Estações

Cabeca (1) Estes poemas foram escritos ao longo de várias décadas e reescritos para esta postagem. Agrupei-os em três estações — primavera, verão e outono –, conforme a época em que surgiram. Embora independentes, eles dialogam com frequência entre si — o que me surpreendeu positivamente. Espero, um dia, poder acrescentar a estes os poemas do inverno * PRIMAVERA * O homem Eis o homem, Nu e essencial. Corpo estendido sobre a terra, Olhos voltados para o céu, Gafanhoto pousado na mão de Deus. Cabelos revoltos, Barba que desponta, Carne ainda virgem de pregos e espinhos. Dentro do ovo, A vida aspira irromper. E o bater de asas da eternidade Resgata o sonhador de seu torpor. Adão que emerge da lama a cada instante, Sopro sempre renovado. * O mar Ouço o rumor do mar – Troar de trovões abafados. Insones, eu e o mar Vigiamos o sono do mundo. Mas o que sei eu do mar? Sei que é profundo. E dissolve o sal dos séculos Na espuma do instante. Agrada-me pensar que esse mar Encontrou outrora outro insone. E, juntos, o insone e o mar Vigiaram a noite dos homens. É outro ou sou eu esse outro Que imagino em praia distante? Penso. E, já que o pensar consente, Consinto pensar assim. Mas – ó pensador inconsequente – O que sei eu de mim? * O dia Quase doze horas E é domingo Doze horas E é quase domingo Meu olhar voa sobre a paisagem E se perde Além do horizonte Na curva do espaço Faz verde sob um céu de chumbo Mas o vento é uma brisa amena Sou amigo do vento e o sigo Sem nada que me detenha Estou solto no ar Como uma gaze Solta não sei onde Como um peixe sem carnes Em um oceano só de tempo Como um templo grego Solto no vazio negro Como um beijo * A noite Gentil e suave noite, Imaginei-te simples: Silêncio de espaços vazios, simetria, O perfume das flores que tiveram nomes, Antes que já os subtraísse o esquecimento. Mas tu me deste mais: Fogueira de olhos faiscantes, imã de estrelas, Um abismo em que mergulhei sem saber como, Para regressar despelado, pasmo e mudo. Durante uma semana, Dia e noite, todos os dias foram sábados. Depois, silenciados o arfar e o tremor, Minha tolice renasceu das próprias cinzas. Ainda verde e cru, Troquei, pelo calhau, o diamante puro. Fechei a porta para o mistério e o assombro, Mas o cão selvagem seguiu uivando lá fora. * A trama “Sob o traje de aldeão, o sábio abriga o jade”(Laozi) Tudo que é grande Vem do diminuto Como a teia Que, pacientemente A aranha Tece E que, de um nada Cresce Sem que se perca A aranha No emaranhado Da teia * O momento “Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.” (Cecília) Porque existe o momento e a calma Penso em jardins japoneses Em seus ossos de pedra E suas carnes de planta Na onda que se quebra no instante No mar que sob as ondas permanece * VERÃO * O tempo A madureza atira-se aos frutos com a fúria do estupro, E dissolve, fermenta, transmuta suas polpas viçosas Em viscosa sopa de açúcares. O tempo devora como um cupim em seu apetite insaciável de madeira, Ou então é um menino travesso com sua volúpia de louças quebradas, Um Bruegel com mil caveiras em sua paleta: Transporta o amarelo ao branco dos dentes, Transfere o branco ao negro dos cabelos, Transforma o brilho das ilusões em uma opacidade incolor. Principalmente, ama o tempo desfazer as formas, E se dedica ao seu gozo com a meticulosidade da traça Em sua incansável rotina mastigatória: Mofa as paredes, empena as portas, oxida os metais. Até que tudo tenha a consistência granular da areia, Até que tudo tenha a consistência pastosa do petróleo, Até que tudo seja somente areia e petróleo, Até