Roger Bacon

Dois séculos antes de Leonardo da Vinci (1452-1519), seis séculos antes de Jules Verne (1828-1905), quando poucos afortunados dispunham de cavalos e carroças para se deslocar de uma aldeia a outra, ele escreveu sobre veículos que só seriam construídos em um futuro remoto: o barco a vapor, o submarino, o automóvel, o avião, o helicóptero. Como pôde antevê-los, com surpreendente exatidão, é um dos muitos mistérios que pontuam sua biografia. Espírito que busca, estudou línguas, matemáticas e ciência naturais, idealizou uma enciclopédia capaz de sintetizar todo o conhecimento disponível em seu tempo e pretendeu reformar de A a Z a civilização cristã. Espírito que faz, realizou pesquisas nos domínios da óptica e da alquimia, introduziu na Europa a técnica chinesa de fabricação da pólvora e definiu diretrizes fundamentais para o desenvolvimento do método científico.

Sua ênfase na experimentação como principal via de acesso ao conhecimento faz dele o avô da ciência experimental moderna. Mas sua complexa personalidade desafia o estereótipo que temos hoje do cientista racional. Místico, buscou na ciência um caminho de evolução espiritual, foi acusado de praticar magia e chegou a ser preso sob a acusação de divulgar “novidades suspeitas”. Como outros filósofos medievais, também foi padre. Porém ingressou tardiamente na Igreja, criticou sem papas na língua a ignorância de seus colegas e logo chocou-se de frente com a autoridade eclesiástica. Este é o retrato anticonvencional de Roger Bacon, a quem a tradição atribuiu o epíteto de Doctor Mirabilis (Doutor Admirável). Dele se disse: “De diabos faz mulheres e converte gatos em vendedores”.

A infância da universidade européia

Há poucos dados sólidos na biografia de Roger Bacon. Sabe-se que nasceu na Inglaterra, mas a cidade é objeto de polêmica. Assim como o ano de nascimento, que pode ter sido 1214 ou 1220. Filho de família rica, recebeu educação esmerada. O currículo básico das universidades de então era constituído pelas chamadas sete artes liberais, herdadas da Antigüidade. Elas se dividiam no trivium (gramática, retórica e dialética) e no quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia). Consta que ainda na puberdade, portanto antes de cursar a universidade, Bacon já dominava essas disciplinas, bem como os clássicos da literatura latina. Acredita-se que tenha iniciado seus estudos superiores na Universidade de Oxford, Inglaterra, transferindo-se depois para a Universidade de Paris, França.

As primeiras universidades européias nasceram pouco antes ou contemporaneamente a Bacon, nos séculos 12 e 13. É nessa época que começa a ser utilizada a expressão latina universitas magistrorum et scholarium (universidade dos mestres e estudantes), para designar certos conjuntos de pessoas organizadas em torno do ensino. As cidades de Paris, na França, Oxford, na Inglaterra, e Bolonha, na Itália, abrigaram as mais importantes instituições do gênero. Constituídas no interior da Igreja, em torno de grandes catedrais ou mosteiros, com seus professores e alunos considerados membros do clero, as universidades beneficiaram-se inicialmente da proteção eclesiástica, que lhes serviu de escudo contra o poder dos reis e seus agentes. Mas logo tiveram que enfrentar a prepotência dos bispos, em cujas dioceses se encontravam. Lutas memoráveis pontuam a infância da Universidade de Paris, o principal centro de ensino superior europeu do período.

Em confrontos que se arrastaram até o ano de1246, acomunidade universitária parisiense conquistou, um a um, os direitos de recrutar professores, elaborar seus próprios estatutos, eleger funcionários para garantir a aplicação dos mesmos e possuir um sinete, símbolo de sua autonomia. Paradoxalmente, os mestres e estudantes de Paris contaram em sua luta com um aliado da maior estatura: o papa em pessoa. Desdede Inocêncio III, o papado descobrira que apoiar as reivindicações universitárias era uma forma eficaz e segura de enfraquecer o poder dos bispos e aumentar a centralização da Igreja.

Os estatutos universitários eram semelhantes aos das corporações de ofício (como a dos pedreiros e a dos tecelões), organizando professores e alunos em uma rígida pirâmide hierárquica, na qual os direitos e deveres de cada um estavam meticulosamente definidos. A Universidade de Paris possuía quatro faculdades: artes, direito, medicina e teologia. A Faculdade de Artes, cujo currículo se resumia às sete artes liberais, era pré-requisito para as demais. Os programas das outras agregavam algumas poucas obras fundamentais: na Faculdade de Direito, o Corpus Juris Civilis (Corpo de Direito Civil) e o Corpus Juris Canonice (Corpo de Direito Canônico); na Faculdade de Medicina, os tratados de Hipócrates, Galeno e Avicena; na Faculdade de Teologia, a Bíblia e o Livro de Sentenças, de Pedro Lombardo.

O ensino se dava por meio de dois métodos complementares: a leitura (lectio, daí a palavra lecionar), na qual o mestre lia e comentava as obras do programa; e a disputa (disputatio), na qual o professor propunha à classe certas questões, que os alunos deviam debater de forma organizada. Uma ou duas vezes por ano, cada mestre promovia um grande torneio intelectual, aberto a todos os membros da faculdade: eram os “debates quodlibetais” (de quodlibet, que significa “o que lhe agrada”), nos quais os presentes podiam propor-lhe as questões que quisessem.

As sete artes liberais eram matéria comum a todas as universidades européias. Mas, enquanto Paris dava preferência ao trivium, Oxford especializou-se no quadrivium. Essa diferença de ênfase teria conseqüências de longo prazo na vida intelectual dos dois países e determinou as duas principais linhas de desenvolvimento do pensamento medieval: a filosófico-especulativa francesa e a científico-experimental inglesa. O contraste entre essas duas orientações teve também profundas repercussões na vida de Bacon.

