A teologia mística

Tratado do Pseudo-Dionísio Areopagita, dedicado a um certo Timóteo


[A Teologia Mística é o mais conciso, denso e sublime tratado do chamado Corpus Areopagiticum, composto, em grego, por um autor ou conjunto de autores sírio-bizantinos do final do século V ou início do século VI, e atribuído, falsamente, ao Dionísio do século I, convertido no Areópago pelo apóstolo Paulo, investido do cargo de primeiro bispo de Atenas e, mais tarde, canonizado pela Igreja. O Corpus Areopagiticum, que funde um cristianismo ainda jovem com um pensamento neoplatônico maduro (Proclo, Damaskios), exerceu enorme influência sobre toda a filosofia, a teologia e a mística medievais, nas suas três vertentes: judaica, cristã e muçulmana. Este texto foi traduzido do francês para o português por José Tadeu Arantes, a partir das Œuvres complètes du Pseudo-Denys l’Aréopagite, famosa versão francesa do original grego, realizada por Maurice de Gandillac (Paris, Éditions Aubier, 1980). E cotejado, em algumas passagens nas quais a versão francesa se mostrou inconsistente, com uma tradução inglesa de 1923, de autor anônimo, publicada por The Shrine of Wisdom. Algumas advertências aos leitores: 1) foi evitado o uso de maísculas nas palavras associadas à divindade, pois o texto todo trata do divino; 2) o estilo do Pseudo-Dionísio é o dos autores antigos, que utilizavam sentenças em geral muito longas, com repetições de palavras, e várias orações intercaladas matizando o sentido das frases.]

Capítulo I

Em que consiste a escuridão divina

Trindade superessencial e mais que divina e mais que boa, tu, que presides a divina sabedoria cristã, conduze-nos não somente para além de toda luz, mas para além mesmo da ignorância, até o mais alto cume das escrituras místicas, lá onde os mistérios simples, absolutos e incorruptíveis da teologia se revelam, na escuridão mais do que luminosa do silêncio: pois é no silêncio que se aprendem os segredos dessa escuridão da qual não se pode mais do que dizer que brilha com a luz mais resplandecente no seio da mais negra obscuridade, e que, permanecendo perfeitamente intangível e invisível, inunda de esplendores mais belos do que a beleza as inteligências que sabem fechar os olhos.

Esta é a minha prece. Quanto a ti, caro Timóteo, pratica sem cessar as contemplações místicas, abandona as sensações, renuncia às operações intelectuais, rejeita tudo o que pertence ao sensível e ao inteligível, despoja-te totalmente do não-ser e do ser, e eleva-te assim, tanto quanto puderes, até te unires, na ignorância, com aquele que está além de toda essência e de todo saber. Pois é saindo de tudo e de ti mesmo, de maneira irresistível e perfeita, que te elevarás em um puro êxtase até o brilho obscuro da divina superessência, tendo tudo abandonado e estando despojado de tudo.

Mas cuida para que ninguém que não seja iniciado te compreenda. Falo desses que se apegam aos seres, que não imaginam que algo possa existir superessencialmente além dos seres, e que crêem poder conhecer pela via do conhecimento “aquele que tomou a escuridão por refúgio”. Mas, se a revelação do mistério divino ultrapassa o alcance desses homens, o que dizer então dos verdadeiros profanos, desses que, para definir a causa transcendente de todas as coisas, se apóiam sobre as realidades mais baixas, e não crêem de modo algum que ela seja superior aos ídolos ímpios, dos quais esculpem as formas múltiplas, enquanto, em verdade, se convém lhe atribuir e afirmar dela tudo o que se diz dos seres, porque ela é a causa de todos, convém ainda mais negar-lhe todos esses atributos, porque ela transcende todo ser, sem crer, todavia, que as negações contradigam as afirmações, mas que, em si, ela permanece perfeitamente transcendente a toda privação, pois se situa além de toda posição, seja negativa seja afirmativa?