que tudo seja somente uma Arábia, Mas uma Arábia despovoada como um quadro de De Chirico. Demônio voraz, sua urgência não tem limites, E rola entre os dedos os dados dos anos Com a avidez do aficionado. Mas também sabe o tempo fazer-se lento, Exasperantemente lento: Como a passagem da água pelo orifício da clepsidra, Como o gotejar do soro na veia do doente, Como o escoar dos minutos na noite do insone, Como a espera do que nunca será. Implacável, impiedoso, o tempo tudo submete À regularidade imperiosa de seus relógios. E, no entanto, essa enorme boca de esqualo, Com a lâmina de seus dentes e o ácido de sua saliva, Mahakala de olhos medonhos e aspecto terrível, É afinal um deus amistoso e benigno, Que nos subtrai da estupefaciente mesmice, Que nos sacode e chacoalha, E, por bem ou por mal, ainda que mate, nos faz acordar. * A fala Para Márcia Sobre a clareza das coisas Eu gosto quando você me olha, Deixando que eu olhe os seus olhos, E os seus olhos são os olhos Do astrônomo que olha estrelas. Eu gosto quando você abre os lábios, Deixando nascer um sorriso, E o seu sorriso é o sorriso Que não diz nada além de “eu sou”. Eu gosto quando você me toca, Deixando-me saber de suas mãos, E suas mãos são as mãos Da mulher que Rossetti pintou. Eu gosto quando você fica ao lado, Deixando-se estar em silêncio, E sua presença é só presença, E seu silêncio, silêncio. Sobre o mistério das coisas Quando olhei você no rosto, Havia abismos em seus olhos E nuvens em seu sorriso. Em sua expressão, um labirinto De desejos obscuros. Quando suas mãos Tocaram meu corpo, Confundiram-me os sentidos: Dizia-me “sim” a esquerda, Mas a direita, “talvez”. Quando ficamos enfim Frente a frente, Não soube encontrar o seu fio, Não soube abrir a sua porta, Não soube decifrar os seus signos. Sobre as coisas novamente desveladas Eu disse que a amava; Você me disse “também”. O chocolate esfriava em sua xícara, Um rock dilacerava o tempo, Chovia sobre a cidade. * Oriente “Vem, meu amado, vamos ao campo, pernoitemos sob os cedros, madruguemos pelas vinhas, vejamos se a vinha floresce, se os botões estão se abrindo, se as romeiras vão florindo: lá te darei meu amor…” (Cântico dos cânticos) Tua mão tocou, de leve, Os negros fios dos meus cabelos, E teceu, habilidosa, Não sei que tapetes persas. Teus lábios chegaram, macios, Ao desejo dos meus lábios, E sua carícia era a do vento Embalando as palmeiras. Entre Sírius, Vega e Rigel, Achei o brilho dos teus olhos. E meu corpo buscava, em êxtase, Tua escura gruta de prazeres. Morna noite de jasmins Era a doçura do teu hálito. E o galo, invejoso, cantava, Anunciando a madrugada. * O nascimento dos desejos líquidos (1) Queria lhe entregar, coaguladas, As espumas dos mares mais antigos. Que você soubesse, em caixas, Dos abismos de que dá conta o sal. Recortar em cubos a lembrança Da umidade dos lençóis ainda quentes, Da ostra que vibra entre os cílios, De seu gosto de saliva em minha boca. Preservar em conchas o registro Do nascimento dos desejos líquidos, Da memória pisciana em que mergulho, Do delírio de água em que me perco. (1) Conforme o título de um quadro de Dali. * Onde? “Mais où sont les neiges d’antan?” (Villon) Quem contemplou a plumagem do Simurgh Se consolará, acaso, com as cores do Pavão? Quem sentiu arder no peito a chama do amor Se aquecerá com algo que não seja o incêndio? Mas onde está Diotima, que poderia ensinar os segredos do amor? Onde, se o simpósio converteu-se em silêncio? Onde, se pesadamente ressonam os convidados? Onde, se o próprio Sócrates é uma taça vazia na pilha