Pierre de Marincourt

Não se sabe ao certo quando o gênio inglês desembarcou na França. Mas é certo que já estava em Paris na primeira metade da década de 1240, pois ele mesmo relata ter visto Alexandre de Hales (Alexander of Hales), que morreu em 1245. Monge franciscano, filósofo e teólogo, o inglês Alexandre de Hales lecionou primeiro na Faculdade de Artes e depois na Faculdade de Teologia. Era um dos monstros sagrados da Universidade de Paris e um dos maiores nomes da cristandade medieval. Nem por isso Bacon deixou de criticar com língua ferina a obra mais famosa que lhe foi atribuída, a Summa Universae Theologiae (Compêndio Universal de Teologia), também conhecida como Summa Alexandri (Compêndio de Alexandre). Conforme afirmaria o desbocado sábio anos mais tarde, ela não era Summa (pois, cheia de erros e quimeras, ignorava tudo acerca da lógica, da física e da metafísica), não era de Alexandre (pois fora compilada por alunos após sua morte), e estava sendo comida pelas traças no convento dos franciscanos em Oxford.

Os mestres que realmente o impressionaram, e que ele não cansaria de citar no futuro, eram matemáticos, astrônomos e teólogos curiosos pelas ciências naturais. Dois deles se destacam em especial: Guilherme de Auvergne (Guillaume d’Auvergne) e Pierre de Marincourt. Bispo de Paris entre 1228 e 1249, Guilherme de Auvergne foi um dos primeiros a utilizar os tratados científicos gregos, árabes e judeus – coisa que Bacon também viria a fazer. Mas o homem que mais o influenciou e, pode-se dizer, modelou todo o seu futuro foi Pierre de Marincourt, a quem o inglês chamava com veneração de Dominus Experimentorum (Senhor da Experiência).

Conhecido sob o pseudônimo latino de Petrus Peregrinus (Pedro Peregrino), Pierre de Marincourt é um dos personagens mais obscuros e fascinantes da ciência medieval. Sabe-se que nasceu na Picardia, França, mas ignora-se tanto o ano de nascimento quanto o de morte. Soldado, acompanhou o rei Luís IX nas Cruzadas. Ao menos esta é a conclusão a que chegaram os estudiosos, baseados em dois dados: seu epíteto “Peregrino” e a afirmação de Bacon de que um sábio de tal porte prestou mais serviços ao rei da França do que todo o exército dos cruzados. Que ele tenha entrado em contato com os sábios sufis na Palestina é uma hipótese não apenas possível, mas até provável. O retrato que Bacon traça dele é o de um iniciado em conhecimentos ocultos: secreto e solitário, avesso à multidão e aos falsos sábios, desprezava os charlatães da filosofia, os médicos ridículos e os teólogos ignorantes, e preferia consultar os soldados, os camponeses e as velhas parteiras, que haviam visto e experimentado por si mesmos.

Pierre de Marincourt aperfeiçoou o compasso e, vivamente impressionado pela ação à distância (elétrica ou magnética) entre os corpos, produziu um memorável texto sobre o magnetismo. Redigida na forma de carta a um amigo (Syger de Foucaucourt), quando o autor se encontrava em combate, acompanhando Carlos de Anjou (Charles d’Anjou) em campanha na Itália, essa dissertação, Epistola de magnete (Carta sobre o magnete – nome antigo atribuído ao imã), é considerada uma das obras-primas da literatura científica medieval e o mais importante estudo sobre o magnetismo até a publicação do célebre tratado de William Gilbert, De magnete, em 1600. Nela, o sábio francês discorre sobre a atração e a repulsão exercidas pelos pólos de um imã, o fato de que um imã partido ao meio produz outros dois imãs e a possibilidade da magnetização por contato. Apresenta ainda o projeto de um perpetuum mobile (moto perpétuo), baseado na ação magnética. Em seu livro Early physics and astronomy, o historiador da ciência Olaf Pedersen afirma que a inviabilidade de tal objeto não diminui o valor físico e metodológico da Epistola. O ano de sua publicação, 1269, é a única data segura na biografia de Pierre de Marincourt.

Magistério em Paris

Ainda na década de 1240, Bacon começou a lecionar na Faculdade de Artes. Suas aulas, que teriam feito considerável sucesso, consistiam na leitura e comentário dos tratados filosóficos e científicos do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.). David Lindberg – responsável pela elogiadíssima edição crítica (em latim e inglês) de dois importantes tratados baconianos, De multiplicatione specierum (A multiplicação das espécies) e Speculis comburentibus (Espelho comburente) – conjectura sobre quais seriam as obras incluídas pelo inglês em seu programa. Com certeza a Metafísica e a Física, provavelmente Sobre a Geração e a Corrupção e a História dos Animais, talvez o Tratado da Alma e Sobre o Céu, entre outros textos aristotélicos e pseudo-aristotélicos.

O aristotelismo, como se sabe, exerceu enorme influência no pensamento medieval. Antes que a filosofia escolástica o transformasse em um sistema dogmático e petrificado, ele oxigenou a vida intelectual com seu rigor lógico e sua valorização do mundo sensível, fornecendo um ponto de apoio para decolagem da ciência cristã. Sua aceitação, porém, não foi tranqüila. Bacon foi o primeiro a voltar a ensiná-lo, depois de ele ter sido proibido pelas autoridades eclesiásticas em 1210, 1215 e 1231. A morte do papa Gregório IX, em 1241, parece ter distendido o ambiente, proporcionando nova liberdade acadêmica.

