável. Mas, quando se considera todas as mazelas produzidas pela abrupta desagregação da União Soviética (cujo número de vítimas, produzidas pela miséria, pelo aumento explosivo da criminalidade e pelos conflitos separatistas, superam de longe o montante de mortos em Beijing) e se compara esse quadro funesto com a estabilidade e a relativa prosperidade alcançadas pela China no período percebe-se o mérito de uma transição controlada e gradativa.

A era Jiang Zemin

As manifestações que culminaram no massacre da Praça da Paz Celestial iniciaram-se como um movimento pela reabilitação póstuma de Hu Yaobang, que renunciara à Secretaria Geral do PCC em 1987 e morrera de ataque cardíaco em abril de 1989. Atos estudantis pela democracia já haviam sido reprimidas pelo regime em 1986. Por ter-se oposto a essa solução de força, Hu fora obrigado a renunciar, sob a acusação de “desvios liberais”. Os protestos que se seguiram à sua morte lembravam demais as manifestações ocorridas após o falecimento de Zhou Enlai (Chu En-lai), em 1976, e preocuparam seriamente a linha dura do Partido, encabeçada pelo premiê Li Peng. O velho Deng Xiaoping, que continuava sendo a eminência parda do regime e tanto se beneficiara com o movimento de 1976, passara da condição de estilingue a vidraça, transformando-se agora em um dos alvos dos manifestantes. A decisão de dispersar brutalmente os jovens contou com sua inteira aprovação.

Zhao Ziyang, que substituíra Hu Yaobang na Secretaria Geral do PCC e se recusou a dar a ordem de atacar os manifestantes, foi destituído de seu cargo e colocado em prisão domiciliar. A sucessiva destituição de Hu Yaobang e Zhao Ziyang, dois protegidos de Deng Xiaoping, criou uma séria crise na liderança comunista. Para substituí-los, Deng chamou Jiang Zemin, que à testa do Partido e da Prefeitura em Xangai soubera desmobilizar os estudantes sem recorrer à violência. À primeira vista, reeditava-se a história vivida pela China em 1976, quando a destituição dos líderes naturais fez com que Mao Zedong entregasse a chefia do PCC ao inexpressivo Hua Guofeng. Mas Jiang estava longe de ser um Hua. Hábil e carismático, ele segurou firme as rédeas do poder, acumulando os cargos de secretário geral do Partido, chefe da Comissão Militar Central e presidente da República. Em fevereiro de 1997, quando Deng morreu aos 92 anos, Jiang alçou vôo próprio, continuando o processo de reformas, mas imprimindo-lhe sua marca pessoal.

Na ocasião, pelo menos um terço das 3000 grandes estatais chinesas estavam operando no vermelho. Eram enormes empresas, inspiradas no modelo soviético, algumas com mais de 200 mil trabalhadores e frequentemente dependentes de subsídios governamentais para pagar suas contas. As somas drenadas por essas companhias dos bancos estatais constituíam o principal obstáculo ao processo de reformas no setor financeiro. E suas dificuldades em quitar as folhas de pagamentos ameaçavam reiteradamente a estabilidade social. Dobrando a resistência de segmentos conservadores da burocracia partidária, Jiang fez aprovar, no 15o Congresso do PCC, um gigantesco programa de privatizações. E conquistou importantes vitórias sobre seus adversários políticos, possibilitando que em março de 1998 o reformista Zhu Rongji substituísse oficialmente o conservador Li Peng como primeiro-ministro.

Ainda no final de 1997, em visita aos Estados Unidos, obteve o apoio do presidente Bill Clinton à entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC). Apesar de perder subitamente 30 bilhões de dólares em investimentos externos e de se ver às voltas com repentina queda das exportações, o programa de reformas sobreviveu à grave crise que fustigou as economias asiáticas em 1998. A recuperação iniciou-se já no ano seguinte. Em novembro de 2001, completamente recuperado, o país foi admitido na OMC.

Segundo dados do Banco Mundial, entre 1990 e 2000, o número de pobres (pessoas vivendo com até um dólar por dia) chineses reduziu-se em 170 milhões, enquanto o aumento total da população foi superior a 125 milhões.