É, pois, nesse sentido que o divino Bartolomeu afirma que a teologia é, ao mesmo tempo, abundante e breve, que, se o evangelho é copioso e vasto, ele não é menos conciso. Parece-me que este é um maravilhoso pensamento, pois se a causa universal e beneficente se exprime em muitas palavras, ela também exclui todo raciocínio, porque não é racional nem inteligível, porque transcende todas as coisas de forma superessencial e só se manifesta, descoberta e verdadeiramente, àqueles que vão além de toda consagração ritual e de toda purificação, que ultrapassam toda ascensão aos cumes mais santos, que abandonam todas as luzes divinas, todas as palavras e todas as razões celestes, para penetrar assim nessa escuridão onde, segundo a escritura, aquele que é totalmente transcendente existe em uma existência absoluta.

Também não é sem motivos que o divino Moisés recebeu inicialmente a ordem de se purificar, depois de se separar dos impuros, que, após a purificação, ouviu as trombetas de sons múltiplos e viu os inumeráveis fogos cujos inumeráveis raios espargem um vivo esplendor, que, separado da multidão, aguardou então, com a elite dos sacerdotes, no cume das ascensões divinas. Nesse grau, todavia, ele não estava ainda em relação com Deus, ele não contemplava Deus, pois Deus não é visível, mas somente o lugar onde Deus reside, o que significa, penso eu, que, na ordem visível e na ordem inteligível, os objetos mais divinos e mais sublimes não são mais do que expressões simbólicas dos atributos que convêm verdadeiramente àquele que é totalmente transcendente, expressões que revelam a presença daquele que escapa a todo seqüestro mental, acima dos cumes inteligíveis dos lugares mais santos.

É somente então que, ultrapassando o mundo onde se é visto e onde se vê, Moisés penetra na escuridão verdadeiramente mística da ignorância; é lá que ele faz calar todo saber positivo, que se livra inteiramente de todo embargo e de toda visão, pois pertence inteiro àquele que está além de tudo, pois não pertence mais a si mesmo nem a ninguém, e, unido pelo melhor de si mesmo àquele que escapa a todo conhecimento, tendo renunciado a todo saber positivo, graças a essa ignorância mesma, conhece para além de toda inteligência.

Capítulo II

Como se unificar e prestar homenagem ao autor transcendente de todas as coisas

Possamos também nós penetrar nessa escuridão mais luminosa do que a luz, e, renunciando a toda visão e a todo conhecimento, ver e conhecer que não se pode ver nem conhecer aquele que está além de toda visão e de todo conhecimento! Pois esta é a verdadeira visão e o verdadeiro conhecimento, e, pelo fato mesmo de se abandonar tudo o que existe, celebra-se o superessencial de modo superessencial. Do mesmo modo, para esculpir uma estátua com suas próprias mãos, os escultores despojam antes [o mármore] de toda matéria supérflua, que se opõe à pura visão da forma escondida; e é essa operação mesma, precisamente esse despojamento, que, sozinha, revela a beleza latente.

Mas, para celebrar as negações, penso que convém proceder de maneira inversa à usada na celebração das afirmações. Nestas, de fato, partindo das mais primitivas, passamos às médias e depois às últimas. Aqui, é das últimas que partiremos necessariamente, para elevar-nos, por um total despojamento, até as mais primitivas, a fim de conhecer sem véus essa ignorância que dissimula em todo ser o conhecimento que se pode ter desse ser, a fim de ver assim essa escuridão superessencial que dissimula toda a luz contida nos seres.

Capítulo III

O que significam a teologia afirmativa e a teologia negativa

Em nossos Esboços teológicos, celebramos as principais afirmações da teologia afirmativa, mostrando em que sentido a excelente natureza de Deus é dita una, em que sentido ela é dita trina, o que chamamos nela paternidade e filiação, o que a teologia entende quando fala do espírito, como, do coração mesmo do bem imaterial e indivisível, brotaram as luzes da bondade, como essas luzes se derramaram, permanecendo, porém, nelas mesmas, graças a seu eterno renascimento, cada uma em si e todas mutuamente umas .nas outras, como Jesus superessencial revestiu-se plenamente da natureza humana, e todos os outros mistérios que os Esboços teológicos celebraram a partir do ensinamento das escrituras.

No tratado dos Nomes divinos, mostramos porque Deus é denominado bem, ser, vida, sabedoria, força, e assim por diante, por todos os nomes inteligíveis de Deus.

