A revelação shivaísta e seu impacto cultural

PASHUPATI

Selo de argila encontrado no sítio arqueológico de Mohenjo-Daro. Seria uma representação de Pashupati, o Senhor dos Animais, uma das formas primitivas de Shiva.

As remotas manifestações do xamanismo – cuja origem não se pode localizar nem datar com exatidão – são as raízes da grande árvore do conhecimento, plantada no solo fértil da consciência humana. Em um momento impreciso – de qualquer forma, ocorrido há mais de oito mil anos –, essas raízes, vindas de diversas direções, convergiram em um tronco majestoso. Gravuras rupestres, baixos relevos ou selos de argila de vários pontos do planeta começam a mostrar, nessa época, a figura de um homem sentado em uma postura clássica de yoga (siddhasana), com as mãos dispostas em um gesto de sabedoria (jnana mudra). Ele eventualmente possui chifres – que atestam o seu poder e a sua conexão com o “mundo superior” – e aparece cercado de animais. O personagem assim representado é Pashupati, o “Senhor dos Animais e das Almas Individuais”, uma das muitas designações atribuídas a Shiva.

A palavra Shiva (Benévolo) está associada a uma antiquíssima e duradoura concepção de Deus como Realidade Absoluta. Além de Pashupati, ele foi chamado, ao longo de milênios, por nada menos de 1008 diferentes nomes. Shiva é Isha (Senhor), Mahadeva (Deus Supremo), Mahayogi (Supremo Mestre do Yoga), Mahakala (Senhor do Tempo), Nataraja (Rei da Dança), Rudra (Aquele que Provoca Lágrimas), Shânkara (Pacificador), Bhima (Terrível), Shambu (Beneficente). As denominações se contradizem. E não poderiam deixar de fazê-lo. Pois correspondem às diferentes formas de manifestação daquele que, em si mesmo, engloba todas as formas e transcende toda a manifestação.

Os nomes são de origem indiana, mas a extraordinária difusão das imagens de Shiva, de suas “consortes” e “filhos” mitológicos, e dos objetos de seu culto atestam que o impacto cultural do shivaísmo alcançou escala planetária. Um desses objetos é o Lingam, um artefato vertical de formato fálico. Mais do que um atributo divino, ele é uma representação não antropomórfica da própria Divindade. Expressa o poder criador de Deus; a unidade do Ser; a conexão entre o “o que está em baixo” e o “o que está em cima” (o mundo material e o mundo espiritual); e o despertar e a plena ascensão da Kundalini-Shakti, a “energia divina” presente em cada ser humano (leia adiante). Há lingans de pedra espalhados por todo o território indiano. Esse também é o conceito que deu origem à cultura dos menires – os gigantescos blocos de pedra, extensamente difundidos pelo Oriente Médio e a Europa durante a pré-história. E que, mais tarde, inspirou a fabricação dos portentosos obeliscos egípcios. Sthanu (Coluna) é um dos nomes de Shiva.

Associado ao culto shivaísta, constituiu-se, pouco a pouco, um impressionante corpo de conhecimento. Ele compreende um completo sistema de yoga, uma filosofia que faz sombra às maiores realizações do pensamento grego e um conjunto de saberes científicos e artísticos que inspirou, modelou e nutriu toda a grande cultura da Antiguidade. Particularmente relevantes foram suas realizações nos campos das matemáticas e da física, da astronomia e da astrologia, da química e da alquimia, da mineralogia e da botânica, da fisiologia e da medicina, da arquitetura e da poesia. A grandiosidade desse legado cultural só agora começa a ser reconhecida pelos estudiosos ocidentais.

O motivo de tal atraso é fácil de identificar. Ele decorre da mentalidade colonialista e eurocêntrica, que influenciou até mesmo os pesquisadores melhor intencionados. Esse enfoque atribuiu aos gregos, primeiro, e à cristandade europeia, depois, o papel de criadores e promotores de tudo o que há de relevante na história da civilização. Os povos não europeus foram vistos como selvagens ou, na melhor das hipóteses, como crianças ingênuas e supersticiosas, fracas de razão e de vontade, que cabia às potências colonialistas tomar pelas mãos e educar. Essa concepção há muito foi banida da historiografia. Mas deixou um resíduo difícil de erradicar. Se a enorme contribuição dos filósofos, cientistas e artistas muçulmanos da Idade Média – muito mais recente e documentada – ainda tem sido subestimada pelos historiadores ocidentais, o que dizer de sábios indianos semi-lendários, cuja mera existência histórica é muitas vezes contestada?