Em novembro de 2002, na primeira transição pacífica da história do comunismo chinês, Jiang Zemin, então com 76 anos, foi oficialmente substituído na Secretaria Geral do Partido. Representando mais de 66 milhões de membros, o 16o Congresso do PCC cumpriu o testamento político de Deng Xiaoping, elegendo Hu Jintao, na época com 59 anos, para o cargo. Jiang permaneceu à frente da poderosa Comissão Militar Central, posição que reteve até setembro de 2004.

Ele foi o artífice da histórica decisão do 16o Congresso de permitir a entrada de empresários no Partido. Durante seu tempo de governo, de 1989 a 2002, a China continuou crescendo a taxas superiores a 8% ao ano, fechando o período com um PIB estimado em 1,23 trilhão de dólares – o que colocava o país na sexta posição do ranking mundial e dava aos planejadores chineses a perspectiva de superar o Japão, como a segunda economia do planeta, em meados do século 21.

 

 

Contratempos da modernização (2002-2005)

O afastamento de Jiang Zemin da Comissão Militar Central em setembro de 2004, três anos antes da data programada, completou a transição pacífica do poder na China. Nascido em 1942, o atual dirigente, Hu Jintao, um engenheiro formado pela Universidade de Beijing (Pequim), representa uma nova geração de tecnocratas pragmáticos, que não participaram dos episódios heróicos da história chinesa e se mostram muito mais interessados em fazer bons negócios do que em sustentar posições ideológicas. Seu grande desafio é manter o espantoso ritmo de desenvolvimento econômico e promover o progressivo arejamento democrático do país, sem abrir mão das formas políticas criadas pela revolução. Ao mesmo tempo, compete-lhe gerenciar um enorme e intrincado conjunto de contradições.

Desde o início do processo de modernização, em 1978, a China sozinha foi responsável por 75% da redução da pobreza no planeta. O analfabetismo na população adulta caiu de 37%, em 1978, para menos de 5%, em 2002. E a taxa de mortalidade infantil baixou de 41 por mil para 30 por mil no mesmo período. Mas, ao lado desses excelentes indicadores de melhoria de qualidade de vida, a própria dinâmica do desenvolvimento produziu, agravou ou colocou em evidência sérios problemas, como o impacto ambiental, a explosão urbana, o desequilíbrio regional, a desigualdade social, o desbalanceamento dos gêneros, os conflitos étnicos, as epidemias virais e a corrupção administrativa. No âmbito internacional, o país travou uma acirrada disputa por capitais e mercados com as nações desenvolvidas, principalmente os Estados Unidos.

A modernização capitalista levou um século e meio para ser efetivada na Europa Ocidental, com enorme custo social. Na China, transformações muito maiores já ocorreram em menos de três décadas. Pela extensão territorial (quase 9,6 milhões de quilômetros quadrados), pelo contingente populacional (1,3 bilhão de habitantes), pela magnitude das mudanças, o que está em curso naquele país é um processo sem precedentes na história humana. Por isso, ao analisarmos os acontecimentos chineses, temos que resistir à tendência de fazer comparações superficiais e apressadas. Os desafios são imensos e as soluções não podem ser tímidas.

O impacto ambiental

A crescente demanda de energia vem produzindo um impacto dramático sobre o meio ambiente. A construção da gigantesca hidrelétrica das Três Gargantas no rio Yang Tsé, a maior do mundo, orçada em 25 bilhões de dólares e com obras previstas até 2009, criará um lago artificial de 600 quilômetros de extensão, forçando o deslocamento de 1,3 a 1,9 milhão de pessoas, destruindo numerosos ecossistemas, inutilizando vastas áreas agriculturáveis, riscando do mapa localidades de beleza deslumbrante e inundando para sempre cerca de 1.300 sítios arqueológicos, muitos deles de valor inestimável.

Com capacidade instalada de 18,2 gigawatts, a usina fornecerá energia elétrica não apenas para a região central, onde se situa, mas também para as áreas altamente urbanizadas e industrializadas da costa leste e sudeste e para as áreas atrasadas do oeste. Os defensores do projeto estimam que o lago artificial domesticará o Yang Tsé, reduzindo a freqüência de suas inundações, de uma a cada 10 anos para uma a cada 100 anos, e aumentando sua navegabilidade, com um aumento da capacidade de transporte fluvial de 10 milhões para 50 milhões de toneladas por ano. Mas críticas contundentes têm sido feitas, tanto por ambientalistas ocidentais quanto por cientistas e técnicos chineses. Eles denunciam desde a corrupção governamental associada à captação de recursos e à execução das obras até o enorme custo social e ambiental do empreendimento.