Na Teologia simb6lica, tratamos das metonímias do sensível ao divino, dissemos o que significam em Deus as formas, as figuras, as partes, os órgãos, o que significam em Deus os lugares e os ornamentos, o que significam as cóleras, as dores, os ressentimentos, o que significam os entusiasmos e as embriaguezes, o que significam os juramentos, as maldições, os sonos e as vigílias, e todas as formas com as quais revestimos a santidade divina para lhe dar uma figura. Penso que terás notado como esses símbolos exigem mais palavras do que o resto, de sorte que a Teologia simb6lica é necessariamente mais volumosa que os Esboços teológicos e os Nomes divinos. De fato, quanto mais alto nos elevamos, mais as palavras se tornam concisas, pois os inteligíveis se apresentam de forma mais e mais sinóptica.

Agora, então, quando penetramos na escuridão que está além do inteligível, não se trata sequer de concisão, mas de uma cessação total da palavra e do pensamento. Lá, onde nosso discurso descia do superior ao inferior, seu volume aumentava à medida que se afastava das alturas. Aqui, onde remontamos do inferior ao transcendente, o volume de nossas palavras se apequena à medida que nos aproximamos do cume. Ao término da ascensão, estaremos totalmente mudos e plenamente unidos ao inefável.

Mas, tu perguntarás, por que partir das alturas quando se trata de afirmações e dos baixios quando se trata de negações? Eu respondo que, para falar afirmativamente daquele que transcende toda afirmação, é preciso que nossas hipóteses afirmativas tomem apoio naquilo que está mais próximo dele. Mas, para falar negativamente daquele que transcende toda negação, começa-se necessariamente por negar a respeito dele aquilo que está mais afastado dele. Não é verdade, de fato, que ele é mais vida e bem do que ar ou pedra e que se comete mais erro ao nomeá-lo rancoroso ou colérico do que ao supô-lo dizível ou pensável?

Capítulo IV

Que a causa transcendente de toda realidade sensível não é, ela mesma, nada de sensível

Dizemos, então, que a causa universal, situada além do universo inteiro, não é matéria, isenta de vida, de inteligência e de essência; que ela não tem figura nem forma, nem qualidade, nem quantidade, nem massa, nem corpo; que ela não está em nenhum lugar específico e escapa a toda percepção e a todo sequestro dos sentidos; que ela não está sujeita à inquietação nem à desordem, sob o choque das paixões terrenas; que os acidentes sensíveis não a submetem nem a reduzem à impotência; que ela não necessita de luz, nem sofre mudança, corrupção, divisão, privação ou escoamento; que ela não é, em suma, nada que pertença ao sensível.

Capítulo V

Que a causa transcendente de todo inteligível não é nada de inteligível

Elevando-nos mais alto, diremos agora que essa causa não é alma, nem intelecto; nem imaginação, nem opinião, nem razão, nem inteligência; que não se pode exprimir, nem conceber, pois não é número, nem ordem, nem grandeza, nem pequenez, nem igualdade, nem desigualdade, nem semelhança, nem dessemelhança; que não permanece imóvel, nem se move; que não se atém à calma, nem possui potência; que não é poder, nem luz; que não vive, nem é vida; que não é essência, nem eternidade, nem tempo; que não é sujeita à inteligência; que não é ciência, nem verdade, nem realeza, nem sabedoria, nem um, nem unidade, nem deidade, nem divindade, nem bem, nem espírito, no sentido que possamos entendê-lo; nem filiação, nem paternidade; nem nada que seja acessível à nossa consciência, nem à consciência de qualquer um; que não é nada que pertença ao ser, nem nada que pertença ao não-ser; que ninguém a conhece tal como é, nem ela conhece as coisas existentes de acordo com o conhecimento existente; que escapa a todo raciocínio, a toda apelação, a todo saber; que não é treva, nem luz, nem erro, nem verdade; que dela não se pode absolutamente nada afirmar, nem negar; que, conquanto possamos afirmar ou negar as realidades inferiores a ela, dela mesma nada podemos dizer, nem desdizer, pois toda afirmação fica aquém da causa única e perfeita de todas as coisas, e toda negação fica aquém da transcendência daquilo que é livre de toda limitação e se situa além de tudo.

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