Tripurasundari Ashtakam

Célebre hino em louvor à Grande Deusa, composto, no século 9 d.C., por Adi Shankaracharya

 

Recriação poética e notas por José Tadeu Arantes (*)

 

I

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos[2],

Que vaga pela floresta de Kadamba[3] e refresca como miríades de nuvens a legião dos sábios,

Cujas nádegas são mais altas do que as montanhas e que é servida pelas donzelas celestiais,

Cujos olhos são como lótus recém-abertos e que é escura como nuvens recém-formadas.

 

II

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos,

Que vive na floresta de Kadamba, segurando em sua mão a vina dourada,

Adornada com um colar de pedras preciosas e exibindo no rosto o prazer que vem do néctar,

Que concede a misericórdia e a glória, a Deusa de olhos radiantes.

 

III

Por ela, cuja casa é a floresta de Kadamba e que ostenta esplêndida guirlanda sobre o peito,

Cujos seios são firmes como montanhas e que brilha no bosque pela graça de Shankara,

Cujas faces são rubras de embriaguez e que é a morada da doce fala e da doce canção,

Por uma mulher tão intensamente azul, como em um jogo, somos todos protegidos.

 

IV

Eu busco refúgio em Tripurasundari, a esposa daquele que tem três olhos,

Que habita o coração da floresta de Kadamba e está sempre próxima à mandala dourada,

Que vive em cada um dos seis lótus[4] e se manifesta aos siddhas[5] como um jato de luz,

Cuja cor é imitada pelo hibisco e que tem a fronte enfeitada pela lua.

 

V

Em ti, que entre os seios abrigas a adorável vina e és adornada por cabelos cacheados,

Que resides no coração do lótus e és inimiga dos que têm o intelecto astucioso,

Cujos olhos são rubros de intoxicação e que enamorastes até o inimigo do Cupido,

Que és filha do sábio Matanga[6], nesta doce fala, Tripurasundari, eu busco refúgio.

 

VI

Nela, que carrega a primeira flor do desejo e veste um traje azul, de sangue pontilhado,

Que segura em sua mão uma taça de mel e revira os olhos, inebriados de intoxicação,

Medite nela, a bela senhora das três cidades, cujo coração se eleva sobre firmes seios,

A negra, de cabelos soltos, a esposa daquele que tem três olhos. Nela, eu busco refúgio.

 

VII

Ela, que se maquia com cúrcuma e cujos cachos são untados com almíscar,

Que exibe um sorriso suave, enquanto segura o arco, o laço e o aguilhão,

Cuja roupa é decorada com flores vermelhas e que a todos deixa enamorados,

Que brilha entre uma guirlanda de hibiscos, nesta Mãe, eu medito, antes de recitar o mantra.

 

VIII

Eu reverencio a Suprema Mãe do Universo, a esposa daquele que tem três olhos,

Que é servida e coberta de jóias pelas donzelas celestiais,

E cujos cabelos são penteados por Lakshimi e Sarasvati[7],

A devotada esposa do Senhor Shankara, a Suprema Mãe do Universo eu reverencio.

 

(*) Esta recriação poética em português foi feita a partir da tradução inglesa do texto sânscrito de Shankaracharya.


[1] Tripurasundari, a Senhora das Três Cidades, é um dos mais belos nomes da Grande Deusa, que é o aspecto feminino da Divindade Única. Alude à sua condição de Senhora dos Três Reinos (Bhuloka, o reino terrestre; Antarloka, o reino espiritual; e Shivaloka, o reino celestial), Senhora das Três Shaktis ou Poderes (Jnana, a sabedoria; Iccha, a vontade; e Kriya, a ação), Senhora dos Três Gunas ou Forças (Tamas, a imobilidade; Rajas, o movimento; e Sattva, a sublimação) e Senhora dos Três Nadis ou Canais de Energia (Ida, o canal lunar; Píngala, o canal solar; e Sushumna, o canal central). E também à sua natureza tríplice de Jovem, Mãe e Anciã. Ashtakam significa poema em oito estrofes.

[2] “Aquele que tem três olhos” é Shiva, cujo “terceiro olho” é um símbolo da visão transcendental, capaz de ultrapassar o mundo ilusório da dualidade e alcançar a Unidade Absoluta. O poema também se refere a Shiva como Shankara, o “Pacificador”.

[3] Kadamba, a floresta mitológica de um milhão de árvores, é uma metáfora do universo.

[4] Os seis lótus são os seis chacras (centros de energia vital) principais, situados ao longo do Sushumna (o canal central de energia vital, que se estende da base da coluna vertebral ao topo da cabeça). Simbolicamente, representam as seis moradas da Shakti, o Princípio Feminino. O sétimo chacra principal, o Sahasrara, situado no topo de cabeça, é a morada de Shiva, o Princípio Masculino.

[5] Siddhas são os iogues perfeitos, que alcançaram o mais elevado estágio de auto-realização.

[6] Mencionado no Ramayana e no Mahabharata, os maiores textos da literatura indiana, Matanga era considerado um pária, por ter nascido da união sexual entre uma mulher e um homem de castas diferentes. Humilhado pelos brâmanes (indivíduos da casta sacerdotal), dedicou-se por milhares de anos a disciplinas iogues até alcançar o status de grande rishi (sábio). Uma das numerosas formas assumidas pela Deusa é a de Matangi, a filha de Matanga. Representada como uma bela adolescente de pele escura, pertencente à casta mais baixa, intensamente sensual e reinando sobre o mundo da impureza e da poluição, Matangi é a própria negação dos tabus e preconceitos incorporados à religiosidade convencional. É tida como a inspiradora dos poetas realmente criativos e a condutora daqueles que buscam o conhecimento esotérico.

[7] Lakshimi e Sarasvati são importantes deusas do panteão indiano. A primeira está associada à abundância, e a segunda, à sabedoria.

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