Enquanto isso, ainda fortemente dependente do uso do carvão, a China é responsável por boa parte da nuvem de poluentes que encobre os céus da Ásia. Das 20 cidades mais poluídas do mundo, 16 estão em seu território. E o país é atualmente o segundo maior emissor de CO2 do mundo (14%), apenas superado pelos Estados Unidos (23%). Mas esse dado precisa ser matizado. Se cotejarmos o tamanho da população chinesa (1,3 bilhão) com o da população norte-americana (295 milhões), concluiremos que sua emissão per capita é incomparavelmente menor. Ademais, seus altos índices de emissão decorrem de um esforço colossal para superar o subdesenvolvimento, ao passo que poluição norte-americana está associada a um consumismo desenfreado.

Explosão urbana, desequilíbrio regional e desigualdade social

Nos próximos 25 anos, 345 milhões de chineses trocarão o campo pelas cidades. Em 1950, a população urbana alcançava menos que 13% do total. Hoje, esta cifra é de 40% e a expectativa é que chegue a 60% em 2030. Mal podemos imaginar a magnitude dos problemas que um fenômeno dessa proporção acarretará. O forte planejamento estatal chinês – que gerencia projetos com escalas de tempo da ordem de 50 anos – terá que assegurar moradia, abastecimento, saneamento básico, transporte, segurança, educação, saúde e lazer para esse enorme contingente de novos habitantes urbanos, que ultrapassará em número toda a população atual dos Estados Unidos e será quase o dobro da população atual do Brasil.

Um grave efeito colateral da escalada modernizadora é o aumento do desnível econômico e tecnológico entre os pólos industriais do litoral e as regiões agrícolas do interior. E também a crescente desigualdade social no seio da população. Atualmente, os 20% mais ricos detêm 50% do consumo, enquanto os 20% mais pobres respondem por apenas 5%. Apesar de vir diminuindo ano a ano, o conjunto dos pobres (pessoas vivendo com até um dólar por dia) ainda engloba 160 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, o segmento dos novos-ricos – urbanos e ocidentalizados – abriga nada menos do que 94 milhões de usuários da internet e um número incalculável de proprietários de telefones celulares. Em um país com mais de 1 bilhão de telespectadores, deverá incluir também 128 milhões de assinantes de TV paga até o ano de 2010.

O desbalanceamento dos gêneros

O rígido controle da natalidade, que permite a cada casal urbano ter apenas um filho, produziu toda uma geração de filhos únicos. Mimados e individualistas, esses jovens são chamados pela mídia de “os pequenos imperadores” e seu comportamento voluntarioso e competitivo constitui mais um desafio no enorme quebra-cabeça chinês.

Bem mais ameaçador, porém, é o desbalanceamento dos gêneros, outra conseqüência indesejável do controle da natalidade. Para serenar os ânimos da população rural, fortemente apegada aos antigos valores patriarcais, o governo teve que afrouxar as normas do controle em 1984. E adotou, no campo, a regra ironicamente apelidada de “um filho e meio”, liberando para os casais a possibilidade de um segundo filho, caso o primeiro fosse mulher. Esse fator, aliado à disseminação da ultra-sonografia, que fez saltar o número de abortos de fetos femininos, provocou um perigoso desequilíbrio no balanço dos sexos. Na ilha de Hainan, que apresenta a maior disparidade em todo o país, a relação é de 135 nascimentos de meninos para cada 100 nascimentos de meninas. Quando chegar à idade sexualmente ativa, esse excedente populacional masculino poderá se transformar em uma explosiva fonte de violência. As autoridades estão preocupadíssimas e estudam soluções que vão do rígido controle das ultra-sonografias à perspectiva de “importação” de mulheres dos países vizinhos.