Contudo, o fato de ter ensinado Aristóteles não faz de Bacon um aristotélico. Sintetizando múltiplas influências, o inglês temperaria o viés materialista do aristotelismo com a alta espiritualidade da filosofia neoplatônica, que floresceu no ambiente cultural grego entre os séculos 2 e 5 da era cristã. Os próprios neoplatônicos, aliás, já haviam feito essa releitura de Aristóteles, descobrindo dimensões místicas em seus tratados e considerando-o não um dissidente, mas um membro com pleno direito da Academia de Platão. O terceiro influxo, que moldaria mais do que qualquer outro o pensamento baconiano, foi o experimentalismo, transmitido à cristandade européia pelos sábios sufis do Islã. E que, já dissemos, teve em Pierre de Marincourt um de seus grandes representantes.

Aristotelismo, neoplatonismo, experimentalismo: para que essas três águas se encontrassem, compondo um rio turbulento, Paris era o lugar. Vibrante para os padrões medievais, a cidade constituía, então, o epicentro intelectual da cristandade. Estudantes de toda a Europa acorriam à sua universidade. Bacon menciona como seus alunos espanhóis caíram na risada quando, em uma leitura da versão latina do tratado pseudo-aristotélico De plantis, ele tomou por árabe uma palavra espanhola que o imperito tradutor engastara no texto. A anedota contém duas informações importantes: a existência de uma numerosa e animada comunidade de estudantes espanhóis em Paris; e a precariedade das traduções disponíveis no período. O desprezo por essas obras defeituosas o levaria mais tarde ao estudo das línguas. E o faria atacar eruditos consagrados, como o arcebispo flamengo Guilherme de Moerbeke (Guillaume de Moerbeke), grande tradutor das obras de Aristóteles, Arquimedes, Proclo e outros autores de língua grega.

Cônscio da evidente superioridade da cultura islâmica, Bacon se exasperava com a fragilidade intelectual de seus contemporâneos cristãos. E os criticaria anos depois sem meias palavras, não se intimidando diante de fama ou posição. É célebre sua diatribe contra Alexandre de Hales e Alberto Magno (Albertus Magnus). Teólogo, filósofo e cientista, o alemão Alberto Magno (1206-1280) recebeu a alcunha de Doctor Universalis (Doutor Universal), em reconhecimento a seu gênio e à extensão de seus conhecimentos. Tomas de Aquino (Thomae Aquinatis) foi seu mais íntimo discípulo e colaborador. Considerado por seus contemporâneos como o “espanto” e o “milagre” de sua época, Alberto foi canonizado pela Igreja em 1931. Bacon, porém, o fustigou sem dó nem piedade.

“Todos os erros que infectam a ciência”, escreveu, “provêm de dois doutores. Um está morto, o outro vive ainda”. Ele se referia a Alexandre de Hales e Alberto Magno, respectivamente. Depois de espinafrar Alexandre, reconheceu que Alberto era “um homem estudioso, que viu muito, recolheu observações e reuniu fatos úteis”. Porém, disse, “ele peca pela base; não sabe nada, nada de línguas, de perspectiva e de ciência experimental; e, todavia, ele é citado em Paris, ele é o doutor por excelência, para grande confusão da ciência”.

Línguas (as ferramentas capazes de viabilizar um acesso direto, sem mediações espúrias, às fontes gregas, árabes e judaicas), perspectiva (que poderíamos generalizar para matemática, a linguagem por excelência do discurso científico), ciência experimental (a única disciplina com condições de prover um conhecimento em primeira mão tanto da natureza exterior quanto da natureza interior do homem): as lacunas que ele aponta na cultura de Alberto definem exatamente as diretrizes que passariam a orientar seus estudos.

Ponto de inflexão

O ponto de inflexão ocorreu em 1247. Nesse ano, Bacon mudou radicalmente seu foco de interesse: da especulação filosófica para a experimentação prática. Se a guinada foi repentina – fruto de um insight, um encontro, uma leitura – ou resultado de uma longa germinação é algo sobre o qual podemos apenas especular. Edmund Brehm, autor de um interessante estudo sobre a alquimia baconiana (Roger Bacon’s place in the history of alchemy), sustenta que a mudança, carregada de enorme conteúdo emocional, foi fruto da leitura do Segredo dos segredos, obra espúria que os ocultistas medievais acreditavam ser o mais secreto e profundo tratado de Aristóteles.

Quer tenha sido essa a causa ou não, uma coisa é certa: 1247 foi o marco inicial de uma completa e definitiva reorientação na vida de Bacon. A partir de então, ele passou a dedicar muito tempo, energia e dinheiro à experimentação, ao treinamento de assistentes, à construção de material de laboratório, à compra de obras raras. Duas décadas mais tarde, o próprio sábio afirmou em seu Opus Tertium (Obra Terceira): “Durante estes últimos 20 anos, depois de abandonar os métodos usuais, gastei mais de 2 mil libras em livros secretos e em vários experimentos, em línguas, em instrumentos, em tabelas matemáticas”.

O rio se avolumara. Precisava agora escavar o seu leito, definir o seu curso. A agitada Paris, que o vira nascer, já não era o ambiente ideal para sua maturação. Bacon necessitava de recolhimento e concentração. Atraído talvez pela atmosfera científico-experimental instaurada em Oxford por Robert Grosseteste, ele voltou à Inglaterra.

Robert Grosseteste

Religioso e teólogo, filósofo e cientista, tradutor e exegeta, professor e administrador, romancista e amante da música, tão empenhado na reforma da Igreja quanto na moralização do Estado, tão dedicado às mais altas especulações metafísicas quanto às questões práticas da vida cotidiana, dono de uma espiritualidade ardente e adepto sincero da pobreza franciscana, considerado um santo em sua terra, mas não canonizado pela Igreja, o inglês Robert Grosseteste (c.1175-1243) foi um dos personagens mais extraordinários da cristandade medieval.