Tanto mais quando, até na própria Índia, o shivaísmo autêntico foi de certa forma marginalizado. Esta marginalização também se compreende, pois o shivaísmo autêntico sempre se opôs a tudo o que fundamentava a ordem estabelecida: o sistema de castas e a discriminação social, os preconceitos étnicos e a opressão da mulher, o ritualismo minucioso e a religiosidade puritana. Se o shivaísmo sobreviveu e conservou sua extraordinária vitalidade isso se deve principalmente à atuação dos siddhas, os “perfeitos” – homens e mulheres que, por meio da prática intensiva das várias disciplinas do yoga, teriam alcançado, em diferentes épocas, os mais altos estágios de desenvolvimento físico, mental e espiritual reservados ao ser humano.

Os siddhas excursionaram pelas regiões mais remotas do território indiano, engajaram-se na construção de grandes templos e santuários, estruturaram toda uma rede de ensino, baseada na experiência direta e na relação pessoal entre mestre e discípulo, e redigiram uma vasta obra sobre temas espirituais, filosóficos, científicos e artísticos. Tudo isso representou uma inestimável contribuição para a unificação cultural da Índia. Ao mesmo tempo, suas viagens por terras distantes levaram a cultura shivaísta muito além das fronteiras do subcontinente indiano. Quer para proteger conhecimentos preciosos da mera curiosidade de pessoas despreparadas, quer para escapar da censura ou das represálias dos defensores da ordem estabelecida, eles deram aos seus tratados uma forma poética deliberadamente obscura, que se convencionou chamar de “linguagem crepuscular”. Não é fácil lê-los sem uma chave interpretativa. Esses textos – redigidos em sânscrito ou no antigo idioma tâmil, e muitas vezes registrados em folhas de palmeira, corroídas pela ação do tempo – vêm-se tornando pouco a pouco acessíveis graças ao enorme esforço de alguns estudiosos. É o caso, por exemplo, da recente tradução inglesa do Tirumandiram, um vasto tratado de yoga em língua tâmil, composto provavelmente no século 6 ou 7 d.C., e atribuído ao siddha Tirumular.

Conhecidos como Siddhantas, os compêndios astronômicos indianos tiveram uma importância decisiva para a constituição da matemática e da astronomia islâmicas e, por decorrência, da ciência ocidental. Todos os historiadores da astronomia antiga e medieval referem-se a eles. Mas atribuem à palavra Siddhanta as conotações mais disparatadas. Ora, Siddhanta nada mais é do que o nome da tradição dos siddhas, também chamada de Shaiva Siddhanta para enfatizar sua conexão com o culto de Shiva. O simples fato de isto escapar à atenção dos mais sérios estudiosos já é um indício revelador do quanto será preciso fazer para resgatar o legado cultural shivaísta.

Melhor sorte teve a medicina dos siddhas, que foi provavelmente uma fonte de influência da medicina ayurvédica indiana e da medicina taoista chinesa, ambas cada vez mais praticadas no Ocidente. As bibliotecas do estado indiano do Tamil Nadu conservam nada menos de 700 tratados médicos atribuídos aos siddhas e seus preceitos continuam a ser praticados em uma vasta rede de hospitais, ambulatórios e farmácias, com expressivo apoio governamental. Torna-se mais fácil compreender o alto desenvolvimento alcançado por essa medicina milenar quando se leva em conta o valor atribuído ao corpo humano pela tradição shivaísta.