A questão tibetana

Tropas chinesas ocuparam o Tibete em 1950. E, em 1959, após o malogro do levante tibetano contra as forças de ocupação, o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, cruzou a fronteira indiana, à frente de um grupo de seguidores. Acolhido pelas autoridades de Nova Deli, o líder político-religioso estabeleceu um governo tibetano no exílio, em Dharamsala, no norte da Índia.

Milhares de tibetanos morreram nos períodos de agravamento da repressão e a maioria dos mosteiros budistas foi destruída durante a Revolução Cultural. Enquanto isso, as autoridades de Beijing (Pequim) promoviam o deslocamento de grandes contingentes populacionais da etnia han (majoritária na China) para o Tibete, com o objetivo de alterar sua composição étnica. Com o início do processo de modernização, os chineses substituíram, na década de 1980, sua política repressiva por um programa de reformas. Hu Jintao, atual presidente da China, assumiu então a direção da região, empenhando-se em promover seu desenvolvimento material. Mas, segundo grupos ligados à diáspora tibetana, restrições às liberdades democráticas continuaram a ser praticadas, embora em menor escala.

Em 1988, o Dalai Lama tornou pública sua posição em prol de uma solução negociada para o drama do país, descartando a reivindicação de independência e propondo como saída a real autonomia do Tibete sob soberania chinesa. Ao longo dos anos 1990 e início dos anos 2000, negociações secretas foram mantidas entre as autoridades de Beijing (Pequim) e representantes do governo tibetano no exílio. Para facilitar os entendimentos, o Dalai Lama anunciou que abriria mão de assumir qualquer papel político em uma eventual administração autônoma. As negociações progrediram e tornaram-se públicas em 2005. Em julho de 2006, a inauguração da grande estrada de ferro ligando Lhasa, capital do Tibete, à província chinesa de Qinghai superou um dos principais obstáculos ao progresso material da região: seu isolamento geográfico.

Mas o rumo dos acontecimentos sofreu forte abalo em 2008. Às vésperas das Olimpíadas, uma onda de protestos contra a dominação do Tibete quase ofuscou o brilho da festa, à qual Beiging havia dedicado preparativos minuciosos. As manifestações tiveram seu clímax em 10 de março de 2008, data do 49º aniversário do levante de 1959 contra a intervenção chinesa. Nesse dia, milhares de tibetanos ocuparam as ruas de Lhasa e outras cidades e enfrentaram as forças armadas com palavras de ordem a favor da independência. Na linha de frente, postaram-se monges budistas, que, destoando de seu comportamento tradicionalmente pacífico e pacifista, apelaram à violência física. A indignação dos amotinados voltou-se também contra civis das etnias han e hui, dando ao episódio perigosas conotações étnicas.

A repressão não tardou e as imagens que furaram o bloqueio midiático posto em ação pelas autoridades chocaram o mundo. Na seqüência, manifestações antichinesas disseminaram-se pelas principais do planeta. Em Paris, os manifestantes chegaram ao ponto de tentar arrancar a tocha olímpica das mãos de uma atleta para-olímpica chinesa, presa à sua cadeira de rodas. E, na internet, circularam “informações” bizarras como a de que o governo chinês teria produzido o símbolo das Olimpíadas a partir da imagem de um tibetano fuzilado.

Não é preciso apelar a complôs conspiratórios para explicar tanta exaltação. A maioria das pessoas que se revoltam contra a presença chinesa no Tibete é movida pelo sentimento de justiça, pois tal dominação constitui um ato moralmente indefensável. Ainda mais para um regime que, desde sua instalação, em 1949, fez da defesa da autodeterminação dos povos uma poderosa peça de propaganda política. Fosse o governo dos lamas o paraíso na Terra, como parecem acreditar seus apoiadores, fosse uma retrógrada teocracia de base feudal, como insistem em afirmar seus detratores, cabia aos próprios tibetanos decidir por sua continuidade ou não, sem ingerências externas.

As autoridades Beiging (Pequim) apelam, porém, a argumentos históricos. De fato, as pretensões chinesas sobre o país são antigas. Surgiram na época da dinastia Yuan (1279-1368), quando, sobre os destroços do império mongol, campanhas militares incorporaram à China o território tibetano. Durante a dinastia Ming (1368-1644), um afrouxamento do controle chinês abriu espaço para que os príncipes mongóis estruturassem uma supremacia duradoura na região.