de louça suja? Inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti. * Recomeçar “Nel mezzo del cammin di nostra vita, mi ritrovai per una selva oscura, chè la diritta via era smarrita.” (Dante) Selva escura. Noite escura da alma. Mas quantas vezes não foi preciso recomeçar? Recomeçar de um imaginário zero. Recomeçar como se nada tivesse havido. Recomeçar como em um nascimento. Emergir do fundo do poço. Colocar o nariz fora d’água. E constatar que se está vivo – e respirando. Este pequeno eu mais uma vez recomeça. Atirou pedras no vazio e elas lhe feriram o coração. No entanto, é preciso crer que se pode recriar o mundo, Reencontrar o assombro daquele céu faiscante. Pois, a cada instante, uma porta se abre, E oferece ao olhar que busca um vislumbre do lado de lá. Lanço minha garrafa ao mar. E recolho a louça quebrada. Embora a noite dure, sempre vem a madrugada. * Madrugada Fazer-me outra vez Adão, Emergir da lama do autoesquecimento, Escapar do monstruoso relógio Em que somos um nada entre nadas, Descartável rubi no hipertrofiado mecanismo. E então, na cambiante luz da madrugada, Com silêncio de pássaros e paisagem de pinheiros, Relembrar que afinal sou sempre Borges E também um calígrafo persa, Que adotou a profissão de buscador E penetrou no labirinto cretense E escalou a torre de Babel E tocou com as mãos a estrela fria, Para cair como um cão atropelado Na avenida que já não respeita os mortos. E então, ainda então, Topar outra vez comigo mesmo, Esfarrapado aprendiz que volta à casa, Esquálido iogue, o corpo coberto de cinzas, Bêbado Li Tai Po, que mergulhou no lago Para beijar os fugidios lábios da lua. E sentir girar de novo a plataforma móvel, Recordar a invisível linhagem, Venerável sucessão, corrente de ouro, Grande teia, com seus fios poderosamente frágeis. E então, finalmente então, Evadir-me da rede em que nos debatemos, peixes, E, atendendo ao inaudível chamado da musa, Beber o perfume da flor que não se vê, Reiniciar o passo que não se sabe onde, Buscar a pedra que não se sabe quando, E deixar em um canto, junto à roupa suja, O dormente, o sonâmbulo, o esquecido, O desmemoriado que escondeu na amnésia Todos os castelos de ouro dos seus sonhos. * Inscrição no alto da primeira porta “Awake! Awake! O sleeper of the land of shadows” (Blake) Ó viajante, Que chegas enfim ao limiar desta porta: Abstém-te de toda presunção; Tua longa, sinuosa e dispersiva trilha Trouxe-te apenas Ao início do caminho que leva ao início. Pois foi o sono infecundo que atrasou os teus passos. Deixa de fora o torpor e a ignorância E, com a respiração suave e o coração delicado, Entra. Arregala bem os olhos para o que hás de ver; Porém não te maravilhes em demasia, Pois tudo o que presenciarás é apenas A cópia da cópia da real maravilha. * O amor “Ama e faze o que quiseres” (Agostinho) Que eu ame. Mas não busque a paz. Pois o amor é desordem e embriaguez: Amor da enchente que arrebenta o dique, Amor da queimada que consome as árvores, Amor diante do qual os serafins escondem o rosto. Sem amor, porém, o que me resta? Pássaro solitário, inebriado pelo próprio canto, Flor avara, que priva o mundo de seu perfume, Mosca incauta, capturada na vistosa teia do espelho, Narciso autofágico, mesmerizado pelo próprio brilho. Mas como falará do amor quem lhe virou as costas? Os iconógrafos não tinham que jejuar e ajoelhar e rezar E consumir-se de amor no fluxo do inefável, Antes que suas mãos se atrevessem a imobilizá-lo Na armadilha da têmpera? Os iogues perfeitos não tinham que sentar por um ano, Com as pernas cruzadas, a respiração em suspenso E todo o seu ser absorto no gozo do samadhi, Antes que suas mãos se atrevessem a condensá-lo Em um único verso? Eu, que já não ajoelho nem cruzo as pernas, Eu, que já não jejuo nem amestro o alento, Eu, que me deixei arrastar pela correnteza, E me comprazo com minha própria displicência, Como poderia, como ousaria? Evoca as neves passadas Quem se entrega ao langor do sol. E, mesmo assim, quer louvar-te o homem. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te. Amo. E o amor me justifica. E, porque amo, concedo-me velhas memórias E alinho contas do tempo Em um colar precário que busca a eternidade. Pois não há amor senão o Amor, L’amor che move il sole e l’altre stele. * Dois pássaros Que paixão sem pouso. Quanta dor sem corte. Que delicado incêndio, Fogo que não consome. Dois pássaros voam juntos Na imensidão sem pausa, sem borda. Bordam espirais de puro azul, O sol recortado em suas asas. Como se buscam os dois amantes. Como confundem seus vultos, suas voltas, Semeando filigranas, arabescos, Nos suspensos jardins do firmamento. Marinheiros sem porto, Borboletas sem trégua, Espelhos errantes Em busca da luz. * Oração à Deusa “Medite nela, a bela senhora das três cidades, cujo coração se eleva sobre firmes seios” (Shankaracharya) Senhora, que portas em cada mão uma serpente, E te ergues como grande caduceu, Enfeixando em teu poder os três poderes, Vontade, ação, conhecimento: Concede-nos viver sobre esta terra! Senhora, que caminhas sobre o mar, Com teus pés pisando a branca espuma, Circundada por peixes e golfinhos, Protegendo quem se arrisca em meio às ondas: Conduze-nos a um porto seguro! Humilde e majestosa tamareira, Cujas raízes anunciam a água oculta, Cujo tronco reúne a terra ao céu, Cuja copa fornece doces frutos: Derrama teu orvalho sobre nós! * A musa fala ao poeta Tu, defensor de minhas densas florestas, Poeta mântrico, que trazes a mulher dentro de ti, Cantando e dançando com teus longos cabelos e barba, Teu par de chifres e pele animal; Tu, que falas pelas bestas selvagens, Pelo silente espírito das plantas, Pela imóvel alma dos seixos, Pelas montanhas e vales, Pelas nascentes e rios, Pelas nuvens e ventos, Pela lua e o sol, Porque todos têm um lugar em tua colina; Tu, experimentador que experimentas contigo mesmo, E, muito além do experimento, Buscas a experiência, A integral comunhão; Errante esfarrapado, Que jamais esqueceste o rumor do mar Naquela noite de insônia E te desdobras no encalço de minha verde presença; Tu, amigo da sabedoria, A bela que resgata e conduz à margem oposta, Que jamais te queixaste Por nunca ter eu retribuído tuas saudações, Que, no trabalho incessante, Persegues a pedra da transmutação, E, não por cobiça ou vaidade, Almejas o caminho do ouro; Humílimo aprendiz, com tua douta ignorância, Amante incorrigível de caprichosa e fugidia amada, Que te desnudaste diante do povo, Para dançares em minha intenção: A ti eu convido à grande viagem, A mergulhares no vasto oceano, A navegares contra a corrente, A esqueceres tua bússola, teu leme, A confundires teu rumo, A te perderes na obra, A me tomares no braço E atravessarmos a porta. * Busca No resplendor das criaturas, Busca o esplendor do Criador. Na simetria das formas puras, Busca o Sem Forma, o Sem Cor. Nos nomes de todas as escrituras, Busca o inominável Autor. * Inscrição no alto da segunda porta “Pedi e vos será dado. Buscai e achareis.” (Mateus) Ó viajante, Que chegas enfim ao limiar desta porta: Despe tuas roupas, despe tuas carnes, despe teu orgulho, E apresenta-te mínimo diante