Diferentemente da maioria das correntes espirituais que surgiram mais tarde, o shivaísmo jamais encarou o corpo como uma fonte de tentação, pecado e sofrimento. Ao contrário, sempre o reverenciou e cultivou como uma esplêndida manifestação da própria Divindade e como o mais efetivo instrumento para a prática das diversas modalidades de yoga, que, no limite, proporcionariam ao ser humano sua plena realização. Para alcançar os mais elevados estágios da iluminação mística, o adepto não devia negar e mortificar o corpo – como fariam posteriormente os ascetas de outras tradições, inclusive o cristianismo –, mas mantê-lo saudável e vigoroso pelo maior tempo possível. Com esse objetivo, os siddhas empenharam-se seriamente na elaboração de toda uma ciência voltada para o rejuvenescimento e a pretensa conquista da imortalidade: a kaya kalpa.

Em uma das estrofes do Tirumandiram, Tirumular afirma:
“Houve um tempo em que eu desprezei o corpo.
Mas, então, vi Deus em seu interior.
Entendi que o corpo é o templo do Senhor,
E comecei preservá-lo com infinito cuidado.”

A exemplo das medicinas ayurvédica e taoista, a medicina siddha dá grande importância à análise do pulso. Examinando a pulsação, seus praticantes são capazes de obter nada menos de 40 informações diferentes acerca da condição física, mental e espiritual do paciente. Os medicamentos adotados diferem, porém, daqueles prescritos por outros sistemas médicos tradicionais, porque, além de componentes vegetais, utilizam também muitos ingredientes minerais, como mercúrio, enxofre, mica, cobre, ferro e outros. O poder desses princípios ativos, administrados, como na homeopatia, em doses muito pequenas, seria potencializado por coadjuvantes como mel, manteiga clarificada, leite, extratos vegetais, suco de gengibre, suco de folhas de betel e água quente. A concepção de medicina dos siddhas é extremamente abrangente, como o atestam estes versos de Tirumular:
“Medicina é aquilo que trata as desordens do corpo físico;
Medicina é aquilo que trata as desordens da mente;
Medicina é aquilo que evita as doenças;
Medicina é aquilo que possibilita a imortalidade.”

Para atingir tais objetivos, mais importantes do que os medicamentos são práticas de yoga. E, neste domínio, os siddhas desenvolveram um sistema completo, a Kriya Yoga. Em seus Yoga Sutras, que formam o mais famoso tratado da yoga clássica, o siddha Patânjali afirmou: “Prática intensiva (tapas), autoestudo (svadhyaya) e devoção ao Senhor (Ísvara-pranidhana) constituem o Kriya Yoga”. Yoga significa “união”. Kriya quer dizer “ação consciente”. Kriya Yoga é, portanto, a ação consciente que permite ao indivíduo (a parte) unir-se a Deus (o Todo).

O Kriya Yoga é composto por um minucioso conjunto de práticas físicas (kriya hatha yoga), práticas respiratórias (kriya kundalini pranayama), práticas meditativas (kriya dhyana yoga), práticas recitativas (kriya mantra yoga) e práticas devocionais (kriya bhakti yoga). Cada uma delas pretende atuar sobre um dos cinco “corpos” que constituem o ente humano: respectivamente, o corpo físico (annamayakosha), o corpo vital (pranamayakosha), o corpo mental (manomayakosha), o corpo intelectual (vijnanamayakosha) e o corpo espiritual (anandamayakosha). Em conjunto, essas disciplinas compõem um sistema abrangente e harmonioso, que trabalha o indivíduo em sua totalidade. A eficácia terapêutica de suas práticas vem sendo estudada por pesquisadores médicos nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Itália. E tem sido objeto de artigos em importantes publicações científicas, como a revista médica inglesa The Lancet.

O grande objetivo do Kriya Yoga, como o de outras disciplinas místicas, é o despertar e a ascensão da misteriosa Kundalini-Shakti, a “energia divina” presente em todo ente humano. Essa “força primordial” parece desempenhar um papel decisivo no processo de nascimento (quando o parto é natural); depois, se torna latente; e, na maioria dos casos, só volta a atuar no momento da morte. A Alquimia ocidental se refere a ela, quando fala de um “Fogo Aquoso” e de uma “Água Ígnea”.