Então, como agora, o budismo (introduzido no Tibete pelo instrutor espiritual indiano Padmasambhava no século VIII d.C.) encontrava-se dividido no país em quatro linhagens principais: Nyingmapa, Kagyupa, Sakyapa e Gelugpa. Além disso, sobrevivia o Bonpa, uma religião ancestral, de feições xamânicas. Tais correntes confrontavam-se constantemente, não raro de forma violenta. Em 1578, interferindo nas querelas religiosas, o soberano mongol Altan Khan apoiou a primazia do chefe da linhagem Gelugpa, Sonam Gyatso, ao qual deu o título de Dalai Lama (Oceano de Sabedoria). Como, antes dele, dois outros dirigentes Gelugpa haviam enfeixado em suas mãos poder semelhante, o título lhes foi estendido retroativamente, ficando Sonam Gyatso como o terceiro na lista dos Dalai Lama.

Em 1642, outro príncipe mongol, Gushi Khan, reafirmou a autoridade política do quinto Dalai Lama, Ngawang Lobsang Gyatso (1617-1682), e reforçou os vínculos estabelecidos entre mongóis e tibetanos, conforme o princípio do Choe-Yon (Guia-Protetor): os mongóis aceitavam a liderança espiritual do guia tibetano; em troca, os tibetanos aceitavam a proteção militar do príncipe mongol.

Sob a dinastia Qing (1644-1911), a China retomou o controle sobre o território. Mas, no turbilhão de acontecimentos que se seguiu à derrocada da monarquia, a suserania chinesa sobre o Tibete tornou-se meramente nominal, até que ocorresse a ocupação efetiva em 1950.

Ao abrir mão da reivindicação de independência, em prol de uma autonomia genuína no seio da nação chinesa – algo talvez semelhante ao status da Catalunha dentro da Espanha ou da Sicília dentro da Itália –, o 14º Dalai Lama guiou-se por uma forte dose de realismo. Tal política, que os tibetanos chamam de “caminho do meio”, já havia sido praticada, com relativo sucesso, pelo 10o Panchen Lama, Choekyi Gyaltsen, o segundo chefe mais importantes da linhagem Gelugpa. E o Panchen Lama teria bons motivos pessoais para não adotá-la, pois, ao contrário do Dalai Lama, permaneceu no Tibete e foi preso e humilhado pelos chineses.

Por uma concatenação do destino, porém, durante a Revolução Cultural, o Panchen Lama ficou preso junto com Deng Xiaoping, então em desgraça política. Na prisão, os dois se tornaram amigos. E, com a libertação e a ascensão de Deng ao poder, o Panchen Lama utilizou-se de sua boa relação com o novo homem forte da China para obter muitas vantagens para os tibetanos. Os que o conheceram dizem que ele era um negociador duro, que tratava os chineses de forma amistosa, mas lhes dizia, sem meias palavras, tudo o que pensava. Sua decisão de permanecer no Tibete ocupado para estar perto de seu povo foi mal compreendida pela comunidade exilada. Apesar de ter ficado encarcerado em condições desumanas de 1964 a 1977, e em prisão domiciliar de 1977 a 1982, ele era tratado na diáspora como um traidor e chamado depreciativamente de “filho de Mao Tsé-tung”. Depois de morto, os exilados passaram a considerá-lo um “herói”.

Para o bem-estar do povo tibetano, no entanto, o realismo que pautou sua atuação é hoje um ingrediente fundamental. A ocupação do país se arrasta há 49 anos. Milhares de pessoas morreram por conta das atrocidades cometidas. Mais de uma geração nasceu, cresceu e alcançou a maioridade sob domínio chinês. Mais de uma geração nasceu, cresceu e alcançou a maioridade no exílio. E está claro que, por muito que sua posição seja contestada, os líderes de Beijing não estão dispostos a abrir mão do Tibete – seja no curto ou no médio prazo.