de mim. Dobra os joelhos, Encosta a cabeça no chão, E ali permanece entre parênteses, Sem atos, sem palavras, sem pensamentos. Na singularidade do instante, Vaga quarenta anos pelo deserto, Deixa para trás teus pesos e teus mortos, Até que não reste de ti senão a simples presença, Sujeito sem atributos, pura quididade, Observador que apenas observa E se observa observando, Livre de toda afecção. Desnudado, despojado, depurado para além dos ossos, Esvazia-te ainda mais, até te tornares o receptáculo sem máculas, Cuia imaterial, humílimo Ba, que se oferece, quase um nada, um nada, À descida graciosa do Alif. Então, bate. E espera. Pois, a quem bate, a porta se abrirá. * A experiência “Esa hora que puede llegar alguna vez fuera de toda hora, agujero en la red del tiempo…” (Cortázar) Um olho se abre Enquanto os demais ficam fechados E a súbita visão de um rosto Faz a multidão sair de foco: Flor imaculada que emerge do lodo escuro do pântano, Imensa língua líquida que devolve ao ventre oceânico A estreita praia da consciência cotidiana. O tempo se esgarça, Oferecendo a quem tem olhos a imaculada nudez da eternidade. O tempo se esgarça, Concedendo a quem tem voz a possibilidade de ser Ungaretti E condensar em diamante puro A experiência do amanhecer na trincheira: M’illumino d’immenso. Porém o instante escorrerá pelos vãos dos dedos, A rede do tempo se reconstituirá, e o dia seguirá seu curso. Pois Prometeu deverá roubar mil vezes o fogo dos deuses, Antes que o regime de combustão se torne estável, Pois Jesus deverá morrer mil vezes na cruz, E mil vezes ressurgir dos mortos, Antes que sobrevenha a hora do Cristo! * Opus “Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem Veram Medicinam” (anagrama alquímico) 1. Prólogo Deixar os mortos Deixar a ilha Lançar o barco No oceano Que a obra escave As linhas do rosto E a atenção ancore Sobre a cabeça Buscar o gesto Certo e preciso E depurá-lo até Que se desvaneça 2. Partida Para onde sopra o vento Eu vou Estrada suspensa no ar Frágil sustentação Ainda assim Percurso Meus passos Nas nuvens 3. Travessia Mar desconhecido Paisagem movediça Não há plataforma sólida, ilha Tudo flui e eu busco No paroxismo da solvência O embrião de um cristal Princípio de solidez Pedra da transmutação 4. Invocação Espírito do cristal, ó mãe Tu derramas tua luz indistintamente Sobre os sábios e os ignorantes Os santos e os pecadores Derrama também sobre este Que te pede 5. Marco inicial Um começo, o começo O homem e seus dons Adão plenipotenciário Há caminho e eu caminho Sobre a estrada dourada de orvalho Pedra fundamental, pilar Ó tu, que guardas a porta Concede-me a passagem Ó tu, cujos olhos ensinam Concede-me a instrução do teu olhar 6. Pequena voz Deixa que a cabeça fale Escuta Cabeça que foi, que é, que será Segue a tradição, ela diz E espera Que a inspiração virá 7. Fabricação da múmia Semente plantada No escuro da terra Osiris entregue Às potências ctônicas Úmidas entranhas Morna gestação Casulo crisálida processo Metamorfose, então 8. Luz encubada, o ovo Promessa de fim de exílio Assomo inaugural da manhã A vida que cresce aspira irromper Mas há que dar tempo ao tempo Pois há um tempo de plantar E um tempo de colher 9. A pedra Quartzo Corpo de Cristo Grande pilar Adão transmutado Do jiva de cobre Ao Shiva dourado 10. Cabeça feita Cabeça de negro Abu-fi-hikmat Pai da sabedoria Sempiterna voz ancestral Cabeça de ouro Cristal Espelho que reflete O esplendor 11. Epílogo O todo Está Totalmente presente Na parte Senão, ó Plotino O que seria da unidade? * OUTONO * Aquieta o meu