Depois de freqüentar a Universidade de Paris, lecionou em Oxford, onde se tornou chanceler, antes de ser eleito bispo de Lincoln, a diocese mais popular da Inglaterra, em 1235. Foi ele quem levou seus colegas franciscanos a estudarem as línguas, a matemática e as ciências naturais. Influenciado tanto por Aristóteles quanto pelos primeiros pensadores cristãos, impregnados de neoplatonismo, escreveu sobre uma enorme variedade de assuntos, em especial a epistemologia da ciência, a cosmologia, a astronomia, a óptica e a acústica. E, mais do que ninguém, despertou a Europa para as obras científicas produzidas no mundo islâmico.

Inspirando-se no Kitab al-Manazir (Livro da Óptica), do grande físico muçulmano Hasan ibn al-Haytham (965-1040), conhecido no Ocidente como Alhazen, e, baseando-se em considerações de ordem física, mas também metafísica, Grosseteste fez da óptica o modelo de todas as ciências. Seu ponto de partida era o Fiat Lux (Faça-se a Luz) bíblico, ao qual atribuiu profundo significado filosófico-científico. A luz – ele sustentava – fora a primeira matéria-prima a ser criada. Propagando-se, a partir do ponto inicial, como uma esfera em expansão, ela teria dado origem às três dimensões do espaço e servido de protótipo para toda ação causal.

As raízes da ciência da luz de Grosseteste podem ser remontadas a certas interpretações do Antigo Testamento, que floresceram na comunidade judaica de Alexandria na época de Jesus. Essas concepções chegaram ao professor de Oxford por meio de uma complexa cadeia de transmissão, que inclui o filósofo neoplatônico Plotino (século 3 d.C.), o místico cristão Pseudo-Dionísio Areopagita (século 5 d.C.), o filósofo muçulmano Al-Kindi (século 9 d.C.), os sábios sufis da chamada escola iluminista de Córdoba (século 10 d.C.) e o mestre cabalista judeu Salomão ben Gabirol (século 11 d.C.), conhecido no Ocidente como Avicebron. Numa formulação que é bem mais do que um mero jogo de palavras, diziam os sufis que a luz é a forma que informa a matéria informe. Por intermédio de Grosseteste, tais idéias foram comunicadas ao Ocidente cristão, influenciando profundamente o pensamento filosófico e científico de Bacon, que as desenvolveria de forma sistemática em seu tratado De Multiplicatione Specierum.

Na classificação das ciências, Grosseteste subordinou a astronomia e a óptica à geometria, pois esta fornecia instrumental para aquelas. Na metodologia, definiu claramente as etapas do trabalho científico:

  • a observação dos fenômenos;
  • a determinação de suas causas;
  • a decomposição das causas em seus princípios constituintes;
  • a reconstituição dos fenômenos a partir dos princípios, com base em uma hipótese;
  • o teste da hipótese pela experimentação

Sobre ele, Bacon escreveria em seu Opus tertium (Obra Terceira): “Ninguém realmente conheceu as ciências, exceto Lord Robert, bispo de Lincoln, em razão da extensão de sua vida e experiência, tanto quanto de sua erudição e zelo. Ele conheceu matemáticas e perspectiva, e não havia nada que ele fosse incapaz de conhecer, e, ao mesmo tempo, ele era suficientemente informado em línguas para ser capaz de entender os santos e os filósofos e os homens sábios da Antigüidade”. Ao contrário do que se afirmou durante muito tempo, é pouco provável que Bacon tenha sido discípulo direto de Grosseteste. Talvez sequer o tenha encontrado pessoalmente, pois, quando regressou a Oxford, o outro já havia partido para Lincoln. Desfrutou, sim, dessa fonte generosa mediante a leitura. E sorvendo a atmosfera estudiosa que Grosseteste instalara na célebre universidade inglesa.

A luz velada

Nesse caldo de cultura favorável, o intelecto de Bacon adensou-se. Sua luz, que brilhara em Paris para o mundo, recolheu-se em Oxford em seu mundo interior. Ao longo desse período, de silenciosa germinação, seu conhecimento de idiomas, que já incluía o latim, além do inglês e de diferentes dialetos franceses, passou a abarcar também o grego, o hebraico e muito provavelmente o árabe. Que tenha dominado as línguas grega e hebraica é fato seguro, pois se gabava de poder ensiná-las em apenas três dias a qualquer estudante suficientemente aplicado. Exageros à parte, sua proficiência é atestada pelas gramáticas que escreveu, tanto de um idioma quanto do outro. Quanto ao domínio do árabe, a suposição baseia-se em seus fortes vínculos com as fontes filosóficas e científicas islâmicas e a sabedoria sufi. E também por suas críticas às traduções latinas disponíveis na época: além de estarem impregnadas de palavras vulgares, disse, elas simplesmente transliteravam os termos gregos e árabes, sem propriamente traduzi-los. Tais reflexões, que acabariam desempenhando importante papel no desenvolvimento da filologia, indicam que era capaz de cotejar as traduções latinas com seus originais árabes.

Longe da frívola agitação de Paris, que atraia seu olhar para várias direções, Bacon concentrou-se nos estudos. Debruçado sobre tratados gregos, árabes e hebraicos, ele ampliou seus conhecimentos de matemática e astronomia e iniciou-se no estudo teórico da óptica e da alquimia. Mas sua nova aventura intelectual não seria apenas livresca. Pois passou a realizar também experimentos práticos nos campos destas duas últimas disciplinas.

Com base na idéia de que as causas produzem os efeitos por um processo de irradiação, cujo exemplo mais visível é a propagação da luz, ele buscou nos fenômenos luminosos a chave para a compreensão de todos os processos naturais. Daí a importância fundamental que atribuiu à experimentação em óptica:

  • fez observações com lentes e espelhos e tentou formular os princípios da reflexão e da refração luminosas;
  • utilizou a câmara escura para observar eclipses e empreendeu um estudo sistemático do arco-íris;
  • distinguiu a impressão psicológica da visão do processo físico que a provoca e explicou o funcionamento do olho a partir de seus conhecimentos acerca das lentes. Estava consciente, porém, de que a visão não se completava no olho e exigia a participação do nervo óptico, cuja anatomia investigou.

A avaliação do saldo de tais experimentos ainda divide os estudiosos. Muitos afirmam que, apesar do entusiasmo, o inglês não chegou a nenhum resultado original e que toda a sua óptica é derivada de Hasan ibn al-Haytham. De igual modo, sua experimentação alquímica nada teria acrescentado aos conhecimentos estabelecidos, ainda no século 8, por Jabir ibn al-Hayyan, sábio sufi conhecido no Ocidente como Geber e  considerado o pai da alquimia islâmica.

Essa opinião talvez não faça justiça aos esforços de Bacon. Primeiro, porque ele não teve a oportunidade de escrever a grande obra de seus sonhos. Como detalharemos adiante, seus três principais tratados filosófico-científicos, o Opus maius (Obra Maior), o Opus minus (Obra Menor) e o Opus tertium (Obra Terceira), apesar de monumentais, tiveram que ser redigidos às pressas, em meados da década de 1260, nas mais adversas condições. Segundo, porque, para defender os seus conhecimentos do olhar preconceituoso e inquisitorial dos adversários, ele teve que ocultá-los sob uma fraseologia deliberadamente obscura.

Não há nada de inédito em tal comportamento. Siddhas indianos, taoístas chineses, filósofos gregos e alexandrinos, sufis muçulmanos, cabalistas judeus e alquimistas cristãos agiram da mesma forma. Para não atirar pérolas aos porcos, como diz o Evangelho, várias tradições de sabedoria desenvolveram complexas técnicas criptográficas. De modo que, até hoje, seus textos só podem ser plenamente compreendidos e apreciados por adeptos que possuam a chave interpretativa. O inglês estava a par de alguns desses procedimentos e os utilizou quando julgou necessário.

É famosa uma passagem do Opus maius em que Bacon recorre a evidentes artifícios de camuflagem. Vale a pena citá-la. “É certo”, ele afirma, “que sábios da Etiópia vieram à Itália, à Espanha, à França, à Inglaterra e a outras terras cristãs onde há bons dragões voadores; e que, graças a uma arte oculta que possuem, fazem esses dragões sair de suas cavernas; e lhes colocam também celas e freios; e os cavalgam e fazem cruzar o ar em grande velocidade, de sorte que sua carne amoleça e se torne mais tenra. (…) Uma vez que os sábios da Etiópia tenham submetido os dragões a tal tratamento, eles utilizam uma técnica especial para preparar sua carne e se servem dela para lutar contra os males da velhice, prolongar a vida, bem como estimular o intelecto além de tudo o que se possa imaginar.”

Tomando essa passagem ao pé da letra, estabanados divulgadores da ciência e até acadêmicos sérios a apresentam como uma prova irrefutável da natureza supostamente ingênua, crédula ou fantasiosa de Bacon. Chega a ser cômico ler seus comentários. Sem nos arriscarmos a apresentar nossa interpretação, convidamos o leitor a tirar suas próprias conclusões.

Olhar exterior e olhar interior

O conceito baconiano de experiência, apresentado no Opus maius, talvez ajude a elucidar o enigma dos “bons dragões voadores”. Ele certamente nos informa sobre o tipo de atividade a que Bacon se dedicou em Oxford, além de brincar com espelhos e lentes. Em seu texto, diz o inglês que “os modos de conhecer são dois, isto é, por argumento e por experimento”. E prossegue: “O argumento conclui e nos faz conceder a conclusão, mas não proporciona a certeza nem remove a dúvida, de tal modo que mente repouse na intuição da verdade, a não ser que a descubra pela via da experiência”. Bacon nos fornece um exemplo: “Se um homem nunca viu o fogo, provar por meio de argumentos suficientes que o fogo queima, danifica e destrói as coisas não faz com que sua mente repouse, nem que ele evite o fogo, até que ponha a mão ou alguma coisa combustível no fogo, para provar pela experiência o que o argumento ensinava. Mas, feita a experiência da combustão, a mente é certificada e repousa no fulgor da verdade”.

Quem deseja gozar do conhecimento das coisas deve, portanto, dedicar-se à experiência. Porém o sábio distingue dois tipos de experiência: a exterior e a interior. O que ele chama de “experiência exterior” é, em alguns casos, a mera observação sensorial dos fenômenos. Nada mais do que olhar com os próprios olhos, em vez de contentar-se em repetir como papagaio a opinião de Aristóteles. Em outros casos, a “experiência exterior” se complexifica, para tornar-se uma observação em condições controladas, que se aproxima, até certo ponto, do moderno conceito de experimento científico. Mas, qualquer que seja seu nível de complexidade, essa experiência não é suficiente para o homem, porque, diz Bacon, “não certifica plenamente a respeito das coisas corporais” e “nada atinge das coisas espirituais”.

Isso posto, o sábio passa a discorrer sobre o segundo tipo de experiência, a “interior”. Trata-se de um processo incomparavelmente mais profundo, de natureza psicológica e espiritual, que, em linguagem moderna, talvez pudéssemos descrever como a jornada da alma rumo àquilo que é sua própria essência e a essência da realidade. Bacon distingue “sete graus” nesse exercício de introspecção:

  • as “iluminações” proporcionadas pelas ciências;
  • as “virtudes”, que “clarificam a mente”, permitindo ao homem perceber as “causas das coisas”;
  • os “sete dons do Espírito Santo” enumerados, conforme o Antigo Testamento, pelo profeta Isaias;
  • as “beatitudes” proclamadas, conforme o Novo Testamento, por Jesus;
  • os “sentidos espirituais”, sobre os quais o inglês não fornece maiores detalhes;
  • a “paz do Senhor”, que, segundo ele, “ultrapassa todo entendimento”;
  • os “raptos”, ou êxtases místicos, que desvelam ao homem aquilo “de que não é lícito falar”.