O motivo é que o enorme altiplano tibetano possui, para a China, uma importância econômica e estratégica fundamental. Rica em minérios, a região detém a maior reserva mundial de urânio. De suas geleiras, nascem três dos maiores rios asiáticos, o Indo, o Bramaputra e o Mekong, responsáveis, juntos, pelo abastecimento de água doce de toda a Ásia Central. E a área possui vales férteis, vastas reservas florestais e amplos espaços pouco ocupados. Quanto ao papel militar que lhe atribuem os chineses, basta dizer que lá está instalado um quarto de seus mísseis intercontinentais, inclusive nucleares, e uma força de não menos de 300 mil soldados.

Ademais, a concessão de independência total ao Tibete desestabilizaria todo o mosaico étnico-cultural chinês, provocando um efeito dominó de conseqüências imprevisíveis. Por hora, o máximo que o governo de Beijing parece disposto a ceder é na negociação de uma autonomia mais substantiva. Em 2008, para obter a retomada das negociações, interrompidas em função dos protestos de Lhasa, o Dalai Lama teve que dar reiteradas provas de boa vontade, pedindo o fim dos protestos e até ameaçando renunciar a seu cargo caso eles degenerassem em violência. Ele tem exortado seus partidários a não tratar os chineses como inimigos, pois se fizerem do adversário de hoje um inimigo, amanhã os ressentimentos não permitirão a amizade, e o conflito perdurará. Infelizmente, esse raciocínio sensato parece não ser levado em conta por alguns de seus apoiadores ocidentais, guiados por uma visão que não reconhece meios tons.

Conflitos étnicos e movimentos autonomistas

As contradições étnicas constituem uma das principais fontes de conflito do mundo contemporâneo. A China não é exceção. Ao lado da maioria Han, que engloba 92% de sua população, o país abriga outras 55 etnias, responsáveis pelos 8% restantes. Além das reivindicações autonomistas tibetanas, o governo central enfrenta o separatismo uigur na estratégica região do Xinjiang. Orgulhosa de suas tradições, essa etnia, de ramo turco e religião muçulmana, vem protagonizado rebeliões esporádicas desde 1991. Para coibi-las, a China firmou, em 1996, um acordo de cooperação com a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tadjiquistão. Mas parece ter abrandado esse comportamento repressivo em benefício de uma política mais contemporizadora, como o demonstrou a libertação, em 2003, da empresária e líder uigur Rebiya Kadir.

Nominalmente o órgão supremo do poder, o Congresso Nacional do Povo foi, durante anos, uma mera fachada para o domínio incontestável do Partido Comunista. Nos últimos tempos, porém, essa entidade legislativa unicameral, que reúne 2.985 representantes dos diferentes partidos e etnias que compõem a coalizão governamental, passou por visível fortalecimento. E tudo indica que tal tendência deverá se acentuar, em decorrência do próprio processo modernizador. Se isso acontecer, o CNP poderá tornar-se uma instância privilegiada para a solução pacífica dos conflitos étnicos e o acolhimento das reivindicações autonomistas. De maneira lenta, gradual e segura, a China evolui rumo a um arejamento democrático. E a própria prosperidade do país conspira nesse sentido.

 

 

Rumo ao futuro

Pragmática, a nova geração de dirigentes chineses, comandada por Hu Jintao, parece plenamente convencida de que a democracia é boa para os negócios. E tem motivos consistentes para acreditar nisso. Em 2001, o país foi aceito da Organização Mundial do Comércio (OMC) com o compromisso de aprofundar a democratização econômica. De lá para cá, a China alcançou a terceira posição no ranking mundial de exportações e importações de mercadorias. E tornou-se o país com maior crescimento anual no volume de comércio exterior, tendo registrado um aumento de 35% nas exportações e de 40% nas importações em 2003. Comparativamente, as exportações e importações dos Estados Unidos cresceram 4% e 3% no mesmo período.

Com tal performance comercial e como principal destino dos investimentos internacionais, a China tem tudo a ganhar com a paz e a distensão. E a nova liderança vem se empenhando seriamente em aparar velhas arestas. Em junho de 2003, chineses e indianos chegaram a um acordo sobre suas fronteiras. Em agosto de 2005, China e Rússia conduziram exercícios militares conjuntos. E, em outubro do mesmo ano, Hu Jintao visitou o Vietnã.