Quando inativa, a Kundalini é simbolicamente representada por uma serpente (naga) enrolada em torno de si mesma e adormecida no Muladhara, o chakra (“centro de energia”) fundamental, localizado na base da coluna vertebral, na região do períneo, entre os genitais e o ânus. A prática intensiva do yoga tem por objetivo acordá-la e fazê-la subir pelo Sushumna, o “canal central de energia sutil” existente no interior da coluna. Em sua ascensão, a Kundalini-Shakti ativa, um após outro, os vários chakras existentes ao longo do Sushumna, provocando uma formidável expansão da consciência e dos poderes do indivíduo.

Segundo a tradição, a Kundalini é uma manifestação da Shakti, o aspecto “feminino” ou imanente de Deus. Sua contraparte é Shiva, o aspecto “masculino” ou transcendente. Enquanto a Shakti adormecida “repousa” no chakra Muladhara, na base da coluna, Shiva, seu consorte divino, “reside” no chakra Sahasrara, situado no topo da cabeça. A separação de ambos seria responsável pelo obscurecimento da consciência e por nossa concepção dualista do mundo. O propósito do Kriya Yoga é justamente superar tal situação. Quando, depois de desperta e de escalar todo o Sushumna, a Kundalini atinge o Sahasrara, diz-se que ocorre o casamento místico de Shiva e Shakti. Os aspectos “feminino” e “masculino” da Divindade são integrados na Realidade Única, primeira e última, que os siddhas chamam de Parashiva (Shiva Supremo). O iogue entra então em Samadhi, um estado de superconsciência e intensa comunhão com a Realidade Absoluta.

Sri Aurobindo Gose (1872-1950), um dos maiores iogues contemporâneos, definiu tal condição como “um estado superior e sem pensamento, não maculado por qualquer movimento vital ou mental”. Assim ele descreveu sua primeira experiência de Samadhi: “Não havia ego nem mundo real. Somente, quando observava por meio dos sentidos imóveis, Algo percebia ou experimentava, em completo silêncio, um mundo de formas vazias, de sombras materializadas, sem verdadeira substância. Não havia sequer Um ou muitos, só um Isto absoluto, carente de atributos, sem relações, puro, indescritível, impensável, porém sumamente real, a única realidade. Não era uma realização mental ou algo vislumbrado em algum lugar superior. Não era abstração. Era positivo, a única realidade positiva que existia. Embora não fosse um mundo físico espacial, penetrava, ocupava, ou melhor, inundava e afogava, esta aparência de mundo físico, não deixando nenhum espaço ou lugar para qualquer outra realidade além dele mesmo, não permitindo que nada mais parecesse efetivo, positivo ou substancial (…). O que [essa experiência] provocou foi uma paz indescritível, um imenso silêncio, uma infinita liberdade e libertação.”

Os siddhas são considerados os supremos mestres do yoga e fazem remontar sua linhagem ao próprio Shiva, que, assumindo uma forma humana, teria transmitido o primeiro ensinamento dessa ciência sagrada a sua consorte mitológica Párvati. Em uma cadeia ininterrupta de transmissão, de mestre para discípulo, esses conhecimentos teriam sido preservados até os dias atuais. O verdadeiro número e a identidade dos siddhas é impossível de precisar. As tradições mais antigas, cultivadas ainda hoje no sul da Índia, falam em 18 siddhas. Mas é preciso ter claro que 18 é um número místico, que não deve ser tomado ao pé da letra. A composição dessa lista de 18 “perfeitos” varia conforme a fonte consultada. E muitos siddhas renomados não fazem parte dela, inclusive o sublime Bábaji, cuja existência foi pela primeira vez revelada ao mundo na Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda (1893 – 1952), e cuja conexão com a linhagem dos siddhas foi posteriormente explicitada por Marshall Govindan, em Babaji and the 18 Siddha Kriya Yoga Tradition.