coração “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti” (Agostinho) Tu, cujo olhar transforma, Aquieta o meu coração! Tu, que ensinas em silêncio, Aquieta o meu coração! Tu, que amas incondicionalmente, Aquieta o meu coração! Para que o nosso diálogo seja límpido como um rio Que desce a montanha e se renova a cada instante. * Água pura e cristalina Água pura e cristalina, Que desces a Montanha, Buscando a Planície: Transmite a quem te procura A Mensagem da Fonte, Mas sustenta o olhar no Alto, De onde viestes. * A montanha e o rio No acerto ou no erro, No prazer ou na dor, Na vitória ou no opróbrio, Sempre em ti. Onde mais? Para onde meu olhar se volta É a ti que ele vê. Para onde meu pensamento voa É em ti que ele pousa. Límpido, fluido, gentil, Que eu proceda de ti como um rio, Que desce alegremente a montanha Buscando a planície. Tu és a montanha E a fonte perene que nela jorra. Mercurial, Possa eu ser teu rio-mensageiro. Deixando para trás o supérfluo, Que eu não erga pedestais com os seixos de meu curso. Fluindo contigo e por ti, Que eu não me perca em lassidão nas praias do caminho. * Luz dourada de outono Luz dourada de outono, Que te derramas, amante, Dourando os cabelos, a fronte, Traçando um puro contorno. À tua carícia me entrego, Como quem se estende ao sol, Colhendo os dourados fulgores De um duradouro crepúsculo. Igual a um fruto maduro Que ainda conserva seu viço, Paciente, recolho e concentro, Sintetizando os açúcares. Nasce um novo dia a cada dia. E há um tempo de promissão, Antes que sobrevenha o inverno. Eu colho o leite, o mel e o dia. * Aqui Por trás da nuvem branca O céu azul Por trás do céu azul O mistério Música de longas pausas Desmedida Rede de estrelas Que me captura, peixe Por trás da sentença A palavra Por trás da palavra A sílaba somente Presença pura Semente Pequena eternidade Que me preenche, e emprenha Por trás do mistério A sílaba-semente Por trás da sílaba-semente Mais mistério Esbatimento da forma Desfolhamento do nome Presença que se anula Silêncio que me cala * Irmãos “Há dois canais de água e sete fontes. O irmão mais velho ergue a água, o irmão mais novo a envia para os campos. Se alguma porção dessa água não entrar nos campos, onde crescem as mudas, que grande desperdício isso será!” (Thirumular) A porta, a pedra A seta, o alvo Desvão, destino Passagem, presença Ganesha, Murugan Duas faces do mesmo * Lago silente Lago silente, Mais antigo que os séculos, e iniciante Profundidade movente, superfície imóvel, Corpo cristalino que o abismo escurece. A flor mais bela, Que viceja em sua margem, murcha e fenece. Mas ele permanece igual, imortal testemunha, Que a areia não turva, nem a hora envelhece. Na ilha que se abriga em seu seio, Existe um refúgio. E, nesse ermo, o solo macio Oferece assento. Infenso aos ruídos do tempo, Ó buscador, senta-te nele, sente o silêncio. Toma na mão a pedra e seus signos, Antigos enigmas, hierática linguagem de pássaros. Aquieta teu sopro, cultiva com paciência a paciência. E a sólida luz que procede do alto te fará a cabeça. * Vak Vak Vaca sagrada Fragrância de urina e capim Mancha branca sobre a paisagem Mântrica ruminação Vak Voz ancestral Mãe da fala, matriz da palavra Mugido que emeda e emela O eme do imaculado Om Vak Vate divina Sarasvati de dourada vina Doadora do metro e da rima Mar de leite, mestra do som A sonante guirlanda das sílabas É o teu santuário portátil Entoando-as, evoco-te e invoco-te Vácuo fecundo, útero prenhe, úbere pleno Sempre auspiciosa e farta Vak

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