Ao mesmo tempo, em sintonia com seu projeto de transformar-se em superpotência, o país vem promovendo um acelerado processo de modernização das Forças Armadas. Com cerca de 3 milhões de homens, seu efetivo militar é o mais numeroso do mundo. E seu arsenal nuclear conta com um estoque de 400 ogivas. Em outubro de 2003, Beijing (Pequim) lançou seu primeiro homem ao espaço. E, em outubro de 2005, colocou dois astronautas em órbita.

Aproximações com Taiwan

Para as comunidades chinesas no exterior, inclusive a residente nos Estados Unidos, o espetacular desenvolvimento da “Terra Mãe” é motivo de orgulho e importante fator para a construção de uma identidade cultural. Apesar de um longo histórico de hostilidades, uma expressiva parcela da população de Taiwan, de 23 milhões de habitantes, compartilha esse sentimento. E seus ousados empresários não têm vacilado em investir no continente, muitas vezes à margem das restrições da legislação taiwanesa.

Em 2002, altas personalidades militares de Beijing (Pequim) e Taipei reuniram-se discretamente na capital chinesa. Com a linguagem evasiva característica de sua antiga cultura aristocrática, um dos organizadores do evento, o general reformado Chou Chih-cheng, afirmou que a reunião fora “uma boa oportunidade para abrir a porta, sentar, tomar chá e apenas conversar”. Aparentemente, as conversas avançaram muito além das amenidades, pois, em 2005, uma delegação de alto nível do Guomindang (Kuomintang) visitou a China e participou do primeiro encontro entre guomindanguistas e comunistas desde 1949. Em outubro do mesmo ano, autoridades chinesas e taiwanesas firmaram acordo para o estabelecimento de vôos diretos entre os dois territórios.

Naquele que foi considerado o encontro mais importante entre as duas partes, o chefe do Guomindang (Kuomintang), Wu Poh-hsiung, reuniu-se com o presidente chinês Hu Jintao em maio de 2008. Sempre considerando a ilha de Taiwan como parte inalienável de seu território, a China propõe, como fórmula para a reunificação, a política de “um país, dois sistemas” – a mesma que lhe permitiu reincorporar Hong Kong.

Como era de se esperar, o governo norte-americano não assistiu a essa aproximação de braços cruzados. Na verdade, a administração neoconservadora de George W. Bush lançou mão de vários expedientes para dificultá-la, pois a eventual incorporação de recursos financeiros, tecnológicos, culturais e militares taiwaneses poderá proporcionar um upgrade ao já espetacular processo de desenvolvimento chinês, no momento em que a rivalidade comercial entre Washington e Beijing se encontra muito acirrada e que a emergência da China como superpotência constitui um dos principais desafios estratégicos à hegemonia dos Estados Unidos.

Perspectivas auspiciosas

Segundo a estimativa do 11º Plano Qüinqüenal, a China deverá continuar crescendo a taxas superiores a 8% durante o período 2006-2010. Se isso ocorrer, o objetivo chinês de quadruplicar o Produto Interno Bruto (PIB) entre 2000 e 2020 poderá ser alcançado antes do prazo estabelecido. A estabilidade social e política, o aumento da produtividade devido ao avanço tecnológico e à adoção de modernos métodos de gestão, e a forte atração de capitais externos são alguns dos fatores apontados para o sucesso.

A expectativa das autoridades econômicas é que o país ainda mantenha esse espetacular ritmo de crescimento ao longo das próximas duas décadas, antes de começar a desaquecer lentamente os motores. O acelerado processo de urbanização e a elevação do padrão de consumo – de itens como eletrodomésticos para bens como casas e automóveis – deverão contribuir substantivamente para isso.

O país ocupa atualmente a quarta posição no ranking mundial, com um Produto Interno Bruto de US$ 3,2 trilhões. Estima-se que ultrapasse a Alemanha em breve e, antes de 2020, supere também o Japão, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Um indicador relevante do padrão de desenvolvimento chinês é o fato de o segmento industrial expandir-se em ritmo mais acelerado do que o conjunto da economia e o segmento industrial de alta tecnologia expandir-se em ritmo mais acelerado do que o conjunto da indústria. A indústria manufatureira cresceu a taxas anuais de 10,3% durante a vigência do 10º Plano Qüinqüenal (2001-2005). E a fatia correspondente à indústria de ponta na estrutura industrial passou de 10% em 1993 para 20% em 2002.

Importante notar que, apesar do aumento das desigualdades sociais e regionais, esse crescimento vem ocasionando uma efetiva melhoria das condições de vida do conjunto da população. Durante a vigência do 10º Plano Qüinqüenal, a renda per capita das populações urbana e rural cresceu, respectivamente, 9,2% e 5,2% ao ano. Essa elevação do padrão econômico resultou em mais gastos com saúde, transportes, telecomunicações, educação, entretenimento e moradia, ao invés de ser totalmente canalizado para alimentação e vestuário.

Comentário final

Certos segmentos da mídia internacional fazem pesadas críticas ao modelo chinês e clamam por uma repentina e completa liberalização política e econômica do país. Sem entrar no mérito da matriz ideológica e dos eventuais interesses subjacentes a essas proposições, é preciso lembrar que, por muito menos do que isso, a Rússia quase quebrou, com imenso custo social. A intrincada equação chinesa possui um número assombrosamente alto de variáveis, cada uma delas muito difícil de manejar.

É certo que a violação aos direitos humanos continua a ser um sério problema. Os dissidentes políticos seguem estritamente vigiados. E centenas de indivíduos, acusados de crimes comuns, são executados anualmente. Porém, considerando o exemplo russo, podemos inferir que essas restrições às liberdades democráticas, por ruins que sejam, constituem um mal menor frente à catástrofe de uma súbita desregulamentação, capaz de desorganizar todo o sistema produtivo e a vida nacional, colocar o país à mercê dos especuladores e mafiosos, e abrir a caixa de Pandora dos conflitos separatistas.

Com 66 milhões de militantes espalhados por todo o território nacional, o Partido Comunista Chinês (PCC) continua a ser, de longe, a força hegemônica, controlando os principais postos da administração pública. Mas esse partido gigantesco, cujo número de integrantes é maior do que o de toda a população da França, e que já foi palco de conflitos sangrentos no passado, também vem passando por uma lenta transformação. Em seu histórico 16º Congresso, reunido em 2002, o PCC liberou o ingresso de empresários nas fileiras partidárias. Anteriormente tratados como “traidores”, esses empreendedores burgueses adquiriram o status de “camaradas”.

Por vários caminhos, não imunes a contradições, a China vai ocupando a posição central no tabuleiro geopolítico do século 21. Podemos gostar ou não gostar de seu modelo. Mas é impossível ignorá-la.

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Referências bibliográficas

 

– Favrod, Charles-Henri (organizador). Os chineses. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1976.

– Broyelle, Claudie e Jacques. Apocalypse Mao. Paris, Bernard Grasset, 1981.

– Snow, Edgar. A China, ontem e hoje (em dois volumes). Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1972.

– Suyin, Han. China no ano 2001. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969.

– Daubier, Jean. História da revolução cultural chinesa (em dois volumes). Lisboa, Editorial Presença, 1974.

– Esmein, Jean. La révolution culturelle. Paris, Éditions du Seuil, 1970.

– Fan, K.H.(organizador). La revolución cultural china. Ciudad de Méjico, Ediciones Era, 1975.

– Tsé-tung, Mao. Obras escogidas (em cinco volumes). Beijing, Ediciones en lenguas extranjeras, 1972.

– Schram, Stuart. Mao Tsé-tung. Rio de Janeiro, Biblioteca Universal Popular, 1968.

– Pomar, Wladimir. China, o dragão do século XXI. São Paulo, Ática, 1996.

Na Internet

– Mapas que mostram a expansão do território chinês, do neolítico até a dinastia Qing (1644-1911). Disponíveis em http://emuseum.mnsu.edu/prehistory/china/map/map.html

– Shinn, Rinn-Sup and Worden, Robert L.. History of China. Disponível em http://www-chaos.umd.edu/history/toc.html

– Schilling, Voltaire. China – 1ª Parte (1842-1949), a revolução chinesa: da agressão ocidental ao maoísmo. Disponível em http://www.terra.com.br/voltaire/mundo/china_6.htm

– China General Information (com links para vários sites): http://www.chinatoday.com


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2 Comentários

  1. quero saber porque os chineses se conclamavam de imperio do meio

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  2. Eles achavam que estavam no centro do cosmo.

    Responder

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