Para descrever os “graus” de sua “experiência interior”, Bacon utiliza, como era de se esperar, palavras e conceitos emprestados do repertório cristão. Mas não é preciso ser cristão para captar o seu sentido. Há uma progressão gradativa de estados de consciência, que permite ao sábio ascender da percepção da realidade material à contemplação da realidade espiritual. A cisão – esboçada desde os gregos, mas só completada pelos modernos – entre a atividade científica e a atividade mística é algo impensável no quadro do pensamento baconiano. Herdeiro da filosofia da luz de Grosseteste e de seus ilustres antecessores, ele buscou na ciência um caminho para a iluminação espiritual.

Plano grandioso

Tentaria fazer também da ciência uma arma de reforma social. Como essa ousada idéia tomou corpo é mais um dos mistérios que pontuam sua biografia. O escritor afegão Idries Shah (1924-1996), talvez o mais afamado divulgador do sufismo na atualidade, sustenta que, ao longo dos séculos 11, 12 e13, apartir de terras muçulmanas, os sufis se empenharam em um ambicioso projeto civilizatório, destinado a arrancar a Europa cristã do marasmo em que se encontrava. E diz que Bacon era uma importante peça na engrenagem. Teria sido ele um adepto do sufismo? Caso não fosse, teria tido, assim mesmo, contato direto com os sufis? Seriam estes os “sábios da Etiópia” de sua parábola dos “bons dragões voadores”? O escritor não informa e, como de hábito, deixa no ar mais perguntas do que respostas.

Seja como for, uma coisa é certa: em algum momento de sua trajetória, provavelmente ainda no primeiro período parisiense, no bojo do mesmo processo interno que o levou a trocar a especulação filosófica pela experimentação científica, Bacon conscientizou-se da profunda crise vivida pela cristandade. E concebeu um plano grandioso: resgatar, com a ajuda das ciências, a força original da mensagem de Jesus, sufocada pelo poder da Igreja. Para acumular as forças necessárias à materialização desse projeto, ele se recolheu em Oxford, estudou e experimentou. Mas deve ter-se dado conta, se já não o sabia, de que um empreendimento de tal magnitude não era tarefa para um homem só: demandava a mobilização da energia coletiva. Por isso, 10 anos depois, em 1257, tomou a mais controvertida decisão de sua vida: ingressou na Ordem Franciscana.

Albert Garreau, que escreveu uma interessante biografia de Bacon do ponto de vista franciscano (Roger Bacon: frère mineur), sustenta que ele era um “religioso ferveroso”, um “autêntico frade menor”. Ninguém duvida de sua sinceridade espiritual. Mas seria ela tão imperativa a ponto de provocar sua adesão à ordem? Não nos parece. Somente a perspectiva de reformar totalmente a cristandade pode explicar essa opção radical, que até hoje intriga os biógrafos.

De outro modo, por que um homem maduro e inteligente – mais do que inteligente, sábio – abriria mão espontaneamente de sua liberdade para se enfiar em uma camisa-de-força? Afinal, em 1257, apenas três décadas depois da morte de São Francisco de Assis, a ordem radicalmente libertária que ele criara já havia se transformado em uma instituição autoritária e dogmática. É improvável que Bacon não soubesse disso. É pouco provável também que ignorasse que estaria mais próximo do ideal franciscano fora do que dentro da ordem. Deve ter suposto, porém, que, apesar de sua fossilização precoce, a Ordem Franciscana ainda conservava ao menos parte do ímpeto espiritual de seu fundador. E que essa energia poderia ser utilizada na realização de seu projeto reformista.

Estava enganado, infelizmente. Não demorou muito para que suas idéias heterodoxas o colocassem em rota de colisão com os cabeças e os membros da ordem. Quase uma década depois, queixando-se ao papa, ele acusaria seus “superiores e irmãos” de:

  • tentarem afastá-lo dos estudos, mantendo-o “ocupado com outras obrigações”;
  • atacarem-no com “indescritível violência”;
  • obrigarem-no a “passar fome”;
  • manterem-no sob “cerrada vigilância”, não permitindo que ninguém tivesse acesso a ele, com medo de que seus escritos fossem contrabandeados para fora dos muros do convento.

Guy de Foulques

Como um jogador inexperiente, que entra no cassino para ser depenado, Bacon apostara todas as suas fichas no número errado. Frente à degeneração da ordem, o plano grandioso parecia definitivamente abortado. Mas, quando o sábio se encontrava no ponto mais baixo de sua trajetória, a roda da fortuna realizou um giro espetacular. Talvez para cortar qualquer vínculo entre ele e seus admiradores ingleses, a cúpula franciscana o havia enviado outra vez a Paris, em meados da década de 1260. Ocorre que aquilo que deveria ser uma punição acabou lhe proporcionando uma oportunidade única. Pois, na capital francesa, o sábio conheceu o influente cardeal Guy de Foulques, que se interessou imensamente por seu trabalho. Isso, por si só, seria excelente. Tornou-se melhor ainda quando, no dia 5 de fevereiro de 1265, Foulques foi eleito papa, adotando o nome de Clemente IV.

Francês de origem nobre, Guy de Foulques casou-se, teve duas filhas, participou de batalhas, notabilizou-se como jurista e conquistou a irrestrita afeição do rei Luís IX, antes de entrar para a vida religiosa. Tal fato ocorreu apenas após a morte de sua esposa. Uma vez feita a opção, porém, sua ascensão foi fulminante. Apesar disso, avesso à politicagem eclesiástica, ele se surpreendeu ao ser eleito papa. Em guerra contra a dinastia alemã dos Hohenstaufen, que desde Frederico II (1194-1250) transformara o Sul da Itália e a Sicília em sua principal área de atuação, a Igreja vivia então um momento crítico. Após a morte do papa Urbano IV, em 2 de outubro de 1264, o conclave de cardeais que deveria escolher seu sucessor arrastou-se por nada menos de quatro meses, com os participantes divididos quanto à melhor opção para salvar o papado.

Guy estava na França, regressando de uma importante missão na Inglaterra, quando recebeu mensagem requisitando sua presença urgente na Itália. Os cardeais haviam chegado a uma decisão unânime, mas ele só foi informado de seu conteúdo ao entrar na sala do conclave, em Perugia. Para seu espanto, descobriu que era ele o nome de consenso. De lágrimas nos olhos, tentou ainda demover seus colegas. Não houve jeito: o destino da Igreja estava em suas mãos. Modesto, ascético, oposto a toda forma de nepotismo, seu primeiro ato como papa foi proibir os parentes de virem à Curia ou de tentarem obter qualquer vantagem material com sua eleição. Em seu curto pontificado de três anos, nove meses e 25 dias, ele dedicou a maior parte de suas energias à guerra em curso, obtendo importante vitória militar e fazendo os arranjos políticos que acabaram causando a ruína dos Hohenstaufen. Apesar de serem outras suas prioridades, Guy, agora entronizado sob a persona de Clemente IV, dispensou especial atenção ao projeto de Bacon.

A luz desvelada

Considerando que sua hora e sua vez haviam enfim chegado, Bacon escreveu ao novo papa, expondo-lhe seu plano. A idéia era redigir uma espécie de enciclopédia, englobando, em um corpo único, a teologia, a filosofia, as matemáticas e as ciências naturais. Sua fonte de inspiração era uma obra semelhante, produzida em Basra, no Iraque, por uma confraria de sábios sufis, conhecidos como Irmãos da Pureza. Com esse instrumento intelectual, o inglês idealizava regenerar a cristandade. Para tanto, precisava de dinheiro e de um amplo conjunto de colaboradores. E propôs que o empreendimento todo fosse viabilizado mediante a criação de um instituto papal.

Ocorre que Bacon se expressava muitas vezes de forma tortuosa. E o papa era ocupado demais para prestar atenção. Por um motivo, por outro ou por ambos, a mensagem foi mal interpretada. Clemente IV entendeu que o sábio já havia escrito a enciclopédia e pediu-lhe que a enviasse o quanto antes. E mais: que a enviasse da maneira mais secreta possível, para não despertar suspeitas na cúpula franciscana. O inglês viu-se diante de uma enrascada. Ele simplesmente não tinha nada para apresentar. Por outro lado, não podia perder a oportunidade. Foi aí que todo o seu gênio se manifestou. Sem poder consultar obras de referência, tendo que ocultar sua atividade do olhar inquisitorial dos superiores e trabalhando contra o tempo, o sábio arregaçou as mangas. Em pouco mais de um ano, redigiu suas três obras máximas: o Opus maius, o Opus minus e o Opus tertium.

Os textos foram levados ao papa por um jovem discípulo de Bacon, encarregado de explicar-lhe as passagens mais obscuras. Eram três tratados monumentais. Mas o inglês os considerava apenas um preâmbulo da enciclopédia que pretendia produzir. E uma peça de propaganda destinada a convencer o pontífice de sua necessidade. Se lhe tivessem dado os meios, não resta dúvida de que o teria conseguido. Tanto que, na mesma época, como se a redação das três obras não tivesse sido suficiente para esgotar toda a sua energia, ainda encontrou disposição para escrever De multiplicatione specierum, no qual expõe, de forma sistemática, sua teoria causal baseada no modelo da luz. Infelizmente, a morte de Clemente IV, em 29 de novembro de 1268, frustrou todo o empreendimento.

No coração das trevas

Bacon sentiu o golpe. Mas não se deixou abater. Privado do dinheiro, dos colaboradores e das facilidades materiais imprescindíveis à realização integral de seu projeto, continuou a acumular realizações parciais nos campos da filosofia, das matemáticas, da física, da astronomia, da alquimia, da medicina, da perspectiva e da lingüística. Os textos mais importantes do período são o Communia naturalium (Princípios Gerais da Filosofia Natural) e o Communia mathematica (Princípios Gerais da Ciência Matemática), de 1268, e o Compedium philosophiae (Compêndio de Filosofia), de 1272.

Se tivesse sido escrita, a grande enciclopédia de Bacon poderia ter antecipado em um século o desenvolvimento científico da Europa. E servido de antídoto contra o vírus do ceticismo e do empirismo que, por obra de Guilherme de Occam (William of Ockham, 1280-1349) e seus seguidores da chamada escola nominalista, infectaria em breve o pensamento europeu. Mas a humanidade evolui por caminhos tortuosos. Às vezes, tenebrosos. No final da década de 1270, pouco antes portanto do nascimento de Occam, por determinação do Geral da Ordem Franciscana, Jerônimo d’Ascoli, Bacon foi condenado à prisão por difundir “novidades suspeitas”. Permaneceu encarcerado por mais de 10 anos.

Nada sabemos de suas experiências no cativeiro. Sabemos, sim, que a condição brutalmente desfavorável não lhe destruiu o espírito. No ano de sua morte, em 1292, reuniu forças para uma última empreitada, o Compendium studii theologiae (Compêndio de Estudo de Teologia), grande síntese de sua concepção filosófica. O texto, de estilo polêmico, bem ao gosto de seu autor, ficaria inacabado.

A herança baconiana

O legado de Bacon ainda está por ser avaliado. Para tanto, será preciso fazer um levantamento completo de sua obra, discriminando os textos originais dos espúrios, e interpretar adequadamente as muitas passagens enigmáticas, tantas vezes atribuídas à suposta ingenuidade do sábio. Será preciso também preencher importantes lacunas em sua biografia e, principalmente, compreender melhor o complexo processo civilizatório que, arrancando a Europa de seu torpor intelectual, resultaria no longínquo advento da ciência moderna. O inglês foi, por certo, um de seus grandes protagonistas. Mas o alcance de sua contribuição divide os estudiosos.

Sintetizando elementos aristotélicos e neoplatônicos, sua filosofia geral não se destaca do pensamento franciscano da época. Como São Boaventura (Giovanni di Fidanza, 1221-1274), o principal filósofo da ordem e um dos maiores nomes da intelectualidade medieval, Bacon afirma a unidade essencial da matéria, que se desdobra na “matéria sensível” (constituinte dos corpos sublunares, submetidos ao movimento e à mudança), na “matéria intermediária” (constituinte dos corpos celestes, submetidos apenas ao movimento) e na “matéria espiritual” (constituinte dos entes superiores, impassíveis e imutáveis). Única em sua essência, a Realidade comporta, todavia, uma multiplicidade de formas e graus de manifestação que os cultores da chamada Sophia Perennis (Sabedoria Perene) denominam de a Grande Corrente do Ser. Inscrevendo-se nos marcos conceituais dessa antiquíssima linhagem de adeptos, cujas origens remontam à aurora da humanidade, a filosofia de Bacon é tradicionalista, no melhor sentido da palavra. Tradicionalista, mas não petrificada. Tanto que não o impediu de dar contribuições absolutamente originais e “modernas” aos campos da lógica e da lingüística.

Em física, seus trabalhos destacam-se mais pela metodologia empregada do que pelos resultados alcançados. É o caso do estudo sistemático que realizou acerca do arco-íris. Considerando seus atributos de cor, forma e tamanho, Bacon investigou separada e exaustivamente cada uma dessas características. Encontrou analogias para a cor em numerosos fenômenos naturais decorrentes da refração luminosa, como os espectros coloridos produzidos pela passagem da luz solar através dos cristais. E analogias para a forma nos halos que se constituem nas gotas de orvalho, em torno das chamas das velas e em muitas outras circunstâncias. Para determinar o tamanho, recorreu ao astrolábio, descobrindo que o Sol, o centro do arco e o olho do observador ficam sempre em linha reta. E que, estando o Sol na linha horizonte, a altitude máxima do arco é de 42 graus. Suas observações, excelentes para os padrões da época, resultaram, porém, em uma conclusão errada.

Seu erro foi considerar que o arco-íris era um fenômeno subjetivo, uma vez que cada observador via o seu, ao passo que o espectro produzido pelos cristais podia ser demonstrado objetivamente. Esse equívoco, perfeitamente compreensível, o fez descartar a refração e retroceder à infeliz explicação de Aristóteles, para quem o arco-íris decorria da reflexão da luz solar pelas nuvens. Segundo o filósofo grego, a maior ou menor reflexão fazia com que a imagem fosse mais clara ou mais escura. E diferentes misturas de claro e escuro determinavam o espectro colorido. Trata-se da mais pura especulação. E de uma especulação genialmente equivocada, como tantas outras do grande Aristóteles. Em defesa de Bacon, deve-se dizer que a teoria aristotélica das cores resistiria ainda por mais quatro séculos, até ser definitivamente varrida do território da ciência por obra e graça de Isaac Newton.

É pouco provável que Bacon tenha tido acesso a um protótipo sequer das muitas máquinas que descreveu. Porém, entusiasta da tecnologia, que considerava a principal via de humanização da natureza, fez afirmações visionárias que até hoje nos desconcertam:

  • “podem ser feitos instrumentos para navegar (…) de tal modo que grandíssimos navios fluviais e marítimos sejam conduzidos por um único piloto, com maior velocidade do que se estivessem cheios de remadores”;
  •  “pode-se também fazer carros que se movem sem animais, com incalculável ímpeto”;
  • “pode-se também construir instrumentos para voar, tais que o homem, sentado no centro do mecanismo e movendo algum instrumento, faça com que asas artificialmente compostas percutam o ar, ao modo de um pássaro que voa”;
  • “pode-se também construir um instrumento de pequenas dimensões capaz de levantar a abaixar pesos quase infinitos”;
  • “podem também vir a ser feitos instrumentos para caminhar no mar e nos rios até o fundo, sem perigo corporal”;
  • “infinitas outras coisas podem vir a ser feitas, como pontes sobre rios sem colunas ou outros apoios”.

Adiantando-se à sua época, Bacon desafiou os seus contemporâneos. E pagou um alto preço por isso. Sua personalidade complexa continuaria incompreendida pela posteridade. Alguns o viram como um mago e ocultista. Outros como o protótipo do cientista experimental moderno. Ele não foi nem uma coisa nem a outra. E foi, ao mesmo tempo, um pouco das duas. Seu grande sonho era unir, em um sistema único e coerente, os conhecimentos do mundo material e os conhecimentos do mundo espiritual, os frutos da “experiência exterior” e da “experiência interior” do homem. E, sobre essa base poderosa, promover uma ampla reforma, capaz de reorientar toda a vida na Terra. Mais do que qualquer aquisição cognitiva específica, é esse projeto grandioso seu maior legado à humanidade.

(*) Este texto foi publicado, originalmente, como parte do livro Bacon e Newton: em busca da alma do mundo (Editora Terceiro Nome, 2005). E não passou, depois, por revisão, para adaptação à reforma ortográfica.

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2 Comentários

  1. Eu estava pesquisando algo sobre a vida de Roger Bacon, motivado por uma biografia sua no livro “Vida de Grandes Cientistas”, de Henry Thomas e Dana Lee Thomas (Ed. Globo, 1960) e tive a felicidade de achar seu “site” e esta matéria. Parabéns pelo seu trabalho, suas pesquisas aprofundadas e a maneira cativante de escrever. Acompanho desde os tempos, se não me engano, da saudosa revista “Ciência Ilustrada” (Ed.Abril), dos anos 80, uma época em que as publicações de divulgação científica ainda tinham conteúdo e valiam a pena adquirir.

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  1. Johannes Kepler, cientista e místico | José Tadeu Arantes (Kabir)

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