O caminho do inca

Descendente de uma família de intelectuais, professor de antropologia na Universidade de Cuzco, Dom Juan Nuñez del Prado tornou-se, contra todas as suas expectativas, um alto sacerdote da tradição inca. Em uma tarde exuberante, às margens do rio Negro, em Manaus, ele me concedeu este depoimento exclusivo (JTA)

 

“Em 1955, meu pai, um antropólogo, fez uma expedição, na qual encontrou índios muito puros, isolados nas montanhas, com uma incrível memória do caminho do inca. Mantinham, por exemplo, dois importantes mitos, que preservavam exatamente as mesmas características narradas pelos cronistas espanhóis: um sobre a fundação do império inca; outro sobre a volta do inca. Quando meu pai fez essa descoberta, isso foi uma grande novidade em antropologia. Mas, depois, ele encontrou os mesmos mitos em várias áreas do Peru.

 

Em 1968, eu estava estudando antropologia e fazia uma pesquisa sobre a estrutura social indígena. Um mês depois de iniciar o trabalho de campo, me dei conta de algo importante: tudo o que eu estudava tinha, em última instância, uma explicação sobrenatural. Pedi então autorização para mudar o eixo de minha pesquisa, do social para o espiritual. Naquele tempo, todos acreditavam que, no Peru, éramos uma maioria de católicos romanos. Em particular, a Igreja acreditava nisso. Quando publiquei meu trabalho, mostrei que, embora o catolicismo tivesse sido introduzido, havia, na religião popular, muitos aspectos não europeus, que pertenciam a culturas bem mais antigas.

 

A Igreja começou um processo de investigação para provar que tudo o que eu dizia era falso. Mas o projeto foi conduzido por sacerdotes honestos, que confirmaram minhas investigações e me convidaram a publicá-las em sua própria revista. Mesmo eu, porém, pensava que isso só valia para uma pequena área do país. Em 1969, fiz um trabalho de grande alcance e descobri que esse sistema de crença estava espalhado por uma grande área. Em 1975, verifiquei que ele abarcava o Equador, o Peru, a Bolívia, o norte do Chile e o norte da Argentina.

 

Fiz uma hipótese acadêmica de que deveriam existir certos especialistas, que mantinham essas tradições vivas. Com patrocínio da Fundação Ford, comecei uma pesquisa para encontrá-los. E descobri, para minha surpresa, que, na cidade em que eu vivia, havia 70 sacerdotes andinos, mais do que o total de sacerdotes católicos e protestantes juntos. Ademais, havia toda uma hierarquia de quatro graus, com seus sistemas de iniciação. Obviamente, eu queria conhecer os mais altos representantes da hierarquia. Encontrei apenas dois: Dom Oscar Velazques e Dom Benito Corioman.

 

Fui à casa de Dom Benito com um tradutor, e encontrei um homem baixinho, gordinho, com olhos expressivos. Nos convidou a sentar e compartilhar os presentes que havíamos levado: coca e aguardente. No segundo copo, já não precisávamos de tradutor. No terceiro, Dom Benito começou a falar numa língua muito estranha. O curioso é que, quando ele falava, eu podia ‘ver’ o que ele estava falando. Mais curioso ainda é que, quando eu falava com ele, usava a mesma língua. Para nós aquilo parecia perfeitamente normal. Quando terminou a entrevista, descobri que o tradutor não havia entendido nada e estava completamente bêbado com três copinhos de aguardente. Depois de três meses de muita confusão, deixei de ser um pesquisador para me tornar um aluno de Dom Benito.

 

Avancei rápido na carreira. Em menos de dois anos, cheguei ao terceiro nível na hierarquia sacerdotal. Mas precisei de mais 10 anos para chegar ao quarto. Finalmente recebi a Hatum Karpay (iniciação). Dom Benito me mandou então a vários outros mestres, inclusive Dom Manuel Q’espi. Em 1989, Dom Manuel também me deu sua Hatum Karpay — diferente da de Dom Benito. Era um outro estilo, dentro de uma grande tradição.

 

Os quatro níveis de iniciação parecem corresponder aos quatro níveis básicos de consciência que podem ser alcançados pelo ser humano. Mas existe a expectativa de que se possa atingir três níveis mais. Na minha opinião, há nisso todo um projeto de evolução da consciência humana. É um caminho místico, de caráter sempre coletivo. E está relacionado com a expectativa messiânica do retorno do inca.

 

Se analisarmos a estrutura dos sete graus, o ‘retorno do inca’ corresponde à aquisição do mais elevado grau de consciência. Essa expectativa está relacionada a eventos religiosos importantes. E existem grandes santuários no Peru que dão bases muito sólidas, com enorme mobilização de energia coletiva, para a realização da profecia, para a conquista de um grau de iniciação correspondente a uma nova era. Estou convencido de que, num momento ou outro, esse nível irá emergir.

 

Outro aspecto importante é que se trata de um messianismo de casais. Deverão emergir primeiro seis casais com novo nível de consciência. Esse coletivo servirá de base para a emergência de um casal que terá nível de consciência superior. Tecnicamente, o que se está fazendo nos Andes não é esperar, mas preparar o retorno do inca. Não estamos nos preparando individualmente, mas criando as condições para que a emergência ocorra.

 

Tudo isso está associado a um conceito de energia viva, Kausai Pacha, que é o mais amplo conceito cósmico concebido pelos andinos. A energia viva é só energia viva – sem distinção de positiva ou negativa, boa ou má. Só distinguimos a energia superior (refinada), a energia média (mista) e a energia inferior (pesada). A energia pesada pode ser uma porta para o caminho. O praticante deve aprender a se relacionar com todas as energias viventes e – o mais importante – aprender a digerir a energia pesada.

 

Em algumas tradições, há uma grande ênfase na proteção do campo energético do praticante. E isso acaba se transformando numa espécie de cárcere. A idéia de que não existe energia negativa, mas que todas as energias podem ser digeridas, abre um grande campo. No meu caso, eu tinha uma relação muito negativa com uma pessoa. Quando Dom Benito me ensinou essa técnica, eu comecei a aplicá-la nessa relação. Um ano e meio depois, ocorreu uma coisa impressionante: eu entrava no meu departamento, enquanto ele saia. Automaticamente, ele me disse: ‘Bom dia’. Três passos depois, ele estava arrependido. Mas eu aproveitei para também dizer ‘bom dia’. E a relação de inimizade se transformou numa sincera relação de amizade. Essa questão é de extrema utilidade, pois as más relações humanas são, afinal, a origem de tudo o que há de mau no mundo.

 

A tradição inca reconhece a existência de centros de energia semelhantes aos chakra das tradições orientais. Os andinos os chamam de nawi (olho) e os relacionam com uma série de faixas que estruturam o campo de energia do ser humano, denominadas chumpi. São eles:

1. Siki Nawi, na base da coluna, associado a uma faixa de energia semelhante a um calção negro;

2. Qozqo Nawi, no umbigo, associado a um cinturão vermelho;

3. Surgo Nawi, no coração, associado a um cinturão dourado;

4. Kunka Nawi, na garganta, associado a um cinturão prateado;

5. Kulli Nawi, no meio das sobrancelhas, de cor violeta e não associado a nenhuma faixa.

 

Chumpi Pago é o sacerdote especialista em criar ou abrir os cinturões de energia.

 

Os indianos meditam sobre os chakra para mover as rodas. No caso andino, o trabalho do praticante consiste em fazer os nawi ‘comerem’ diferentes tipos de energia. Cada um deles ‘come’ um tipo específico. É o Qozqo Nawi que digere a energia pesada. Assim como nosso estômago físico digere os alimentos, sem que precisemos ensiná-lo, também nosso estômago espiritual ‘sabe’ como ‘digerir’ a energia pesada. Tudo o que precisamos fazer é focalizar a atenção sobre ele, para ‘despertá-lo’ para sua tarefa.

 

Também a Terra possui centros de energia. O nome da cidade de Cuzco vem de qozco, porque lá se localiza o “estômago espiritual” da Terra. Os inca sabiam disso.

 

A tradição andina é bem mais sofisticada do que o xamanismo. Ela está associada a uma profecia, a um sistema de crenças e a uma visão de mundo, resultantes de um lento processo de elaboração no contexto de uma civilização avançada. Isso também vale para a tradição guarani. Embora tenha assimilado muito bem a figura de Cristo, ela conserva, depois de 500 anos de colonização, uma grande quantidade de elementos que não são europeus.

 

Nossa intenção ao expor a tradição é preserva-la. Pois a melhor maneira de se conservar alguma coisa é difundi-la. Mas existe algo mais.

 

Dom Manuel se considera um inca e, ao que parece, a Amazônia era a fronteira extrema do Império Inca. Há alguns anos, foi encontrada uma tumba real inca em Manaus. E sabemos que os guarani tinham um contato muito estreito com os inca (o primeiro espanhol a chegar ao Peru era um aventureiro que aportou no Uruguai; foram os guarani que o levaram até o Lago Titicaca).

 

Então viemos a Manaus para fazer uma prática. Há linhas de energia que conectam uma pessoa a outra ou um lugar a outro. O nome andino para essas linhas é seqe. Estamos fazendo uma série de conexões. Conectamos o santuário de Cuzco com La Paz; La Paz com Santa Cruz; e Santa Cruz com Manaus. Logo que chegamos fizemos um ‘despacho’ no Rio Negro.

 

Essas conexões têm a função de criar harmonia entre os lugares. Estamos querendo conectar a ‘bolha’ ou campo energético do Perú, com a da Bolívia e do Brasil. Isso tudo está associado com o ‘regresso do inca’. Não é só a aquisição de um novo patamar de energia, mas também uma grande unificação espiritual da América Latina.

 

Em 1º de agosto de 1990, começou o trânsito de uma era a outra. Tal passagem durou até 1º de agosto de 1993. Nessa data, iniciou-se a nova era. Ela deverá se manifestar de maneira explícita em 2012. Não é por acaso que o calendário maia termina em 2012.”

 

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  1. A espoliação da palavra | José Tadeu Arantes (Kabir)

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