Quatro nomes, porém, são sempre mencionados: Nandi Devar, Agastyar, Tirumular e Boganathar. As biografias desses iogues antiquíssimos foi de tal forma magnificada por sucessivas gerações de devotos que se torna praticamente impossível discriminar nelas os mitos e os fatos. É melhor considerá-las por inteiro, levando-se em conta que, conforme seja interpretada, a narrativa mitológica pode ser uma fonte de informação tão ou até mais relevante do que o mero relato factual. Além desses personagens ancestrais, vale a pena mencionar ainda os nomes de dois outros siddhas mais recentes: o poeta Paambati, de cuja obra poética se conservaram vários fragmentos de extraordinária intensidade; e Patânjali, o respeitado autor dos Yoga Sutras.

A tradição associa o local da revelação shivaísta ao monte Kailasa, no Tibete, onde Shiva teria iniciado Párvati e onde, oculta do olhar trivial, sua forma humana se conservaria até hoje. De lá, sua mensagem teria sido levada ao mítico continente de Kumari Nadu, hoje em sua maior parte submerso. Esse continente perdido, idenficado com a Lemuria, é mencionado no Silappadikaran, um épico tâmil do século 1 d.C., que fornece numerosos detalhes sobre sua suposta geografia, história, atividade econômica e vida cultural. A partir desta e de outras fontes, é possível imaginar o Kumari Nadu como um vasto território que se estendia de Madagascar à Austrália, englobando o sul da Índia e o Sri Lanka. À medida que foi sendo engolido pelas águas, em meio a grandes cataclismos, seus habitantes teriam migrado em épocas sucessivas, vindo a colonizar diversas regiões do globo, inclusive o vale do Nilo e as Américas.

Esse roteiro tradicional certamente causará compreensível desconfiança nos leitores mais céticos. Mas não precisamos nos apegar a ele. Se nos ativermos apenas a vestígios arqueológicos indiscutíveis, iremos encontrar alguns dos registros mais remotos do shivaísmo nas civilizações de Mohenjo-Daro e Harappa, no vale do Indo. Habitadas por populações de língua dravidiana, aparentada com o atual tâmil, essas civilizações estão entre as mais antigas do planeta. Os estudiosos acreditam que levaram milhares de anos até atingir o sofisticado estágio cultural que exibiam em sua época de apogeu. E remontam suas origens a datas ainda mais recuadas do que o oitavo milênio antes de Cristo. O impulso civilizatório que lhes deu origem propagou-se mais tarde em várias direções, vindo a alcançar a Mesopotâmia, a Palestina e o Egito; Creta, Chipre, a Grécia e a Itália; a Espanha, a Europa Central e as Ilhas Britânicas; a China, a Indonésia e o Camboja.

A profunda conexão do Shaiva Siddhanta com o Taoísmo chinês, a Qabalah judaica, o Sufismo islâmico e a Alquimia cristã começa a ser apontada agora por diferentes pesquisadores, oferecendo perspectivas interessantíssimas para o estudo comparativo das tradições espirituais. Além de numerosas afinidades conceituais, simbólicas e práticas, estas tradições compartilham um especial apreço pela dimensão material da existência. Embora afirmem que a Realidade possui múltiplos níveis de manifestação e que o domínio material percebido por nossos sentidos é apenas um deles, elas não negam o valor da matéria, nem pretendem apartar-se dela, como fazem outras linhagens ascéticas. Essa atitude favorável, que as levou a estudar a fundo o mundo material, com a perspectiva de aperfeiçoá-lo, explica sua multifacetada contribuição ao desenvolvimento das ciências.

A quintessência da mensagem do Shaiva Siddantha é, de fato, a concepção de que todos os entes e fenômenos do mundo são manifestações da Realidade Absoluta, ou Parashiva. Tudo o que existe possui, portanto, um caráter divino. Cabe às diversas disciplinas de seu sistema de yoga fazer com que esse caráter implícito se explicite plenamente no ente humano, em seus cinco “corpos”: o espiritual, o intelectual, o mental, o vital e até mesmo o físico. Esta possibilidade de transmutação integral do indivíduo é cantada no Tirumandiram. Em um verso particularmente inspirado, Tirumular fala da “Alquimia que transforma o Jiva de cobre [o ente humano em seu estado de aparente imperfeição] no Shiva Dourado [o ente humano que realizou todo o seu potencial divino]”.

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: